Na Mira do Vampiro

21 Era uma vez uma alma penada


Um dia depois do incidente da funerária, Toninho, durante o recreio na escola, jogava bafo-bafo com os colegas de turma. Estranhamente, Duda não estava presente. Ele ficara na sala de aula confabulando com sua consciência algum plano mirabolante para a próxima investida contra o vampiro.

— Que que foi, Duda? Você está doente? — perguntou uma de duas colegas de classe.

Duda era muito querido pelas meninas, que disputavam sua atenção de diversas formas.

Depois de passar algum tempo rabiscando figuras sem sentido no caderno, levantou-se e saiu da sala. Passeando pelo pátio do colégio, viu Toninho no meio dos outros garotos. Tirou-o da roda para falar-lhe.

— Peraí, Duda, logo agora que eu tava ganhando.

— Só vim avisar que vai ser hoje à noite, entendeu?

— Entendi — respondeu Toninho mecanicamente, já voltando para o grupo. Parou de repente. — Vai ser hoje à noite o quê? — indagou, virando-se para Duda.

— Eu não te falei que nós íamos fazer uma visitinha ao vampiro, Toninho?

Toninho foi saindo de fininho, sem dizer nada. Duda segurou-o pelo braço:

— Ouviu, moleque?

— Não. O que você falou entrou por um ouvido e saiu por outro...

— Pois eu acho bom os seus ouvidos guardarem bem o que eu vou dizer: nós vamos lá na funerária depois da aula! — afirmou Duda, autoritário.

— Ah, é? Como é que nós vamos lá na funerária depois da aula? Sua mãe deixou? — Duda fez que não com a cabeça. — Por um acaso sua vó vai levar a gente lá de novo? — Duda voltou a negar. — Então nós não vamos na funerária...

— Você não reparou que o lanche veio caprichado hoje? — perguntou Duda, enigmático.

— Claro! Eu já devorei ele todinho — respondeu Toninho, com uma careta que significava que ele estava empanturrado.

— Azar o seu, porque hoje nós vamos ficar depois da hora para jogar bola e aí você vai sentir fome — sentenciou o garoto.

— Mas nós não avisamos...

— Eu avisei a minha mãe, sim, garotão! — esclareceu Duda. — Fica frio, a sua mãe também já sabe.

— Acontece que o time, por acaso, não vai jogar hoje! — retrucou Toninho, mal-humorado.

— Mas acontece, também, que nós não vamos precisar dele, espertinho — replicou Duda no mesmo tom.

— Como?

— É isso mesmo. Nós vamos aproveitar a desculpa do jogo pra ir lá na funerária investigar...

— Você não fez isso... — comentou Toninho, espantado.

— Fiz e já está tudo arranjado — disse Duda.

— E como é que nós vamos chegar lá? — perguntou Toninho, ignorando que o amigo havia planejado tudo muito bem.

— Deixe comigo! Eu tenho o endereço! É só a gente pegar um táxi aqui na esquina. Simples, né?

— Simples! — Toninho tentava ridicularizar o amigo, imitando seu jeito de falar. — Mas imagina se a sua mãe liga para cá para saber se nós estamos jogando bola mesmo e alguém diz que nós fomos embora, como é que vai ser?

— Isso não vai acontecer — retrucou Duda seguro de si. — Eu disse a ela que o telefone da escola estava quebrado e não ia adiantar tentar ligar pra cá.

— E se ela quiser confirmar? — replicou Toninho, querendo pegar Duda na contradição.

— Eu tô dizendo que ela não vai ligar.

Duda realmente parecia dominar a situação, e o fato de Toninho ser dotado de incrível senso prático não era suficiente para desmontar o planejamento do amigo.

Toninho, ainda desconfiado, perguntou:

— Como é que você tem tanta certeza disso?

— Digamos que se trata de intuição de investigador...

— Quê?!

— Ela tem um motivo muito forte para não ligar para cá...

— Qual? Por acaso ela confia em você? — indagou Toninho, irônico.

— Muito pelo contrário! Só que ela não se dá com a secretária do colégio. As duas já discutiram uma vez, por isso eu tenho tanta certeza. Ela vai preferir mil vezes confiar em mim. Minha mãe é muito orgulhosa, Toninho! E como nós jogamos bola de vez em quando mesmo, ela não vai duvidar da minha palavra.

— Certo, gênio, mas temos outro probleminha. Com que dinheiro nós vamos pegar o táxi?

— Você não sabe que eu tenho uma caixinha de economias para emergências?

Toninho confirmou com a cabeça.

— Então — continuou Duda -, chegou a hora de abrir o cofrinho.

— E quem te falou que eu vou concordar com essa história?

— E aquele vaso da minha mãe que você quebrou na semana passada, lembra? Eu dei um sumiço nele para ela esquecer...

— Se você deu um sumiço nele, ela não vai acreditar em você.

— E se eu mostrar os pedacinhos que guardei? Será que ela não vai reconhecer o próprio vaso?

— Pô, Duda, isso não se faz...

Toninho afastou-se espumando de raiva. Duda havia lhe preparado uma arapuca, e agora teria que ajudar no caso do vampiro.

Duda dirigiu-se à sala de aula.

Quando Toninho se preparava para recomeçar o jogo, soou a sineta indicando o final do recreio, e ele voltou à aula mais furioso que nunca. Motivo: fora obrigado a repor todas as figurinhas que conquistara por ter desistido do jogo antes que o sinal tocasse. A molecada tinha certas regras que não podiam ser desrespeitadas.

Fim de aula. O tumulto das crianças saindo das salas parecia não ter fim. No meio do bolo, Duda e Toninho caminhavam juntos.

Quando passavam pela cozinha da escola, Toninho parou e disse:

— Aguenta aí um instante só que eu vou lá dentro e já volto.

Toninho entrou na cozinha.

— Vamos — falou ele, retornando dois minutos depois.

— Que que você foi fazer lá dentro? — indagou Duda, curioso.

— Nada, não; fui dar um recado da minha mãe para a Maria.

— Ela não pode ver a gente saindo... — comentou Duda, preocupado.

— Ela não vai ver nada. Está ocupada lá com o trabalho dela. Vamos nessa...

Maria, a cozinheira da escola, era muito amiga de Neusa, mas isso não indicava qualquer solução para aquele mistério.

Os dois garotos foram até a esquina da rua da escola e tomaram um táxi.

Durante a viagem, em que os dois pensavam cada qual numa coisa, Toninho, estourando de curiosidade, perguntou:

— Você quer me contar como nós vamos entrar naquela porcaria de funerária?

— Quieto, Toninho, o motorista pode ouvir! — e continuou, baixinho: — É lógico que nós não vamos poder entrar pela frente da loja, como qualquer freguês, porque ela já vai estar fechada quando a gente chegar lá. Mas mesmo que não estivesse, a gente não ia poder encarar o criado do vampiro com a maior cara de pau e dizer que nós estávamos ali para matar o mestre dele... O que nós vamos fazer é estudar as possibilidades de entrar com a loja fechada, o que vai ser muito mais difícil. Pra isso, vamos ter que examinar o lugar com cuidado...

— Muito bem, gênio — ironizou Toninho -, e o que você leva nessa mochila aí?

Duda retirou alguns pedaços de madeira afiados numa das pontas como punhais e os mostrou rapidamente a Toninho, depois voltou a guardá-los.

— E o que a gente vai fazer com isso, Duda?

— Tá na cara, Toninho! Esses paus são as tais estacas. Você só consegue matar um vampiro enterrando uma estaca dessas no peito dele. Há outras maneiras, claro, mas essa é a mais simples. Você o surpreende quando ele estiver dormindo, encosta a ponta afiada no peito dele e dá uma paulada com bastante força para enterrar bem fundo. Aí, enterrando a estaca, adeus vampiro. Era uma vez uma alma penada. Na hora você vai ver como se faz...

Mal acabou de dar sua explicação técnica, o táxi chegou ao local. Os dois matadores de vampiros saíram do carro e seguiram para seu destino: a funerária.