Na Toca Do Rato
1 Não Provoque Um Rato (Parte 1)
Notas iniciais
Esta história representa minha volta às fanfics, agora nos mangás/animes, especialmente em No.6 e isso me deixa completamente feliz *O* Porque me faz perceber que perder minhas aulas é útil e me anima, uma vez que eu me distraio escrevendo *heart here*
Acho falso fazer isso, mas vai. E é extremamente difícil escrever sobre um personagem culto sem nunca ter lido as obras que ele leu e recomenda (como Hamlet, Macbeth, entre outros clássicos Shakespearianos ou não), mas fiz o possível para ficar o mais fiel. E deixa eu mandar um beijinho para a Danonia (Bell sumida!) que ela merece e sabe porquê ♥
Enfim, já segurei vocês demais. BOA LEITURA ♥
“É por isso que humanos são problemáticos. Quanto mais você se envolve com eles, mais apertados se tornam os grilhões. Eles impedem a livre circulação. Torna-se difícil viver apenas para si mesmo.”
Não provoque um rato.
Era injusto, eu sei. Não era certo da minha parte olhá-lo dessa maneira. Não deveria fazer parte da minha conduta, tanto mais com um hóspede tão desmiolado como ele, vindo daquele verme de cidade parasita. Tão protegido e despreocupado, tão preenchido com uma pura e perigosa inocência. Combinava tanto com o cabelo esbranquiçado e a marca vermelha serpenteando por seu corpo, do rosto até o pé, pelo pescoço...
Senti um arrepio, piscando para escapar do devaneio e focalizando na sopa que eu deveria estar mexendo e cuidando. Segurei um suspiro.
“Nezumi?” Ele me chamou. Aí estava a origem do meu arrepio. “Você está bem? Parece distraído.” Não respondi, controlando com toda a atenção a colher dentro da sopa. Vi-o soltar um livro sobre a mesa e vir até a minha frente. “Você quer ajuda?”
Não olhe. Não encare os olhos dele. Os olhos vermelhos dele.
Eu desviei da sua mão, mas ele insistiu e tirou a colher de mim, tomando o meu trabalho.
“Sério, Nezumi, o que está acontecendo? Você nunca me deixaria terminar o que você começou.”
“Nada com o que você deva se preocupar.”
“Você quase não fala mais, volta e meia está olhando para o nada em uma concentração esquisita, sai e demora a voltar, e está lendo tão pouco que mal terminou um livro nessa semana e–”
“Shion.” Interrompi. Eu sabia o que eu vinha fazendo, obrigado.
“Como você quer que eu não me preocupe? Até as suas respostas irônicas e desagradáveis vêm diminuindo...”
“Shion. O estranho aqui é você.” Eu não estava nas minhas melhores condições, deu para notar.
“Até mesmo a sua voz não condiz com as suas zoações, Nezumi.”
Fitei-o um pouco irritado e fui me sentar no sofá, colocando os pés sobre a mesa. As broncas de Shion não deviam surtir nenhum efeito em mim, por todos os motivos do mundo. Mas dessa vez a verdade naquelas palavras era latente. Ele estava conseguindo me atingir, com todas as bobeiras e besteiras. Não. Não, Nezumi, não se engane. Não de propósito. A naturalidade boba desse garoto era envolvente. A bondade, a força sempre escorrendo pela fragilidade, a simplicidade de ver o mundo.
A vontade de suspirar estava grande.
Era diferença demais. Inteligência, boa-criação, quase nada de autopreservação. Um tolo.
Shion.
Isso não podia estar acontecendo.
*
Comemos em completo silêncio – um silêncio esquivo. Olhares que eu não queria receber, palavras que eu não queria ouvir. Uma refeição sem paz. E era porque eu não estava aproveitando a companhia da maneira como queria. E isso era terrivelmente incômodo, e vinha sendo por algumas semanas. Está aí a origem da minha mudança. Eu me sentia anormal.
Shion se levantou e começou a organizar tudo o que fora usado, de forma prática. Só percebi que o estava observando quando ele se voltou para o sofá e sentou ao meu lado, mais próximo, com o joelho sobre o móvel, tocando minha perna. Eu já tinha os pés no chão.
“Nezumi.”
Relutante, virei o olhar para ele.
Shion piscou. Parecia estar lutando para encontrar a coisa certa que eu precisava escutar. Os olhos grandes estavam limpos, quase inexpressivos, imprecisos. Uma vida fora do comum se espalhou pelos meus membros, de forma incontrolada ergui a mão e passei o polegar na ponta da serpente rosada, com a textura de uma cicatriz, na maçã esquerda do seu rosto. Ele abriu a boca e nada falou. Mexi no cabelo dele, branco e macio. A repetição desse gesto, pois já o acariciara assim algumas vezes, o fez engolir a saliva e abaixar a cabeça. Por um instante pensei que ele fosse chorar.
Não. Shion rompeu de súbito em um abraço, se apertando contra mim, meu pescoço, e algum tempo depois retribui o afeto, circundando-o pelas costas. Os batimentos estavam acelerados, ele estava nervoso, sabe-se lá por quê. Eu já tinha perdido minhas defesas contra ele, de qualquer forma.
Fui mais apertado pelos seus braços finos antes de ser libertado, bem lentamente, e sem se afastar o suficiente. Foram apenas nossas respirações por vários minutos, e quando fiz menção em me levantar e sair dali, ele segurou meu braço.
“Você não está entediado, Nezumi. Tédio não é algo que você tolere.” Deu de ombros, desolado. Neguei com um aceno da cabeça, ele estava mesmo tentando me entender, me desarmar. E... aposto que ele conseguiria, pelo meu estado, meus segredos, minhas escolhas erradas. Antes que se designasse a falar algo, toquei seus lábios com o indicador, pedindo silêncio, sigilo.
Algumas palavras são melhores quando não pronunciadas. É melhor mantê-las consigo, seguras, do que perdê-las ao vento e aos ouvidos dos outros. Ouvidos estes cheios de temores e maldades.
Notei então que não havia tensão ou qualquer sensação ruim rondando o ar. Havia algo semelhante à ternura, ao carinho.
“Eu cheguei à conclusão que é apenas...” Segurou minhas mãos entre as dele, brincando com meus dedos aleatoriamente, impedindo-me de lhe tapar a boca e fazê-lo engolir a fala. Eu precisar ouvir a realidade não significava que realmente quisesse ouvir, que fosse me sentir bem com isso, principalmente no decorrer de uma pausa tão dramática quanto a que Shion deu. E também não, vindo de um intrometido feito ele, que desconhecia a vida real e o peso que ela tem. Por outro lado, eu queria descobrir o que se passava naquela cabeça albina, para ver se encontraria alguma coisa que justificasse a excessiva atenção que minha mente estava dando àquele cabeça-de-vento. “Que é apenas carência. Você está carente, Nezumi.”
Obsessão seria uma conclusão mais exata, Shion.
A sinceridade ardeu em mim ao receber a afirmação. Eu queria imaginar o que ele sentia ao fixar com tanta intensidade seus olhos nos meus, se era realmente tão interessante como Shion fazia ser. Será que ele era tão curioso com o cinza das minhas íris quanto eu era com o vermelho das suas?
Essa curiosidade me fez esconder os meus e endireitar a cabeça, mesmo que meu instinto gritasse pelo erro escandaloso que estava cometendo. Doía no peito. Meus batimentos ressoaram nos meus ouvidos quando ele se mexeu no sofá. Controlei o impulso de levantar as pálpebras, entretanto, isso foi arremessado longe logo que as mãos quentes dele seguraram o meu rosto, voltando-me para ele de novo.
Shion estava muito perto. Os dois joelhos estavam agora sobre o sofá e ele se inclinava na minha direção, concentrado, lendo o que eu esperava não estar dizendo.
Beije-me.
“O que houve, Nezumi?” Ele murmurou. A ingenuidade da pessoa era cômica, eu tive que rir, soltando o ar pelo nariz. Shion deve ter entendido como ironia, mas para mim foi um riso de alívio. Se ele me chamasse de louco, eu entenderia, e seria ainda mais engraçado. Faria sentindo. Essa característica dele poderia ser fatal, porém, fora o que o salvara nesse instante.
“Nezumi!” Exclamou, forçando a permanência do meu rosto naquela posição. O toque era agradável... Traiçoeiramente agradável. “Não faça isso comigo, me responda, o que está acontecendo?”
Arregalei os olhos perante aquele desespero todo, e soltei o ar, ser ter reparado que o estava prendendo. Desprendi-me das mãos dele e as segurei, com menos cuidado do que gostaria.
“Shion, não é porque você precisa entender que eu vou detalhar todos os meus pensamentos para você. Com todo esse tempo aqui você já deveria ter entendido que não é a sua pergunta que trará a minha resposta.” Tive a sensação de que precisava me explicar diretamente, para me certificar de que isso estava entendido, definitivamente. E teria sido melhor se eu tivesse ficado calado.
“Eu só queria uma pista. E não quero saber todos os seus pensamentos. Pelo contrário, acho que isso tem a ver com... sentimentos.” Franzi as sobrancelhas. Fui praticamente enganado com essa, foi como uma facada no escuro. “E eu não espero que você vá realmente me contar alguma coisa, mas isso não me impede de perguntar.”
Tsk.
Isso não tinha necessidade alguma de vir à tona agora. Justo hoje, agora.
Esse não era um bom assunto. Sentimentos. Arriscado demais para me expor o mínimo que fosse. Todavia, eu os tinha, e tinha perdido a prática de escondê-los. Vivi muito tempo sem nenhum contato com esse tipo de coisa, e custei a me admitir essa fraqueza. Eu ainda não me orgulhava deles. No fundo, confiava naquele garoto, nem que só um pouco, eu sabia, por maior que fosse a dor por assumir isso, até para mim mesmo.
“Nezumi, que mal vai fazer em me contar?” Sussurrou com olhos distantes, como quem implora, mas sem se curvar.
“Que bem fará se eu contar?” Rebati fracamente.
“Isso parece estar te incomodando, te atrapalhando, e se eu souber posso ver como te ajudar e...” Respirou fundo, dando de ombros. “Eu gostaria de saber.”
Albino intrometido e teimoso. Se ele soubesse como pode me ajudar... Dei uma risadinha. Hilária e idiota. Não, eu não podia estar cogitando agir assim. Não. Não havia sensatez nisso. Eu ia jogar todo o esforço das últimas semanas fora, a minha luta incessante contra a distração da minha mente pelos meus desejos, o aprofundamento desse laço frouxo e mal amarrado. Não, Shion, não me permita, por favor, não.
“A sua boa-vontade ainda te levará à ruína.” Proferi em voz baixa, imaginando a ruína da forma mais imprópria para se encaixar naquela frase.
Ele não podia fazer eu me sentir tão debilitado. Não.
Não era justo. Exatamente como a vida, Nezumi.
E esse retrocesso, a recaída para essa superfície fina como gelo era o começo da minha desgraça, a consequência da pior das minhas decisões. Ao menos com um risco eu não precisava me importar: eu sairia vivo dessa.
Ergui-me do sofá, me obrigando a pegar impulso e me afastar de Shion. Ele se levantou, vindo atrás de mim, e estávamos agora entre a mesinha e a cama, mais próximos do que eu queria. De novo.
“Sei que você não quer me contar, Nezumi.” Ele só não sabia mesmo quando parar, não é? “Mas, por favor, eu não vou aguentar esse seu comportamento para sempre!”
Dei um passo em sua direção, e a surpresa o fez recuar, e o fizemos até que Shion ficasse rente à parede. Fora a gota d’água.
“A sua curiosidade te estraga, Shion. Você devia ser mais cuidadoso com o que quer saber.” Sorri, de forma um tanto ameaçadora para a presente tensão que se infiltrara na conversa. Ele levantou uma mão e, sem pensar, imobilizei-a contra a parede, com certa força, o rosto claro dele um pouco retorcido em uma careta, talvez de medo. Ou não. Ele não acreditava que eu era capaz de matá-lo.
E eu não o era.
“Você quer saber? Então tá, Shion.”
*
Hesitei. Hesitei em fazer qualquer coisa imprudente demais, porque existia um peso que me comprimia, me alertando sobre o que estava prestes a acontecer – todos os rompimentos e os danos que poderia me trazer (nos trazer seria muita presunção).
No meu instante de hesitação, Shion engoliu em seco, completamente rendido. Fechei meus olhos para ele e me poupei de imaginar qualquer seguinte reação, inclinando a cabeça para compensar a pouca diferença de altura. Então era apenas a minha boca e a dele, juntas.
Senti-o tremer com um arrepio, como se recebesse um choque pela confirmação das suas prováveis suspeitas. Isso me causaria um furo na consciência mais tarde, mas eu mereceria, uma vez que justificativas eram o que não faltava para a minha loucura. Meus pensamentos e considerações foram todos desligados quando toquei e beijei aqueles lábios, tão singelos e inexperientes.
Seu corpo relaxou com o contato e o braço que eu segurava caiu ao lado do tronco, com um ruído surdo. De imediato rompi a pequena distância, empurrando-o e usando a parede de apoio, sem apertá-lo demais. Fiz questão de saciar a minha vontade por ele, de invadir a sua boca e brincar com sua língua, lamber, chupar e morder. Ele me acompanhava meio desajeitado, mas eu não tinha do que reclamar. Shion estava me correspondendo, eu não precisava de mais nada. Era a minha realização, e o fato do qual eu mais queria fugir, me impedir. Porém, era uma concentração instintiva demais para que eu conseguisse me negar a aproveitar, a ter mais um pouquinho. Era bom, inflava o meu peito até então tão submerso em dores.
Agora a dor viera pela falta de oxigênio. Parei, ofegante, sentindo o gosto dele na boca, suprindo todo o ar que me fosse necessário, me acalmando, escapando daquele torpor indecente. Seu nariz roçou no meu, e não pude evitar um sorriso, sem expor os dentes, encostando minha testa na dele. Não sei se o sorriso foi visto, e se não foi, o quão melhor. Eu sentia uma liberdade assustadora correr por mim, desde meus pés à ponta dos meus dedos, das minhas orelhas.
Eu não errara quando dissera que ele conseguiria arrancar isso de mim, ainda que o ladrão de beijos ali fosse eu.
“Está satisfeito, Shion?” Me aventurei a abrir os olhos, encontrando-o em uma respiração cortada, tremida.
E havia um vermelho a mais no seu rosto, inundando suas bochechas de um jeito tão... irresistível. Não, não as apertei, mesmo que ele parecesse querer. Dei alguns passos para trás, saindo de perto de um pecado tão falsamente inócuo, pérfido.
Custou a recuperar a voz.
“Eu não tinha imaginado que você–” Sussurrou, quase confidente.
“Você me prometeu não mentir.” Acusei-o com um leve tom de diversão. Shion não ter imaginado? Eu prefiro não acreditar.
“Eu não esperava que você fosse tão direto. Obrigado.” Comprimiu os lábios, desviando o olhar para o chão, sem sair do lugar. Seu polegar correu pela boca, e ele parecia mais pensativo do que constrangido. Dei um sorrisinho de lado, sentando-me na cama, apoiando os cotovelos nos joelhos e observando.
Shion também se sentou, talvez aturdido com a minha mudança repentina. Com o beijo repentino. Eu queria fazê-lo erguer o rosto para mim, segurando-o pelo queixo, para trazer seus olhos para onde eu pudesse perscrutá-los. Só que a entonação desse gesto seria outra, e a minha indiferença (um pouco forçada) com o que acabara de acontecer poderia machucá-lo, e não seria bom. Minha mão foi inadvertidamente até o seu braço, dessa vez com leveza, e ele inclinou a cabeça.
“Eu te assustei?”
Negou, quieto. Seus ombros subiram e desceram com um suspiro, e suas bochechas passavam pelo rosado e retornavam ao natural.
Natural como ele. Natural como os meus sentimentos por ele. Natural como a atração pela novidade, pelo desconhecido, pelo surpreendente. Por mim. Era melhor não exagerar.
*
Notas finais
(Carambolas, esse capítulo tem 4 meses de vida já, e só agora concluí o negócio para poder postar @_@ ~ops.)
Opiniões? C:
Parte 2 em breve!
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