Na Torcida
1 Contra o Terceiro Ano
– E é assim que a gente vai matar elas, sacou? Vamos avançar, Olivia vai lançar a bola pra trás, Caila vai tocar direto e Antonela vai mandar pra Jo finalizar. Ouviu, Jo?- Valentina terminava de rabiscar o verso do livro com bonequinhas zé-palito em um campo mal feito de futebol enquanto Caila dava instruções ao resto do time.- Larga o celular, mas que merda! A gente tem que ganhar esse jogo!
– Tá, tá. Relaxa.- Guardei o telefone e olhei para a janela do vestiário atrás de Caila, que voltara a dar instruções para as meninas. O campo já estava lotado de gente. Podíamos ouvir os cantos das torcidas rivais indo de encontro aos da nossa. Chegando disfarçadamente mais perto da janela e esticando o pescoço , pude vê-lo ali. Leo estava em pé com duas garrafas de cerveja na mão e pulava tão animado que não parecia se importar com a quantidade de líquido que caía ao chão da bancada, gritando feliz:
" Aha, Uhu, Terceirão,
Vai tomar no cu!
Tá em casa, pra perder,
A Jo vai pegar você!"
Imediatamente senti minhas bochechas queimarem e um sorriso teimoso surgir em meus lábios. Ter a torcida gritando o seu nome era algo maravilhoso, mas ter o cara mais cobiçado pelas gazelas do Terceiro era o paraíso. Eu lembrava agora com um sorriso inteiro, o jogo de ida na nossa quadra onde ganhamos de três a zero, dois gols meus. No primeiro gol, de Olivia, a torcida já organizava Olas e lançava pipocas e jujubas pelo campo abaixo, tentando acertar os solitários torcedores do rival, que não tinham arranjado lugar para se sentar no seu próprio lado do campo, devido a Leo e o resto de seus amigos na torcida oposta. Provocavam a todos que podiam, rindo e também jogando pipocas nas meninas. No segundo e no terceiro gol, marcados por mim, a nossa torcida já ficava de pé cantando e dançando, inventando letras para cantar e rimas para o meu nome e de Olívia. Apitado o fim do jogo, cumprimentamos as jogadoras que ainda não tinham saído do campo e corremos para a torcida oposta, gritando e dançando com eles. Eu não tinha nem percebido como conseguira subir tão rápido as escadas largas da arquibancada, mas no segundo seguinte eu já abraçava Leo e dançava com ele, fazendo todas as gazelas olharem invejosas para nós. Eu apreciava o olhar nada discreto delas, me aproximando um pouco mais do que o necessário de seu corpo todas as vezes que ele enlaçava seus braços em minha cintura e sussurrava algo no meu ouvido sobre como eu estava gostosa com o uniforme vermelho e a braçadeira de capitã. Já nos conhecíamos há muito, e tínhamos o tipo de intimidade e entrosamento suficiente para falar de qualquer jeito um com o outro, seja de maneira culta ou não. Eu agradecia, divertida, roubando sua garrafa de Heineken e comendo um pouco de sua pipoca. O resto da noite foi maravilhoso...-JO! CARALHO! QUER FOCAR?!- Agora era Antonela que gritava, me trazendo de volta a realidade e percebendo o olhar acusador das minhas companheiras de time, que agora já tinham fechado o livro.
–Já entendi, já entendi! Pegar de trás, chutar pro gol! Não é isso?
–É, é isso. Presta atenção. A gente vai perder se você ficar olhando pro Leo o jogo todo.- Antonela agora parecia risonha, enquanto pegava sua mochila, indo por o uniforme do time, hoje azul. Imitando-a, todas fomos para um box e depois de um tempo e com os cabelos já presos, íamos em direção ao gramado quando apareceram as jogadoras do terceiro, usando amarelo.
–Treinadas?- Disparou Miranda, a capitã e atacante do time. Tinha um sorriso branco até demais e os cabelos lisos e descoloridos até os ombros. Era um esqueleto ambulante e antipático da Santa Roza.
– Sim, nós treinamos.-Respondi. Vi a capitã se virar e cochichar algo para a menina do lado, de cabelos longos e crespos, que olhava diretamente para os shorts de Olivia, sem sequer disfarçar. Olhei para ela e vi o short pelo avesso que ela usava. Ela retribuiu meu olhar, as bochechas vermelhas. No segundo seguinte já estava voltando ao vestiário.
A menina do lado cacarejou algo e o galinheiro todo começou a soltar risinhos, visivelmente caçoando de Olivia. Eu já tinha avançado até chegar perto da puta-mor, bem na frente de sua cara azeda quando o um palitinho amarelo chegou, esbaforido e suado. Separando inconscientemente nossos olhares ferozes, se apoiou nos joelhos e sibilou:
– Desculpe.. Atrasado... Ônibus..- Eu já via, entediada, Caila avançar para o suposto árbitro e começar a contestá-lo quando Miranda tomou a frente.
– Tudo bem, tudo bem. Vamos, Carlito.
– Carlito?! Mas que merda....?!- Caila virou-se para nós e sem sequer dizer as palavras, já sabíamos o que se passava por sua cabeça. Marmelada do Santa Roza. Tinham trazido um puto de um Carlito, que chega atrasado e suado para arbitrar o nosso jogo. Típico. Muito, muito típico.
–Licença!- Eu batia levemente nas costas ossudas do árbitro. Ele se virou, agora menos ofegante do que quando chegou, mas ainda parecia recém-saído de uma maratona olímpica.- Nós já temos um árbitro. Ele está sentado ali, no banco, nos esperando. Se o senhor não se importa...
– Vocês tem um árbitro sim.- Mais uma vez a anoréxica metia o nariz onde não era chamada.- Em casa. Vocês estão no nosso campo, onde quem apita é o nosso árbitro.
– Ah, faça-me um favor! Ele vai arbitrar o jogo? Ele nem se aguenta em pé!- Valentina gesticulou, irritadiça. Olhei para o árbitro, agora no bebedouro, revezando entre beber a água e jogá-la no cocuruto da cabeça calva. Elas tem que estar de brincadeira!
– Olha aqui, o caralho com esse patriotismo, ouviram? Cadê o árbitro reserva de vocês?
– Só tem o Carlito. Resolvam com o técnico de vocês.- A magrela agora sorria com o galinheiro amarelo, e com uma raiva que eu sabia que as meninas compartilharam, percebi que estavam sacaneando a gente. Santa Maria não tem um técnico. Nunca teve. Merda!
– Nós nunca precisamos de um técnico, até porque as nossas adversárias nunca tiveram a cara de pau de contratar um sedentário para apitar!
–É, realmente, uma pena. Mas Carlito sempre apitou os jogos dos times e ficaria muito ofendido se o deixássemos de fora de um jogo tão importante, né Carlito?- Miranda olhou para o comparsa magrelo e vendo que ainda não tinha condições para falar corretamente, estendeu o dedão ossudo e calejado com a mão livre do copo d'água.- Ele nunca perderia a chance de apitar um jogo pelo seu time do coração.- Mas que vadia! Eu já sentia as minhas amigas avançando para Miranda quando mais uma vez Carlito apareceu no nosso meio, nos chamando para o campo.
– A hora, meninas.- Ajeitava o relógio e tive a ligeira impressão de que ele falava somente ao time rival, fazendo pouco caso das nossas caras amarradas para ele.- Boa sorte a todos.- Novamente, olhava para Miranda e o galinheiro enquanto seguia a frente, ainda ajeitando o pouco cabelo que tinha. Nos formamos em duas filas e começávamos a segui-lo quando Antonela, um pouco atrás na fila, gritou para Miranda.
–Boa sorte com os quatro gols que tem que fazer, meninas! Não que precisem de treino nem nada, só o árbitrão já dá conta!- O galinheiro, como se tivesse combinado entre si, virou os olhos ao mesmo tempo, provocando risos no time inteiro. Se achavam que tinham alguma chance de nos vencer, mesmo com aquele árbitro idiota, estavam muito enganadas. Eu furaria aquela rede podre nem que fosse a última coisa que fizesse na vida, e tinha certeza que ninguém do meu time pensava diferente.
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