— Na minha pele.
1 — Drenado.
Notas iniciais
Um dia longo. Poucas palavras foram ditas por muitos naquela data... Um ano novo que se inicia e tantas duvidas, promessas, inseguranças, percas, tudo e mais um pouco estava ocupando a mente do cabo da tropa de exploração Levi. Uma madrugada qualquer, dia 6 de janeiro, 3:40 da manhã os olhos do mais belho estavam fechados, escuro em seu quarto e seu leito na cama solitário, não que ele não gostasse de dormir sozinho, por outro lado, ele adorava, mas naquela madrugada por alguma razão seus olhos não eram o suficiente para conseguir dormir.
Levi se levantava se erguia e sentava-se na cama deixando os cotovelos apoiados nos joelhos, cabeça baixa, olhos abertos olhando o relance dos próprios pés que dava para enxergar devido a luz da lua entrar por uma brecha da janela. Sua respiração pesada, cansada e olhos ardentes, uma dor insuportável em sua cabeça, tudo e mais um pouco que guardava tanto para si. Seus pensamentos constantes não o deixavam em paz, era sua maldição mais do que a vida que tinha. Pensar de mais era como um inferno muitas vezes. O moreno então se levantava e andava ate a mesa do quarto que era próxima à janela. Ele parava a frente da janela onde abria as cortinas e assim aquele brilho da lua entrava por completo no seu cômodo. Levi respirava fundo olhando o céu por um curto momento, logo se virava de costas e ia ao outro lado da mesa onde se sentava. Guiava a mão direita a uma das gavetas da mesa e assim pegava papel e caneta pondo-as sobre a mesa.
Franzia as sobrancelhas e então começava a escrever...
“ É ridículo... Tudo isso que acontece na minha vida, é o cumulo do ridículo... Eu sinto mais do que eu devia sentir, todos ao meu redor se vão todos morrem, todos no final das contas me deixam de certa forma, mas não por minha escolha, por atitudes não pensadas deles mesmos. Só me pergunto porque todos tem que ser tão idiotas de errar, errar, errar e ainda depois de serem perdoados não sabem a forma certa de tentar se concertar. Cada pequena atitude que fazem ao tentar se consertar só parece piorar a situação, acho que eu estou lhe dando com uma criança, mas não aguento mais a segurar com as minhas mãos calejadas e tentar mostrar o caminho certo. Eu penso mais do que eu devia pensar, não consigo controlar meus próprios pensamentos, não consigo dormir de tanto que penso, não existe um momento que eu não fique sem pensar em algum, um dom, um inferno, meus demônios, só pode, não existe outra explicação.
Se eu pudesse voltar no tempo, pudesse não ter escolhido essa vida, o que eu teria perdido? O que eu teria ganhado? Porque não consigo pensar em coisas assim? Pensar em como seria minha vida se não fosse este inferno que vivo. Não me sinto feliz, não sei o que é felicidade na realidade, talvez sim, talvez me senti feliz em um momento já que é isto que a felicidade é... Momentos e nada mais. Não existe uma vida feliz, uma vida triste, uma vida cruel, tudo são momentos, em momentos somos felizes, em momentos somos tristes, em momentos nos machucamos, em momentos perdemos, em momentos ganhamos, tudo são só momentos. Então, porque eu tenho que viver constantemente estes momentos ruins? Queria saber o que tanto eu fiz de errado pra ela não me entender, pra ela não enxergar o que sinto, o que penso, o que tento demonstrar... Talvez porque realmente não seja pra ser.
Eu lembro de quando a conheci, eu não estava em meus melhores momentos tinha perdido a Isabel e outros que gostava, estava em uma época ruim então egoistamente eu me apoiei nela. Eu fiz tudo errado, confiei e agora o que ela me deu? Depois de tudo jogou minha confiança fora. Infelizmente, confiança é algum que se conquista e uma vez quebrada nunca vai ser a mesma, se pode um dia ser a mesma, não sei como e realmente não vou ficar pensando como resolver isto mais, me sinto cansado, esgotado, sinto como se a ultima gota de sangue já tenha escorrido do meu corpo e agora não sobra mais nada alem de uma casca vazia, onde só vivo esperando o dia de ir embora. Eu me enganei, me enganei em confiar de mais, me enganei em me expor desta forma a ela e o que parece? Será que ela se acostumou a me ver perdoando ela sempre? Será que ela espera que mesmo que ela erre eu vou dar mais uma chance? Não... Eu posso ser teimoso, mas não sou idiota. Pessoas não mudam do dia pra noite, pessoas se acostumam e eu sinceramente acho que ela se acostumou comigo a perdoando sempre, indo atrás e me rastejando ate ela. Não tenho mais forças pra isso, não consigo mais me ver como antes, não imagino mais o “Eu e você” em minha mente só vem o passado, e todos me dizem “Deve deixar o passado pra trás e viver o presente, o futuro.” Mas o que eu nunca respondo a todos é que nosso passado é nossa historia é quem nos faz ser o que somos hoje, se eu sou desta forma, não foi por minha culpa, foi pelo o que me fizeram passar.
Amor, uma palavra pequena com tanto significado, mas acredito que não posso me dar ao luxo de sentir mais isto. As gotas de sangue que eu tinha já não existem mais, ela drenou uma por uma nesses longos oito meses, tão longos que parecem ser ontem, se hoje sou um corpo vazio e oco, pálido de pele fria como um vaso de gesso foi porque ela aprendeu a me matar de pouco a pouco. Confiei o tempo que consegui confiar, amei o tempo que consegui amar, tentei o tempo que consegui tentar agora não acredito mais, não acredito que possa mesmo mudar alguma coisa. As ultimas ações dela me provaram isso, podem julgar que foi ciúmes, em parte foi, mas a forma, o jeito que ela age não me agrada, a forma que ela pensa em querer mudar me da repulsa de tocar ela. Longe, é o que eu quero estar, ao menos fisicamente, ate tudo isso finalmente acabar, ate eu não sentir mais nada, ate eu conseguir matar tudo o que sinto eu não quero a ver, não quero falar com ela, não quero saber sobre ela, não quero ajudar ela, não quero pensar nela, não quero desejar ela, não quero perder mais meu tempo tentando algum que nunca vai existir, mas acho que nem tudo o que queremos podemos ter, então, só devo me esforçar ao Maximo já que ela não sabe pensar, vou usar esse defeito contra ela e agir por mim.
Eu sei que falei a ela que iria esperar, mas não aguento mais, eu quero poder respirar novamente, quero poder sentir o sol tocar minha pele e sentir calor como antes me sentia, mesmo com tanta dor, com tantas perdas, com tantas brigas que tive, eu quero me sentir vivo novamente.
Eu sei que ela jamais vai me entender, afinal de contas, ninguém me entende, poucas pessoas sabem agir comigo, sabem conversar comigo, sabem lhe da comigo em geral, muitas poucas ficam atrás de mim e lutam por mim sabendo demonstrar isso. Poucas sabem demonstrar o que sentem, então, acho que devo dar valor a quem sabe demonstrar isso. Me sinto um imbecil quando penso no passado e no que eu permiti viver de novo e de novo, eu deveria saber que alguém que não é sincero com as próprias amizades de tempos, não seria sincera comigo, quem não é sincera consigo mesma não seria comigo, porque seria na realidade? Ser alguém de duas caras, falsa, esconder tudo por trás dos panos como ratos que agem só nas escondidas e correm para se esconder novamente quando são vistos. Pragas, o mundo esta repleto delas, então o que deveria fazer? Por um veneno e esperar que morra? Ou procurar um lugar melhor para tentar viver, pois se não o fizer, elas vão ir tirando tudo o que temos de pouco a pouco, roendo escondidos e só descobrimos na manha.
Então, eu não quero a odiar, por isso tomei estas ultimas atitudes. Eu não sou de me avaliar, mas não sou normal, disto tenho certeza. Eu posso aparentar ser como for, mas ao menos eu sei de verdade o que é amar alguém e não descobri isso com ela, descobri bem antes. Eu não vou procurar sentir isto novamente, não vou por ninguém no lugar de ninguém.
Porra, minha mão já esta doendo pra cacete de tanto escrever, falta de costume eu acho, não sei como ela aguenta escrever tanto e tanto. Acho que por isso ela tem mãos tão magras aquela retardada. Eu me sinto idiota por ficar olhando as coisas dela ás vezes, só pra sei lá, saber o que ela anda fazendo e me decepcionar mais e mais com as ações que ela toma. Eu pareço sentimental de mais agora, mas logo passa. Como eu escrevi anteriormente, um tempo depois de todo o meu sangue ser drenado, depois de tudo o que ela me fez, meus órgãos vão parar um por um aos poucos, ate lá, ate tudo parar de funcionar, eu vou me manter assim... Sozinho.
É como um Eco o que eu sinto hoje, não vejo ninguém do lado de fora, não ouço nem um som, porque procurei ficar sozinho, eu realmente não sei onde o mundo esta, mas eu sinto saudades. Eu cheguei no meu limite sinto algum na minha garganta que quer gritar. Não sabe como é difícil fechar meus olhos e ter que fingir que esta tudo bem, mas nunca é suficiente porque minha voz é a única que escuto agora, aceitei minha sombra como minha única companhia, talvez a única que tenho. Não vai ter como entender um dia, porque não esta na minha pele para saber o que sinto, e o que senti esse tempo todo. Então, como a conheço, e sei o que vai fazer eu só deixo um nome de uma musica aqui, que tenho certeza que vai entender ao menos o que estou sentindo... Say something I'm giving up on you... Talvez agora entenda porque eu esperava tanto que falasse alguma coisa antes. ”
Ao terminar de escrever, Levi notava as três paginas que tinha feito. Ele ao menos se sentia mais aliviado naquele momento, foi como se tivesse tirado um peso sobre si. O moreno respirava fundo e passava o braço direito sobre o encosto da costa da cadeira que estava sentado e olhava a direção da janela. O sol já estava deixando aquele tom laranja no céu. Os olhos sonolentos, cabelos meio bagunçados, o moreno se levantava e pegava aquelas três folhas de papel e andava em direção a porta. Levi abria a porta e saia pelo corredor principal, passava por uma, duas, três portas e parava em frente a quarta, ele olhava fixamente aquela porta por um tempo e guiava a mão direita ao qual não estava segurando os papéis, mas parava antes mesmo de segurar a maçaneta, abaixava a cabeça de forma que a franja lhe cobria os olhos deixando um escuro no local, então se virava de costas e voltava ao seu quarto em passos rápidos. Ao chegar lá, o moreno fechava a porta com força e amassava os papéis que tinha escrito, andava em direção a janela e abria a mesma olhando pra baixo, não tinha ninguém naquele momento, então, sem demoras, Levi jogava os papeis pela janela com o máximo de força que ele tinha e depois voltava a fechar a janela. O moreno se virava de costas para a mesma e se encostava ainda olhando para baixo. Aquela sombra ainda lhe cobria os olhos por aquele momento, e logo depois ele andava a direção do quarto onde já iria se arrumar para ter um novo dia de trabalho na Tropa de exploração.
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