Na chuva
1 Prólogo - Retorno
Notas iniciais
O despertador tocou: um ruído ensurdecedor ecoou pelo enorme quarto. A cama de casal continha um emaranhado de lençóis e em baixo deles estava ele. Cansado demais para abrir os olhos, desanimado o suficiente para não querer ir ao trabalho. Estava com medo na verdade de encarar todos aqueles rostos com pena, o fitando como se fosse um coitado ou qualquer coisa do tipo. Entretanto o trabalho não podia esperar mais, era importante que retornasse.
Num suspiro, Damon Salvatore ergueu-se da cama e desligou o despertador do celular. Caminhou vestido com uma calça larga de moletom até o banheiro e tomou uma ducha fria para relaxar os músculos e acalmar a alma. Sua pele estava péssima, tão pálida que era como se não dormisse há semanas — e era mesmo verdade — seus olhos azuis claros como o céu da manhã exibiam um brilho fraco, uma animação quase nula e em baixo deles as olheiras arroxeadas por causa das noites mal dormidas.
A pia do banheiro estava uma bagunça por causa dos muitos remédios jogados de qualquer jeito, o emaranhado de cordões, bijuterias e maquiagens que ele não tinha coragem de guardar. Olhou-se no espelho sem nenhuma vaidade, seus cabelos negros estavam bagunçados e caídos sobre a nuca de forma desleixada. Não importava-se nenhum pouco, e vestiu-se com roupas sociais sem passar, a gravata mal colocada e o paletó amassado. Depois calçou os sapatos e desceu as escadas direto para a cozinha enquanto lia as mensagens de texto do seu celular: seu irmão o mandara pelo menos oito mensagens e mais um trilhão no whatsapp. Não tinha vontade para nada, essa era a verdade.
Abriu a geladeira vazia e tudo que tirou de dentro dela foi uma garrafa com água, encheu um copo e bebeu lentamente observando o balcão da cozinha americana. Caixas de pizza, yakissoba e todo tipo de comida que não prestava estava sobre o local. Dando de ombros pegou as chaves do carro que estavam penduradas e partiu sem cerimônia direto para a garagem. Observar seu Chevy Camaro Convertible 1969 azul geralmente o trazia muita alegria pela manhã, mas agora era apenas um carro qualquer, sem valor algum.
Todo seu desânimo era evidente, e assim que pisou no andar onde trabalhava — no prédio da revista Salvatore — todas as pessoas pararam o que estavam fazendo. Sentia o olhar das recepcionistas, secretárias, estagiários, jornalistas e colunistas do seu setor sobre si, e aquilo o deixava desconfortável. Estava acostumado a ser observado por tanta gente, mas depois do que acontecera, depois do que foi tirado de seus braços, tudo era estranho. Era a primeira vez que ia trabalhar depois da tragédia, e embora todos tentassem mostrar que estavam preocupados, Damon colocava na cabeça que ninguém se importava. Parou seis metros antes de entrar na sua sala, separada de toda aquela bagunça.
– Irmão! — disse a figura magra e musculosa, os olhos verdes encarando os azuis do editor chefe que até então estava de licença. O mais jovem caminhou até o de cabelos negros e tocou-lhe os ombros de forma amigável — Por que não me respondeu nenhuma mensagem? Vem, entra, eu mesmo comprei o café — dizia enquanto guiava o mais velho até a sala. Assim que fechou a porta e as persianas para nenhum fofoqueiro bisbilhotar, pôs as mãos na cintura e estreitou o olhar como quem está prestes a acusar alguém de um crime — Você não pode ficar dessa forma.
– O que? — indagou sem se acreditar, como assim não poderia ficar dessa forma? Quem Stefan achava que era para dizer uma coisa dessas depois de tudo que viveu? — Olha, não me venha com essa. Eu agradeço por ter assumido o meu lugar durante minha ausência, mas não tente ser o bom irmão hoje, está bem? Ou terei que mandar você pastar.
Pegando o café sobre a mesa, observou o irmão mais novo sair de sua sala bufando e batendo portas. Sabia que Stefan só estava preocupado, mas aquela situação o deixava inquieto, sem saber o que fazer ou falar. Na realidade estava sentindo-se perdido. Seus olhos azuis, aquela imensidão celestial, encararam o porta retratos sobre a mesa do escritório extenso e muito luxuoso. Tocou a imagem, sentindo as lágrimas escorrerem pelas bochechas pálidas e maçãs do rosto de dar inveja a qualquer escultor.
Na imagem estavam ele e sua amada esposa, sua amada e jovem esposa. Os cabelos longos e ondulados castanhos e macios caindo sobre os ombros, a pele mais morena que a sua e os olhos que brilhavam mais que qualquer joia valiosa. Estavam abraçados, e no fundo a Torre Eiffel. Lembrava-se perfeitamente daquele dia frio e bonito, abraçados em Paris. O vento gelado balançando os cabelos da amada esposa e seu riso divertido ecoando em seus ouvidos. Ela era forte, sua presença sempre o deixara impressionado, mas agora ela era apenas um fantasma sobre a mesa de seu escritório.
– Katherine...
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