Na Harpa de Um Anjo

3 Lembranças de um pesadelo


Houve um tempo que eu gostava de garotos. Eu tinha acabado completar 9 anos, minha mãe fez uma festinha de aniversário na casa da minha vó Nice e eu chamei alguns amigos, inclusive minha paixão da escola, um menino chamado Juliano. A família ficou no quintal da frente e nós ficamos no quintal dos fundos brincando de verdade ou desafio, eu lembro que toda hora que Juliano escolhia desafio ele tinha que beijar de língua uma menina chamada Marcela.

Mas enfim, eu já tive uma paixão por menino. Tudo mudou devido um acontecimento não muito legal. Na verdade, o que aconteceu mudou toda minha vida, não só no sentido de não gostar de homens.

Por ser criança eu passava as férias na casa dos meus avós ao lado dos meus primos. Tinha as meninas Luciana de 11 anos, Ana de 8 anos e os meninos Caio César de 17 anos, Miguel de 14 e o irmão dele Rafael de 4 anos. Passávamos o dia na rua, enquanto os mais velhos se juntavam com outros meninos da vizinhança para empinar pipa, nós brincávamos de esconde-esconde, pula corda, polícia e ladrão, pega-pega, casinha. Às vezes quando nossa vó terminava os afazeres levava a gente no parquinho do morrão, lá havia vários brinquedos como balança, gangorra, trepa-trepa, entre outros, mas a grande atração era descer deslizando o morro sentado em um pedaço de caixa de papelão. Era muito divertido, meu vô ficava doido quando minha vó chegava com os mais novos cheios de lama.

Já quase no fim das férias, fiquei na casa junto com Miguel e Rafael. Minha vó estava preparando a comida e meu vô cuidando do seu pequeno jardim. Ficamos então no quintal da frente brincando de bobinho, uma brincadeira que a bola tinha que ser passada para todo mundo sem deixar que uma pessoa a pegue, pois se ela pegasse a última pessoa que tocou viraria “bobinho”. Após passar a tarde debaixo do Sol, paramos para tomar um banho e jantar. Então na sala fiquei vendo televisão com Miguel, enquanto a vó Nice dava banho no pequeno Rafa.

— Coloca nos Cavaleiros do Zodíaco, Serena.

— Não quero assistir esse desenho de menino! Já vai começar Zoboomafoo e você sabe que eu assisto.

— E esse macaco idiota é para menina.

— Não é! Afe, Miguel, ele é um lêmure. E você assistia isso sempre.

— Mas agora eu sou grande. – E ele veio pra cima de mim pegar o controle. Por ele ser mais forte que eu, fui facilmente subjugada.

— Eu te odeio muito.

— Eu te odeio muito. – Repetiu ele me zoando. – Se quiser trocar de canal vai ter que pegar o controle.

Eu nem pensei duas vezes e fui para cima dele. Eu era muito frágil e meu ele se defendeu fácil do meu soco, ele então prendeu meus braços na frente e tentei mordê-lo.

— Que fraquinha. – Ele dava risada.

Então ele me colocou no colo dele me prendendo com toda a força dele.

— Você vai me machucar, Miguel! – Eu disse também rindo, afinal ele não iria me fazer mal.

— Para você aprender que agora é a minha hora de assistir televisão.

Eu tentava levantar e ele me forçava no colo dele, fazia movimentos com o quadril dele que naquela época eu não entendia. Eu estava de saia e logo senti um volume nos shorts dele.

No outro dia foi a mesma coisa. Só que dessa vez não foi por causa da televisão, ele me atacou a almofada e começamos ali uma guerrinha.

— Ri mais baixo, menina.

— Toma essa. – Ataquei a almofada no rosto dele e ele foi para atrás do sofá e continuei atacando.

— Errou de novo. – Disse atirando contra mim.

— Ah é? – Então peguei uma almofada pesada e fui lentamente atrás do sofá.

Ele percebeu e ficou deitado de bruços no chão e puxou minha perna, cai de joelhos e comecei a bater nele com a almofada.

— Ai, ai, ai. Tá me machucando, Serena.

— Você que começou.

Eu diminui o ritmo e foi aí que ele conseguiu se levantar e ficou forçando meu rosto contra seu shorts, batendo e esfregando meu rosto. A minha sorte era que o shorts era daqueles de futebol e não tinha zíper ou botão. Eu não entendia o que estava acontecendo, só queria sair dali.

— Eu não consigo respirar.

— Cadê vocês dois? Que bagunça é essa aqui na sala? – Era minha vó com o .

— Shiuuu. – Miguel fez para mim. – Estávamos brincando de guerrinha de almofada, vó.

— Olha o seu tamanho, filho. Serena, você está bem?

— Estou sim, vó. – Respondi ofegante.

— Vamos arrumar isso né, Serena? – Então eu assenti.

Já no terceiro dia foi o pior. Se já não bastasse o dia anterior, eu fui burra de ter caído em mais uma armadilha do meu primo. Eu estava linda com um vestidinho azul e cabelo com uma tiara, pois eu iria a um aniversário com meus pais a noite e minha vó pediu para que eu ficasse sentada quieta. Eu deveria ter obedecido, mas eu era teimosa, bom, eu ainda sou um pouco.

Eu estava sentada no sofá quando Miguel veio por cima e arrancou minha tiara.

— Devolve isso, Miguel! Eu vou contar para vó.

— Vai nada. – E saiu correndo para dentro da cozinha.

Eu pensei em gritar pela minha vó, mas fui atrás do meu primo e o vi entrando no quarto de hóspedes.

— Me dá isso, por favor.

— Vem pegar. – Ele estava sentado na cama.

— Isso de novo não, Miguel. Eu tenho festa daqui a pouco.

— Para de ser boba. Eu só quero brincar com você.

— A gente brincou a tarde toda e já tomamos banho, agora não é hora.

— Vai vir ou não?

Eu deveria ter esperado minha vó sair do banheiro ou meu vô que nem sei onde estava. Mas eu fui impulsiva, só queria minha tiara e pulei em cima dele. Eu era leve, pequena e ele conseguiu me facilmente.

Naquela época ele era muito bobão, todos zuávamos ele, inclusive meus tios. Parecia que ele tinha algum problema, era engraçado, mas hoje eu sei que ele não tem. Ele é bem normal, terminou a faculdade, está namorando e tem uma vida relativamente boa. A vida dele está perfeita, enquanto a minha foi arruinada. Tentei levar minha vida de forma normal, mas cada passo que eu dava a lembrança me atingia e isso foi me reprimindo aos poucos. Aos 14 anos eu tive distúrbio alimentar. Aos 15 sofria bullying na escola pela minha magreza e por sempre ficar no meu canto, quieta, sem me enturmar. Aos 17 descobri que tinha agorafobia, medo de multidão, mas aos poucos fui melhorando dessa fobia.

Miguel me colocou de bruços, forçando meu rosto no travesseiro com uma mão e com a outra levantou meu vestido e abaixou minha calcinha. Enquanto eu me debatia, ele dava risada e encostou algo quente e macio em mim, mas antes ele abriu minhas pernas e passou o dedo entre meu ânus e minha vagina.

— Eu só quero brincar um pouco. – Ele me disse perto do ouvido. Dava para perceber um nervosismo na voz dele.

— O que você está fazendo? Por favor, primo, pare!

Então senti algo me invadindo por trás. Entrava e me machucava, eu só queria gritar, mas ele abafou meus gritos.

— Calma, – Disse ofegante — isso já vai acabar.

Após já estar dentro de mim, ele me colocou de quatro e começou a alisar minha vagina com o dedo. Ele estava suando e eu também, minhas lágrimas desciam pelo meu rosto. Eu não me culpo por ter caído na dele, eu não me culpo por ter ido atrás, eu não me culpo por desobedecer minha vó, mas eu me culpo por de alguma forma ter gostado do momento. Era uma sensação boa, mas isso não anulou a dor da qual eu estava sentindo.

Ele parou e saiu de trás de mim. Foi até a cozinha e voltou correndo com um papel toalha para me limpar.

— Não conta isso para ninguém, tá bom? Nosso segredo.

E saiu do quarto. Eu muito dolorida arrisquei passar a mão na minha bunda e senti algo líquido, olhei e vi que era sangue.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.