Na Noite
1 Lute!
Notas iniciais
Até as notas finais.
O vampiro corria alucinado pelas ruas vazias e sujas da cidade; seu pulso disparado. Há segundos apenas havia sido atacado por, pelo menos, dez outros vampiros. Obviamente havia sido avisado de uma possível guerra, mas não deu muita importância ao fato. Depois de sua horrível falha, nada mais importava.
Magno estava ferido; gravemente ferido. Após matar e queimar os inimigos que enfrentara, perdeu tempo o suficiente para ouvir um outro grupo chegando. Ele certamente não sobreviveria. Porém, este grupo opositor poderia deixar seu corpo ao relento para os humanos descobrirem sua existência, e, não bastasse o mal que Magno já havia causado, ele não permitiria que outra catástrofe se abatesse sobre seu povo. Pela quantidade de sangue que já havia perdido — todo seu jantar derramado no chão, onde o confronto ocorrera – não lhe restava muito tempo. Se esconderia, se pudesse, e morreria em paz, longe do sol e do perigo de ser encontrado.
Debilitado, encontrou uma casa bem afastada, aparentemente abandonada — nenhum ruído era ouvido. Entrou e, exausto, se atirou no chão mesmo. Com a consciência se esvaindo junto a qualquer pensamento coerente, ele pensou ouvir barulhos. Imaginou que fosse o outro grupo opositor. Não conseguiu se mexer para lutar, seus membros estavam tão pesados quanto suas pálpebras. Um breve pavor perpassou sua espinha. O que aconteceria quando o vissem ali, desmaiado? Despedaçariam seu corpo? Queimariam? Ou apenas jogariam sua carcaça em uma esquina qualquer, como ele achava que fariam? Era difícil prever suas ações. Seus pais ficariam destroçados.
Como uma música distante, o vampiro ouviu uma voz aguda gritando algo ininteligível. Pôde escutar sons de batidas, rosnados, o som agourento de sangue pingando no chão. Um ploc que soou horrivelmente como uma cabeça decepada despencando de um pescoço aberto. Mais gritos. Semi acordado, Magno sentia-se em meio a um sonho ruim, um espiral de horror onde havia machados e monstros grasnando e rugindo, rindo de seus pecados e sua culpa. Não sabia o que estava em sua mente; o que era realidade.
De repente, um som molhado e uma ardência estalou em sua face.
Plaft!
Uma voz estridente soou.
Plaft!
Algo escorreu por sua bochecha em direção ao ouvido.
— Acorda! Pode acordar agora! Não vai morrer no chão onde estou dormindo! – Plaft!
A mente de Magno começou a desanuviar. Seus sentidos estavam mais claros, mas ainda não conseguia abrir os olhos. No entanto, confiou nos outros sentidos. Seus ouvidos captavam um batimento cardíaco frenético, nem um pouco parecido com os de um vampiro. Algo ainda gotejava, mas agora o príncipe conseguia ouvir o som tão alto como se estivesse ao seu lado. Havia cheiros. Seus sentidos enlouqueceram.
Morte.
Vampiro.
Podridão.
Sangue.
Sangue humano fresco e vivo, rico. Era floral e misturado com sujeira e suor, mas nem por isso menos apetitoso. Agora ele sentia a forma suave e pulsante sentada sobre seu quadril.Escutava o correr do vermelho pelas veias delicadas da mirrada criatura. Abriu um dos olhos com dificuldade e notou a silhueta. Estava certo. Era pequena. Deveria ser uma mulher, pelo tamanho e as curvas.
A humana continuava a agredir-lhe o rosto, mas quando viu que ele reagia, aproximou-se para ver se respirava direito. Grande erro.
Todos os instintos de Magno rugiram. O desejo de sobrevivência. O desejo por sangue. Aquele sangue. E inesperadamente, quando ela colocou o braço sobre seu peito para checar os batimentos, ele agarrou o membro esquelético dela e mordeu. Engoliu o jorro arterial com prazer, fazendo sons de sucção.
A humana era desnutrida, podia-se perceber pelo sabor. O gosto perdia para o cheiro, mas tinha vida, e era o que importava no momento. Magno quase pôde ouvir sua ferida se fechando, seus próprios batimentos ficando mais fortes, sua mente recuperando a força. Talvez a proximidade com a morte tenha lhe feito valorizar as pequenas sensações que cada gole proporcionava.
Embora tivesse controle sobre todo o corpo novamente, o êxtase impediu-lhe de olhar sua presa, mas quando percebeu que a menina lutava contra seu domínio, encarou-a. A expressão dela era feroz. O pequeno braço estava dilacerado pelos dentes dele, mas ela continuava a brigar. Os cabelos emaranhados estava grudados no rosto moreno e pescoço não só pelo suor, mas pelo sangue — de quem, o vampiro não sabia ainda.
Já recomposto, se assustou com a brutalidade incomum de seu ato e soltou a garota. Iria se desculpar, mas era tarde.
Virgínia havia desmaiado.
…
A pequena menina de rua – pelo menos parecia uma menina por seu tamanho diminuto – andava em direção à construção abandonada onde residia por aqueles dias. Era um lugar aparentemente seguro, pelo menos não havia sido expulsa por nenhum outro mendigo. Virgínia estava satisfeita, pois, dessa vez, conseguira roubar uma boa porção de comida e não teve que compartilhar com ninguém. Pela primeira vez em duas semanas sentia a sonolência de estar bem alimentada.
Ela se esquivava pelas ruas, tentando evitar ser vista – e seguida – quando percebeu que seu dia de sorte acabava ali. Há poucos metros de casa viu um grupo seguindo velozmente em direção à cabana. Pelo modo suave de se mexer, Virgínia soube que não eram humanos procurando por abrigo. Ela já havia visto antes o tipo deles. Rápidos, letais, implacáveis. Se aproximavam dos indefesos e sugavam-lhe as vidas como se fosse nada.
Obviamente aqueles homens não estavam ali para uma reunião em família, No mínimo, alguma outra pessoa havia invadido o terreno que ela havia tomado antes e os monstros seguiram-na em busca de alimento. O coração da pequena mulher quase parou ao pensar na possibilidade de ser uma criança. Outra a ter sua alma roubada por um demônio. Ela não permitiria.
Sabendo que o fator surpresa seria sua única chance, ela procurou pelo facão que carregava debaixo dos trapos que usava. Era quase tão grande quanto uma espada e talvez mais afiado, mas as roupas largas escondiam bem o suficiente. Ela chegaria silenciosamente, algo em que era boa, e atacaria sem pensar, seguindo os instintos que, desde que saíra de casa, percebeu, eram sua maior chance de sobrevivência nas ruas.
Enquanto sorrateiramente se esgueirava pelos lados da casa, se perguntou porque estava arriscando a vida daquela forma. Pelo que pôde contar de longe eram cinco demônios grandes. Ela não sabia o que eram de fato, nem se tinham gênero, mas chutaria que eram homens. Em uma circunstância normal não haveria nenhuma chance para ela. Porque estava fazendo aquilo?
Não era nem um pouco fã da humanidade, no geral. Seus pais a abandonaram porque não podiam alimentar tantas bocas e ela era a que mais dava problemas. Depois que fora parar nas periferias, percebera uma miséria ainda pior do que a que vivia dentro de casa. Via crianças, mulheres e rapazes apanhando por procurar o que comer, por poluir as ruas, assim como ela. No entanto, ela não se deixava pisar, era uma guerreira de espírito e se rebelava contra os maus tratos para valer. Com chutes e mordidas e socos e, recentemente, apenas, adquirira a faca. E os outros pobres coitados abaixavam a cabeça, conformados com o destino cruel.
Ela odiava-os.
Odiava a autopiedade, a conformidade deles. Então porque estava arriscando a própria vida?
Ora, Virgínia, pense direito! Existe uma grande possibilidade de não haver ninguém ali e os demônios estarem apenas procurando um lugar para fazer alguma atividade de demônio, pensou consigo mesma. Com certeza demônios também tem rituais religiosos. E aí você vai lá para atrapalhá-los e terá sua garganta rasgada!
Isso era sua mente, sua parte racional, tentando convencê-la a desistir. Contudo, a memória do corpo esquelético e faminto da menininha engasgando com o próprio sangue, o terror nos olhinhos desesperançados ardia em seus próprios olhos como se tivesse sido ontem. E, por mais que desprezasse as pessoas por quem estava rodeada com todo seu coração, não podia deixar de sentir pena. Que sentimento ingrato!
Não eram os humanos, afinal, mais fracos que os demônios? Os pobres mais fracos do que os ricos? Que voz tinham? Que esperança podiam cultivar em meio ao caos por que estavam rodeados? Obviamente Virgínia achava que morrer lutando era melhor do que viver uma semi vida como eles, mas um homem – sua aparência era jovem, mas seus olhos mais sábios do que ela jamais imaginaria – que conhecera há não muito tempo dissera-lhe que esse tipo de pessoa deveria ser a mais protegida. Fortalecida através de boas ações para que se tornasse forte e orgulhosa. E como a mulher naturalmente forte que nascera, era dever de Virgínia guardar e zelar por eles. E, intimamente, era como ela se sentia. Responsável.
Quantas vezes não compartilhara sua comida, apesar de sentir raiva da inércia dos outros? Os pais que não faziam questão de correr atrás de algo para seus filhos. Nem para os filhos! Não que fosse algo tão surpreendente, uma vez que ela própria havia sido descartada, mas isso não a fazia menos revoltada, no final das contas.
Não queria se sentir culpada por deixar alguém com alma e com chances de sobreviver, de lutar, morrer.
E não iria.
Mais calma por ter claro os motivos pelos quais estava colocando-se na linha de frente, Virgínia seguiu em frente. Apertou o passo, ou chegaria atrasada novamente. Percebeu o grupo entrando. Era estranho… ela podia quase cheirar a excitação deles, a euforia. Era palpável no ar. Deveria ter alguém bem suculento lá dentro, pensou morbidamente.
E, antes que o primeiro deles pudesse atacar, ela fez. Com um grito cheio de coragem, se lançou sobre o grupo. Não fechou os olhos, mas parecia que tudo tinha sumido ao seu redor. Todos os seus sentidos se voltaram para cada um de seus oponentes. O primeiro foi decapitado. Ploc! Fez sua cabeça caindo no chão. O segundo não demorou a atacar, e Virgínia nem percebeu o próprio movimento, mas arrancou-lhe o braço. O sangue quente jorrou sobre ela. A sensação da carne sendo fatiada, o prazer da justiça, sua justiça, a impedia de controlar o animal que ela soltara.
O terceiro demônio atacou, arreganhando os dentes pontudos – presas – para sua jugular, mas Virgínia se aproveitou de sua baixa estatura e passou por debaixo do cotovelo dele, arrancando a perna e, em seguida, mirando o coração, se é que ele tinha um, aproveitando o impulso para apunhalar o quarto parceiro na garganta. O segundo ser do inferno, junto ao quinto e último, resolveram cercá-la e avançaram juntos. Virgínia rolou pelo chão empossado, aterrissando perto do que ela julgou ser o alvo principal de seus oponentes, e arrancou o outro braço do vampiro, para, pela segunda vez em sua vida e, se Deus quisesse, a última, apunhalar seu coração. O choque do outro a permitiu liquidar o último dos demônios.
Virgínia parou. Sua pulsação a ensurdecia. A fera dentro dela, a que ela não sabia ser tão poderosa até aquele momento, ainda rugia em seus ouvidos. A satisfação que corria em suas veias a assustou mais do que a brutalidade de seus atos. Seus instintos sempre foram selvagens, afinal.
Um pouco mais calma, ela se voltou para o imenso humano deitado no chão, com o tronco ensanguentado. Estava claramente ferido, mas o leve movimento de seu peito dizia que continuava preso à vida. Era um homem, claramente. Virgínia tinha que admitir que os monstros não estavam atrás de qualquer coisa mesmo. Pelo tamanho estendido pelo chão, diria que o jovem rapaz deveria ser mais de trinta centímetros maior que ela. Forte e, mesmo machucado, parecia bem cuidado. Um nobre.
A pequena humana não sabia o que um tipo como ele estava fazendo naqueles arredores. Talvez fosse o dono da casa reivindicando-a. Naquele momento, ela não queria saber. Precisava mantê-lo acordado. E foi quando deu o primeiro tapa.
Plaft!
O bonito rosto, cheio de traços aristocráticos, agora estava sujo de sangue de demônio. Ele não reagiu.
— Merda! – guinchou.
Plaft!
O vermelho agora escorria pela orelha e pescoço dele.
— Acorda!
Virgínia começou a se desesperar. Estava perdendo-o.
Tudo teria sido em vão.
Sentou-se em seu quadril.
— Pode ir acordando! Não vai morrer no chão onde estou dormindo! – Desceu a mão no rosto já sujo outra vez. E de novo.
Até que ele reagiu.
Virgínia voltou a respirar, aliviada. Nem sabia que prendia a respiração. Aproximou-se de seu peito para checar os batimentos dele, mas foi seu maior erro. Uma queimação horrível atingiu seu braço direito. E, apavorada, viu que o membro esquelético estava na boca do homem que tentara salvar.
Ele era um deles.
Um demônio.
Era uma armadilha.
Enlouquecida, Virgínia tentou se soltar desesperadamente. Pulara na boca do lobo – literalmente. Ele sugava ferozmente e, por mais que ela tentasse, não conseguia se soltar do aperto férreo de seus dentes e braços musculosos. Sentia a vida se esvaindo e, o pior de tudo, a morte se aproximando.
Virgínia não queria morrer!
A escuridão espreitava. A frieza a abraçava, mas sua última visão a encantou. Eram olhos. Os mais bonitos.
Vermelhos.
Negros.
Uma mescla dos dois. E, mesmo no mais terrível escarlate do olhar do monstro, ela não viu frieza. Viu calor. Se encantou com a profundidade deles e aceitou a morte de forma derrotada, mas feliz por ver a beleza antes do derradeiro fim.
…
Magno contemplou o delicado corpo deitado no chão. A menina, mulher, poderia dizer, parecia quebradiça, mas era uma leoa feroz. Ele fora bruto e se arrependia, porém, pelo menos, curara seu braço.
Ela lutara com tanta garra que o impressionou. Perguntou-se porque ela lutava tanto pela vida miserável que levava, uma vez que ele próprio não se importava com seu fim, quando tinha um mundo todo à sua disposição. Merda! Como uma humana pudera fazê-lo questionar suas próprias ações, sua própria infelicidade apenas por estar viva? Ou melhor, por se agarrar à vida?
Magno sorriu levemente.
Estava partindo. Voltando para casa, mas infinitamente mais forte. A pequena conservaria apenas as lembranças. Um pesadelo, ele bem sabia. Mas nada além disso. Seria como se aquele dia não tivesse existido, pensou com pesar, contudo sua memória ficaria marcada a ferro pela corajosa humana sem nome.
Talvez um dia se encontrassem. Se isso acontecesse, ele lhe agradeceria por devolvê-lo a vida.
E, mais importante…
A esperança.
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