Na Linha Da Vida
17 Caro encontro
Notas iniciais
Na sexta-feira à tarde, aproximadamente quarenta minutos após uma conversa com Martin, a empregada me avisou que alguém estava à minha espera. Desci as escadas e abri a porta. Quando vi quem era, saí da casa e fechei a porta rapidamente, para que ninguém o visse. Olhei para seu rosto, e ele estava com o sorriso torto esboçado – eu já esperava essa expressão.
– O que você pensa que está fazendo? Meu tio está em casa! – exclamei.
Brandon não respondeu, apenas me mirava.
– Você está bem? – perguntei novamente.
– Estou, estou. Vem cá... – Ele pegou a minha mão e caminhou comigo até chegarmos ao portão, quase me arrastando, quando parei.
– Aonde está me levando? É sério, você não bebeu de novo, não é? – eu indagava, mas ele não respondia sequer uma pergunta.
– Escute, eu quero te levar a um lugar, ok? Era pra ser uma surpresa, mas certa pessoa pensa que eu vou a sequestrar. Sossega, maquininha! – Ele continuou a caminhar, a mão segurando a minha.
– Devia ter me avisado que viria e quase arrancaria a minha alma de mim. – Ele rolou os olhos. – Eu não vou desse jeito! – Livrei minha mão da dele e ajeitei o vestido simples branco que usava.
– Se quer saber, eu não vou leva-la a um lugar com muitas pessoas, então não se preocupe. Quero dizer, haverá muitas pessoas, mas... elas... deixa pra lá. Além disso, você está... – Ele coçou a nuca, um pouco intrigado. – Você não está feia. Só me siga, tudo bem?
Assenti, e avisei à empregada que iria sair através do interfone.
Ao sairmos portão afora, vi o carro da mãe do Brandon estacionado próximo à calçada. Franzi o cenho, e ele soltou uma risada baixa e abafada enquanto se aproximava do carro e abria a porta do passageiro.
– Minha mãe e Deisy saíram sem o carro, então eu fiz proveito disso. – Ele apontou para o banco do carro à mostra, indicando que eu deveria entrar.
Eu me sentei no banco e revirei os olhos novamente, indignada com a irresponsabilidade dele. Brandon se sentou em seguida, no banco do motorista, e ligou o carro; havia dois buquês de flores no painel, alguns enfeites típicos de mulheres e papéis.
– Espera aí, você não tem idade para dirigir, tem? – perguntei.
– Aprendi a dirigir com dezenove anos – ele respondeu, sorrindo.
Abri a boca para metralha-lo com um interrogatório, mas ele me interrompeu:
– Calma, calma, eu tenho dezessete anos. Só estava curtindo um pouco com a sua cara. – Ele tentou conter a risada. – Coloque o cinto.
– Mas é lógico que eu vou colocar, você é quem está dirigindo. Aliás, você só pode dirigir com alguém maior de dezoito anos, seu irresponsável – Sorri, e ele estreitou os olhos, me odiando por alguns segundos.
Ele entrou em diversas ruas, até as que eu nem sabia que existiam. Algumas árvores e casas depois, encarei o cenário, que foi ficando cada vez mais verde e pacífico. Logo à frente, vi um enorme portão enferrujado, com algumas trepadeiras que se enrolavam nos pequenos ferros retos, e uma cruz logo em cima. Brandon e eu nos entreolhamos. Ele sorriu com os lábios cerrados. Estacionou, abriu a porta ao seu lado, pegou os dois buquês do painel e saiu do carro. Calmamente, fiz o mesmo em seguida, tentando raciocinar, por um momento, por que ele teria me levado ali e o motivo das flores.
Brandon caminhou até o portão e o empurrou, dando passagem para mim, que estava logo atrás. Sérios, passamos por alguns túmulos, e paramos em frente a dois deles. Li os nomes "Diana Mitchell" e "Carl Mitchell", e mordi o lábio inferior.
– Pedi informações à sua tia quando você não estava por perto. Ela é bem gente boa, até bem mais do que aparenta ser. Ah, e elogie os bobes do cabelo dela, por mim – disse ele, sorrindo.
Pus as mãos no rosto, cobrindo a boca e o nariz, apenas.
– Você não vai dizer nada a eles? – Brandon me perguntou.
Assenti, nervosa. Ajoelhei-me entre os dois túmulos e coloquei minhas mãos sobre cada um deles.
– Pai, mãe – Suspirei, sentindo dificuldade para começar. –, eu sei que vocês devem ter tido motivos esclarecedores para me deixarem quando eu era bebê, mas eu não ligo. Não me importo se a nossa família disse que estavam errados, porque... eu sei que não. – Respirei. – Vocês são e sempre serão especiais para mim. Além disso, obrigada por me fazerem nascer. – Sorri. – Eu sou muito grata por isso.
Olhei para Brandon, que estava parado atrás de mim e com os braços cruzados, prestando atenção no meu discurso. Ele acenou com a cabeça, como quem diz: “prossiga”, e sorriu.
– Eu sei que um dia estarei aí, com vocês, e vou poder abraça-los até não poder mais. Mas, até esse dia chegar, eu quero que saibam que são especiais para mim desde sempre, e que eu os admiro muito por se amarem mesmo quando todos estiveram contra. Eu amo... vocês.
Neste momento, Brandon se abaixou e me entregou os dois buquês de margaridas. Deixei um em cada túmulo e logo me levantei.
Minutos depois já estávamos no carro. Fechamos as portas, ainda em silêncio.
– Você quer dirigir? – ele me pergunta, em meio ao estranho silêncio.
– O-o quê? Eu não sei! – respondi, ainda um pouco nervosa com o que havia acontecido.
– Quer aprender? – O canto de sua boca levantou.
– Você é louco. – Revirei os olhos.
– Obrigado. – Brandon agradeceu ironicamente, antes de descer do carro, abrir a porta ao meu lado e oferecer a mão para me ajudar a levantar.
Vendo que eu não me renderia tão facilmente, ele suspirou.
– Se algo acontecer, eu me responsabilizo por tudo, tá bom pra você?
Cogitei por alguns instantes.
– Tá, tudo bem. – Segurei sua mão e me ergui. Ele estampou um grande sorriso no rosto e trocamos os nossos lugares.
Brandon me mostrou passo a passo como se dirigia. Ele foi atencioso, embora eu quase tenha batido o carro três vezes. Depois dos quase acidentes, eu dirigi o carro até à minha casa. Brandon parecia satisfeito, e, quando estacionei em frente ao portão, ele soltou o ar preso no peito e colocou as duas mãos atrás da cabeça, pressionando-as.
– Achei que eu não chegaria vivo aqui – ele disse, olhando para frente.
– Você é muito incentivador, obrigada – ironizei.
05h03 era o que marcava o meu relógio de pulso. Brandon e eu ficamos olhando a paisagem através do vidro à nossa frente, como se aquilo fosse a coisa mais interessante a se fazer no momento.
– Você não vai me contar? – ele indagou.
– O quê? – Dei um sorriso inocente, tentando disfarçar a inquietação que passei a sentir após a pergunta, e o fitei.
– Sobre o que você tem. Não vai me falar nada? – Ele também sorria, de um modo singelo e sem ansiedade que, de alguma forma, me deixava um pouco mais tensa.
– Como assim?
– Sua doença. Não negue, Anne.
Pisquei uma vez, surpresa, e, de repente, meus olhos começaram a arder. Virei o rosto para o outro lado, pensando no que faria para tentar escapar disso, mas, então, ele o virou novamente com uma das mãos, segurando meu queixo e fazendo olhá-lo nos olhos. Segurei seu pulso levemente, tirando suas mãos do meu rosto.
– Há um tempo, eu descobri que os meus tios sabiam que eu estava doente, no entanto, nunca me contaram nada a respeito. Quando eu comecei a piorar, fui ao médico e ouvi o que ele disse. Fiquei completamente apavorada. – Brandon apenas me ouvia concentrado. – Eu não sei se isso é destino ou coincidência pra cacete, mas... – Engoli em seco – eu vou morrer, Brandon. – Meus olhos foram ficando cada vez mais pesados. Apertei os lábios, esperando Brandon fazer ou dizer algo, mas ele apenas me encarava, incrédulo.
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