Na Palma da Mão de Deus
8 Reencontro
Notas iniciais
Capítulo 8: Reencontro
– Tem certeza que é esse o lugar? – Jaime perguntava ao motorista dentro do taxi.
– Bom, o endereço que vocês me passaram é esse mesmo, é naquele portão ali... – foi a resposta que recebeu.
– Têm uns vinte minutos que eu só to vendo muro... Estranho?! – comentário de Daniel que estava no taxi junto com Jaime.
O taxi parou e os jovens desceram, pegaram suas malas ainda não acreditando que estavam no endereço correto, a frente deles um portão bem ornamentado e muros a perder de vista. Em questão de milésimos os taxis que traziam Irene e Igor, Adriano, Tereza e seus filhos também pararam, eles também desceram, pegaram suas malas e observaram perplexos aquele lugar.
– Mas isso é enorme! – Irene falou.
– Será que a gente ta no lugar certo? – Igor perguntou.
– Estamos sim, eu vim aqui quando ainda estava sendo construído. – palavras de Adriano.
– Foi a mãe dele que construiu se me lembro bem, era o sonho dela montar e dirigir um hotel fazenda... – Tereza explicou.
– Ah sim, um hotel fazenda, agora faz sentido a estrada de terra, o lugar isolado... – Jaime falou.
– Eu não lembro de ter vindo aqui... – Fábio se pronunciou.
– Il mio più Giovane, você não veio quando seu pai visitou o lugar porque ele estava sendo construído, não era lugar pra crianças pequenas. – a mãe explicou pra seu filho.
– Isso é bom então, sinal que o Nicholas não ta sozinho, ele ta com a mãe... Que bom que ela conseguiu realizar o sonho dela de montar um hotel fazenda! – Irene falou.
– Têm quatro anos que a mãe dele morreu Irene, eu pensei que ele tinha vendido esse terreno. – Adriano comentou.
– Eu só falo merda mesmo né? – a moça se repreendeu.
– Calma amor, não tinha como você saber. – Igor falou a abraçando.
– Coitado do padrinho, será que ele mora aqui sozinho? – Nicholas, filho de Adriano e Tereza, perguntou.
– Bom, é o que vamos descobrir... – Jaime falou se aproximando do que parecia ser a campainha, a tocou com um pouco de hesitação.
– Quem é? – a voz do outro lado perguntou.
– É o Jaime, eu e uns colegas viemos ver o Nicholas.
– Sério?! Ele vai ficar muito feliz! Espera um pouco... – a voz se pronunciou antes de desligar.
– Não seria nesse momento que o portão se abriria? – Daniel perguntou.
– E, é mesmo! Pensa, pra um terreno desse tamanho o portão tem que ser eletrônico, se não olha só o trabalho, se o colega de vocês estiver lá no fundo do terreno até ele chegar aqui vai ser uma vida! – Igor entendeu e elucidou as palavras de Daniel.
– Sorte que não é esse o caso, olha só quem ta vindo ali? – Adriano falou apontando para o portão, no meio dos ornamentos havia espaços vazios, por eles podia-se perceber a aproximação de alguém, esse alguém quem abriu o portão.
– E aí gente? Há quanto tempo? – aquele cabelo cacheado curto e preto, aqueles olhos azuis, aquela pele parda e aquela estatura média eram inconfundíveis pra quem o conhecia.
– Fala Renan?! Há quanto tempo moleque? – Jaime falou feliz abraçando o jovem. – Velho, agora você é homem feito! – Adriano e Daniel também se aproximaram do jovem enquanto Jaime conversava com ele.
– Quem é esse garoto? – Irene perguntou a Tereza.
– É o irmão do Nicholas, você lembra, ele te contou sobre um meio irmão que ele tinha? – Tereza falou.
– Sim, ele me contou sim, o pai do Nicholas achava que ele era má influência e por isso não queria seu outro filho perto dele... Lembro dessa história! – ela se recordou.
– Que homem cruel! – Igor exclamou.
– Hei vocês, podem vir, podem entrar! – Renan chamou os mais afastados.
– Ele estudou uns anos lá na Escola Mundial, graças a isso a gente o conheceu. – Tereza falou seguindo pra dentro do terreno com seus colegas.
– Nossa, que casa gigante! – Nicholas e Fábio exclamaram ao mesmo tempo impressionados.
– É que vocês não viram lá atrás. – Renan comentou sorrindo.
– E o quê você ta arrumando aqui moleque? Desistiu de morar com seu pai? – Adriano falou brincando, deu um tapa na cabeça de Renan.
– Eu prefiro assim Adriano, eu não queria deixar o Nicholas morar sozinho aqui, ainda mais depois da doença. – comentário que fez todos se entristecerem.
– Mas, então, quantos anos você tem? Uns vinte...? – Daniel tentou mudar de assunto.
– Vinte e dois.
– E faculdade piccolo? – pergunta de Tereza, todos os colegas de Nicholas tratavam Renan como se fosse um irmão caçula, ato que chamava a atenção de Irene e Igor.
– É estranho isso, tipo que as pessoas ficam sem ver as outras por algum tempo, mas quando se reveem é como se nunca tivessem ficado longe. – dizeres de Igor.
– É estranho de pensar mesmo, é uma coisa que se sente, né? – Irene falou.
– Mas então, cadê o Nicholas? – Jaime perguntou.
– Pois é Renan, a gente quer ver ele. – Adriano afirmou.
– Mas quê isso? Isso tudo é saudade, é? – aquela voz peculiar chegou aos ouvidos dos presentes, alguns instantes de silêncio e passos puderam ser ouvidos.
– E aí meu povo?! – ele cumprimentou ao sair de dentro da residência, começou a descer aqueles poucos degraus vagarosamente, mais instantes de silêncio, os presentes somente observavam o seu caminhar, um homem bem alto, de cabelos cacheados compridos pretos que chegavam a cobrir suas orelhas, magro, de olhos castanhos claros e uma peculiar cartola preta, um retrato do passado caminhando, um sorriso bobo na face que fazia pensar: “ele está mesmo morrendo?” Maldito sorriso que fazia as lágrimas se concentrarem nos olhos.
– A educação todo mundo esqueceu? Eu cumprimentei vocês! – ele falou gesticulando, alguns risos saíram junto de lágrimas.
– E aí locão, como vai essa força?! – falou abraçando o loirinho.
– E aí meu velho... Na paz? – Adriano cumprimentou de volta não segurando seu choro.
– Trouxe a família toda, não é irmão? E como vai meu xarazinho? – falou se abaixando e cumprimentando Nicholas, o filho de Adriano.
– Vou bem padrinho... – ele respondeu sem jeito.
– E o menorzinho, você deu uma boa espichada... Se lembra de mim? – cumprimentava Fábio agora.
– Eu lembro sim padrinho, você brincava com a gente!
– Mas você só tinha quatro anos, eu não sabia que se tinha memória de tão cedo. – Nicholas respondeu sorrindo.
– Padrinho... É verdade que você vai morrer? – o menino perguntou triste, mas de forma inocente, o clima se tornou mais pesado.
– O que dizer não é? A vida tem dessas coisas garoto... – ele falou pegando sua cartola e colocando na cabeça do menino, se existia alguma dúvida sobre se era verdade que Nicholas estava condenado à morte ela se foi nesse instante.
– Eu quero que você abra sua mão Fábio. – o padrinho pediu e o menino obedeceu. – A sua mão é o universo inteiro, eu, você e todo mundo não passamos de um pequeno ponto, tão pequeno que é impossível de se ver, tudo que existe aqui tem um ciclo e o meu está terminando... – falou fechando a mão do garoto. – No fim estamos todos na palma da mão de Deus. – falou com um leve sorriso, o garoto puxou a cartola pra baixo pra disfarçar suas lágrimas.
– Tereza, continua linda! – ele falou se levantando e cumprimentando, ela o abraçou forte, suas lágrimas eram inevitáveis.
– Que saudades...! – ela falou em meio há várias palavras em italiano.
– Eu juro que entendi. – as palavras dele provocaram uma leve risada nela.
– E olha só quem ta aqui?! Mister nerd!!! – Nicholas falou cumprimentando Daniel.
– Você não esquece esse apelido, não é? É bom te ver! – respondeu forçando um sorriso, tentando disfarçar sua tristeza.
– E você, ah você! – falou se aproximando de Irene, a abraçou. – Você ta linda grávida!
– É por causa do meu cabelo naturalmente liso! – ela respondeu limpando seus olhos. – Esse aqui é o meu namorado Igor. – ela apresentou seu companheiro.
– Seja bem vindo! – Nicholas o cumprimentou.
– É um prazer! – o namorado de Irene respondeu.
– Bo-che-chu-do!!! – falou seguindo até Jaime e o cumprimentando.
– Fala seu filha da puta! – Jaime cumprimentou de volta, ele tentava disfarçar suas lágrimas.
– E como vai essa perna manca sua? – o mais alto perguntou.
– Só doi quando levanto muito peso por muito tempo.
– Menos mal, quem te viu naquela cama de hospital e te vê hoje dá graças a Deus por você conseguir andar! – Nicholas falou.
– Eu tive sorte... – Jaime falou não conseguindo segurar mais as lágrimas.
– Hei, que isso? Eu também tive sorte, eu conheci todos vocês, quer sorte maior? – Nicholas tentou o acalmar.
– Isso é muito injusto cara! – Jaime exclamou.
– Está nos planos de Deus meu amigo... – Nicholas respondeu.
– Essa voz é do mais filho da puta de todos?! – aquela voz conhecida chega até os ouvidos dos presentes, Nicholas abriu um sorriso maior.
– Ah, de menor!!! – falou seguindo até o jovem, ele acabara de adentrar o terreno, viu do taxi que estava seus colegas e seguiu até lá, os presentes estavam tão concentrados que nem repararam nos carros chegando.
– Ta aí, sigam o exemplo do de menor, eu quero alegria! – ele falou cumprimentando seu colega.
– É lógico, eu não vim aqui pra chorar, vim aqui pra relembrar os velhos tempos, pra zuar plantão! E pra ser lembrado constantemente que eu sou baixinho...! Sério, eu to muito feliz em te ver! – Rafael falou.
– Depois você vai ter que me contar a história de cada tatuagem dessa! – Nicholas falou, Rafael usava uma camiseta sem mangas, era visível seus braços todos tatuados. – Parece que você virou o de menor do rock! – uma leve risada se espalhou.
– Mas se não é minha colega de zuação? Valéria! – falou seguindo até sua colega.
– Você ta com a cara ótima Nicholas! – ela cumprimentou de volta.
– Olha só quem ta ali Valéria, nossa parceira de crimes, a Irene, e olha só o tamanho da barriga dela? – Nicholas falou apontando pra sua outra colega.
– Pra você ver... Parece que esses dias serão de surpresas! – Valéria comentou forçando um sorriso, disfarçava sua tristeza.
– Garoto poste! – Paulo cumprimentou quase gritando.
– Fala comigo Paulo Guerra!? – Nicholas foi até ele e o cumprimentou.
– E aí Nicholas? – Marcelina se aproximou e o cumprimentou também.
– A mesma princesa de sempre, e aí Marcelina?! – ele a cumprimentou com um abraço caloroso.
– Olha que se continuar com isso vou ter que te dar uma lição? Mexe com a irmã dos outros não garoto poste! – Paulo falou em tom de brincadeira.
– Tirando onda como sempre, não é Paulo? – o mais alto falou em meio a risos.
– E aí Nicholas? – Evellin cumprimentou meio sem graça.
– Linda, linda, linda! – ele falou se aproximando dela e beijando suas mãos.
– Pára com isso garoto, bonita eu sei que não sou, não com essas cicatrizes enormes no rosto...
– Você é linda Evellin, nunca deixe que ninguém diga o contrário! – falou com convicção. – E como é o nome dessa gata?!
– É Antônia, é minha filha.
– Prazer senhor. – ela o cumprimentou.
– Vamos fazer um acordo, não me chama de senhor, faz me sentir velho, eu sei que não to lá essas coisas, mas não precisa escrachar também, né? Mas agora, se você quiser escrachar alguém é só chamar aquele tatuado ali de “de menor”! – falou com a jovem apontando pra Rafael, ela riu.
– Eu to ouvindo hein? Sou baixinho e não surdo! – Rafael respondeu, todos riram. De repente Nicholas olhou no horizonte e viu a aproximação de mais taxis.
– Parece que tem mais gente chegando, não é? – Renan falou com seu irmão no momento que os carros pararam. As portas do veículo se abriram, Alicia e Rebeca saíram dele.
– Se não são a garota mais skatista de todas e nossa amiga ruiva? – Nicholas foi até elas e cumprimentou cada uma com um abraço.
– E aí imitador do Michael Jackson? Dançando muito ainda? – Alicia cumprimentou de volta com um leve sorriso, mais uma que tentava esconder uma tristeza latente.
– Menos que gostaria, e você Rebeca? E esse bebezinho lindo?
– É a Cleo, já tem um ano!
– Prazer em te conhecer Cleo! – falou segurando a mão da menininha, ela riu. – E cadê o maridão? Ele não veio?
– Veio sim, ele ta no outro carro, o Lúcio e o Bernardo vão ajudar a descê-lo.
– Lúcio e Bernardo? Não me diga que aqueles dois australianos falsificados vieram? – Nicholas perguntou.
– É lógico eu sim, você acha que eu sou o tipo de cara que rejeita festa? – Lúcio falou de longe, do outro carro, ajudando Tom a descer.
– Festa é com a gente mesmo, até se for do outro lado do mundo a gente vai, e nesse caso foi do outro lado do mundo realmente... – Bernardo falou em tom de piada, Nicholas se aproximou deles.
– Há quanto tempo caras?! – falou abraçando os irmãos.
– Nicholas, você não tem ideia do quanto de coisas que eu quero te contar. – palavras animadas de Lúcio.
– Imagino, e eu quero conversar com todos vocês... E aí Tom, como você ta cara? Não te vejo desde o casamento...
– Eu to de boas, viu minha filha? Não é a coisa mais linda desse mundo?!
– Tem toda razão Tom, toda razão!
A conversa seguia bem, até que as portas do último carro se abriram, Mário saiu com seu cachorro, sua situação chamou a atenção de todos.
– Esse silêncio é por minha causa? Assim eu me sinto importante! – Mário falou em tom de brincadeira, Nicholas se aproximou dele e o abraçou.
– Que bom que você veio, os anos não foram legais pra você não é irmão?
– O quê? Fala dessa bengala e do cão guia? Isso eu tiro de letra! Se rolar um apocalipse zumbi eu serei a arma mais perigosa da humanidade! – ele fez piada. – Agora sério, o que são meus olhos perto do que ta rolando com você... Eu sinto muito!
– Não sinta, não é culpa sua, não é culpa de ninguém. – Nicholas respondeu com um sorriso. – Deixa eu adivinhar o nome desse cachorro, Rabito?!
– Caramba, desde quando você é vidente?! – Mário respondeu com outra piada, os próximos deles riram.
Nesse instante, da outra porta ela saiu, deveria ter saído antes, mas lhe faltou coragem, respirou fundo, segurou a mão de seu filho e buscou a coragem necessária pra sair do carro.
– Maria Joaquina... Você ta uma lady! – falou se aproximando e beijando as mãos dela.
– Oi Nicholas. – ela falou lacrimejando.
– Quê isso? Calma... – ele a abraçou, nesse instante viu Lavi, bastou uma olhada pra ele formular algo. – Parece que você tem assuntos mal resolvidos não é?
– Você não tem ideia, mas nada que seja tão grave quanto sua situação.
– E aí rapaz, qual é o seu nome? – ele cumprimentou o menino.
– Lavi, você que é o amigo da minha mãe que ta morrendo? – perguntou de forma direta, no instante seguinte pensou no que dissera. – Ai, desculpa, eu sempre falo antes de pensar, essa droga de cabeça minha! – frase surpreendente pra Nicholas.
– É, parece que minha suspeita tava certa... – falou com um leve sorriso.
– Nossa, mas a Maria ta linda! E olha o tamanho daquele garoto? Deve ser filho dela. – Irene falava com seu namorado, Jaime que estava longe do portão escutou tais palavras e seguiu pra confirmar com seus próprios olhos.
De longe ele a viu, seu coração palpitou forte, sua boca ficou seca, seu corpo tremeu, e o que dizer dela quando o viu senão a mesma coisa? Fazia anos que não se viam, mas parece que ainda há muita coisa mal resolvida entre eles, Jaime acenou meio que sem graça e ela retribuiu, ele olhou bem pra ela e pro garoto ao lado dela.
– Deus! – falou com suas duas mãos no rosto.
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