Eu estava sentada no sofá, espojada e preguiçosa. Nem ao menos ouvira quando meu irmão entrou pela porta, entusiasmado.
— Sophie, tenho ótimas notícias! — Falou, arrumando desajeitado sua gravata. Franzi o cenho confusa. Certas “novidades” vindo do meu irmão, nunca me agradava. Ou seja, novidade = desastres.
— O que? Vai finalmente me apresentar sua namoradinha coreana? — Debochei e ele sorriu ainda mais.
— Também, mas essa não é a novidade. — Olhei para ele indignada. Como isso não poderia ser uma novidade? Meu irmão nunca apresentou mulher alguma pra mim. Porque ele não era o tipo que mantinha compromisso. O que poderia ser pior que isso?
Percebendo minha expressão surpresa, ele revirou os olhos, pare em seguida, sentar-se ao meu lado no sofá.
— A Big Hit Entertainment está me convidando a ser Co-produtor musical. – Seus olhos brilhavam como eu nunca tinha visto antes. Por um breve segundo, pude suspirar, aliviada por desta vez a notícia não ter nada a ver comigo. – E claro que, como novo co-produtor, terei que acompanhar uma das bandas mais famosas em uma turnê mundial, que começará depois de amanhã... – Fez um gesto banal com a mão e completou. – Você irá me acompanhar. – Comemorei cedo demais.
É O QUE?
— Qual a parte do, “Eu não ligo pra o que você faz, contanto que me deixe fora disso”, que você não entendeu? – Perguntei, me levantando bruscamento do sofá, e cruzando os braços, imapaciente.
Eu odiava ser levada pra cima e pra baixo como uma cachorro na coleira. Tinha até entrado em um acordo sobre isso com meu irmão. Ele poderia ter o mínimo de compreensão em como venho me sentindo por todos esses anos nessa vida de ping-pong.
— A parte onde sou seu irmão mais velho e tenho responsabilidades. – Ele suspirou, levantando-se e me encarando. – Essa oportunidade me permite criar raízes, finalmente, aqui na Coreia. Só preciso mostrar minha capacidade de fazer a melhor turnê que qualquer um já tenha feito. Se eu conseguir, vão me oficializar no cargo.
Continuei encarando aqueles olhos castanhos e pidões. Se isso for verdade, então não vamos precisar nos mudar novamente, e iremos ficar aqui em Seoul. Já não era sem tempo, tendo em vista que desde 2013 – quando meu pais faleceram – Antony pulávamos de lugar em lugar. Ele sempre recebia ótimas propostas de eventos sociais e produções musicais no exterior. Lembro que nosso último lugar foi novamente no Brasil, onde achei que finalmente tinhamos voltado pra casa. Mas Antony recebeu uma proposta muito melhor aqui na Coreia, e faz um ano e meio que estamos aqui, e agora, ele foi promovido a Co-produtor musical de uma enorme gravadora. Eu deveria ficar feliz por isso, porque ele finalmente ficará estabilizado... Mas eu não me sentia assim, ainda.
— Uma turnê não é a melhor definição de criar raízes. – Questionei. Ele entendeu.
— Não. Mas quando voltarmos e eu for oficialmente reconhecido, prometo que Coreia será nossa última parada. – Disse. Eu ainda não estava convencida.
— E porque eu tenho que ir? Não sou mais uma meninha, tenho 20 anos Tony, posso me virar aqui até você chegar. Eu até consegui uma vaga de emprego em uma loja de instrumentos musicais bastante fomosa aqui na cidade. – Argumentei.
— Quando iria me dizer isso? – Perguntou ele, surpreso. – Bem, não importa, porque você não vai poder ficar.
Me irritei. O que ele pensa que eu sou?
— Qual o seu problema? – Perguntei, não contendo fúria.
— Eu não posso te deixar aqui sozinha enquanto eu estiver em uma turnê por cinco meses. – Tocou em meu ombro, tentando me convencer. – Não me veriam com bons olhos. Seria desatroso e não quero passar uma imagem de uma homem irresponsável. Já basta o preconceito que essas pessoas tem de extrangeiros. Não vou dar mais corda pra puxarem. – Explicou.
Por um lado, eu sabia que ele estava certo, já por outro, eu me sentia mais uma vez uma peça de lego sendo encaixada em tudo que é lugar.
— Depois não reclame se eu não achar outro emprego! – Declarei, deixando claro que que ainda não estava feliz.
— Não se preocupe, você vai trabalhar comigo, sendo minha assistente e dando suporte na equipe técnica. – Antony sorriu. Revirei os olhos.
— Vou ganhar alguma coisa com isso? – Perguntei, interessada.
— Claro que vai. – Ele sorriu. – Viu? Eu não sou tão mal assim.
— Você como meu chefe? Que maravilha! – Debochei, e andei praticamente me arrastando até a porta.
— Só mais uma coisa! – Antony me fez retornar. – Lembra-se dos costumes nas interações sociais daqui, não é?
Fiz careta. Era claro que eu lembrava. Um ano e meio aqui na coreia já me era quase suficiente para aprender tudo o que eu tinha que aprender sobre a lingua. Além do mais, no dia em que pisei na cidade, a primeira coisa que meu irmão tinha feito foi me matricular em uma escola de idioma coreano.
Antony era muito bem articulado em línguas estrangeiras, e por isso, era muito mais fácil pra ele do que pra mim, essas transições.
Não era muito difícil entender os costumes da Coreia, porém, o mais complicado mesmo, era reconhecer as pessoas. Pra mim, eram todas iguais, diferenças mínimas. Isso porque com a nova moda de colorir cabelos, era possível classificar.
É uma forma ridícula de pensar? Talvez. Mas quem disse que eu me importava com isso?
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