NY16+

1 Capítulo 1


Notas iniciais
Boa leitura!

— Era realmente necessário trazer isso ? — Julia não pôde evitar a pergunta enquanto esperava do alto da escada por Lauren, era a terceira vez que uma das rodas da velha mala se soltava e ela era obrigada a parar e arrumar já que carregar a mala nos braços era impossível, levando em conta o quão pesada estava.

— Eu te disse que precisava de outra mala. Não reclama. — Lauren murmurou entre os dentes, tentando não perder a concentração.

— Ou era a mala, ou era Nova York.

— Consegui! Agora não solta mais. Disse depois de alguns segundos ignorando os olhares de tédio de Julia — Vamos ver o apartamento. — Deu um grande sorriso, Julia fechou os olhos verdes e apertou os lábios cruzando os dedos.

Como se fosse criança novamente Lauren agarrou na alça da mala e começou a escalar os três seguidos lances de escadas que precisava subir até chegar à sua nova velha moradia no Brooklyn. Talvez no segundo, ou até mesmo no primeiro lance de escadas, perdeu novamente uma das rodas da mala, mas, com um palavrão, deixou isso de lado e continuou a correr ultrapassando Julia até chegar no apartamento. A chave já estava em suas mãos quando alcançou a porta e segundos depois, com o pé, a escancarou.

Já havia visto imagens do pequeno apartamento pela internet, por isso não se assustou com o estilo básico dele: a porta de entrada dava direto para a sala — um pouco maior do que parecia ser pela tela do notebook — que era separada da cozinha por uma bancada, ao lado direito de Lauren estava a porta para o pequeno banheiro que, para sua felicidade, tinha uma bandeira. Deixou a mala na porta e sem esperar por Julia foi até o corredor ao lado da cozinha — coisa a qual ela nem ao menos olhou. Havia combinado com a companheira de casa de ficar com o quarto mais iluminado, o que tinha acesso as escadas de incêndio, afinal, quando se é adolescente é sempre bom ter uma saída além da principal. Passou reto pela primeira porta e foi até o final do corredor. O quarto parecia estar à sua espera e quando ela empurrou o portão para o reino delicadamente com a ponta dos dedos, a luz radiante do sol lhe atingiu os olhos parecendo dizer-lhe: "Seja bem vinda!".

Por impulso, abriu um sorriso. Sua boa e velha cama colonial de ferro já estava preparada com o seu colchão, faltavam apenas os lençóis. Ao canto esquerdo do quarto havia um pequeno closet com um espelho na porta e ao seu lado uma escrivaninha básica com uma cadeira e um abajur. Haviam duas janelas: uma de frente para a entrada, e outra acima da cabeceira de sua cama ao lado direito da porta, fazendo o trabalho de destacar a parede de tijolos. Caixas estavam espalhadas por todo o quarto contendo CDs, livros e diversas outras coisas que Lauren se recusava a jogar fora.

Seu quarto no seu antigo lar em Detroit era muito mais moderno e espaçoso, mas a nova casa parecia tão acolhedora — mesmo estando tão empoeirada. Lauren definitivamente não era o tipo de pessoa que tinha o nível de felicidade e de humor influenciados pelo local onde estava vivendo. Detroit não era um paraíso, o índice de violência estava sempre a crescer e quanto mais o tempo passava mais pessoas abandonavam a cidade e menos pessoas chegavam à cidade. Entretanto, era muito prazeroso fazer fogueiras nas velhas construções abandonadas com os colegas malucos da escola. Ela nunca havia se mudado, nascera e crescera ali, e dali não sairia, é claro, se Julia não recebesse uma ótima oportunidade de emprego na cidade que nunca dorme.

— O quê achou ? — Disse a mulher de repente, Lauren se virou e se perguntou a quanto tempo ela estava ali, no batente da porta a lhe observar.

— Legalzinho. — Fez uma careta e se esforçou para esconder o sorriso, algo que não funcionou muito. Julia mexeu nos cabelos lisos avermelhados e deixou transparecer alto nível de esperança quando redirecionou os olhos à Lauren novamente. As duas não tinham sangue uma da outra mas pareciam ter uma conexão tão mágica que, segundo reflexões de ambas, nem mãe e nem filha biológicas poderiam ter.

Apesar de não saber muito sobre, Lauren acreditava ter tido uma família conturbada, o que acabou levando-a para os cuidados do governo e logo depois para as mãos de uma jovem infeliz que precisava de alguém.. Essa era Julia — "jovem infeliz" é exatamente o pseudônimo perfeito para ela no momento em que resgatou Lauren. Adotar uma criança não é bem lá a melhor atitude a se tomar quando (a) recém divorciada e (b) desamparada pelos pais, mas, bem, foi exatamente isso o que Julia fez. E acredita ter sido a sua melhor atitude na vida.

Depois de alguns anos, Lauren teve a oportunidade de conhecer sua mãe, porém se recusou. Aos 8 anos fez uma promessa à Julia, de que seriam apenas elas, mais ninguém, amigos nunca tomariam o lugar uma da outra. Família ? Não, sem família. A única família que existia ali eram elas. Julia, Lauren e o mundo. E aquilo era realmente sério, como um relacionamento estabelecido por lei. Ir para Nova York foi como dizer adeus a única coisa que lhes restavam além de uma a outra: para Julia, o que sobrava de sua família, para Lauren o que eram seus colegas.

Mas é disso que todos precisamos não é ? Algo a que ser fiel.

***

Sem se importar com o estranho que estava à mesa e também com o resto das pessoas presentes no restaurante, Kate juntou as mãos em frente ao rosto, abaixou a cabeça e, de olhos fechados, começou a murmurar palavras que nem seu pai nem o representante das empresas Voggelmann puderam compreender. Estava agradecendo pela comida como sua mãe lhe ensinara a fazer todas os dias antes de apreciar o almoço preparado pelas empregadas. Depois de alguns segundos levantou os olhos com um sorriso simpático para os dois homens à sua frente.

— Bem, podemos começar ?

Seu pai lhe respondeu com um aceno, orgulhoso, e o homem ao seu lado fez o mesmo. Com delicadeza Kate deu uma garfada em seu prato vegetariano enquanto os homens se serviam do vinho mais caro do restaurante francês. Se divertiram contando piadas não tão engraçadas que apenas os moradores de Manhattan entenderiam, depois falaram sobre a bolsa de valores e o que estava acontecendo na Grécia. Apesar de ter apenas dezesseis anos Kate participou de toda a conversa, como uma dama, é claro, mas uma dama que tinha sua opinião valorizada pelos homens mais velhos. Seu pai era o dono de uma grande empresa de investimentos e, como filha única, um dia herdaria tudo que ele deixasse, por isso participava de todas as reuniões que podia. Diferente de sua mãe, seu pai lhe tratava como uma pessoa individual, alguém que tinha vida própria, e não uma propriedade.

Depois de terminarem a sobremesa o pai de Kate pediu pelos arquivos que continham as informações econômicas das Empresas Voggelmann nos últimos dois anos. Índices apontavam os gastos que cresceram com o tempo mas também mostravam o ganho superavitário. Primeiro o pai de Kate analisou, depois ela pegou as pastas e olhou com toda a concentração do mundo. O representante estava um tanto quanto curioso, afinal, não é sempre que se vê uma jovem que nem na faculdade chegou analisando papéis tão sérios assim.

— Todas as informações conferem ? — Kate indagou ainda com os olhos mergulhados nas estatísticas para o ano de 2016.

— Completamente, Srta. Richards. — Disse o homem confiante.

— Bem. Se é assim.. — Fechou os papéis e olhou para seu pai — As estatísticas são muito boas e o lucro nos últimos meses tem crescido grandemente.

— Você tem bons olhos. — Sorriu, e tornou a olhar para o representante — Negócio fechado. Marque uma reunião com Daniel Collins para quando ele quiser, precisamos assinar os papéis.

Troca de sorrisos, apertos de mão amigáveis e brindes foram as únicas coisas que acontecerem no fim daquele almoço. Todos satisfeitos, não havia momento mais feliz para Kate e seu pai: um bom negócio fechado. Não era apenas um investimento, 35% das ações seriam compradas e, se as empresas continuassem a crescer — como imaginavam que fosse acontecer -, ele logo tentaria algo mais autoritário como obter mais da metade das ações e virar o novo CEO da Voggelmann.

Após as despedidas e agradecimentos os dois entraram na limusine escura que esperava por eles na frente do restaurante e foram direto para casa. O dia seguinte seria como qualquer outro, trabalho para ele, escola para ela. As aulas na Honoris School haviam voltado há uma semana e, como uma boa escola privada Nova Yorkina, os alunos já tinham muito o que fazer e estudar.

Kate mora em um condomínio privado de alta classe em Manhattan. Apenas com sua mãe e seu pai. Sua mãe sempre foi tremendamente religiosa, seu tempo é divido entre: igreja, maquiagem, ensinar Kate a andar na linha e levar Kate à igreja. Ela é vice diretora de uma empresa de maquiagem, a Nativis, mas isso não parece ter a menor importância para ela já que quase não trabalha. Permanece na empresa apenas pelo tanto de poder que tem nas mãos e o tanto de dinheiro que guarda no banco — grande parte do seu marido, na verdade. Sua relação com Kate não é de mãe e filha, ela, na verdade, a trata como a pessoa que um dia irá substituí-la na chamada sociedade, não exatamente como seu pai, que ainda sim a trata com amor. É como se tudo que vivessem juntas fosse por algo maior que estava para acontecer, muitas vezes Kate se sente como uma aluna ao lado de uma professora tremendamente severa.

— Chegaram cedo. — Disse Elle com a mesma feição fria de sempre — Eliot apareceu por aqui e lhe deixou alguns papéis.

— Eu sei. — Respondeu Paul com certa indelicadeza, Kate reparou com atenção, algo parecia estar acontecendo entre os dois, algo não muito bom. E como sempre: ela não pôde deixar de ficar preocupada. Ocorreram algumas trocas de olhares severas entre Elle e Paul, realmente sério. Kate ficou a observar os dois preocupada e desejando poder ajudar, mas tudo o que fez foi ir diretamente para o seu quarto quando sua mãe lhe lançou um olhar totalmente desagradável.

Não demorou muito para a discussão começar. "Por que você não me disse que ia comprar a porcaria de uma empresa ?!" disse Elle entre os dentes e antes de Kate fechar a porta do quarto e não poder ouvir mais nada, Paul lhe respondeu: "Porque a compra da porcaria da empresa não tem nada a ver com você!". Não era a primeira vez na semana que uma discussão começava de repente, provavelmente também não seria a última. Kate estava começando a se acostumar, o que parecia ser terrível quando ela refletia alguns segundos sobre.

Sentou-se na cama e com delicadeza tirou o par de Valentinos que usava. Esticou as pernas ainda ouvindo o som abafado do confronto que acontecia na sala de estar. Jogou se na cama, o cabelo castanho levemente ondulado nas pontas bagunçado na cama, os olhos castanhos rondando o teto e o pensamento a vagar. A primeira coisa que lhe veio à cabeça foi Joshua. Um leve sorriso se abriu em seus lábios avermelhados. Pensou em seus olhos verdes, o cabelo escuro recém cortado e a feição calma e debochada que sempre usava. Haviam se beijado na festa de aniversário de Andrew Samuels em um clube badalado de Manhattan. Isso fora há exatamente um mês atrás, e parecia ter ocorrido há mais de um ano.

Sempre fora apaixonada por ele. Fazia tanto tempo que o sentimento começara que nem ao menos podia se lembrar da primeira vez que sentiu seu coração acelerar apenas por ver ou pensar nele. Era um garoto gentil, apesar de às vezes deixar transparecer certos modos grosseiros. Muitas vezes Kate o pegou agindo como se estivesse prestes a perder algo muito importante e, por isso, tendo ações um pouco egoístas. Mas era assim que deveria ser, certo ? É bom saber isso desde adolescente, viver em Nova York não é fácil, nos mundos do negócios então muito menos. Joshua, assim como Kate, seria o herdeiro de tudo o que sua família tinha — já que Elizabeth já admitira só querer um dinheiro para viver e nada mais que isso, e como seus pais sempre a ouviam, era apenas isso o que teria. É exatamente por causa disso que os dois deveriam ficar juntos. Ambos sabem como tudo funciona. Kate entende que às vezes não pode ser a pessoa boa que todos querem que ela seja — e que normalmente é.

Seu celular vibrou em cima da cama libertando-a de seus pensamentos. Era Elizabeth.

olha essa merda!!! vovózinhas no caminho

x elol x

Uma foto de joelhos pálidos e magros com sangue a escorrer de dois belos machucados estava logo abaixo da mensagem. Kate abriu um sorriso, não poderia esperar isso de mais ninguém.

Parabéns! Ainda bem que você é neta da diretora!

Richards

Elizabeth é o exato tipo de jovem que Kate costuma chamar de "rebelde sem causa". Tem tudo o que quer, sua mãe é maravilhosa, seu pai é provavelmente o arquiteto mais bem sucedido de Nova York e ela não pode se apaixonar por Josh, já que ele é seu irmão — isso contaria vários pontos de felicidade à mais para Kate, se fosse com ela. E ainda por cima é a neta de Janet Olsen, a diretora da Honoris School, o que a ajuda muitos com suas notas e também com a liberdade de chegar um pouco mais atrasada do que os outros alunos. Sim, totalmente abusivo, mas sim, totalmente correto. Todos sabem que não há regras quando se fala em família — tirando a família Elle e Kate.

***

— Que porcaria! Isso dói demais! — Elizabeth não se importou em gritar o mais alto que pôde. Estava sentada no pequeno lance de escadas à porta de entrada de seu prédio.

— Algum problema Srta. Olsen ? — Perguntou o porteiro se curvando um pouco para ela.

— Olha Joseph, preciso de álcool e uns esparadrapos. Consegue arranjar para mim ? — Ela perguntou fazendo uma careta ao tentar fechar um dos olhos para não ser incomodada pela luz solar do começo de fim de tarde.

— Bem, — O homem idoso disse com um sorriso torto — Não é muito o meu trabalho mas.. — Pensou alguns segundos — Desculpe, Srta. Olsen, talvez não seja melhor sua mãe cuidar de seus machucados ? Como médica, acredito que cuide disso melhor do que a senhorita ou até mesmo eu.

Elizabeth soltou um suspiro.

— É, você tem razão caro Joseph. Porém a Sra. Olsen está recebendo um grupo de mulheres chatas e velhas para um chá. E, por mais irreverente que ela seja, não acredito que vá deixar as velhinhas tomando chá sozinhas para cuidar do machucadinho de sua filha. Por favor? — Sua palavras foram proferidas em alto e bom tom, mas ainda sim soaram simpáticas e doces aos ouvidos do velho porteiro, que não se preocupou em ir até a farmácia mais próxima para Elizabeth.

Depois de alguns minutos, Joseph voltou com uma sacola de farmácia nas mãos. Elizabeth lhe pagou e, sem se preocupar com os modos, lhe deu um beijo no rosto murmurando um "Eu te amo" com tremenda simpatia. Se sentou nas escadas, abriu o pequeno copo de álcool e derramou nos joelhos ralados. Já estava acostumada com machucados, mas não conseguiu resistir em gritar e fechar os punhos. Soltou um suspiro alto e quando abriu os olhos deparou-se com Joshua a lhe encarar.

— Você parece um fantasma. Vive aparecendo do nada na vida das pessoas. — Ela murmurou de olhos arregalados. Pegou com a ponta dos dedos uma gaze a pôs delicadamente no joelho direito, o seu sangue havia penetrado o canto de suas unhas pretas — de sujeira e esmalte — o que deixou suas mãos pálidas com um ar um pouco assustador. Josh a analisou cuidar dos machucados com concentração, tinha uma pergunta a lhe fazer mas conversar com Elizabeth não era uma boa ideia num momento daqueles.

Após terminar com os curativos, colocou a bolsa transversal no ombro e pegou o skate com a mão. Percebendo que Josh ainda permanecia parado lá, lhe olhou curiosa.

— Então, o que você quer ? — Perguntou curiosa para Josh. Ele parecia um pouco concentrado em seus pensamentos enquanto encarava o chão. Levantou os olhos para ela e parecia um pouco surpreso.

— Você não vai subir ? — Perguntou apontando para o prédio.

— Olha minha cara de ânimo pra tomar chá com o clube da juventude dos anos 20. —- Fez uma careta de nojo e tédio e saiu andando em direção à calçada — Vou dar mais uma volta.

— Você sabe que tem um estudo sobre Hamlet pra entregar amanhã para a Sra. Johansson, né ? — Ele disse se virando para acompanhá-la com o olhar até o portão. Elizabeth parou de caminhar e se virou pra trás.

— Bem, na verdade não. Obrigada por me lembrar, mas vou sair do mesmo jeito. — Ela pensou um pouco e olhou para o irmão que a encarava com o sorriso confiante de sempre. O sorriso confiante e debochado — Você já fez ?

— Não. — Ele lhe respondeu ficando sério de repente — Estou indo contratar os serviços do Lafaiete, ele me deve uma então vai fazer pra mim.

Elizabeth não poderia deixar a oportunidade passar. Conhecia Joshua há dezesseis anos e sabia muito que ele só desperdiçaria seu tempo falando com ela se quisesse algo de sua parte. Rondou-o um pouco com um sorriso e lhe perguntou:

— Consegue arranjar um trabalho feito para mim também ? É melhor eu tomar cuidado com as minhas notas se quiser viajar no verão.

Joshua abriu um sorriso.

— Você sabe que tudo tem um preço.

— Diz.. — Elizabeth revirou os olhos — Mas eu juro que não vou mais roubar o celular de nenhuma das garotas na aula de Educação Física.

— Não estamos mais na oitava série, Elizabeth. — Respondeu-a, sério — Preciso que me diga se a Kate tem lhe falado sobre mim. Algo ?

A garota riu do jeito debochado que seu irmão costumava fazer. Ele não é muito bem o tipo de cara que se preocupava com as garotas, é bonito e sabe disso, quando quer algo se sente no direito de tê-lo sem ao menos pedir permissão — já que isso raramente é necessário. Mas com Kate tudo parece ser diferente. Não diferente do tipo "Ela é especial" — como fora com Sophie, antes dela desaparecer do mapa -, mas Kate, sempre tão doce e simpática com todos, faz ficar difícil saber quando algo realmente está acontecendo. Eles haviam se beijado há um mês, não fora algo tão diferente para Josh, mas talvez uma namorada naquela altura do campeonato não fosse algo tão ruim. Ainda mais uma namorada como Kate Richards, a filha de um dos maiores investidores de Nova York, alguém tão bem na sociedade e tão jovem quanto ele próprio.

— É, ela andou falando de você sim. Perguntando sobre você. Tipo, sábado. E ontem. E hoje.

Kate e Elizabeth, melhores amigas. Portanto, qualquer coisa que ele precisasse saber era só perguntar à querida irmã. Porém, por isso mesmo, não podia tratar Kate como tratava a todas, não podia deixar escapar que tudo não passava de um passatempo para ele. Por isso escondeu o sorriso sádico, virou o rosto e coçou o queixo, o que fazia quando não sabia como agir. Saiu andando e ao passar por Elizabeth lhe tranquilizou.

— Pode esperar um dez da Sra. Johansson.

***

Nathan parecia muito mais velho usando a camiseta social branca e o blazer escuro. Havia recebido a mensagem de sua mãe muito em cima da hora e teve de se apressar pegando a primeira roupa social que achou. Quando chegou no pequeno teatro da escola de sua irmã, já não havia mais nenhum lugar para se sentar. Parou ao lado da entrada, encostou-se na parede e procurou por sua irmã no palco. Não foi muito difícil encontrá-la, estava num ato individual, em que só ela estava palco. O teatro era uma adaptação infantil de Romeu e Julieta, o que de começo não pareceu fazer muito sentido, porém muito do enredo havia sido mudado e, muito provavelmente, ninguém morreria no final, além de o amor dos adolescentes ter sido trocado pela amizade das crianças, o que fazia muito mais sentido. Izzie era Julieta e um garoto pálido e rosado era seu Romeu.

Nathan acabou se lembrando do trabalho de Hamlet para o dia seguinte, mas aquilo não lhe preocupou tanto. Já estava nervoso demais com a falta de consideração com a família que seu pai mais uma vez demonstrara. Era a quarta vez que deixara sua filha de lado por causa do trabalho. Isso também acontecera com Nathan quando pequeno, mas ele não se importava tanto quanto Izzie parece se importar. Tem apenas cinco anos e já parece saber o quanto de atenção merece ter de cada pessoa.

Por longos minutos os pensamentos de Nathan voaram longe da peça de teatro. Começou a pensar em Sophie. Já fazia cinco meses que a garota havia voltado para a França com sua avó depois do que ocorrera no jantar de arrecadações de fundos que a mãe de Kate promovera. Tudo aconteceu tão rápido. Começou a refletir como todos estavam começando a esquecer a garota, o que parecia ser algo bom e ruim ao mesmo tempo. Quando se deu conta o espetáculo já havia acabado, todos estavam a aplaudir e Nathan, rapidamente, fez o mesmo. Pelo jeito tudo havia acabado bem, com os pais de Romeu e de Julieta finalmente entendendo que não fazia diferença de que lugar as outras famílias eram, amizade era e sempre seria uma coisa boa.

Nathan tentou desviar das pessoas no corredor central de bancos até chegar à frente do palco, onde já estava sua mãe tirando fotos de Izzie com suas roupas de Julieta. Ao vê-lo, a garota abriu um sorriso animado e pulou do alto do palco em seu colo, agarrando-lhe pelo pescoço e envolvendo as pernas em sua cintura. Nathan não pode fazer nada mais do abraçá-la de volta e dizer que havia sido uma ótima Julieta.

Tudo estava ótimo. Até acontecer a pergunta inevitável:

— Onde está o papai ?

O garoto olhou para sua mãe, que já de prontidão lhe respondeu com delicadeza.

— Ele teve algo muito importante no trabalho acontecendo hoje. Mas me pediu muito para gravar tudo e mostrar a ele depois. Ele disse que não pode esperar por ver você de Julieta.

Era uma tremenda mentira. Ele nem ao menos se importaria em ver as fotos. Nathan não sabia muito bem se a irmã havia aceitado essa mentira, pois ela teve que ir embora para o camarim assim que sua mãe terminou a frase.

Os dois saíram do teatro juntos e foram até o chafariz da escola primária em que Izzie estudava. Ambos em silêncio. Se sentaram num banco e depois de alguns minutos quieta, Alison tirou da bolsa um maço de cigarros e um isqueiro. Nathan, surpreso, a olhou com uma ruga de interrogação na testa. Ela parecia muito abatida, com olheiras profundas que se destacavam mesmo debaixo de uma boa camada de corretivo. Os olhos azuis — os quais Nathan havia recebido de herança — perderam um pouco o brilho enquanto ela acendia o cigarro pendurado nos lábios marcados de batom nude.

— Sério ? — Ele lhe perguntou, se movimentando no banco.

Alison tragou, agarrou o cigarro com os dedos e coçou as sobrancelhas. Nathan viu a vergonha aparecer, mas não a culpava. A vida dela estava horrível. O marido, muito provavelmente, tinha amantes e só pensava em trabalho, e sua filha que precisava do amor paterno só conseguia ver o pai à noite, no jantar — o momento em que ele contava o que fizera em sua empresa -, bem, esses eram apenas os principais problemas, Nathan nem queria pensar nos outros que ela deveria ter. Se sentiu muito mal de repente, e tudo que quis foi fugir. Lembrou de Sophie de novo, pensou em como deveria ser tranquilo em Paris. Nunca gostara de francês, e era péssimo nisso, mas a garota seria uma tremenda professora, com toda certeza.

— Você.. — Sua mãe murmurou com a voz trêmula — Não tem ideia do quanto está difícil para mim.

— Eu imagino, na verdade. — Ele disse, direcionando os pensamentos à Nova York novamente — Mas Izzie precisa de nós dois. E ela precisa de você bem. Sabe muito bem os estragos que o cigarro pode causar. Não imagino que queira terminar como o vovô.

Ela riu, um riso triste.

— Você ainda é jovem e até um pouco inocente para sua idade. Um dia vai se refugiar nessas porcarias e nem vai se preocupar com os estragos que elas vão causar ao seu corpo.

O garoto preferiu fingir não ter ouvido aquelas palavras. Logo Izzie apareceu correndo em direção aos dois, com os cabelos extremamente loiros como os da mãe à voar, Alison fez questão de jogar o cigarro pela metade debaixo do banco, tentando esconder o ato impuro à sua filha. Se levantaram e saíram da escola, todos calados. Nathan não sentiu nada mais que solidão, um aperto tremendo no coração que ele se obrigou a deixar de lado. Se despediu da mãe e deu a desculpa de que precisava ver um amigo. Esperou as duas entrarem no carro e irem embora com o motorista particular para pegar no celular e se decidir para quem ligaria.

Olhou sua lista de contatos por um longo tempo. Ligar para Josh não seria uma boa ideia, ele não era bem o tipo de amigo que sempre está disposto a confortar um coração. O segundo foi Lafaiete, o quê fez Nathan logo se lembrar de sua irmã: Sophie. Melhor não. Elizabeth ? Absolutamente não. A garota parecia tão estranha, havia começado a tratá-lo com certa frieza fazia algumas semanas. Então viu o nome de Kate. A simpática Kate. Com toda certeza ela seria a melhor opção naquele momento, ou em qualquer outro. Apertou em "Ligar" e começou a caminhar pelas calçadas movimentadas de Nova York, já sabendo onde iriam se encontrar.

— Nathan! — A voz animada de Kate soou, já fazendo-o abrir um sorriso — Então, Hamlet ?

— Nem me lembre disso! Essa é definitivamente a última coisa com que tenho que me preocupar.

— Bem, é claro que você não tem que se preocupar com Shakespeare, mas é melhor se preocupar com a Sra. Johansson.

— Definitivamente. — Riu — Olha.. Talvez eu precise de um pouco de ajuda. Não podemos nos encontrar em um café para conversarmos ? Eu não li muito o livro, entende ?

Kate demorou alguns segundos para responder, e quando respondeu, sua voz já não soou tão animada quanto antes.

— Problemas ?

— Imagino que você também tenha os seus mas.. — Começou, porém foi brutalmente interrompido.

— Somos amigos, nem venha com essa de "mas". Nada melhor do que uma boa conversa em um café num final de tarde de terça feira. Te vejo no Chaud. Agora!

Nathan não teve nem tempo de responder. Desligou o celular e guardou-o no bolso. Não queria receber mais nenhuma notícia ruim. Tudo que precisava era de risadas e café. Kate era a melhor pessoa para um momento daqueles, sempre animada, não importa o que aconteça, você sabe que sempre irá ver um sorriso nos lábios dela.

Enquanto caminhava em direção ao local de encontro que ficava na segunda esquina daquela rua, Nathan se deparou com uma visão um pouco peculiar. Uma Kate um pouco mais irreverente estava atravessando a rua, um sorvete nas mãos e os olhos castanhos direcionados a uma mulher ruiva ao seu lado. Os cabelos castanhos pareciam estar um pouco mais compridos, finos e despenteados do que o normal, e as roupas completamente diferentes: uma calça jeans, coturnos de couro — couro demais para Kate — e uma regata larga que apenas Elizabeth usaria. Suas bochechas não estavam rosadas como normalmente estavam, e muito menos seus lábios: limpos de batom e gloss.

Definitivamente não era Kate. Não podia ser. Mas eram tão parecidas! Parecidas era muito pouco, na verdade: elas eram iguais. Após atravessar a rua, a garota começou a caminhar ao lado da mulher a alguns metros à frente de Nathan. Ele tentou correr para alcançá-las mas acabou perdendo-as. Pensou no que faria. O coração um pouco acelerado por ver algo tão bizarro e interessante ao mesmo tempo. Pensou, pensou, então fez o óbvio: foi para o café. Sentou se numa mesa apenas lembrando as feições da garota. Suas roupas tão diferentes a deixavam com um ar indisciplinar tão difícil de se encontrar em Manhattan — a não ser em Elizabeth, é claro.

Depois de alguns minutos, a real Kate apareceu vestindo uma saia rodada rosa clara, sapatilhas da mesma cor e uma camiseta social branca. Usava bijuterias, batom, as bochechas estavam rosadas e as unhas pintadas de rosa. Nathan riu ao vê-la.

— Deus! Você está tão você. — Levantou e cumprimentou-a com um beijo no rosto.

— E isso é ruim ? — Ela disse com um sorriso, ao se afastarem.

— Não. — Ele respondeu-a — Na verdade, é melhor se manter assim se quiser continuar sendo original, pois acabei de ver uma cópia sua andando pelas ruas de Manhattan.

Notas finais
Obrigada por ler! Se sintam à vontade para comentar. =)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.