Na Palma da Mão de Deus

15 Como um velho amigo novamente


Notas iniciais
Um capítulo pra quem curte o mais baixinho de todos, vamos saber um pouco mais dele e da Tereza também. Boa leitura!

Capítulo 15: Como um velho amigo novamente

– Ou, Paulo, preciso te perguntar uma coisa... – a voz de Rafael adentrou aquele quarto no instante que a porta se abriu, entretanto não viu Paulo ali, somente escutou uma voz ao fundo.

– Não é o quarto do Paulo... – uma voz trêmula, a voz de Tereza que vinha do banheiro.

– Ai, desculpa Tereza, eu jurava que era o quarto que o Paulo estava... Desculpa mesmo! – ele falou muito constrangido.

– Ta tudo bem, eu deveria ter fechado a porta direito, capisce? – ela respondeu saindo do banheiro, sua voz embargada, seus olhos vermelhos, Rafael sabia só de olhar que ela estava chorando.

– Algum problema Tereza? Quer dizer, não que seja da minha conta e... Nossa eu to muito sem jeito... – tentava ser amigável, seu jeito de falar desconcertado arrancou uma leve risada dela.

– Ta tudo bem garoto, somos amigos, certo?

– Somos sim, mas agora você ta casada e com filhos... Ah, eu sou todo retardado, você sabe disso! – ele exclamou, ela riu mais. – Me arriscando a ser mais indiscreto, foi o Adriano que te fez chorar?

– Não, o Adriano é um dos anjos da minha vida! Não é ele que tem me deixado triste. – falou se sentando na cama, o jovem se aproximou e se sentou ao lado dela.

– Se a gente é amigo acho que vou arriscar a indiscrição máxima de insistir em saber o porquê que você ta chorando. – falou sorrindo, palavras engraçadas que despertaram mais risos na mulher.

– Você é uma graça sabia? A Marcelina tem muita sorte de ter você.

– Não, ela não me tem, estamos separados...

– Ela te tem sim, vocês são um do outro e isso não vai mudar... Foram quantas separações d reconciliações desde a época de escola? Umas quinhentas? – agora quem ri é ele.

– Próximo disso, bem próximo. Acho que nossa situação não tem jeito, eu sou orgulhoso demais, ela é ciumenta demais, e agora não tem mais professora Helena pra apaziguar as coisas...

– Crescer tem dessas coisas... – ela respondeu. Se sentiu confortável pra desabafar. – O que me deixa triste Rafael é a minha própria humanidade! Eu sempre fui tão independente, capisce...? – ele escutava atentamente, a princípio não entendera.

– “Capisco” mais ou menos, né? Todos somos humanos...

– Eu achava que minha independência fosse como um super poder, eu trabalho como advogada, sou mãe, esposa, não tenho medo e nunca tive de trabalho. Até então tinha pra mim, bem lá no fundo de meu ser, que eu poderia fazer o que quisesse, bastava eu buscar, eu sempre falei isso pros meninos e pro Adriano. – as palavras dela estalaram na mente dele.

– Sei, daí você reencontra o Nicholas na situação atual e bate aquela total situação de impotência, correto?

– Como Rafael? Como uma pessoa como ele pode estar morrendo? Como uma pessoa como ele pode estar falecendo com um sorriso daqueles no rosto? Eu jurei me manter firme, até porque o Adriano sempre teve os sentimentos a flor da pele, jurei ser uma fortaleza pra segurar ele e os meninos, mas ver o sorriso do Nicholas me destruiu completamente! – as lágrimas voltaram. Rafael ficava apreensivo, procurava por algo pra limpar as lágrimas dela mas não via nada útil em seu campo de visão.

– Tereza, você não é uma fortaleza, nenhum de nós é. Eu disse e repito, nós somos humanos. Nós temos os direitos de sorrir, chorar, brincar, amar, errar... Pode parecer ruim mas é bom ser assim, não se recrimine por estar triste pelo Nicholas!

– Não é que me recrimino, é que... Se o Nicholas não derrama lágrima alguma eu faço por ele...

– Um dos seus meninos tem o nome dele... – Rafael tentava puxar um assunto diferente, queria trazer os sorrisos dela de volta.

– Sim, é uma história longa...

– Sou todo ouvidos. – o sorriso bobo dele a reconfortava. Era no mínimo curioso pra ela aquele momento, de novo ela desabafando com Rafael como na época da adolescência, e de novo Nicholas era o foco de sua tristeza, era como se a vida estivesse numa espécie de círculo dando voltas e mais voltas.

– Bom, quando eu me reencontrei com o Adriano, depois da faculdade, reatamos o namoro, depois de um tempo noivamos e casamos, Nicholas foi um dos padrinhos do casamento... Eu e o Adriano tentamos por algumas vezes ter filhos, mas eu não engravidava. Não era um sonho ou expectativa de vida minha ser mãe, mas sendo o Adriano o pai, sendo um desejo dele, também se tornou um desejo meu, capisce?

– É estranho pensar o quanto você gosta dele. – Rafael opinou.

– Às vezes nem eu entendo... Depois de incontáveis tentativas resolvemos procurar um médico, pensei que pudesse ter algo errado comigo, mas na verdade era ele que era infértil.

– Uou, imagino que ele não recebeu bem essa notícia. – a surpresa estava estampada na face do menor.

– E não recebeu mesmo, naquela época ele ficou muito, mas muito triste. Aos poucos eu o via se perdendo mais e mais na própria tristeza... Eu acho que ele tava se sentindo um incapaz, achava que o fato de não poder me dar filhos me deixava infeliz, mas não era assim que eu me sentia, Rafael. Sim, eu queria ter um filho dele, mas não ter não era o fim do mundo pra mim.

– Sim, claro. A tristeza maior dele era pensar que você estaria infeliz sem filhos, ou algo assim... Compreensível.

– Ele queria muito ser pai, muito mesmo! A decepção de não conseguir ser pai com o imaginar que eu ficaria triste por não ser mãe tava matando ele aos poucos. Mas foi aí que ele apareceu. A campainha tocou e ele entrou, sempre carregando aquele sorriso. Me lembro como se fosse ontem da conversa deles:

“ – E aí locão? Cara seu rosto ta ótimo!” – ele falou pro Adriano. O rosto dele não estava ótimo, estava horrível. O Adriano estava deitado na cama, de pijamas a tarde, estava com olheiras enormes.

“ – E aí? Velho, to meio sem ânimo pra conversar hoje.” – ele respondeu cortando qualquer possibilidade de qualquer coisa, mas o Nicholas respondeu:

“ – Conversa?! Não to afim de conversar, levanta daí que a gente vai ralar hoje, e em pleno fim de semana. Tem algo melhor que ralar no fim de semana?” – ele tava fazendo alguma das piadas dele, mas essa tinha um fundo de verdade que eu descobriria depois.

– Essa piada foi bem estilo Nicholas... Mas o que aconteceu depois? – ele estava muito curioso.

– Ele convenceu o Adriano a sair da cama e nos levou a um orfanato, ele nos convidou a fazer trabalho voluntário lá. Será que você já viu a vida voltar a um ser humano? Eu presenciei, a vida de meu marido voltava a cada sorriso daquelas crianças. A cada história que ele contava pra elas, cada brincadeira que ele compartilhava com elas. Eu o via voltando a cada momento dele ali, ele estava feliz de novo!

– O Nicholas conhece bem o Adriano no fim das contas...

– Teve um dia, um dia em especial, o Nicholas ligou pra nós, pediu pra nos encontrarmos com ele no orfanato. Quando chegamos lá ele nos mostrou aquele garoto, um bebezinho, um menino deixado pela mãe, um garoto que nascera cego de um olho. Foi amor a primeira vista, os olhos do Adriano brilhavam mais que diamantes. Ele jura que o garoto sorriu pra ele naquele dia. – ela falou sorrindo, estranho pois algumas lágrimas teimavam em descer.

– Então, de comum acordo, vocês decidiram adotar o menino. – Rafael concluiu.

– E de comum acordo demos a ele o nome de Nicholas, a felicidade nunca mais deixaria Adriano.

– Nunca mais deixaria nenhum de vocês dois! – Rafael falou segurando as mãos de Tereza. – Imagino o quanto você sofreu pelo seu marido, sei o quanto se sofre por ver alguém que se gosta sofrer...! Você tem dessas coisas, momento algum você se citou, ou citou suas frustrações ou seus problemas, você não é uma fortaleza moça. – ele falou de modo carinhoso.

– Que momento psicologia é esse, Rafael? Não me diga que você fez faculdade nessa área?! – ela falou mais tranquila, parece que a capacidade ouvinte de Rafael a ajudou.

– Eu?! Nada, isso é a convivência com o Paulo, mas sabe que seria uma boa se eu tivesse feito faculdade? Talvez tivesse em melhor situação.

– Como assim? Ragazzo, agora é você que vai falar comigo! – ela apertou as mãos dele.

– Nada de mais, você já leu “A crônica do último amigo vivo”? Pode responder que não, quase ninguém leu...

– Ta brincando comigo?! Você conhece esse livro?! É uma das histórias mais maravilhosas que já li! Quem me dera algum dia conhecer o autor! – ela falou empolgadíssima.

– Bom, você já conhece e há muito tempo, sou eu. – um momento de pausa na euforia dela, por um instante perdeu a capacidade de falar.

– Você?! Não, o autor é um tal de Rafael Barachio...

– É um nome artístico, a editora sugeriu e eu acatei... Mas sou eu, eu carne e osso, mais carne que osso, algumas banhas localizadas como você pode ver... Carne, osso e tatuagens!

Ragazzo?! Você escreve como... Como... Não sei explicar, mas é incrível! – ela falou muito empolgada se levantando.

– Muito obrigado pelo elogio, mas meu livro não vendeu assim tão bem...

– Mas isso é uma injustiça! Eu sei o quanto esse livro é bom!

– A editora falou pra eu colocar mais cenas explicitas de sexo, falou que isso vende, mas eu não vou fazer isso! Nunca! Não é essa a proposta das minhas histórias! – tinha um tom de revolta na voz dele.

– Eles chegaram a ler a história? Porque não faz sentido essa posição deles, essa proposta não se encaixa em nada no enredo.

– Eu sei, foi o que eu falei... Foi o que eu falei antes de sair de lá. Ainda bem que pedi uma cláusula de demissão no contrato, caso contrário teria que pagar uma super multa... No momento estou desempregado e sem ideias pra escrever...

– Continua seguindo suas ideias, Ragazzo! Essa editora não sabe o que faz! Agora, com certeza, suas ideias vão voltar, sim porque escritores com a sua qualidade sempre tem ideias ótimas!

– Deus te ouça!

– Você tem qualidade, eu sei porque devorei com os olhos cada capítulo daquele livro, você terá mais sorte com sua arte, tenho certeza!

– É engraçado, eu achava que tava com problemas enormes, mas aí eu recebi a carta do Nicholas e meus problemas ficaram pequenos. – falou sem pensar, viu um pouco de tristeza voltar a sua colega. – Não, Tereza, você tem o direito de estar triste como já discutimos. Mas você feliz é outro nível! Vem comigo! – falou a puxando pra fora do quarto.

– Onde você ta querendo me levar?

– Sabe o que eu vi mais cedo? Uma casa de jogos! Aposto que lá tem daquelas máquinas de dança! – falou animado e viu a felicidade voltar ao rosto dela, com boas doses de nostalgia diga-se de passagem.

Dio mio! E você acha que a gente ainda consegue fazer alguma coisa numa daquelas? – ela pergunta de forma engraçada.

– Claro que sim! To velho, tatuado e semifracassado na vida, mas ainda sou mestre naquelas máquinas de dança! – ela riu do comentário dele.

– Daquela vez eu ganhei fácil, eu lembro bem senhor mestre! – ela provocou. – A propósito, você ta bem pra frente com essas tatuagens! O que houve com o garotinho que eu conheci? – ostentava um tom de piada.

– Ele cresceu, mas não tanto, continuo... Baixinho... Mas enfim, vamos logo. Dançar melhora o apetite pro almoço! – falou de forma divertida, ela ria de gargalhar, realmente, como daquela vez ele conseguiu a acalmar, ele conseguiu ser o mesmo Rafael que ela se lembrava apesar das mudanças, ele foi seu velho parceiro do trabalho em duplas, foi seu velho amigo novamente.

Notas finais
Doses master de nostalgia, espero que tenham gostado do capítulo. Até a próxima!