Na Mira do Vampiro
24 A vingança do vampiro
— Um momento, vocês dois! — gritou Ferretti para Cristóvão Lee e Paco, que já entravam na loja.
— Quem apagou a luz? — perguntou Elias, vindo logo atrás dos três.
— Ninguém! — respondeu Duda, preocupado, entrando na loja ao mesmo tempo que Toninho. — Ela estava acesa...
A claridade do salão não era suficiente para iluminar a loja, e antes que eles pudessem se movimentar em direção ao interruptor, as luzes foram acesas novamente.
— Boa noite, senhores — disse Kriegel no seu tom seco de sempre, sentado atrás da escrivaninha.
Toninho empalideceu. Tentou dizer alguma coisa, mas perdeu a voz.
Duda, finalmente, estava diante do vampiro.
Alberto Kriegel trajava um smoking fino e usava uma capa preta com o verso vermelho. Seus cabelos estavam penteados para trás e besuntados de brilhantina, a maquilagem realçava sua pele branca, e tinha as suíças grisalhas. Tudo fazia lembrar o próprio príncipe das trevas.
Ferretti, estático, com o revólver apontado para Cristóvão Lee, fez menção de movê-lo na direção de Kriegel, porém o homem logo preveniu o policial:
— Eu não faria isso se fosse você...
Tião pigarreou atrás deles. Todos olharam para trás; então, ele deu um tapinha carinhoso na metralhadora e sorriu debochado para os policiais.
Ferretti, recuperando o autocontrole, disse:
— Eu também poderia acertá-lo facilmente dessa distância.
— Então morreríamos todos — rebateu Kriegel, imperturbável. — Mas não creio que você quisesse esses guris mortos...
Ferretti e Elias abaixaram a guarda.
— Agora tragam os revólveres até aqui e coloquem nesta mesa; depois, voltem lá e soltem meus homens — ordenou Kriegel sem se mexer.
Os policiais obedeceram prontamente.
Logo que foram soltos, Cristóvão e Paco procuraram apropriar-se dos revólveres dos policiais.
— Que roupa mais esquisita, chefe! — observou Cristóvão, aproximando-se de Kriegel. — Aonde o senhor vai vestido assim?
— Prenda os policiais — voltou a ordenar Kriegel, sem dar atenção a Cristóvão.
Duda e Toninho fitavam-no petrificados.
Tião, saindo de trás dos policiais, com o dedo no gatilho, pôs-se a estudar os prisioneiros, particularmente os meninos, enquanto Cristóvão e Paco algemavam Ferretti e Elias.
— Estão pensando que eu não reconheci vocês, seus moleques? Agora vocês vão ver o que é bom pra tosse... — ameaçou Tião.
— Você conhece esses guris, Tião? — perguntou Kriegel, impassível, detrás da escrivaninha.
— Esses dois moleques estiveram rondando o prédio há três dias e aquele policial foi o que veio investigar o apartamento na mesma tarde em que fizemos a mudança.
— Eles não irão nos aborrecer mais — assegurou Kriegel.
— Eu não teria tanta certeza — garantiu Ferretti. — Há outros policiais investigando o caso do vampiro...
— O que esse sujeito está falando? — perguntou Kriegel, intrigado.
— Eles pensam que nós temos alguma coisa a ver com os assassinatos do vampiro — explicou Cristóvão.
Alberto Kriegel soltou uma estrondosa gargalhada e falou:
— Ora essa, seus idiotas, vocês se enganaram.
— Eu acho que é por causa da roupa, chefe — voltou a observar Cristóvão.
— O mais engraçado dessa história toda é que a minha intenção foi mesmo ficar parecido com o conde Drácula — disse Kriegel descontraindo-se, esquecendo por instantes sua frieza.
— Por quê? — insistiu Cristóvão.
— Porque depois que nós acabarmos nosso trabalho aqui, eu irie a uma festa a fantasia na casa de amigos.
— Cuidado, chefe! Seus amigos podem pensar que o senhor é o vampiro do Rio — brincou Tião.
Todos os membros do bando riram à vontade da piada.
Ferretti, Elias e os meninos, ao contrário, não pareciam muito contentes.
— Não acredite nele, Ferretti! — advertiu Duda. — Esses vampiros são uns farsantes.
— Chega de brincadeira agora — disse Kriegel, voltando ao seu permanente estado de morbidez.
— Por que você não conta quais são as provas que tem contra eles? — sussurrou Duda para Ferretti.
O policial repreendeu o garoto com um cutucão, mas isso não adiantou, o vampiro ouvira:
— É uma boa ideia. Faça o que o guri sugeriu.
Ferretti hesitou, então Kriegel ameaçou:
— Fale ou você morre agora, na frente dos meninos.
— Bem — principiou o policial, olhando furioso para Duda -, depois que eu estive no apartamento e constatei que a mudança tinha sido feita, juntei o fato ao que os meninos contaram sobre os cadáveres da velha e de uma jovem e às notícias dos jornais também. Dois dias depois, resolvemos investigar a oficina la na avenida Fontenelle. A porta estava arrombada, por isso não tivemos dificuldade de entrar. Vasculhamos toda a oficina. Não encontramos nada, mas o Elias notou umas pegadas frescas marcadas na terra, nos fundos da casa... Seguimos as pegadas, que terminavam de repente no meio de umas árvores... Chegamos a conclusão que alguém tinha escavado o local, então voltamos a cavar. Foi quando encontramos o caixão com a jovem... Ela era exatamente como eles a descreveram, loira e toda vestida de branco, mas não tinha os dois furos característicos das vítimas do vampiro. Aí, passamos a vigiar a funerária, até que os garotos apareceram...
— Ué, eu pensei que tinha sido...
— Silêncio, seu moleque abelhudo! Senão eu enterro você vivo junto com aquela moça! — Tião ameaçou Toninho.
— Que velha é essa que os meninos disseram que estava morta? — perguntou Kriegel, curioso.
— Esse cara aí disse que tinha uma velha morta no 201 — declarou Duda, apontando para Tião.
— Que velha é essa, Tião? — Kriegel queria saber de qualquer jeito.
— Ah, é a Da. Catherine, a dona do apartamento. Eu inventei aquela história para despistar o garoto que estava enchendo o saco lá na portaria, dizendo que tinha visto um caixão entrar no edifício...
— Fez bem — disse Kriegel, seco como sempre. — Quer dizer que vocês acharam a minha ex-secretária?
— Secretária?! — exclamou Duda, surpreso.
— Exatamente. Vocês pensaram que ela fosse uma das vítimas do vampiro?
Duda e Toninho, boquiabertos, balançaram a cabeça concordando.
— Mas por que vocês a enterraram lá na oficina, seus imbecis? — bradou Kriegel, que pela primeira vez perdia a calma. — Não tinham outro lugar melhor?
— Mas, chefe, como a gente podia adivinhar que esses garotos metidos iam descobrir tudo sem querer, e...
— Mas foi por vocês não adivinharem, que os policiais descobriram o cadáver da moça! — Kriegel continuava a esbravejar contra a incompetência de Cristóvão Lee, que não pôde sequer terminar a sua defesa. — Eu tive de matá-la — continuou, mudando de tom bruscamente -, pois ela acabou descobrindo a nossa atividade clandestina...
— Chefe! — volveu Cristóvão, receoso.
— Isso não importa mais. Deixe-os matar a curiosidade antes de desaparecerem da face da terra...
— Posso falar uma coisinha? — pediu Toninho, que permanecera calado a maior parte do tempo.
— Fale, pivete abelhudo! — disse Tião, irritado.
— Se eu fosse o senhor, seu vampiro, eu não fazia nada com a gente, não. A qualquer hora vai chegar alguém aí para nos salvar.
— Até diante da morte esses guris não sossegam — constatou Kriegel. — Esse é o truque mais velho do mundo, garoto. Mas, não se preocupem, eu vou lhes contar tudo...
— Por que o senhor não começa pela parte em que as pedras são comercializadas? — sugeriu Ferretti.
— É uma boa ideia para um moribundo, porém eu farei melhor até, vou deixar que o próprio dono do negócio fale da organização. Cristóvão Lee...
Pela primeira vez desde sua surpreendente aparição, Alberto Kriegel deixava de lado seu tom seco para assumir uma postura mais humana.
— Bom — principiou Cristóvão -, nós temos uma subsidiária no Paraná, para onde são levados os caixões carregados com as pedras preciosas...
— E é claro que você, um agente funerário, não é o dono de nada disso! — falou Ferretti, irônico.
— Você, como todo bom policial, é esperto, rapaz. Esse negócio dos caixões está em nome de Cristóvão, obviamente, para que eu não apareça — rebateu Kriegel, cheio de confiança em si mesmo.
— Claro, se a coisa der errado, esse infeliz será o bode expiatório — concluiu Ferretti, olhando para Cristóvão.
— E das moças mortas, ninguém fala nada? — perguntou Duda, admirado com o esquecimento dos outros.
— Cala a boca, garoto! — ralhou Tião, sem largar a metralhadora.
— Muito bem, Cristóvão, continue o esclarecimento aos futuros candidatos à vida no além — volveu Kriegel.
— Pois bem, esses caixões chegam à cidade de Porto-Camargo, na fronteira com o Paraguai, onde fica nossa loja, e são vendidos lá pela região mesmo; as estatuetas, então, cruzam a fronteira...
— E é tão fácil assim?! — retrucou Duda, assombrado.
— Com uns poucos dólares pode-se comprar qualquer guardinha paraguaio de fronteira, Duda — replicou Elias, lucidamente.
— Isso tudo é compreensível — disse Ferretti, intrometendo-se. — Assim se mantém a aparência da empresa funerária do Rio de Janeiro com filiar no interior do Paraná... Perfeitamente lógico! Mas o que eu ainda não entendi, Dr. Kriegel, ou devo dizer vampiro?, é por que o senhor não pode aparecer?
— Isso o senhor também entenderá, policial — retrucou Kriegel. — Acontece que eu sou um respeitável empresário em Curitiba, que fabrica artefatos de couro. Em virtude disso, não poderia me expor-me a um escândalo.
— E como é feito o transporte do Rio de Janeiro para o Paraná? — perguntou Ferretti.
— Meu jatinho particular, transformado em jatinho cargueiro, faz as viagens.
— E o senhor tem negócios no Rio de Janeiro? — tornou a perguntar Ferretti.
— A que negócios o senhor se refere? — quis saber Kriegel, com um sorriso maroto.
— Os negócios legais, o comércio de couro.
— Ah, sim. Naturalmente.
— Portanto, a polícia nunca desconfiou de nada?
— Acredito que não, uma vez que continuamos nossos negócios tranquilamente...
— Peraí! Sobre que negócios o senhor está falando? — replicou, por sua vez, Ferretti.
— Ora, meu nobre policial — voltou a sorrir Kriegel -, negócios ilegais, isto é, o contrabando...
— Vocês estão esquecendo que esse cara é um vampiro sanguinário?! — lembrou Duda, indignado.
— Você já tá falando demais, moleque! — voltou a ralhar Tião. — Cala essa boca!
Ferretti fez um gesto para Duda permanecer em silêncio, então continuou:
— Contudo, ainda está faltando um elo de ligação...
— Qual é a sua dúvida? — indagou Kriegel, interessado. — Vocês têm direito de saber de tudo antes de experimentar a hospitalidade do nosso serviço funerário.
Ferretti deu um sorriso amarelo e completou:
— É natural que o senhor, produzindo as mercadorias em Curitiba, faça viagens constantes para o Rio, para realizar vendas. Isso lhe dá uma excelente desculpa para transportar tranquilamente os caixões, sem despertar quaisquer suspeitas na polícia. Mas como o senhor faz para continuar despistando, quando tem que transportar os caixões de Curitiba a Porto-Camargo?
— Não disse que o nosso policial é esperto, Cristóvão? Bem, como sempre, o segredo do negócio é sua simplicidade. É claro que nossa organização tem homens trabalhando no aeroporto. Sem eles, seria impossível. São os homens responsáveis pelo hangar onde os aviões ficam estacionados. Tanto aqui quanto em Curitiba, eles permitem que a caminhonete funerária entre e saia durante a madrugada, como se nada estivesse acontecendo.
— Meus parabéns, Dr. Kriegel! Eu tiro o meu chapéu.
— Muito obrigado, policial...
— Posso perguntar uma coisa, seu vampiro? — disse Toninho, meio tímido.
— Esses moleques não conseguem ficar de bico calado! — praguejou Tião. — Que coisa!
— Deixe o menino falar, Tião. Ele também tem o direito de saber. Afinal, todos serão vizinhos da senhorita Tatiana, debaixo da terra... — voltou a ironizar Kriegel.
— É sobre ela mesmo que eu ia perguntar — retrucou Toninho, como se eles não estivessem com as horas contadas, tal a sua calma. — Por que o senhor não chupou o sangue dela? Só porque ela trabalhava pro senhor?
Alberto Kriegel soltou outra sonora gargalhada, então disse:
— É uma pena que tenham de morrer. Vocês são garotos muito mais espertos do que os que tenho visto por aí; mas infelizmente se meteram onde não deviam, e por isso eu terei de eliminá-los, como fiz com a senhorita Tatiana, de quem eu gostava muito também. Paciência. Ossos do ofício...
Nesse ínterim, enquanto os últimos minutos da vida dos meninos e dos policiais iam se extinguindo, do lado de fora da loja um milagre estava para acontecer...
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