Na Trilha Da Esperança
3 Pequena grande ilusão.
Notas iniciais
Então né, demorei né? Aham, eu sei... Mil desculpas, sério! :(
Não tive a intenção de demorar tanto assim, mas enfim... Ai vai um capítulo lindo (sqn) que eu espero que compense vocês:
A manhã me acorda com seu sol forte e quente. Segunda feira. Mas, por sorte não tem aula, estamos nas férias de verão e por isso fico na cama com disposição para levantar zero.
Eu só me ponho sentada na cama quando todos já saíram para suas tarefas diárias – sim, temos tarefas diárias – mas, logo depois me arrependo do ato, porque vejo Vivian na porta do quarto, que foi deixada aberta, vindo em minha direção. Poderia ter ficado na cama e fingir que estava dormindo, mas claro, eu tinha que me levantar.
–Deixa-me adivinhar, veio dar sermão ou o que?
Posso estar sendo grossa, mas acho que ela também foi comigo quando não me deu nem a chance de me explicar. Ou ela deu... E ai eu sai que nem bala de fogo.
–Não vim te dar sermão, só dizer que eu sei que você não teve nada a ver com aquilo – diz surpreendentemente ela. Levanto as sobrancelhas como quem não está acreditando, ela continua. – você só estava no lugar errado, na hora errada. Tudo bem Aria, desculpe.
Desmancho a carranca. Pelo menos ela acredita que não fiz nada, ou pode estar só fingindo, de qualquer forma, não estou levando bronca, e sim desculpas.
–Sem castigo? – pergunto.
–Sem castigo – confirma.
Dou um leve sorriso e então me lembro de que posso até ter escapado do castigo, mas se tem uma coisa de que não escapei é da tarefa diária.
–Pode até ter escapado do castigo mocinha, mas não se esqueça de que...
–Tá, eu já sei, tarefas.
Ela me dá o papel com os meus horários da semana e eu dou um suspiro.
–A gente tem férias da escola, mas o trabalho nunca acaba.
–Infelizmente não. Vamos lá, vai ser um longo dia Aria, e quanto mais demorar, mais vai se atrasar.
Ela sai do quarto me deixando sozinha, ainda de pijamas e com o papel na mão.
Faço o que tenho que fazer: troco-me, escovo os dentes, arrumo minha cama e meu cabelo, esquecendo-me até de tomar café. Tanto faz. A fome não me apareceu hoje mesmo. A roupa simples – camiseta branca, calça legue – não serve só para facilitar a movimentação, mas também me deixa confortável, apesar de ser simples.
Saio do quarto e paro no corredor só para observar as tarefas:
1- 9:00 varrer as folhas do pátio.
Já são 9:30, portanto, estou atrasada. Ando rápido enquanto observo as outras duas tarefas:
2- 13:00 lavar a louça do almoço.
3- 15:00 limpar o quarto.
As tarefas são feitas em conjunto, às vezes em dupla, outras vezes em trio. Quando chego ao pátio percebo que a tarefa de numero um é feita em dupla, e a minha dupla está sentada no banco, metade das folhas já estão varridas. De repente, me pego olhando para Molly Benson, a garota briguenta no orfanato. Ela está me olhando como se quisesse me comer viva, imagino que porque cheguei atrasada, mas só uma suposição.
A história de Molly é bem complicada e acredito que bem dolorosa de se ouvir e principalmente de se contar. Ela foi deixada pelo seu pai no orfanato quando tinha cinco anos, porque ele estava indo morar em Paris com a nova mulher e não queria levar a “peste”, segundo ele, junto. Sei disso porque assisti a cena de camarote.
Descrever o que houve depois é um ato pra quem tem mesmo coração forte. Até Molly, que é fria, grossa, e quer se mostrar a grande valente quase sempre, chega a ficar com os olhos marejados quando falam nisso. O pai dela simplesmente e literalmente a chutou quando a garota começou a perguntar por que ela iria ficar ali naquele lugar estranho. Molly começou a chorar depois do ocorrido, mas ainda assim não largava da perna do pai. Foi Vivian quem teve que resgatar a garota, que chorou rios quando o pai foi embora.
Hoje ela é minha colega de quarto, e só não é tão agressiva comigo porque eu efetivamente a consolei, porque de uma forma sabia pelo que ela estava passando. Ou não... Já que quando fui deixada aqui não tinha ao menos a consciência de vida.
–Está atrasada, Caitlin – ela diz enquanto me entrega a vassoura para terminar de varrer. – varri metade, o resto é seu.
Simplesmente afirmo com a cabeça. Olho para a menina que desaparece atrás de mim, ela é magra, tem praticamente o mesmo peso que eu, e a mesma idade também. Os cabelos curtos e escuros são realmente o que realçam os olhos azuis que ela tem, tão vibrantes que é impossível não notar. Ela não é má, só tem um coração dolorosamente quebrado. E o coração de uma criança, inocente e humilde, quando se quebra é realmente difícil de fixar.
Silenciosamente varro o restante das folhas, juntando cada uma delas como se fossem um coração que pudesse ser utopicamente consertado. Mas, nem as folhas ficam em perfeita harmonia, não se encaixam uma nas outras, por que um coração iria?
Quando termino o meu trabalho estou suada, cansada e completamente imunda. Sou a sujeira. É como se ela tivesse se encarnado em mim.
É meio dia quando decido me levantar do banco em que me sentei e não me permiti levantar até agora. Vou para a cozinha comer alguma coisa, com animo zero. Acabo me sentando ao lado de Molly, que estava sozinha, ao invés de se levantar como eu sei que ela com certeza faria, ela se vira para mim e começa a falar.
–Acho que Vivian estava te procurando.
Olho para ela indiferente.
–Deve ter mudado de ideia em relação ao castigo.
Só pode ser isto, para estar me procurando tão cedo.
–Soube do que aconteceu ontem – Molly não fazia parte do grupo que me olhava diante da porta ontem, ela era a única que não estava. – mas não se preocupe, eu realmente não acredito que foi você que fez aquilo, Caitlin.
Ela se levanta desanimada e deixa seu prato no balcão seguindo, eu suponho, para a sua próxima tarefa do dia.
Termino de comer e já não deixo o prato no balcão, é mais fácil já levar para a cozinha. Para aonde sigo para a minha próxima tarefa: lavar a louça.
De um ponto de vista ameno até que as tarefas das férias não são tão ruins... O problema é que não existe um ponto de vista ameno para as tarefas das férias. Mas, de qualquer forma, eu vivo aqui, como aqui, e tudo totalmente e praticamente de graça. O mínimo que poderia fazer olhando do ponto de vista do orfanato é ajudar na limpeza.
Estou a ponto de colocar as luvas para começar a trabalhar com a minha colega da qual nem sei nome, quando Vivian aparece com o seu habitual uniforme – saia preta e jaqueta preta, praticamente iguais – e sua prancheta, sempre anotando alguma coisa. Os olhos de serpente olham para mim. Mas não é um olhar mortal, mas sim um olhar um tanto quanto carismático.
–Ariana, suas atividades de hoje estão suspensas, venha comigo, por favor.
Se tratando do que está por vir, não, eu não sei absolutamente nada sobre. Apenas me vejo andando pelos corredores que dão ao escritório. Depois entrando no escritório. Depois me deparando com exatamente cinco pessoas sentadas à minha frente, e uma delas é Olive, a garota loira dos olhos azuis doces a quem conheci ontem.
Não entendo o que estou fazendo ali, diante de todas aquelas pessoas, até Vivian começar a me explicar.
–Ariana, essa é a família Hale. Falando mais especificamente, eles estão interessados em te adotar – diz ela calmamente enquanto se senta ao meu lado.
Estudo mais atentamente as pessoas que estão a minha frente: há Olive, é claro; Um casal, uma mulher loira dos mesmos olhos que encontro em Olive, doces e azuis, e o homem tem os cabelos castanhos, os olhos cor de mel fixam-se em algum ponto acima de mim; uma garotinha, bem pequenina mesmo, pela minha observação deve ter uns três anos apenas, é a cara da irmã e da mãe. Sua expressão é brincalhona; por ultimo, meus olhos fixam-se no garoto mais afastado da mesa, é o único que não tem a cara da mãe, mas por outro lado, também não é nada parecido com o pai. Seus cabelos são loiros, não loiros num tom muito claro como o da mãe e das irmãs, mas sim de um tom loiro dourado, como se fosse uma mistura dos dois tons de cabelo de seus progenitores. Ele nem se dá ao trabalho de olhar para mim. Parece fixado em algum ponto ao longe, e ao mesmo tempo, parece que não gostaria de estar onde está neste momento.
Adotar. Adotar. A palavra só começa a fazer efeito na minha mente depois de uma longa pausa. Adotar. Adotar. O que significa mesmo esta estranha palavra? Nunca a ouvi na minha vida... Ou talvez já tenha ouvido, mas não me lembro... Adotar... De acordo com o dicionário... Não tenho tempo para dicionário. Adotar!
Parece mesmo impossível quando compreendo o sentido da palavra e minha cabeça volta a funcionar. Adotar! É muito bom para ser verdade, duas famílias em uma semana. Impossível. Impossível... O que é mesmo impossível...?
Minha cabeça está girando. Girando completamente. Mas não é esperança o sentimento que se aflora em mim. Mas sim confusão.
–Olá Ariana – diz a mulher humildemente. – meu nome é Maya Hale. Este é meu marido, Ryan... – ela apresenta os filhos. A pequenina é Mia, a caçula da família. Olive, a quem eu já conheço, é a filha do meio. E por fim Christopher, o garoto de cara obstinada que nem um olhar me concedeu até agora, é o filho mais velho, e pelo visto o mais irritado também. Não que eu queira julgar alguém, mas só um palpite.
–Olá – respondo modestamente.
Então começa o interrogatório com Vivian fazendo as habituais perguntas, que servem para todas as famílias seja, quem quer que vá ser adotado há o repetido e cansativo interrogatório. No final ela pergunta à família se têm questões a me fazer. Geralmente todas as famílias fazem muitas perguntas bobas como qual a sua cor preferida ou que tipo de comida mais gosta. Sei disso porque me contam. Mas, imprevistamente a única pergunta que me fazem, e é a garotinha que se pronuncia, é:
–Posso te chamar de Aria?
Estava totalmente desligada do assunto, não estava prestando atenção em nada do que era falado, apenas voando em meus próprios pensamentos.
Pode parecer uma pergunta boba, mas ainda assim eu respondo com um enorme sorriso no rosto:
–Claro que pode.
Todos riem menos Christopher, o garoto frio e que agora eu considero terminantemente ignorante. Ainda não sei se sou oficialmente parte da família, e essa duvida fica latejando nos meus pensamentos. Todos se levantam e saem, os pais apertam a mão de Vivian e isso me dá um pouco de expectativa.
–Precisam voltar segunda, para preencher os papéis – diz Vivian também sorrindo.
Será que ela está falando sobre os meus papéis? Fui adotada? Estou confusa. Ai Ariana Caitlin, por que não prestou atenção na conversa? Sua anta. Agora fica ai, se eles demorarem mais uma hora para irem embora você vai ficar mais uma hora sem saber a resposta.
Ficamos apenas eu e Vivian na sala. A família está na porta conversando. Lanço um olhar a Vivian, e ela sabe muito bem o que quer dizer, pois confirma com um grande sorriso aberto no rosto. Faço o que nunca fiz antes e nunca pensei que faria, abraço Vivian com todas as minha forças e felicidade e ela corresponde. Ambas estamos felizes, ela está feliz por mim e eu sou agradecida por isto.
A excitação toma conta do meu corpo, percorrendo todas as minhas veias e fazendo-me ficar como se tivesse bebido energético. Estou elétrica. Ninguém vai me fazer parar.
Acho que percebo que pensei cedo demais, porque paro um minuto para escutar sobre o que estão falando lá fora e a conversa tem o poder de dissipar o sorriso de meu rosto, faz meu coração apertar e a alegria dá lugar ao desespero silenciosamente disfarçado.
–Não acredito que estão adotando esta garota! Ela é... É... Eu nem sei o que ela é! Já não acham que uma família de cinco pessoas é o bastante? Nem sabemos que tipo de pessoa ela pode ser... – Ouço a voz que presumo ser do garoto calado, Christopher, que não disse nada, mas agora está pronunciando as palavras que estão me dando um nó na garganta.
–Christopher, por favor...
A tentativa de Maya fazer Christopher parar de falar é inútil.
–Por favor nada mãe. E, além disso, ela, ela é...
Maya não o deixa terminar a frase. Não sou adivinha, mas já tenho uma boa suposição do que ele ia dizer se a mãe não o tivesse interrompido.
“Ela é negra”. A frase ecoa na minha mente como se realmente ele a tivesse dito. “Ela é morena. Não é como nós.” Mil possibilidades surgem, mil frases diferentes, mas todas com o mesmo sentido. Algumas mais educadas e outras mais grossas. Qualquer uma delas poderia ter sido usada por Christopher, mas qualquer uma teria o mesmo efeito cruel. Qualquer uma seria racista.
É automático. Mais caio do que sento na cadeira depois de escutar as palavras que foram pronunciadas por aquele a quem conheço o nome e nada mais. Só que agora sei, ele é frio, egoísta, e o pior de tudo, preconceituoso. Isso só sei pelo fato de eu ser morena. Se fosse negra, bem escura mesmo, as coisas poderiam ser bem piores, suponho eu.
Outra coisa que é automática é a minha esperança se esvaindo. Como se fosse água que tivesse encontrado um ralo e já estivesse escorrendo por ele. Talvez a família já não queira mais me adotar. Talvez Maya tenha dado razão a tudo que o filho falou. Ou apenas não querem que o filho mimadinho fique mau humorado só por causa da garota sem importância que eles um dia pensaram em adotar não sei por que.
Vivian olha para mim com pesar.
–Tudo bem, já estou ficando acostumada.
Quando ela sai, me deixando sozinha no escritório, eu já não estou mais sozinha, mas com as lágrimas me acompanhando. Lágrimas de uma pontinha de esperança que se foi tão rápido quanto uma garoa.
Tapo os ouvidos na intenção de bloquear alguma coisa que simplesmente não existe. Mas que minha mente cria. Cria palavras cruéis. Palavras que acertam como agulhas o meu coração.
–Por que tive que nascer morena... Eu poderia ser branca, branquinha... Por que...
O sussurro que eu dou é quase inaudível. Mas, para mim é quase um grito, um grito de socorro que vem do coração.
Mas existem coisas muito piores na minha vida do que minha cor. Como o fato de nem minha mãe ter me querido.
Notas finais
Ok, o Christopher é um idiota completo e eu tenho vontade de lançar um Avada Kedavra nele agora, mas quem sabe...
E ai, o que acham? Aria vai ser adotada? TAN TAN TAN TAN...
Não esqueçam dos Reviews lindos e de suas opiniões lindas também (sejam elogios, criticas, estou de braços abertos o/).
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