Na Mira da Flecha
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Depois de dar um mergulho no lago (para lavar o suor, sujeira e arranhões), troquei de roupa e voltei para casa. Amarrei Faísca, o meu cavalo, no estábulo e fiz o possível para entrar em casa sem chamar atenção. Não deu muito certo.
— Karenina! — Henry me cumprimentou, assim que coloquei os pés na sala.
Em seguida, seus grandes olhos pretos se arregalaram.
— O que aconteceu com seu cabelo?!
Não pude evitar de rir com sua expressão. Henry era de longe o mais doce de todos os homens daquela casa.
Me abaixei até ficar da sua altura.
— Ah... Eu queria mudar um pouco — expliquei, sorrindo. — Gostou?
Ele tocou o meu cabelo, descendo a mão até a extensão imaginária do tamanho de antes dos fios.
— Ele era bonito antes.
— Eu sei, mas vai crescer de novo — Dei de ombros.
Foi um pouco difícil explicar para papai e Joshua o cabelo curto e o pequeno corte no supercílio, mas eles acabaram deixando o assunto de lado. Guardar segredo sobre tudo aquilo estava me consumindo. E eu não tinha nenhuma amiga para quem eu poderia falar essas coisas.
Papai nos deu toda a nossa educação em casa. Aprendemos a ler, escrever, latim, álgebra e aritmética, as coisas que ele julgava fundamentais para o nosso futuro, além da formação religiosa. A escola era para os nobres. Dessa forma, eu não tinha contato com outras crianças além dos meus irmãos, e eram raras as vezes que saía de casa.
Os dias foram passando e a ansiedade aumentando, até que enfim chegou o grande dia da divulgação dos resultados dos cinco grandes jovens sortudos que entrariam para a Liga. Como todos os anos, nos sentamos na sala ao redor da velha TV e fizemos pipoca. O noticiário começou com um pronunciamento da família real Di Azzi.
Lá estava o rei Arianus, bigode imponente, rosto duro, falando sobre algo relacionado à economia. Ao seu lado direito estava a rainha Clarissa, expressão serena, os longos cabelos negros presos num coque perfeito. E, ao lado esquerdo do rei, de aparência um pouco inquieta, estava o príncipe Lucca. Nunca fui com a cara dele. Aqueles olhos azuis sempre cordiais, o cabelo castanho um pouco comprido atrás, curto na frente, impecavelmente penteado, semblante sempre polido... Era “perfeitinho” demais. Até na forma de andar o cara exalava distinção.
— Bom, agora vamos à parte mais interessante da noite — A apresentadora Marietta anunciou, com aquele jeito animado de sempre. — O que todos estavam esperando: a divulgação dos jovens selecionados para a Liga!
Limpei as palmas das mãos no vestido, para disfarçar o suor. Meus nervos estavam a flor da pele. Eu não parecia a única inquieta ali. Quando a câmera deu um close na família real novamente, o príncipe Lucca não estava de queixo erguido e orgulhoso como seu pai, nem de rosto alegre e cheio de expectativas, semelhante ao da sua mãe. Pela primeira vez, o senhor inabalável parecia ansioso, correndo os olhos para todos os lados, sem focar em alguma coisa em especial, enquanto franzia os lábios apreensivamente.
— Foi uma árdua tarefa avaliar e julgar os desempenhos de todos esses guerreiros talentosos, — Marietta continuou, piscando os agitados olhos verdes. Ela não deveria ter mais do que trinta anos. — mas os nossos jurados finalmente chegaram a um consenso. E agora, vamos conhecer os cinco melhores guerreiros de Bellatorum!
Ela abriu os braços entusiasmadamente, apontando para um telão.
— Na categoria de corredor — Pegou uma das fichas que estavam sobre o pedestal e a leu. — Yoseph Boulanger!
No telão, apareceram imagens da audição de Yoseph, onde um rapaz magro disparava por um campo cheio de relva, desviando de árvores, pulando troncos e apanhando bandeirolas que estavam espalhadas pelos lugares mais inusitados.
— Por isso que é rápido... — Joshua debochou. — Dessa finura, é mais leve que o próprio ar!
— Um dos selecionados da categoria de lutador... Chris Gomez!
Surgiram cenas de um garoto grande e corpulento que esmagava impiedosamente “guerreiros” bonecos, enquanto golpeava sem dó com seu marchado.
— Serei igual a esse cara — Ben afirmou, com um olhar determinado.
A cada nome anunciado, a ansiedade só crescia dentro de mim. Eu sabia que o nome do arqueiro era o penúltimo a ser anunciado, mas nem isso ajudou a aplaca-la.
— Para suporte... Caleb Avellar!
Apareceram cortes de um garoto alto e musculoso usando um peitoral de armadura, protegendo com unhas e dentes (e um escudo) um guerreiro simulado, semelhante àquele que enfrentei no meu teste.
— Na categoria de arqueiro...
Meu coração disparou. Prendi a respiração e agarrei com força os braços da cadeira onde eu estava sentada.
— Joshua Alarich! — Marietta anunciou, com o mesmo entusiasmo de antes.
Me contive para não sair pulando no meio da sala. A ficha não caiu. Como eu poderia ter ganhado, diante de milhares de arqueiros de todo o país, jovens que foram treinados a vida inteira para isso?
— Joshua?! — Meu pai interrompeu meus devaneios.
— Arqueiro?! — Meu irmão indagou, de cenho franzido.
Encolhi-me na cadeira, querendo cavar um buraco no chão e sumir.
A câmera exibiu imagens de um jovem um pouco menor que os outros, de pose confiante, desviando, saltando e atirando flechas com maestria. Um elmo um pouco grande cobria seu rosto, mas isso não impossibilitava que eu o reconhecesse. Ou a reconhecesse. Nem a mim, nem à minha família.
— Esse não sou eu... — Josh constatou o óbvio.
Todos os olhares se voltaram para mim. A minha alegria de antes foi substituída por medo e receio. Abri a boca para falar algo, mas tornei a fechá-la, por não fazer ideia do que dizer.
— Estou esperando as explicações, mocinha — Meu pai trovejou, impaciente.
A última vez que o vi com tanta raiva foi quando eu e Joshua perdemos uma das peças do seu tabuleiro de xadrez, há cinco anos.
Por sorte, ninguém do programa notou que o arqueiro era uma arqueira. Marietta prosseguiu normalmente e minha atenção voltou para a televisão quando ela anunciou o último nome.
— E agora, o último selecionado para a categoria de lutador... — Ela leu a ficha e franziu o cenho. Depois releu novamente para então anunciar, meio confusa. — Lucca Asper.
Na tela, surgiu um garoto de roupas de camponês e elmo na cabeça. Ele girava e transcrevia arcos perfeitos, enquanto golpeava inimigos com a lâmina de sua espada. Era o mesmo garoto que esbarrou comigo no dia das audições. Quando a câmera deu um close e mostrou seus olhos azuis, entendi a reação da apresentadora. E entendi também a reação de todos no estúdio e provavelmente no país inteiro, quando a imagem focalizou nos rostos surpresos da família Di Azzi. Aquele rapaz não era Lucca Asper. Era ninguém menos do que Sua Alteza Real o Príncipe Lucca Di Azzi.
***
A distração momentânea me salvou das explicações, broncas e sermões, por ora. A confusão que estava acontecendo na televisão era mais interessante. A rainha recobrou a postura e forçou um sorriso tenso.
— Acho que está havendo algum engano.
— Hã... Receio que não seja engano — A apresentadora afirmou, não ajudando em nada com a situação. Ela parecia bem perdida, até. — É isso mesmo que está escrito aqui, Majestade.
O rosto do príncipe conflitava entre as emoções de orgulho e temor. Essa última se intensificou quando o rei se pronunciou. Sério, meu pai assustava quando estava bravo, mas isso não chegava nem aos pés de Arianus. Não queria estar na pele do príncipe. Pensando bem, até queria.
— Isso é um absurdo! — vociferou, com sua voz de trovão. — Filho meu não participa dessas competições!
Aquilo foi uma péssima coisa a ser dita, considerando que estava sendo transmitido ao vivo para toda Bellatorum e alguns instantes antes ele estava elogiando os Combates e dizendo como era uma honra poder representar e defender o país.
Lucca arranjou coragem sabe-se lá de onde para enfrentar o pai.
— Por que não posso participar? Tenho dezoito anos, sou homem... Estou perfeitamente dentro das regras — Em seguida, virou-se para Marietta. — Há algum lugar nas regras dos Combates que proíbe a realeza de participar?
A mulher ficou confusa por um instante e só então percebeu que o rapaz estava falando com ela. Imediatamente, um ajudante de palco trouxe um pesado livro de capa de couro. A loira folheou, meio trêmula, até se deter em um trecho.
— “São permitidos de participarem da Liga todos os jovens do sexo masculino, entre dezesseis e vinte e seis anos, nascidos e residentes neste país”. Não tem nada falando sobre membros da realeza, Vossa Alteza.
Lucca sorriu, vitorioso. O rei fechou ainda mais a cara. Desconfio que ele não gostava de estar errado. Procurou alguma coisa para descontar a raiva e seus olhos focaram na câmera.
— Não acredito que essa droga ainda está ligada... Pare de filmar, seu imprestável!
Marietta tomou a frente, com um sorriso amarelo.
— Um último aviso! Os selecionados deverão procurar a sede da Liga mais próxima para confirmação da inscrição em no máximo dois dias. Beijinhos e até o programa que vem!
E então a imagem sumiu e a estática tomou o seu lugar. A distração havia acabado. Papai pigarreou.
— Ainda estou esperando uma explicação.
Ele estava de pé, parado de frente para mim. Levantei-me também. Queria ser olhada de igual para igual. Cansei de passar a vida inteira me sentindo inferior.
— Não precisa de explicações — murmurei. — Você já viu tudo.
— Onde você estava com a cabeça, hein? — Ele não subiu o tom de voz em momento algum, e de certa forma, isso tornava tudo ainda mais assustador. — Diga-me que foi um erro, uma tolice, que estava louca e, talvez, eu lhe poupe do castigo.
Cerrei os punhos ao lado do corpo.
— Eu disse que iria conseguir — falei com firmeza, sem desviar o olhar. — E, se essa era a única forma, tive que arriscar. E, veja — Voltei-me para Joshua. — Eu ganhei. Dentre milhares de marmanjos de todo o país, eu obtive a maior pontuação. Isso significa que eu sou perfeitamente qualificada, não é, Josh?
— Não interessa se você é qualificada ou não — Meu irmão falou pausadamente em cada sílaba, como se estivesse soletrando para uma criança. — Vo-cê é mu-lher.
— E da-í? — Imitei sua forma de falar, debochando. — O fato de eu ter sido escolhida não prova para você e para todos nesse país que as mulheres são capazes? Está mais que na hora de combater esse preconceito idiota!
Meu pai levou a mão às têmporas, apertando com o indicador e o polegar a área entre os olhos, como se fosse para acalmar a tensão.
— Considerando a hipótese de que você prossiga com isso — Ele começou. — O que você vai fazer? Não vai poder esconder o rosto para sempre. Uma hora ou outra eles vão descobrir que é mulher e tenho sérias dúvidas de que a deixarão ir à luta.
Minha confiança se desfez. Ele tocou num ponto importante que eu não havia pensado, desde então. Minha preocupação estava toda focada em entrar para a Liga. Não imaginei o que viria depois.
Percebendo minha expressão vacilar, ele permitiu abrir um sorrisinho de vitória.
— Você nunca será o seu irmão, Karenina.
Ouvir aquilo do meu próprio pai foi como uma facada.
— M-mas a Kare foi muito bem... — Henry me defendeu.
— Já discutimos isso — O homem cortou. — Meninos, vão para as suas camas. — Depois se virou para mim. — Amanhã mesmo iremos na sede da Liga para resolver essa história de uma vez por todas.
Senti as lágrimas se formando, mas não queria dar o gosto de chorar na frente deles. Queria gritar, afrontar, mas eu não tinha mais argumentos. Sabendo que nem no meu próprio quarto eu teria paz, já que o dividia com meus irmãos, marchei rumo ao porão, a fim de ficar sozinha.
Joguei um cobertor sobre um colchão velho e fiz uma cama improvisada, onde me encolhi em posição fetal e chorei todas as lágrimas que estavam reprimidas. Não havia solução. Meu pai iria me arrastar até lá e me humilhar publicamente dando-me uma bronca na frente dos secretários da Liga e todas as minhas chances iriam para o ralo. Eles nunca ouviriam minhas explicações se meu pai estivesse ao lado, dizendo o quanto sou idiota e que tudo não passou de uma loucura de uma adolescente.
A não ser que... Ele não fosse comigo.
Uma ideia louca surgiu na minha cabeça. Eu poderia ir antes do meu pai e explicar para eles, fazer birra, chorar, qualquer coisa... Desde que eu tivesse uma chance de falar, já estaria no lucro. Eu não iria desistir do meu sonho assim, tão fácil.
***
Assim que o sol raiou no horizonte, dei um jeito de escapar sorrateiramente de casa.
A secretária era uma mulher, o que estranhei no início, mas depois alimentei as minhas esperanças. Se na própria Liga havia uma mulher trabalhando, talvez não fossem tão duros comigo e abrissem uma exceção. Ela estava com a atenção focada numa papelada que ocupava quase toda a sua mesa.
— Hã... Com licença? — pedi para a moça.
Ela ergueu os olhos escondidos sob as lentes de um grosso óculos. Seus cabelos castanhos estavam presos numa trança delicada que pendia nas suas costas.
— Olá — Abriu um sorriso. Pelo menos era simpática. — Em que posso ajuda-la?
Mordi o lábio, pensando em como começar.
— Ouça, é uma história um pouco longa e peço que não me enxote antes de ouvi-la até o final, tudo bem?
Seu sorriso amarelou e ela me encarou de cima a baixo, talvez avaliando meu grau de lucidez.
— Ok... — Concordou, meio relutante.
Respirei fundo.
— Então, eu sempre tive o sonho de participar da Liga e lutar para defender a nossa tão amada Bellatorum, mas, como deve ser do seu conhecimento, mulheres não podem competir. — Dei uma pausa para ela absorver as palavras. A moça assentiu com a cabeça, me incentivando a prosseguir. — Meu irmão Joshua tinha se inscrito para participar das audições, mas houve um imprevisto e ele não pôde ir. Eu estava com a cabeça quente por causa das nossas discussões e surgiu-me a ideia louca de ir no lugar dele.
A secretária franziu o cenho.
— E eles te deixaram fazer isso?
Minhas mãos estavam suadas de nervosismo. Passei as palmas na calça para limpá-las. Calças eram bem mais confortáveis que vestidos, por isso, passei a fazer as minhas.
— Aí é que está o ponto: eu fui escondida. Me disfarcei e me fiz passar pelo meu irmão. Os jurados não desconfiaram. E eu... Fui selecionada — A mulher arregalou os olhos, surpresa. — Fui a escolhida da categoria de arqueiro. Pode conferir aí — Apontei para os papéis — O nome “Joshua Alarich”.
Ela abriu uma pasta e foi direto à ficha “J”. Tirou de lá o formulário que meu irmão preencheu, onde estava carimbado em vermelho vivo “Aprovado: arqueiro”.
— É verdade... — Ela falou, quase num murmúrio, enquanto analisava o papel. — E eu vi o noticiário, bem que achei o “garoto” pequeno demais.
Concordei acenando a cabeça.
— Quando meu pai descobriu, ficou uma fera — Continuei. — E queria me arrastar até aqui para “desfazer o mal-entendido”, mas eu quis vir antes dele, para explicar. E, também porque eu quero muito fazer parte da Liga — Lancei o meu melhor olhar de súplica. — Quero ir aos Combates, e sei que sou capaz. Estou cansada de todas essas malditas injustiças com as mulheres, por causa de uma maldita lei da época dos meus tataravós — Apoiei as duas mãos sobre a mesa e me inclinei para frente. — Se os maiores especialistas de guerra do país me julgaram talentosa e capacitada o suficiente, quem é uma lei estúpida para contradizê-los?
Pela expressão em seu rosto, eu estava conseguindo convencê-la.
— Para isso, preciso da sua ajuda — Praticamente implorei.
Seu rosto estava um pouco confuso. Ela refletiu um pouco, tamborilando os dedos na mesa.
— Preciso falar com meus superiores. Sou uma simples secretária, fui encarregada de receber os aprovados e coletar o resto dos dados, mas um caso assim... Não está no meu alcance — Seu olhar era de desculpas e empatia.
Fitei os meus pés.
— Mas eu prometo que farei tudo que puder — Ela colocou uma mão sobre a minha e eu ergui novamente o olhar. — Para você seguir o seu sonho.
Um sorriso surgiu nos meus lábios, o primeiro verdadeiramente genuíno em dias. Ela retribuiu.
— Assim que eu tiver informações, te aviso. Vocês tem telefone?
Balancei a cabeça negativamente. Mal tínhamos dinheiro para comer, muito menos pagar uma conta telefônica.
— Então enviarei uma carta.
— Pode mandar para o endereço do formulário... E muito obrigada, de coração.
Ela sorriu novamente.
— Será um prazer ajudar! E boa sorte... Hã...
— Karenina. E o seu?
— Elena.
Despedi-me de Elena e retornei para casa, já imaginando a próxima bronca que eu levaria. Mas isso nem me preocupava mais. Eu tinha feito uma amiga. E agora era só torcer para as coisas darem certo.
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