O completamente nada era isso que tinha na cabeça de Zoro, um rapaz de 16 anos de cabelos esverdeados e corpo forte por praticar kendô. E ele se importava com isso? Claro que não, afinal, ele não pensava muito e achava chato o existencialismo.

Veja só, na idade de Zoro, os adolescentes, se não estão farreando por aí, estão em algum tipo de seita obscura (desculpa se isso for pleonasmo) e estar na estética triste era a última coisa que queria estar. Ele até preferia ficar vendo instagram de casais felizes do que ficar reclamando no twitter.

E por ter esse jeitinho, não se destacava muito dos demais, embora tivesse um corpo desenvolvido que faziam muitas garotas suspirarem, Zoro era esquisitão demais. Terminava sozinho e nem o pessoal gótico queria andar com ele, porque era esquisito demais.

Quando parava para pensar, achava tudo muito confuso e não conseguia tomar partido. Passou as mãos pelo cabelo verde tentando deixar tais pensamentos e focar no nada novamente, respirando fundo e descendo uma ladeira com sua mochila pesada, mas não para ele que era bastante forte. O sol estava se pondo e ele podia sentir o cheiro do mar da cidade chegar ali, observava dois garotos brincando juntos num parque, davam sorrisos tão bonitos quanto aquela primavera. Pensou se seriam melhores amigos e se perguntou de como seria ter alguém que pudesse contar ao seu lado.

— Marimo.

Zoro levou um susto com a voz do rapaz a dois passos de distância dele. Seu cabelo cobria o lado esquerdo e era loiro, a sobrancelha exposta era ridiculamente enrolada. Contudo, pensou quando havia parado de andar, realmente se entreteve com as crianças do parque, mas ele ouviu certo? Aquele sobrancelha o chamou de marimo?

Deveria ser engano, voltou a andar.

— Ei!!! Eu tô falando com você!!

Virou-se e só agora percebeu que o rapaz arfava o ar, ele devia ter descido a ladeira correndo. — Eu?

— Sim! Estou correndo atrás de você pra devolver esse livro sobre... espadas? Que tu deixou na sua carteira. — O rapaz estendeu o livro para Zoro, mas antes encarou sua capa por um segundo. Pensava mais uma vez se deveria queimá-lo por fazer apologia a violência? — Gosto duvidoso o seu.

Zoro franziu a testa e tomou o livro das mãos do loirinho. — Não é da sua conta!! — Deu as costas, mas sentiu algo sobre seu ombro, era a mão daquele idiota.

— Não vai agradecer? Eu corri bastante.

— Ham? Acho... que sim. — Não conseguia entender como já achava aquele rapaz arrogante e metido em apenas alguns segundos, nem mesmo por que se deu o trabalho de devolver algo. — Obrigado, sobrancelha enrolada.

— "Sobrancelha enrolada"?! — Repetiu com os ouvidos apurados. — Isso é um tipo de bullying?

— Bullying? — Zoro ficou aflito, esse doido podia levar a discussão na sala da direção. — Não! Claro que não! É porque você não me disse seu nome.

O rapaz de cabelos loiros não ficou muito convencido, mas o que o marimo disse era verdade e talvez seria só um mal entendido mesmo. — Me chamo Sanji, sou da sala B, mas hoje nossas turmas se juntaram.

— É verdade, tivemos um aulão. Bem, obrigado, mas agora preciso ir, sobrancelha enrolada.

— Ei, eu disse meu nome, marimo idiota!!

— "Marimo"?! O que diachos é isso?! — Se aproximou. — E meu nome é Zoro!

O dois começaram a trocar insultos, enquanto seguravam o colarinho do outro. As duas crianças do parque os observavam e pensavam que eles gostavam muito de chamar atenção. Um amigo falou que era melhor ir pra sua casa jogar video game quando sua mãe sempre avisava de evitar os papões das ruas e assim partiram.

— Tanto faz, sobrancelha de alvo!! Eu vou me mandar daqui!! Já tem gente olhando pra nós dois!!

— Ei, essa fala é minha!! Você com esse cabelo já chama atenção por si próprio e está acabando com minha imagem de estudante perfeito!! Como vou encarar as garotas amanhã?! Tem algumas delas aqui.

— Garotas?! — Disse Zoro perplexo, observando Sanji deslizando o seu olho visível pelo local e desesperado por ver algumas garotas cochichando sobre os dois. — Que se foda! Vou embora antes que um guarda local apareça e nos leva embora.

— Não precisa dizer coisas óbvias, idiota.

Eles desceram a ladeira e encontraram os dois caminhos da descida, mas pegaram a mesma rota. Pararam o passo mais uma vez, pensando se Deus resolveu tirar com eles nesse dia.

— Você vai por esse caminho? — Disseram em uníssono.

Ambos deixaram os ombros caírem de exaustão, juravam que iriam se separar quando passassem da ladeira. Sanji foi o primeiro a ajeitar a coluna e pigarreou.

— O restaurante do meu tio fica pra esse lado.

— Minha casa também. — Replicou, ajeitando a postura.

Coçavam o couro cabeludo, enquanto pensavam o que fazer, até que Zoro pensou em atravessar a rua e ficar lá, enquanto Sanji caminhasse ainda ali. No entanto, quando estava prestes de contar que andaria no outro lado, sua barriga roncou.

— Com fome? — Perguntou o sobrancelhas.

— Pelo visto essa discussão toda acabou com minhas energias, mas tanto faz... — Intencionou a se virar para atravessar a rua, porém, Sanji pegou em seu pulso antes.

— Você pode comer lá, se quiser.

E como Zoro não se importava com nada — nem pelo fato de que foi aquele loirinho que o insultou de diversas formas —, resolveu aceitar num aceno. Voltaram a caminhar um do lado do outro, Sanji acendeu um cigarro que assustou o rapaz ao lado. Aquele ali devia fazer parte dos problemáticos da escola, talvez até seria um delinquente.

— Marimo — Assoprou a fumaça para cima. —, você é meio assustador quando fica me encarando assim. Tem esse hábito? As pessoas vão começar a achar que faz parte de uma seita, só avisando.

— Eu te encarando?! — O rosto de Zoro corou. — É porque fica difícil deixar de olhar pra essa sua sobrancelha!!

Sanji estava mais relaxado com a nicotina circulando em seu corpo, portanto, não revidou porque sabia que os dois entrariam numa briga novamente e talvez o marimo abandonasse a ideia de comer no restaurante. Levantou sua mão e deu dois tapinhas nas costas de Zoro. O cabelo, a altura, a carranca, os brincos, o mau humor... aquele idiota devia espantar qualquer um — até mesmo os góticos da escola, povo doido aquele — e por conta disso não deveria ter amigo nenhum.

— Eu sei, fica difícil quando sou bonito assim.

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