Na Linha Da Vida

23 Caro hospital


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Quando saí por aquela porta, eu sentia uma coisa estranha. Era um sentimento que me corroía por dentro, e que me falava para não confiar em mais ninguém, nunca mais. Ao mesmo tempo, eu estava magoada. Magoada por tudo o que estava acontecendo, principalmente por Brandon ter feito aquilo somente para se vingar. E, bem, foi aí que eu descobri por que Brandon e Trevor se encontravam e cochichavam, de vez em quando; armavam contra mim.

Fui àquele lugar solitário da escola, onde eu ia para descansar de tudo e tentar ao menos ficar em paz. Contudo, era impossível eu conseguir isso naquele momento.

Ainda chorando, encostada, em pé, na parede, eu escorreguei até o chão, seguidamente abraçando as pernas e repousando o queixo sobre os joelhos juntos. Entretanto, quando abaixei a cabeça, vi uma sombra ao meu lado, e então fui ver quem era.

– David... – sussurrei o nome.

Ele olhou para mim, forçando um sorriso e, como sempre, empurrando os óculos para trás.

– Não sou experiente nessas coisas, e tal, mas vai ficar tudo bem, eu espero.

Eu ri abafado.

– O que você está fazendo aqui? – perguntei, fugindo do assunto. – Quer dizer, não quero te expulsar, mas tem que haver um motivo.

– É que, bem, já que tudo isso já aconteceu, vou falar a verdade agora. Mas não quero que fique mais triste ainda, tá? – Ele não me deixou responder. – Brandon já tinha me falado sobre esse plano. Sobre as suas fotos com o Trevor, digo. E pediu para eu não contar, então não contei, porque acreditava que isso fosse só brincadeira. Sinto muito. Eu não sabia que...

– Tudo bem, já passou – eu disse, abismada. – É desnecessário falar sobre o que já aconteceu, não acha? – Me levantei e limpei as mãos na calça jeans.

– Só não quero que fique brava comigo, sabe? Gosto muito de você e não quero que se zangue por causa disso – ele repetiu, como se não tivesse acreditado no que eu dissera. – Aposto que a gravação também deve ter sido parte do plano só para o Brandon ter uma desculpa sobre as fotos, tipo uma vingança.

– Eu já disse que está tudo bem. Sério – menti, tentando sorrir. – Nunca vou ficar brava com você.

– Tomara, porque você parece ser forte enquanto joga vôlei. – Ele riu, e eu também, pela primeira vez depois do ocorrido.

Juntos, fomos até alguns bancos vazios – felizmente – e nos sentamos ali mesmo. As aulas já tinham começado há tempo, mas ele continuava ali comigo, me fazendo rir de tudo.

– Por que você não é assim o tempo todo? É tão divertido! – afirmei, ainda dando risadas pela última coisa que ele dissera.

– É que você é especial, não sei direito. Hmm... bem, não tenho vergonha de nada quando estou com você.

Vi suas bochechas corarem. Ri ainda mais por causa disso. No entanto, entre às risadas, eu tossia. Tosses secas, que pareciam pequeninas tachinhas perfurando minha garganta.

– Você está bem? – ele perguntou, pondo uma das mãos nas minhas costas. – Não quer tomar alguma coisa?

– Não, obrigada – disse, a voz fraca. David apenas assentiu, incerto.

– Você quer sair comigo amanhã? – ele perguntou, repentinamente, e então tudo ficou em silêncio. Inclusive as risadas dos alunos do ensino fundamental pareciam ter sumido.

– David, eu gosto de você, mas não posso – afirmei, desviando o olhar do dele. – Sabe, dói dizer isso, mas eu... estou apaixonada pelo Brandon.

David arrumou a postura no banco e arqueou as sobrancelhas, mas era notório que isso lhe parecera um tanto óbvio. Todavia, ele franziu os lábios e ficou encarando as mãos que estavam sobre as coxas cobertas pelo jeans.

– Mesmo depois de tudo que ele fez? – indagou, com um tom mais alterado, ainda mirando as mãos.

– Eu não posso esquecê-lo de repente, sabe disso. Não consigo suportar, mas eu o amo ainda.

– Tá. – E então ele apanhou a mochila, se levantou e colocou-a nas costas.

Me ergui também.

– Você não está bravo, está? – perguntei, incrédula sobre o que estava presenciando. Naquele momento eu não estava com raiva, mas não acreditava que ele estava decepcionado por saber que eu amava o seu melhor amigo.

Ele virou-se para mim.

– Não, só achei que você pudesse sair comigo.

– Ah, você está achando que eu não aceitei por causa do Brandon? – Ri. – Não, não, não é isso. Eu... tenho que ir fazer alguns exames, sabe? Checar a minha saúde. É sempre bom – foi uma mentira quase verdadeira. Porque, bom, embora fosse parcialmente, era verdade.

Pus uma das mãos em seu ombro.

– Mas podemos sair em algum outro dia. – Sorri, afastando o clima tenso.

Só que, mais tarde, na saída, tomei um choque de realidade. Todos ficavam me encarando e rindo, me julgando mentalmente ou comentando sobre as minhas fotos juntos às pessoas ao lado.

Enquanto caminhava de volta para casa, conforme as pessoas passavam por mim e riam, debochando de mim, eu pensava em sair correndo e me esconder em algum lugar. No entanto, eu somente apertava os livros e cadernos cada vez mais contra o meu peito, sabendo que meu tio deveria estar andando para lá e para cá, em casa, com as palavras que diria para mim já ensaiadas.

– Oi! – disse Cindy, após correr até mim.

Surpresa, olhei para ela e forcei um sorriso.

– Acho que perguntar se você está bem é uma babaquice, não é? – continuou ela, mordendo a bochecha.

– Eu confiei nele, Cindy. Eu confiei – olhando para frente, mas não focando em exatamente nada, afirmei.

– Você já pensou que pode ter sido um engano? Tipo, que vocês podem ter sido vítimas de uma conspiração. Sei lá – ela sugestionou. – Brandon parece ser um cara bem legal, e não acho que ele possa ter feito isso com você.

– Por favor, eu não quero ouvir mais nada. Eu queria acreditar no que você está dizendo, mas, infelizmente, é impossível.

– Certo... – desistiu. – Até amanhã! – E atravessou a rua, seguindo com um grupo de amigos do clube em que ela estava.

Quando cheguei em casa, era de se imaginar o que aconteceria dali alguns minutos. Meu tio levantou-se bruscamente da poltrona, vindo em minha direção, e minha tia se intrometeu em sua frente antes que ele pudesse fazer algo.

– O que foi aquilo, Anne? Você está maluca ou quer me matar? – ofegante, ele sentou-se novamente, mas ergueu-se de novo, segundos depois, apontando o dedo indicador para mim. – Você é uma vadia igual à sua mãe!

– O senhor pode falar sobre mim, mas nunca da minha mãe! – Joguei a mochila no chão, indignada.

– Sim, eu posso, porque você mora na minha casa, come a minha comida, vive por causa dos remédios que eu compro e das consultas médicas que eu pago!

– Por favor, quer me escutar por pelo menos um instante?! Pode me culpar, porque aquela nas fotos sou eu, mas nunca mais fale assim da minha mãe. Ache o que quiser de mim, só que o senhor não tem o direito de falar assim dela!

– Vai pro seu quarto, sua inútil.

Cobri a boca com uma das mãos, tentando não derramar mais uma lágrima. Não deu certo. Contudo, corri para o meu quarto, chorando, e caí na cama, adormecendo ali mesmo.

À tarde, quando acordei com o despertador avisando que era hora de eu tomar um dos remédios, peguei o medicamento diurético, fui ao banheiro, despejei alguns comprimidos pelo ralo da pia e ergui a cabeça, me olhando no espelho: cabelo bagunçado, lápis de olho borrado, olhos inchados e palidez.

Eu estava completamente tonta – nem sabia como havia conseguido ir andando até o banheiro –, e comecei a sentir falta de ar e fraqueza. Repentinamente, senti como se eu pesasse toneladas, e caí no chão. Após isso, não me lembro de absolutamente nada, apenas ao acordar em uma cama de hospital, com máquinas ligadas a mim, percebi o que havia acontecido.

Nada estava funcionando.

Notas finais
E aí?! :-D Enfim, eu estou tendo muita coisa pra fazer na escola e então fica difícil escrever os capítulos. Mas, olhem, eu nunca vou abandonar a fic, ok? ;-) O que acharam? *-* O final bugou o cérebro de vocês? u-u