NY, Lá Vamos Nós.
1 Mudanças.
Notas iniciais
O céu estava lindamente azul e sem nenhuma nuvem naquele dia. O rádio dizia que fazia 24ºC na Dakota do Sul, mas para mim aquele dia foi o mais congelante do ano. Foi o dia que eu observei calada Paloma ao lado de nossa casa e as folhas de outono pousadas na calçada se distanciarem. Eu fechei os olhos enquanto uma lágrima escorria, assim conseguia ver os meus últimos momentos juntos com Mike, Heloisa e Bárbara. Mas seria melhor assim, repeti a mim mesma na tentativa frustrada de me convencer.
A viagem até Nova York foi rápida, eu diria. Meus pais não trocaram uma palavra comigo. Passei a maior parte do tempo tentando me concentrar em meu livro, o que foi um fracasso. Não me lembrava sequer do título, muito menos do que se tratava. Eram apenas palavras soltas que passavam pelos meus olhos, enquanto a minha mente continuava na casa em que eu passei todos os dias de minha existência. Nos amigos que eu estava deixando para trás, os momentos e as desculpas que eu eventualmente teria de inventar. Afinal de contas que tipo de pessoa sai do seu estado sem deixar nenhum recado, nenhum adeus, como uma foragida? É mais ou menos como eu me sinto: como uma foragida. Era dia 26 de outubro, meu aniversário. E esse era o meu presente: recomeçar a vida em Nova York.
Bem, acredito que qualquer garota de 17 anos iria preferir viver em Nova York do que em uma cidadezinha no meio do nada. Mas eu não, eu gostava da minha casa, dos meus amigos e a ideia de chegar em uma cidade grande me assustava.
— Chegamos disse meu pai. Fiquei confusa depois que sai do carro ajeitando o meu vestido, acho que minha mãe também. Até que ele apontou É ali!
Acredito que fiquei nitidamente espantada, a casa (se é que eu podia chamar aquilo de casa) era simplesmente enorme! Havia um jardim lindo na frente, uma árvore que eu não sei nomear cheia de flores. As paredes eram de dois tons de amarelos que diferenciavam das outras casas vizinhas. Era esplêndido. E eu me perguntei instantemente, por que meus pais não compraram uma casa assim na Dakota do Sul? Eu não duvidava que pudessem adquirir um imóvel de tal tamanho, meu pai era um engenheiro muito prestigiado e minha mãe arquiteta. Porém ambos nunca foram extravagantes. Bem, talvez a nova cidade mude um pouco as coisas, certo? Espero que sim.
— Ande, Roberta! Fecha essa boca e leve esses pacotes para dentro, eles não vão andar até lá! Minha mãe disse, já na frente da porta principal.
— Certo, onde é o meu quarto?
— Você vai saber fiz cara confusa é o menor.
Derrotada, levei as caixas e malas com os meus pertences para dentro. Sorte a minha que o caminhão com os moveis e as outras coisas mais pesadas viria só no dia seguinte, do contrário não duvidaria que eles arrumariam um jeitinho de me fazer passar o dia subindo e descendo escadas, empurrando e puxando móveis.
Eu realmente encontrei o quarto facilmente. Era de fato menor que os outros cômodos da casa, mas era suficiente e aconchegante. Aparentava ser também o quarto de bagunças do antigo morador pois estava cheio de teias de aranha e cheirando a mofo. O meu nariz coçava muito, então eu rapidamente descartei a possibilidade de adiar a limpeza por alguns dias. Passei a maior parte da tarde limpando, arrastando, desfazendo caixas e espirrando.
Somente no final da tarde me dei conta de uma janela, antes escondida por caixas, que provavelmente dava para a casa do vizinho. Ótimo, mais uma janela para limpar. Meus pensamentos foram interrompidos pelo som da campainha. Fiquei parada, esperando e desejando como uma idiota que alguém abrisse a porta e eu não precisasse descer. Foi no terceiro toque que eu lembrei: já se passavam das sete e eu estava sozinha em casa. Desci as escadas apressada, agora desejando que o ser que tocava a campainha não fosse embora. E assim abri a porta: provavelmente cheia de pó, com o meu short super curto de faxina. Ao abrir me deparei com os olhos azuis mais profundos que já tinha visto. Posso ter ficado apenas segundos os observando que nem uma idiota, mas pareceram horas.
— Ei! ele disse. Desviei a minha atenção para o resto de seu belo rosto. Os olhos azuis contrastavam com a sua pele clara e seus cabelos escuros. Ele voltou o seu olhar para dentro da casa. Hm... você por um acaso teria um pouco de açúcar para me dar?
Uma xícara de açúcar? Que tipo de pessoa vai a porta de um vizinho que acabou de se mudar para pedir uma xícara de açúcar? Não existem supermercados em Nova York? Bem, não que eu esteja reclamando de sua presença, só que... qual é! Isso não acontece na vida real. Enquanto a frase se repetia na minha mente, eu soltei a única coisa racional que sairia da minha boca naquele momento, com a cara mais estúpida possível. Provavelmente uma linda cena da qual eu não desejaria ver de outro ângulo.
— Como?
— Um pouco de açúcar. Ele repetiu soltando uma risadinha anasalada, provavelmente da minha feição. Não o culpo, eu também riria no seu lugar.
— Ah sim, claro. Espere só um pouco.- me recompus e, como se nada do que já tivesse feito fosse suficiente, bati a porta em seu nariz.
E foi assim que Nova York me recebeu: com um garoto de minha idade, seminu em minha porta pedindo uma xícara de açúcar. Deve ser um bom sinal, certo?
— Lembre-se do porque de você estar aqui, Roberta. Não se anime. disse em voz alta para mim mesma.
De qualquer modo, enquanto procurava açúcar e algum copo, fiquei imaginando o que poderia dizer a ele. Pra que você quer açúcar? Você já é um doce Não, muito idiota. Então, eu acabei de me mudar. Quer entrar? Não, muito desesperado.
— Aqui. foi a resposta monossílaba que consegui formular.
— Valeu. ele disse, olhando para o copo. Alguns segundos depois ele voltou a me olhar. — Você se mudou hoje, não é?
— Sim outra resposta monossílaba.
— Você não deve ser daqui... Texas? ele chutou, com um sorriso lindo de lado. Queria dizer que sim, só para vê-lo sorrir de novo.
— Dakota do Sul, na verdade. sorri a propósito, meu nome é Roberta.
— Eu sou Billie ele começou a falar algo, mas só o que eu vi foi a sua boca se movendo sem emitir nenhum som Eu tenho família na...
Rapidamente tudo foi interrompido por uma voz feminina esganiçada seguida de uma mancha roxa de mechas californianas.
— Billie Armstrong! a criatura se agarrou no seu pescoço, o que me fez dar um passo para trás. Eu fecharia a porta e voltaria para o meu quarto depois daquela cena, mas ainda me restava um pouco de educação. Amorzinho, por que tanta demora pra pegar açúcar?
— Eu já estava indo, Rachel. ele envolveu os braços na cintura da garota. Eu vou indo, Roberta. Qualquer coisa eu moro aqui do lado.
Assenti e subi para o meu quarto. Então era assim; a pessoa aparecia na porta da minha casa, sem camisa, pedia açúcar e ia embora com um carrapato grudado em seu pescoço. Eu nem conhecia a garota direito, e já estava a apelidando de carrapato. Deve ser algo instintivo. Bem, de qualquer modo me distraiu. Consegui dar um sorriso, que era resultado de um misto de descrença e esperança, antes de cair no sono. Tinha sido um dia cheio e na manhã seguinte eu começaria as aulas.
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