Na Harpa de Um Anjo

1 Ai, Catarina Inara Ellard


O que é o sexo? Um ato carnal ou simplesmente uma forma de demonstrar o gênero, seja masculino ou feminino? Eu não sei o que é. Bom, na verdade eu não sei o que eu sou.

Sobre minha cama e com as apostilas jogadas ao pé dela, escuto Sex Rules de Sky Ferreira no meu celular e sinto saudades dos beijos e dos dedos de Ciella em meu corpo.

“Use your god given tools
Sex rules”

Coloquei minha mão por dentro da blusa, como sempre fazia. Meus seios soltos sem sutiã estavam normais, até o momento que passei o dedo indicador ao redor do mamilo que começou a se eriçar. Senti o comumente calor de sempre no meio das minhas pernas, então comecei a descer percorrendo cada ponto da minha barriga, enquanto sentia minhas orelhas ficarem vermelhas.

Trouxe os dedos para minha boca e lambi os dois principais.

A maçaneta da minha porta foi forçada e levei um susto. Dei um pulo e destranquei a porta, era minha mãe

— Por que está com essa porta fechada? – Meu gato, Frazão, entrou pela fresta da porta entre minha mãe e ela.

— Estava estudando. – Disse apontando meu pescoço para as apostilas. Meu coração ainda estava acelerado – Chegou agora?

— Trouxe torta de morango para você. Deixa essa porta encostada – E saiu do meu quarto.

Minha mãe é uma linda.

Após chegar no ponto alto do meu prazer, veio aquele sentimento de repulsa por mim mesma. Aquela vontade de largar Ciella e ser feliz com um homem. Mas meu problema é que eu não sinto nem um pingo de tesão por eles desde pequena.

Ela é, sim, especial, pois foi com ela a minha primeira vez. Mas nem ao menos sei se isso ainda me torna virgem. Tenho 19 anos e é uma sensação horrível dizer as pessoas que ainda sou virgem, hoje em dia o estranho é perder a virgindade com mais de 17 anos. Pois com a Ciella eu realmente não sei se o que fizemos me tirou a virgindade.

Frazão pulou em minha cama e começou a miar pedindo atenção. Sentei e estiquei os braços para ele vir. Ele é tão carinhoso, embora eu saiba que esse carinho que ele faz em mim é apenas para ele. Ele é um siamês de 3 anos, encontrei-o na rua ainda filhotinho.

— Ei, Frazão, queria ser como você com um sexo definido. Você sai pela janela toda noite para acasalar com as gatas e eu fico aqui no meu quarto com essa indecisão. – Às vezes tenho a impressão que ele me entende, pois ele parou de se roçar no meu braço e repousou sua cabeça no meu colo me olhando com aqueles grandes e brilhantes olhos cor de amêndoas azulados.

Meu celular tocou. E era ela, Catarina Inara Ellard, minha Ciella.

— Oi.

— Oi, meu anjo. – Ela respondeu no outro lado da linha com aquela voz doce. – Tudo bem?

— Tudo sim. – Como é estranho o fato de eu não ter vontade de conversar com ela por telefone ou por mensagem, mas quando eu a vejo não consigo destratá-la. É impressionante o quanto agora pouco eu estava pensando nela e nesse momento queria que ela me esquecesse.

— Está fazendo o quê?

— Estudando para o curso. – Respondi sem emoção.

— Ah.

Uma pausa.

— Tudo bem então, amor. Vou deixar você estudando.

Ela sempre fazia isso, esperava que eu pedisse para ficar e que não estava incomodando. Mas eu não entendo por que, mesmo sabendo disso, eu não pedia, não queria conversar com ela.

— Beijo nessa boca gostosa, Ciella. – Dessa maneira falei para que ela não se sentisse estranha.

— Outro no seu pescoço, anjo. – E desligou.

Eu tento entender por que não sinto nada por ela quando não estamos cara a cara, sou muito impaciente. Talvez não seja amor e sim atração. É estranho ter que ficar pensando nisso, então larguei Frazão na cama que pulou para o chão e me seguiu até a cozinha, onde minha mãe estava. Peguei de surpresa ela cochichando ao telefone.

— Eu não sei se vou ser capaz. Está muito pesado e já está faltando alguns itens aqui em casa. – Ela ficou escutando a pessoa no outro lado da linha enquanto fazia a massa para o que parecia ser bolinho de arroz. – Eu sei, eu sei. Mas o pequeno salário da Serena já paga a conta de luz e o resto é para ela.

Retornei para a sala em silêncio. Minha mãe não queria que eu soubesse que estávamos passando por necessidades, mas já percebi as cestas que meus tios davam para ajudar aqui em casa, também já vi que ela foi isenta de ajudar no convênio dos meus avôs. Nessas horas eu queria tanto ter um pai para que ele pudesse dividir esse peso com ela. Mas cadê você, pai?

Quando eu era criança não via as dificuldades que passávamos e agradeço um pouco isso, já que eu não deveria me preocupar tanto, mas hoje eu vejo e queria ter dado pelo menos um pouco de valor.

Comecei a andar pelo corredor pisando forte para que ela não desconfiasse que eu estava escutando a conversa.

— Depois eu te ligo. – Disse ela ao telefone.

— Quem era?

— Era engano, Sina, — Era assim que ela me chamava desde pequena, significa sorte ou destino, ela dizia que eu fui concebida por meio do destino dela e de meu pai. Mas sempre que eu perguntava a respeito dele ela não sabia responder e desconversava – me ajuda a preparar o arroz e os filés, vou colocar óleo para fritar os bolinhos de espinafre.

— Tá brincando comigo né, mãe? Bolinho de espinafre? Por Jesus!

— É muito gostoso.

— Sei muito bem como é gostoso. Eca.

— Como vai aquela menina? – Perguntou passando as costas da mão na testa suada.

— Ciella? Vai bem.

— E vocês duas?

— Vamos bem.

— Poucas palavras.

Lembro que foi muito difícil criar coragem de apresentar Ciella à minha mãe. Mas até que ela aceitou bem, pelo menos na nossa frente, mas a noite eu a escutava rezando e pedindo respostas a Deus, embora sempre deixasse claro que queria a minha felicidade durante as orações.

Minha mãe é uma pessoa incrível, guardo no meu coração todos os momentos que passamos juntas durante minha infância. Se Deus e céu realmente existem, então é para o céu que ela vai.

Falando em Deus, se ele existisse não deixaria a gente passar por dificuldades. Minha mãe reza toda a noite e eu já rezei muito e de nada adiantou, nada mudou. Continua a mesma merda de sempre, passamos por dificuldade mesmo com minha mãe lutando todos os dias. Se Deus realmente existisse não deixaria tantas crianças com fome por aí, as pessoas não teriam doenças sérias como o câncer, por exemplo. Acho que essa é a pior doença, o câncer, um tio e uma amiga minha morreram dessa merda e adivinha só?, eles eram cristãos.

Minha mãe nem imagina que eu não acredito Nele, finjo para que ela se sinta bem, mas odeio ir em igrejas, odeio ter que ficar ouvindo meus avôs falando de santos e de promessas em catedrais. Deus é apenas uma imagem da imaginação de pessoas que querem se apoiar em algo. Só não digo que essas pessoas são fracas, porque sei o quanto minha mãe é forte.

Arrumei a mesa e comi os bolinhos de espinafre totalmente triturados e misturados com o arroz e o feijão.

— Assim você não vai sentir o gosto.

— Exatamente por isso que estou comendo assim, mãe. – Dei mais algumas garfadas – Mãe, quero sair do emprego para procurar algo melhor.

— Mas por que isso, Serena? Esse emprego de 6 horas por dia é melhor para você ter tempo de estudar para entrar na faculdade.

— Sei que estamos passando por dificuldades e eu não aguento mais trabalhar em uma empresa de Telemarketing!

Ela tomou um grande gole de suco e largou os talheres na mesa.

— Há quanto tempo?

— Quase dois meses. Vejo o quanto você fica estranha quando chega as contas, também já reparei nas cestas que os tios dão. Eu quero ajudar, você está trabalhando praticamente de segunda a segunda.

— Não queria que você se envolvesse nisso.

— Mãe, — dei uma risada – eu estou envolvida nisso desde o começo. Somos um só, se lembra? Vou te ajudar sim, você queira ou não! É por isso que eu preciso largar aquela bosta daquele emprego, preciso ganhar mais que um salário mínimo.

— Teimosa.

— Como você.

— Seus olhos, Sina, impressionantes como são parecidos com os do seu pai.

— Como ele era?

Ela abaixou a cabeça e se levantou para colocar o prato na pia. Novamente ela ia fugir do assunto.

— Mãe, por favor...

— Ele era o cara mais bonito que já havia encontrado, tinha um charme quase hipnótico, não apenas sobre mim mas sobre todas as garotas. Por onde ele passava seus olhares caiam sobre ele. Os olhos azuis dele eram iguais aos seus, como se fosse um céu límpido. É a única coisa que você herdou dele. – Aproveitando a situação de que ela estava falando dele, comecei a fazer mais perguntas.

— E para onde ele foi? Por que nos largou? Qual o nome dele?

— Serena, eu já disse que não sei o motivo. Só lembro de ele ter desaparecido. Ele se chamava... se chamava... eu... – Aquela expressão de confusão em seu rosto — Não me recordo. Estranho.

Como ela não lembrava o nome do seu grande amor? Um amor que a largou grávida, seria impossível esquecer um nome de alguém assim.

— Tudo bem se não quiser falar.

— Não é isso, é que eu realmente não me lembro.

— Tá bom então.

Ajudei a limpar a cozinha e constantemente a olhava para sua confusa expressão no rosto. Era como se ela estivesse realmente travando uma luta tentando puxar da memória o nome do meu querido papai.

Voltei para meu quarto para ajeitar minhas coisas de estudos e havia uma mensagem no meu celular. Ciella.

— Ai, Catarina! Não me enche a paciência.

Fiz questão de visualizar e então desliguei o celular e depois ataquei longe. Qualquer coisa era só eu dizer que acabou a bateria bem na hora que iria responder.

Ciella tinha um cabelo curto que eu amava, combinava com ela assim como limão combinava com pinga. Seus olhos eram tão escuros quanto seu cabelo, ela tinha uma cintura que me deixava louca e adorava passar meus braços nela. Ela tinha uma beleza rara com aquele nariz fino e empinado, assim como sua bunda. Possuía um estilo invejável e qualquer roupa lhe caia bem. Mas se me perguntar o por que a trato mal, não sei responder. Só sei que é como eu sentisse e não sentisse nada por ela.

Digo, no começo era incrível. Não parávamos de conversar, as duas não conseguiam viver sem enviar uma mensagem. Nenhuma das duas deixava a outra esperando resposta e quando raramente acontecia pedíamos desculpas pela demora; sempre esperava ela chegar em casa após a faculdade para ver se chegou bem. Quando ela saia com os amigos e ficava me mandando mensagem, eu pedia para ela curtir com eles e não ficar conversando comigo, porque isso só iria atrapalhar e ela me dizia que eu nunca atrapalhava e que podia fazer os dois ao mesmo tempo. Hoje tudo mudou, talvez por minha culpa. Não, talvez não, certeza.

Subi em cima da minha cômoda e fiquei olhando para fora da janela do meu quarto e via apenas as luzes dos postes e de algumas casas acesas. Repetia esse mesmo ato praticamente todas as noites em busca de visualizar algo diferente. Nunca houveram mudanças, apenas as diferentes fases da lua, o brilho das estrelas que se extinguiam com a poluição luminosa e as luzes dos postes que mudavam de branco para laranja.

Aquela mesma visão de sempre começou a mexer com minha cabeça, a cada vez que abria a janela dava uma imensa vontade de sair de casa, fugir para longe; não que eu não goste de onde moro, apenas cansei daquela monotonia. Queria sair e explorar o mundo, conhecer outros países, ver paisagens diferentes daquelas que há muito estavam exauridas; mas a cada vez que essa vontade me inundava, ela era perdida em meio a tristeza e realidade de saber que nunca iria poder realizar esse meu sonho. Hoje tenho que ajudar a minha mãe e apesar do meu sonho não poder se tornar realidade ficarei aqui para ela, por enquanto.

Desci da cômoda e liguei o celular para respondê-la.

— Oi, amor. Desculpa, estava ajudando minha mãe a limpar a casa.