Houve uma vez esta casa... Uma casa grande e esquisita no beco do fim da rua. Era muito alta e tão antiga que o teto começava a desmoronar, era a única casa daquele beco feio e mal cheiroso; a Rua dos Bobos, e nela moravam um casal de velhos. Veja só... Éramos crianças naquela época e achávamos muito engraçado o fato daqueles velhos não suportarem a nossa presença no seu gramado.

Meus pais me repreendiam sempre que eu lhes narrava nossas aventuras por entre as árvores altas na frente da casa e ficavam muitíssimo contrariados quando eu lhes prometia que um dia adentraríamos naquele casarão mal encarado. Eles viviam insistindo que não deveríamos invadir as casas dos outros, principalmente quando os donos não se encontravam em casa.... aquilo era obra de crianças mal criadas. Mas nem eu nem meus amigos nunca nos detivemos, os velhos sempre estavam lá.

Acredite, eu nunca entendi por que nós nos apaixonamos pela ideia de atormentar aquele par de figuras hedônicas... tanto o homem quanto a mulher eram muito brancos, talvez por nunca saírem daquela casa enorme, e bastante severos. O velho tinha as feições duras e o rosto fino, os óculos de meia lua refletiam a luz do sol quando ele nos encarava com desprezo do lado de dentro do casarão enquanto brincávamos em seu gramado. Arreganhava os dentes amarelos quando chutávamos a bola na sua porta, nós éramos crianças mal criadas.

A velha, por sua vez, não era alta como o marido, mas era tão magra que a comparávamos com uma pálida e decrépita lagartixa. Tinha os cabelos brancos até metade das costas e andava com eles sempre soltos e sujos... Os olhinhos eram como besouros e quando ela os pegava andando muito perto da casa, ralhava com sua voz fina e esganiçada. Ela andava pela casa sempre com um vestido longo que outrora imaginamos ser da cor de salmão... mas agora estava borrado em varias partes e parecia mesmo uma roupa de jardineira bastante velha. Eram um casal bastante desagradável, aqueles dois.

A casa em si já era bastante esquisita, era rodeada por uma alta cerca de grades metálicas cheia de falhas, tinha um gramado longo e cheio do arvores e arbustos. Era uma construção antiga no estilo colonial, alta o suficiente para ter até três andares e era toda pintada de marrom escuro, seis janelas ocupavam a frente do casarão, duas no primeiro andar, 3 no segundo e uma ultima no terceiro que julgamos ser o sótão, onde certamente estariam os maiores tesouros.

No passado aquela casa com certeza fora uma das mais bonitas do bairro, aquele beco era recheado de antigos casarões em ruinas... Aqueles velhos deveriam ser os últimos herdeiros de uma era dourada.

Certa noite, e eu me lembro muito bem dessa data memorável, nós nos encontrávamos reunidos no quintal da minha casa jogando cartas de um baralho que afanáramos do quarto do meu irmão. Um pouco antes de o jogo acabar alguma coisa chamou atenção de um dos meus amigos, a luz do casarão da Rua dos Bobos, a luz do sótão, havia sido acesa... Nenhuma luz nunca se acendia naquela casa.

Lembro que ficamos animadíssimos. Teorias pipocavam na mente dos meus colegas... certamente os velhos arrumavam seus tesouros para finalmente darem o fora dali, ou quem sabe a velha organizava nesse exato momento a sua coleção de dentaduras douradas, era bem capaz do velho estar dando uma ultimo olhada na sua coleção de abotoaduras de diamante ou nos seus relógios suíços... as teorias eram infinitas mas a conclusão era unânime: Tínhamos de saber qual era o segredo que guardavam aqueles velhos decrépitos e imprestáveis.

Rapidamente confabulamos um plano, alguns de nós simplesmente não tinham a coragem nem a sagacidade necessária para aquela missão e simplesmente abandonaram o barco, alegando que as suas mães os esperavam, e foram-se embora, deixando para os bravos colegas a descoberta daquele mistério. Lembro que uma euforia inédita aquecia meu coração enquanto traçávamos os nossos passos, meus pais a muito haviam ido dormir e a meia noite acabara de passar.

Seis de nós concordamos que deveríamos todos entrar pelos fundos, um de nós esperaria na porta e alertaria os companheiros caso viesse alguém, ficaria mais um vigia no primeiro andar e ainda outro no segundo... o resto de nós desbravaria o sótão. Quando terminamos nossas preparações a luz na casa havia já havia se apagado e todos entendemos que era hora de agir, atravessamos a rua em completo silêncio e seguimos quietos pelo meio fio até a esquina com a Rua dos Bobos; seguimos nosso caminho até a falha na alta cerca de metal e eu fui o primeiro a cruzá-la, pousei os pés na grama seca com um suspiro solene... entramos.

Eu não tinha nem treze anos completos naquela época, mas sentia-me um homem feito enquanto cruzávamos, eu e meus companheiros, aquele longo gramado debaixo dá luz nua da lua. Eu ergui meus olhos para as paredes escuras e extremamente altas da casa do Nº0, as janelas abrigavam apenas a escuridão e nada revelavam, por um instante eu senti medo... Mas por um instante apenas, meus companheiros seguiam-me eu não podia voltar agora. O único caminho era adiante, eu engoli meus temores e tentei controlar meu coração ansioso... Aquilo estava acontecendo e a simples consciência de nossa bravura me fez soltar um curto riso de valentia. Arrodeamos a casa em fila indiana e num silêncio sepulcral, todos sabiam o que fazer.

Nos reunimos na porta dos fundos... Era uma porta velha e branca com uma maçaneta prateada. Aquele fora o ponto mais longe que eu havia ido, eu encarava aquela porta com uma crescente apreensão... Sentia que um daqueles vultos brancos apareceria a qualquer momento e nos destruiria ali mesmo por tentar roubar-lhes os tesouros, os olhos negros da velha pareciam estar em todos os lugares... os dentes amarelos do velho...

Um dos meus companheiros apertou-me o braço, fazendo os pelos da minha nuca se eriçarem. Encarei-o, ele me olhava de forma severa... e eu entendi, eu era o líder, eu deveria lidera-los, era apenas uma casa de velhos e nós... Nós éramos uma legião. Devolvi-o a confiança e expulsei todo o ar dos meus pulmões, ergui o braço e agarrei a maçaneta metálica com firmeza, era fria como gelo. Meus companheiros prenderam a respiração atrás de mim e me observaram hesitantes... Eu girei a maçaneta e abri a porta.

A primeira coisa que senti foi o cheiro forte da madeira velha, a segunda foi um gosto amargo na boca e a terceira... a terceira foi medo. A casa estava engolfada pela escuridão e apenas a luz que emanava do portal que havíamos aberto iluminava o cômodo que eu observava, imaginei que era o deposito ou algo do tipo. Nas estantes altas de madeira havia inúmeras caixas de papelão, madeira e plástico, haviam outros tantos potes de vidro contendo os mais variados tipos de objetos e líquidos. Havia um jogo de espetos pendurado acima da porta e no chão de madeira só havia pó, manchas escuras e pequenos insetos.

Entramos, um a um, no cômodo abafado e mal cheiroso. O garoto que ficaria de guarda se posicionou do lado de fora da casa, virado para o quintal e para a rua mais adiante, mas não tirava os olhos dos companheiros que sumiam pelo portal escuro... Desaparecendo de vista. Nós caçamos nosso caminho naquela casa escura, a pouca luz que entrava pelas janelas não iluminava quase nada, tornando minha tarefa de liderar meus companheiros ainda mais difícil. O ar carregado começou a fazer meus olhos arderem e meu nariz irritar-se, minha garganta estava seca e meu coração bate como um tambor desvairado.

O chão de madeira da casa range baixinho quando pisamos nele, todavia pareciam trombetas ensurdecedoras para nós que nos esforçávamos para permanecermos incógnitos. As paredes eram de pedra e o teto de uma madeira escura, saímos do primeiro cômodo por um portal do qual pendiam ametistas e pedras negras intercaladas em cordões finos. O bater das pedras ressoavam no meu ouvido e bombardeavam a minha alma, os velhos estavam em algum lugar daquela casa e a qualquer momento o cheiro do meu medo e o barulho dos meus companheiros denunciariam nossa existência... e então estaríamos perdidos.

Seguimos nosso caminho por entre cômodos onde inúmeros moveis estavam cobertos por longos e amarelados lençóis brancos, um objeto alto ,que imaginei ser um relógio antigo, erguia-se imponente no centro daquela sala e cobria grande parte da luz que emanava da janela, jogando sobre nós a sua sombra silenciosa. Meus companheiros eram como mortos e seguiam-me calados e reservados, olhavam apenas para frente e muitos pareciam sussurrar para si palavras ininteligíveis.

A ansiedade subia-me a garganta e os pelos do meu braço eriçavam-se a cada esquina que dobrávamos, a cada recanto escuro que encarávamos... Eu esperava aqueles velhos como a minha morte... Aqueles vultos pálidos me aguardavam naquela escuridão. Chegamos, finalmente, à primeira das duas escadas. O último dos rapazes da fila posicionou-se perto da escada e olhou para o resto de nós com uma expressão solene... era aquela uma despedida dos seus companheiros de batalha, ele nos observou subir a escada em silêncio, um a um, nos perdendo nas trevas.

Subi as escadas devagar, morrendo a cada rangido que a madeira soltava debaixo dos meus pés cautelosos. Palpitava na minha mente, como um lamento de infante, uma pergunta irrespondível... por que eu estava ali? Por que conduzira a mim e a meus companheiros em uma empreitada tão cheia de perigos e escuridão? Eu não entendia... Não conseguia entender. O ar frio da casa gelava meus ossos e me retirava toda a coragem, mantive meus olhos pregados no alto da escada, esperando a qualquer momento que o velho aparecesse com uma foice prateada e nos levasse para sempre desse mundo, sorrindo seu riso desprovido de dentes ou vida.

A escada terminava em um longo corredor cheio de portas que crescia para ambos os lados e tanto para a esquerda quanto para a direita havia apenas a escuridão. De frente para a escada encontrava-se uma das janelas que davam para a rua, lá fora a lua brilhava pálida e o poste de luz iluminava a rua com sua aura amarelada... o longo gramado estendia-se na nossa frente e as arvores secas e brancas estendiam seus galhos nus para as estrelas como se implorassem por perdão; a lua perdoara a todos com a sua luz alva, menos à casa, aqui dentro só existem as trevas e calafrios.

Uma mão fria tocou-me os dedos e por um instante todo o sangue pareceu esvair-se do meu corpo, meu coração disparou enquanto eu virei lentamente a cabeça para ver o que me tocara e acabara por congelar-me a alma. Um dos meus companheiros chamava minha atenção... Todos esperavam por mim e eu me perdera olhando pela janela, eu vi o medo nos olhos daqueles garotos... Eu vi o medo e a confiança que tinham em mim e por isso senti vergonha, mas também senti coragem.

Abandonei a janela e continuei a seguir a escadaria para o terceiro andar, o último dos meus rapazes ficou para guardar o nosso caminho mas este não ficou observando enquanto seus companheiros desapareciam nas escadarias... ele encara o corredor com as feições travadas em uma expressão de puro pânico e a inevitável solidão lhe começava a render lágrimas. O corredor era sombrio, frio e cheio de terrores; cheio de olhos negros, cheio de unhas pálidas. Seguimos nosso caminho pela escadaria de madeira, o ar era frio e seco e o chão continuava a denunciar nossa presença com seus guinchos de crueldade.

Apoio minhas mãos na fria parede de pedra, apenas dois companheiros me acompanhavam agora e a próxima porta nos levaria ao nosso tão merecido tesouro, seja lá ele qual for. A última janela, aquela que se acenderam horas atrás, iluminava a porta que esperávamos, chegamos ao ultimo andar e neste só havia um curto corredor levando a uma porta branca solitária. Um candelabro de ouro sustentava uma vela meio desgastada e de aparência muito, muito antiga. Um dos meus rapazes tirou uma caixa de fósforos do bolso e adiantou-se para acendê-la.

Tentei impedi-lo, juro que tentei, mas antes que pudesse fazer alguma coisa o garoto riscou o fósforo na caixa, produzindo um barulho absurdamente alto, e ateou fogo no pavio. A luz da chama preencheu o tímido corredor, havia algo que não havíamos notado... um quadro havia sido pendurado na parede ao lado da porta. Lá estavam o velho e a velha observando os jovens, em silêncio.. Pareciam mais novos... mais vivos, por assim dizer. A verdade é que senti minhas pernas bambearem e um calafrio percorreu o meu corpo, aqueles olhos corroeram meus ossos e na minha espinha eu soube, eles me veem...eles me observam... eles sabem e na escuridão eles aguardam.

Olhei de volta para as escadarias, não havia nada ali até aonde a luz da tocha alcançava e depois dali era tudo escuridão... Uma escuridão sólida, intransponível... Absoluta. Meu companheiro que acendera a vela do candelabro pousou a mão na maçaneta dourada, por um instante ele pareceu juntar toda a sua coragem num único suspiro aterrorizado. Ele girou a maçaneta e a porta abriu-se com um rangido horrível, como um lamento de um violino desafinado... um lamento de funeral.

Nossa sala dos tesouros encontrava-se tomada pela mais absoluta penumbra, um a um, passo a passo, adentramos naquele cômodo escuro, um cheiro horrível pairava no ar eu senti meus olhos lacrimejarem e arderem... um grito de ansiedade e pânico encontrava-se entalado na minha garganta. Avançamos silenciosos, a tocha guiava-nos pelo amplo aposento; paramos poucos passou depois da porta e aguardamos, em silêncio, pelo nosso destino enquanto procurávamos avidamente nossos sonhados prêmios.

A meio caminho de distância foi interrompido o meu pedido para deixarmos, a salvo, aquele lugar horrível. Fui interrompido por um sopro de ar, e este veio das trevas à nossa frente, meu amigo ergueu a tocha no ar e foi então que o vimos. Um vulto moveu-se nas sombras, um vulto alto e magro como um fantasma, mas sólido o suficiente para fazer o chão tremer com seus passos... Paralisados pelo mais puro terror, por um instante assistimos as sombras ganharem contornos e do vazio surgia o demônio que habitava aquela casa silenciosa.

O impossível tomava forma diante os meus olhos desesperados,diante a luz da chama vacilante da vela os meus pesadelos ganhavam forma, peso e cheiro, as sombras que formavam aquela criatura estendiam seus dedos finos na minha direção. Um homem feito de trevas moveu-se no escuro e rosnou para nós uma ameaça ancestral, naquele instante todo o mundo transformou-se, as regras do jogo mudavam diante os meus olhos e os mortos chegavam para me buscar, o horror tomou o meu corpo,foi nesse exato momento que a vela caiu no chão e se apagou.

Com o último resquício de luz e calor se foi a minha esperança, eu ouvi um grito brutal, desesperado e desumano vindo do mais profundo canto da minha alma, o frio tomou conta do meu coração e minhas pernas tornaram-se os únicos membros que funcionavam. Corri para a porta ouvindo inúmeros passos e vozes atrás de mim, ansiosos por tocar-me as costas, os pés, o pescoço, a vida. Pulei os cinco últimos degraus da escada e aterrissei com um baque ensurdecedor no corredor do segundo andar, não havia ninguém a vista... meu amigo desaparecera e eu não esperei para procura-lo.

Um rugido tomava conta de todo o universo a minha volta, de forma que eu mal conseguia ouvir o barulho dos meus passos no chão de madeira, continuei a descer as escadas correndo com o pânico consumindo todo o meu ser. Minhas mãos tremiam e meu rosto contorcia-se de medo e horror enquanto eu sentia as sombras se aproximarem, consumirem meu corpo como fizeram silenciosamente por toda a noite, as trevas tocavam a minha face e eu vi os rostos daqueles velhos... caveiras roídas e pedaços podres de carne, eles me desejava, eles sentiam o gosto do meu sangue, da minha carne, do meu terror.

Aterrissei no primeiro andar com um estrondo ainda maior, quase tombando com a força do impacto. Novamente nenhum dos meus companheiros me aguardava, passei voando pela infinidade de lençóis brancos que levantavam-se para devorar-me e que riam do meu pânico sabendo que a minha velocidade e a minha vontade não mais importavam, a minha alma já era deles.

Dedos finos e frios chicotearam meu rosto e eu senti que a velha me lambia a nuca, o velho prendia-me os pulsos e a criatura se aproximava, pronta para devorar a minha carne, desvincilhei-me do seu abraço maldito em desespero e saltei pela porta dos fundos. Corri pelo gramado aspirando o ar frio e fresco da noite gritando a plenos pulmões, a luz branca da lua tocam-me o rosto e as lágrimas deslizavam pelas minhas gordas bochechas, atravessei a rua e encontrei meus pais à porta de casa.

Caí nos braços dos progenitores chorando de puro pavor, eles, é claro, nada entendiam... Creio que até hoje não entendam... Ora, como é possível ter uma criança encontrado os velhos da Casa nº 0 e sua terrível criatura se a casa estava desabitada a anos e o casal morrera à mais de uma década atrás? Crianças e suas brincadeiras... Viviam se impressionando com as próprias fantasias no escuro, com os próprios devaneios.

Não é?

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