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16 CAPÍTULO 5, Epi.2: O primeiro show da Primadonna


Notas iniciais
"Meu conhecimento é fascinante, não é?" Se você soubesse o que aconteceu, ficaria enojada. Dance com a ignorância enquanto você pode, mestra. Eu irei acompanhá-la nessa valsa caótica. ✰

Ayase o encarou por alguns segundos; seus lábios estavam tremendo.

— Como… c-como eu posso ter certeza de que você não está me enganando?

— Mais uma pergunta, senhorita de Atlansha? O trato era de apenas quatro.

— Vincular almas é algo muito sério para eu aceitar tão facilmente…!

— Me diga…! O que o seu amante-dragão disse para você aceitá-lo?!

O rosto de Ayase corou com aquele termo desnecessário.

— O Ryuu… o Ryuu não tinha motivos para mentir pra mim!

— Esse sequer é o nome dele. Como pode confiar em alguém assim?

A garota abaixou a cabeça, pressionando os punhos. Ela sabia disso.

As memórias a levavam ao dia que conheceu o dragão marinho.

“Você não se lembra do seu nome? Pobrezinho…"

“Eu já me acostumei com isso, não precisa sentir pena de mim.”

“Se você não tem um nome, eu vou te dar um!! O que você acha de… Ryuuki?!”

“Eu não sei se você percebeu, mas eu sou mais uma serpente que um dragão…"

“Mas Ryuuki combina com você… eu vou te chamar assim!!"

“É muito difícil te convencer de algo, princesa Ayase.”

“Sem títulos comigo, por favor! Me chame de Aya!”

“Não. Eu vou te chamar de… milady.”

“Milady?! Que bobagem! Isso é coisa de madame!”

“Ryuuki também é um nome bobo, se você quer saber.”

“Faça o que quiser, então!!”

“E eu farei, milady.”

O livro de Minstur aguardava a resposta da garota pacientemente.

Ayase finalmente reagiu, o encarando com uma expressão séria.

— E por acaso você sabe o nome verdadeiro dele?! Ele não se lembr–...

— Ele se lembra sim. Não só o seu nome, como sua própria raça. E se você soubesse a quantidade de segredos que envolvem aquela lagartixa voadora, manteria distância dela.

— Você deveria estar me convencendo a confiar em você, não a desconfiar dele!

— Eu só estou sendo sincero. Uma boa amizade não começa com sinceridade?

— Nós não seremos amigos e eu não vou dar a minha energia para você.

— Pense bem, residente de Atlansha. Talvez você não tenha uma segunda chance.

— Eu não vou mudar de ideia. Apenas me tire dessa barreira, por favor…!

— Ela vai se desintegrar quando a minha energia chegar ao fim. Até lá, que tal conversarmos mais um pouco? Ao menos me deixe passar um pouco do meu conhecimento para você.

— Tanto faz. Fique monologando aí...

Ayase se sentou ao lado do livro e encostou o seu corpo na parede.

Naquele momento, a única coisa que ela desejava era ver Ryuuki.

Ainda mais dúvidas surgiram em sua cabeça; por que ele teria mentido sobre suas lembranças? Void também estava mentindo quanto à sua memória? Afinal, quem estaria falando a verdade?

Ela abaixou a cabeça, tentando controlar a ansiedade que sentia.

— Me escute…! Eu vou explicar para você o que é a energia azul.

Ayase voltou os seus olhos para o livro. Aquele assunto era de seu interesse.

O livro percebeu a repentina reação da garota e continuou o seu discurso.

— O meu penúltimo dono sentiu essa estranha energia caótica do universo primordial. Apesar de ter uma cor no nome, ela se comporta de maneira instável, agindo como um caleidoscópio com cores vibrantes. São tantas cores que você sentiria dor de cabeça só de olhar.

“Caleidoscópio.”

“Cores vibrantes.”

“Tantas cores que você sentiria dor de cabeça só de olhar.”

A cada palavra pronunciada por aquele livro, a expressão de Ayase se tornava mais apática. Ela conhecia bem o significado daquelas palavras; foi aquilo que destruiu Atlansha.

— E-então… a energia azul são… os fractais?!

— Eu não sei como você chegou a esse termo, mas provavelmente estamos falando da mesma coisa. Foi essa mesma energia azul que acabou destruindo o meu penúltimo dono, que de alguma maneira conseguiu me salvar utilizando sua magia.

— O seu penúltimo dono era um vesper…?!

— Não…

O livro demorou tempo demais para concluir sua resposta, então Ayase insistiu.

— O que ele era?

— Você quer saber por que a chamam de “energia azul”...?

Ele mudou rapidamente de assunto, tentando desviar o interesse da sereia para outra coisa. Ayase percebeu isso, mas resolveu não insistir. Aquela não era a prioridade do momento.

— Por quê?!

— Eu já tive inúmeros donos, senhorita. Uma das raças que convivi se chamava Al’nient; fadas que conseguem detectar auras ao redor de pessoas ou animais capazes de utilizar magia. É a partir dessa aura que eu percebo com que tipo de energia estou lidando.

O livro deu uma pausa, como se recobrasse o fôlego.

— Mas a energia daquela coisa não é um azul limpo e puro como o seu. É um azul tão sujo e caótico que poderia varrer qualquer existência que tocasse nele. Um azul muito sujo. Uma cor horrível e… incrivelmente viva.

Ayase finalmente se moveu da cama.

— A minha energia também é azul?!

— Você controla a água, não é? É por isso que sua aura é dessa cor.

— Então a aura do Ryuuki também é azul? E a do Rashidi? E do Void?

— Você está se interessando por mim? Estou comovido, senhorita de Atlansha.

A garota corou de leve. De fato, ela acabou se empolgando com a conversa.

— E-eu só estava…

— Tudo bem. Eu fico feliz que ao menos a conversa está rendendo um pouco.

Uma onda de culpa invadiu o corpo de Ayase, a fazendo se sentir chateada pelo que houve antes. Ela não deveria ter julgado aquele livro; aparentemente ele falava a verdade.

Ayase o segurou entre as mãos, aproximando aquela pupila violeta de seu rosto.

— Eu vou aceitar o seu contrato… vamos fazer isso antes que eu mude de ideia.

— Oh…?! O que a fez mudar de ideia assim? Se apaixonou por mim, senhorita?

— Você quer ser atirado na parede novamente, Ahon?!

— N-não, por favor! Pode não parecer, mas aquilo doeu!!

— Apenas me diga logo o que eu devo fazer.

O livro a encarou com uma expressão séria.

— Me dê um nome.

— O-o que…?!

Ela estava confusa.

— Apenas um nome.

— Qualquer nome…?

— Sim. Qualquer nome. Não há nenhum tipo de restrição.

A garota deu uma pausa, pensativa. Qualquer nome era vago demais.

Alguns surgiam em sua mente. Shin. Kiryu. Satoshi. Kazuo. Keiichi.

“Não… algo não está certo. Esses nomes não combinam...”

Era a falta de padrão que tirava o sentido daqueles nomes?

Ayase encarou o livro mais uma vez, ainda mais confusa.

O seu coração acelerou quando ela percebeu o erro.

“Oh…! Então...”

— Setsuna.

Aquele nome era perfeito.

— Então você percebeu…?!

O livro flutuou para longe de Ayase, sendo tomado por uma luz carmesim.

Cada um dos objetos daquele quarto foi tomado por aquele brilho ofuscante.

No instante seguinte, toda a luz se foi, e algo estava no lugar onde o livro brilhou.

— Ahh~hh!! Como é bom estar de volta!

Uma voz feminina chegou aos ouvidos de Ayase.

Seu ritmo era devagar, sexy. E estranhamente doce.

— O-bri-ga-da por isso, minha nova mestra!

Uma jovem de pele tão clara quanto a luz do luar levantou-se.

Os cabelos pretos, lisos e compridos desceram suavemente por seu corpo cheio de curvas; seu vestido vermelho e assimétrico destacava os seus seios volumosos e quadris torneados.

Aquela garota parecia uma dançarina vulgar, exibindo cada parte de seu corpo como um troféu. As unhas pintadas de um bonito carmesim seguravam um leque de cores escuras e pedras preciosas em suas extremidades.

Azul. Vermelho. Verde. Amarelo. Como sua magia de aprendizado.

E sua voz doce se fez presente naquele cômodo mais uma vez.

— Eu senti falta desse corpo maravilhoso.

Com uma das mãos livres, ela alisou as suas roupas de baixo para cima.

Quando finalmente chegou em seu busto, ela se virou para Ayase.

— Você é a melhor, mes-tra!

Seu olho esquerdo estava escondido por sua franja assimétrica.

Seu olho direito era vermelho com pequenos pontos coloridos.

A jovem garota se aproximou da sereia, lhe dando um beijo no rosto.

Ayase recuou alguns passos; o rosto tão rosado quanto seus cabelos.

— Q-quem…?!

— Agora eu me chamo Setsuna. É um prazer te conhecer!

— O… o livro…?! Era isso que significava te dar energia...?

Setsuna levou a mão que estava livre para os lábios.

— Me escute…! Tive que contar essa mentirinha para que eu pudesse voltar à essa forma. Viver como um livro de Minstur é muito chato, mestra. Não fique chateada comigo, por favor.

— Você mentiu para mim…?! E-eu… eu acreditei em você!

— Você é muito ingênua, minha jovem mestra.

Com o leque fechado, Setsuna ergueu o queixo de Ayase.

— Devo te ensinar como esse universo funciona?

— Apenas… me deixe em paz!

Ayase recuou ainda mais, tentando manter distância daquilo.

Em seu rosto, um misto de frustração e medo se fazia presente.

Como ela pôde ser tão tola a ponto de acreditar em algo desconhecido?

Setsuna se aproximou dela com um sorriso doce no rosto. Ela se sentia tão feliz que estava quase pulando em Ayase para abraçá-la; era essa sensação maravilhosa que se chamava liberdade?

Aquela voz doce mais uma vez chegou aos ouvidos de Ayase.

— Eu não posso te deixar, minha adorável mestra. Agora estamos ligadas até o fim de sua doce existência! Mas você não precisa se preocupar com isso…

Setsuna, então, se ajoelha diante de Ayase, levando a mão livre para o peito.

Os pontos coloridos em seu olho direito pareciam brilhar intensamente.

Um sorriso entre os lábios curvilíneos; uma voz profundamente doce.

— Eu, Setsuna, serei a sua espada e o seu escudo. É para isso que eu fui criada. É para isso que servem livros de Minstur. Até o fim, eu serei a sua ferramenta.

— …

— Apenas me use como quiser, mestra.

— E-e-então… me tire daqui, Ahon!

— Obedecê-la é o meu prazer, mes-tra.

Setsuna se levantou graciosamente e abriu o seu leque.

Com um único movimento, a barreira passou a se fragmentar gradualmente. Ela parou em uma pose de dança; os cabelos negros acompanharam seu passo, sendo suavemente jogados para trás. Um sorriso confiante em seus lábios, um olhar sedutor.

A sensação de utilidade se espalhando por cada parte daquele corpo maravilhoso.

A atenção de Ayase, sua doce e gentil mestra, voltada exclusivamente para ela.

“Não me olhe dessa forma, minha mestra. A vontade que eu tenho é de...”

Com apenas um piscar de olhos, Ayase percebeu que a barreira desapareceu.

A primeira pessoa que seus olhos encontraram foi Rashidi, que observava Setsuna com a expressão mais estranha possível. Dúvida. Receio. Surpresa. Irritação. Tudo o que sempre passou pela cabeça do rapaz, mas dessa vez com um bom motivo.

— Rashiiiiiidi!!!!

Ayase o abraçou com força, o tirando daquele transe.

O vesper ralhou o olhar para a sereia, a empurrando.

— O que deu em você, peixinha?!

— Eu nunca fiquei tão feliz em te ver!!!

— Fique longe de mim, seu atum enlatado! De onde você surgiu, afinal?!

Ayase apontou para Setsuna, fazendo uma expressão chorosa e irritada.

— Aquele... livro maldito... me enganou!!

— Livro maldito…? O livro de Minstur?!

Rashidi arqueou uma sobrancelha ao encarar aquela desconhecida.

Desde quando um livro de Minstur conseguia ser tão… humano?

Não era isso que significava quebrar o lacre.

“Eu perdi algo importante…?”, pensou Rashidi.

A voz doce daquela jovem o tirou dos pensamentos.

— Não precisa agir dessa forma, mes-tra. Vamos nos dar bem, ok?

Ela abriu o leque, escondendo o sorriso perfeito atrás das pedras preciosas.

— Ei, peixinha… você pode contar exatamente o que aconteceu? E…

Rashidi fez força em seus braços, ainda tentando empurrar Ayase para longe.

— Pode me soltar? Ainda não aprendi a respirar com alguém me apertando.

— E-eu… b-bom…

Antes que pudesse começar, uma voz a interrompeu.

— Infelizmente, vocês terão que deixar a conversa para depois.

Na porta do quarto, Ryuuki mantinha os seus olhos nos três.

— Aquela crian–… Ri-Ribbon. Ribbon me pediu para avisar que iremos pousar em Khürmandha em poucos minutos. Ela precisa que todos estejam na cabine de comandos.

— Finalmente…!

Rashidi finalmente conseguiu empurrar Ayase.

Logo em seguida, passou a encarar a desconhecida; a garota continuava com um sorriso estranho esculpido naquele rosto. A energia que emanava dela era de um vesper, mas também de coisas que o próprio Rashidi não conseguia identificar.

Ryuuki também fitava Setsuna com um olhar silencioso; aquela energia não se parecia com nada que ele tinha visto, mesmo quando estava em Orfeinn. A existência daquela garota era uma… incógnita.

Com passos apressados, Rashidi se retirava do quarto.

— Eu só espero que vocês duas não estraguem a missão.

Setsuna fechou o leque e passou a encarar o vesper com um olhar convencido.

— Tenho certeza que nós duas seremos bem mais úteis que você, seu vesper medíocre. Ter alguém que realmente sabe desenhar e controlar runas não soa maravilhoso para vocês?

— Ora, sua…!

A energia envolveu o vesper rapidamente, tornando os seus olhos brancos.

Rashidi ameaçou partir para cima de Setsuna, mas a garota foi mais rápida.

Silêncio. Um giro no ar. As pedras do leque brilhando com luzes coloridas.

O olho da garota tomou uma cor cinza com aspecto mecânico, e em uma fração de segundos, seus cabelos se transformaram em fios prateados que imobilizaram o corpo de Rashidi.

Joelhos. Pernas. Torso. Ombros. Braços. Cotovelos. Mãos.

E cinco fios ainda mais apertados ao redor de seu pescoço.

A expressão irritada do vesper se esvaiu em surpresa e frustração.

— M-mas o que…?!

— Me escute, seu vesper medíocre…!

Setsuna se aproximou vagarosamente do rapaz; o sorriso aumentando conforme o barulho do salto de seus sapatos ecoavam pelo cômodo. Uma das mãos com unhas vermelhas foi posta nos cabelos de Rashidi, o empurrando para baixo enquanto apertava algumas mechas.

— Se ponha no seu lugar, pulsar imunda. Esse universo não é de vocês.

Ela lambeu os lábios, se deliciando com aquela visão.

Vesperes mereciam aquele tratamento pelo que fizeram.

Ayase se aproximou rapidamente e ficou entre os dois, apreensiva.

— S-Setsuna, não o machuque, por favor!!

— Oh…?! Você tem piedade de algo assim, mestra?

— …

Silêncio.

Rashidi não era digno de piedade?

Vesperes não eram dignos de piedade?

Não… ela não tinha tempo para pensar naquelas tolices.

Os olhos de Ayase se tornaram sérios, assim como sua voz.

— O deixe em paz, Setsuna! Isto é uma ordem!!

— Obedecê-la é o meu prazer, mes-tra.

Os fios se desfizeram em um piscar de olhos.

Rashidi caiu de joelhos, atordoado com o que acabara de acontecer. Em seu peito, o sentimento de inutilidade florescia novamente, levando o pouco fôlego que lhe restava e fazendo a sua raiva crescer ainda mais.

Não uma raiva por Setsuna. Era raiva de si mesmo.

Pulsar imunda. Era exatamente isso o que ele era.

Do seu lado, a voz de Ayase se mostrou próxima.

— Você está bem…?

— Bom trabalho libertando essa coisa, peixinha.

— E-eu…

— Droga.

Ele se levantou e passou a caminhar em direção à saída, alisando o pescoço com uma expressão abatida. De todas as vezes que ele se mostrou uma falha em combates, aquela era a pior.

Ao passar por Ryuuki, a troca de olhares dos dois foi quase palpável.

“Essa coisa precisa ser destruída o mais rápido possível...”, pensou o vesper.

Setsuna se aproximou de Ayase, entrelaçando um de seus braços à garota, como se a estivesse conduzindo para dançar. Os cabelos negros foram atirados para trás, e seu sorriso foi ocultado pelo leque, que mais uma vez exibia as suas pedras brilhantes.

Um sussurro saiu daqueles lábios cheios de curvas.

— Vamos para a nossa primeira aventura, mes-tra.

Notas finais
Capítulo 5, parte 2/2. ʕ•̀ω•́ʔ✧ Quais são as suas teorias acerca do livro de Minst-... Setsuna? Quais suas primeiras impressões sobre essa maravilhosa dançarina (cujo conhecimento é tão vasto que se torna uma arma letal)? O que vocês esperam sobre Khürmandha - aliás, vocês já têm ideia de que tipo de planeta será? Ah! Não me matem por causa do Rashidi, serião. Juro que a Setsuna tem bons motivos. (´ . .̫ . `) Obrigada por ler Stellarium~! Feedbacks são apreciados. ☆