Na Escuridão: O Mistério da Meia-noite
1 Genesis - Parte 1
Notas iniciais
Desligo as luzes, subo as escadas e entro em meu quarto. A única luz no momento é a da Lua, na sua fase Cheia, estancada no céu do Condado de Orange.
Deposito minha xícara de chá preto em cima da mesa ao lado da porta que me leva até a sacada. Sento-me na cadeira de praia que está – e sempre esteve – esperando por mim. O calor da bebida ainda quente é minha única companhia, a Lua minha lâmpada natural e a paisagem escura acompanhada apenas das luzes dos jardins das mansões rua abaixo são a obra de arte que qualquer apaixonado por pinturas realistas (e por um pouco de mistério) gostaria de ver.
O mar está praticamente invisível aos meus olhos, a não ser pelas ondas que batem na areia da praia e voltam até o meio do oceano. O som é música para meus ouvidos. E falando em música, acabo de lembrar-me de um companheiro inseparável. Meu iPod.
– Como pude me esquecer de você, amiguinho? – sussurro ao pegar o aparelho na mesa ao lado da porta.
E então, coloco para tocar a mesma música de sempre. “Midnight”, do Coldplay, para combinar bem com a situação. Meia-noite em ponto. Há essa hora meus pais e, provavelmente, todos os meus vizinhos já devem estar dormindo. É aí que eu me pergunto como eles podem ser tão bestas a ponto de não apreciarem tal vista. O breu da noite. Talvez seja egoísmo de minha parte, mas a noite é a melhor coisa que se tem para aliviar todo o estresse que você acumula ao longo do dia. Meus pais não gostam muito dessa ideia de eu ficar acordado durante a madrugada, pois temem que algo vá acontecer comigo – a única coisa que me ocorreu nos cinco anos deste meu hábito, foi quando eu acabei dormindo na própria sacada.
Mas nos últimos dias eu comecei a sentir que as coisas não estavam mais como costumavam ser. Não tinha mais toda aquela tranquilidade. Na verdade, até tinha, mas havia algo no ar, uma coisa que eu não consigo definir.
– Você sente as coisas ficando diferentes? – sussurro para a Lua.
Espero uma resposta, o que é algo estúpido de se fazer, pois estou falando com um astro. Que permanece branco, gigante, luminoso e imóvel no céu.
– Vim percebendo isso ao longo da semana, mas espero que não seja nada. Talvez seja coisa da minha cabeça, nossa cidade anda tão tranquila que nem dá pra acreditar.
O silêncio toma conta do local e eu apenas aprecio a música em meus ouvidos.
De repente, as luzes dos jardins das casas, se apagam simultaneamente. Tudo fica escuro. Com os fones ainda em meu ouvido, começo a ouvir um som, que não era comum na faixa em que atualmente eu estava escutando. Tiro-os do ouvido e ao dar pause na música, são 0h38. O zunido continua. Como aqueles que você ouve no fundo do seu ouvido às vezes. Mas esse vinha da rua debaixo à minha, uma descida. Não vejo nada além do que costumava ver, pois há uma casa logo na frente.
– Mas que porra – sussurro.
O barulho começa a entrar fundo no meu ouvido, invade meu cérebro, que se encontra atordoado com toda essa coisa anormal que eu nunca havia visto. Até que o relógio marca 0h42 e o som se dissipa aos poucos. As luzes voltam a ficar acesas. Tudo está, digamos “normal” novamente.
Pego minha xícara, saio do quarto e me encaminho até a pia da cozinha, silenciosamente. A cena ainda na minha cabeça. Lavo-a na pia da cozinha e deixo escorrer. Um copo d’água seria uma boa ideia agora.
E então tudo começa novamente, dessa vez muito mais intenso, mas em câmera lenta. Os vidros das janelas próximas a mim se quebram em mil pedaços. O som do vidro se corroendo, acompanhado do zunido – mil vezes mais alto — parece que vai estourar meus tímpanos. Uma luz azul e tão brilhosa faz com meus olhos se fechem na hora. Tento colocar meus braços sobre meus olhos, mas quando faço isso, tudo se foi. Tudo era uma mentira, uma ilusão, coisa da minha cabeça. Estou apoiado no balcão da cozinha, suando frio, no breu. Nenhum vidro quebrado.
De volta ao meu quarto, já na minha cama, tenho assimilar tudo que me aconteceu, para tentar descobrir o que foi verdade e o que foi mentira. Ao que eu sei apenas o zunido às 0h38 foi real. Então pego no sono.
As luzes que eu “vi” na cozinha estão diante de meus olhos novamente. Do mesmo jeito. Azuis, brilhantes, e em câmera lenta. Mas dessa vez não é um zunido nem sons de vidros quebrados acompanham ao frenesi luminoso. Ouço sons de harpas, o que faz me sentir em um paraíso. De repente o som de um vidro quebrado volta e tudo se torna um inferno, mas quem ganha o duelo desta vez é eu, que já estou sentado na minha cama e com as costas encostadas à cabeceira. Permaneço imóvel, abraçado à minhas pernas que tocam em meu peito, encarando a parede azul a três metros de mim até que minha mãe invada meu quarto.
– Ah, você está acordado, Mark – diz ela, assustada.
– Sim, mãe. O que foi? – respondo enquanto ela se senta na borda da cama.
– A Mary da rua de baixo desapareceu.
– Mary Smith?
– Essa mesmo.
– Mas como aconteceu?
– Eu não sei ao certo. Na verdade, ninguém sabe. Os Smiths acordaram e simplesmente viram que ela não estava lá. A polícia foi chamada e eles já estão há umas cinco ou seis horas procurando por ela.
– Caramba... – respondo enquanto coço a cabeça – Confuso nem expressa como eu estou me sentindo agora.
– Rose! – diz meu pai, lá de baixo – Venha aqui, por favor!
– Ah, seu pai. Inventa de fazer o café da manhã, mas mal sabe fritar umas panquecas. Deixe-me ir.
– Ok...
Ela desce e me deixa sozinho em meu quarto. Como ainda acabei de acordar, o mundo parece bem mais entediante do que costuma ser quando estou bem acordado. Visto um roupão e vou até a cozinha onde ambos estão me esperando.
– Bom dia, “Homem-morcego” – cumprimenta papai, que me deu esse apelido por conta do meu digamos, estilo de vida.
– Bom dia, pai.
Arrisco-me a morder uns pedaços de panquecas do meu pai que mais parecem um LP de tão queimadas que estão. Tive a brilhante ideia de então raspar os queimados com uma faca, e voilá, está bem mais apetitoso.
O som da aglomeração de pessoas e dos carros da polícia à frente de casa por conta do desaparecimento de Mary já entra em meu ouvido e sai pelo outro. Mas de repente todo aquele barulho se torna mais insuportável. Meus pais me chamam pra ir pra rua para ver e então tomo um gole de chá para empurrar a comida e saio com a xícara na mão.
– Estão levando o Sr. Filkins algemado para o carro? – pergunta mamãe.
Filkins é aquele tipo de cara que tem aparência de zelador de escola. Velho, rabugento, careca – com cabelos grisalhos apenas nas laterais — e com os olhos cansados, talvez por causa da idade. No fundo é uma boa pessoa. Ele não teria feito isso. Ele não fede nem cheira.
– Sinceramente, eu não acho que ele tenha feito algo – comento.
Vejo o velho ser arrastado para o carro da polícia enquanto meu pai e minha mãe vão falar com o vizinho do lado, Sr. Stewart. O policial dá a partida no carro e ele vai indo rua abaixo. A rua. Aquela mesma de onde veio o zunido de madrugada. E toda aquela cena se repete na minha cabeça. Zunido. Na frente da casa da Mary. O desaparecimento.
Agora tudo está ficando mais claro – e muito mais legal.
Fale com o autor