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14 CAPÍTULO 4, Epi.1: O vazio que domina a sua existência


Notas iniciais
"Vazio. Essa palavra combina bem comigo." Uma armadura cobre que envolve um conceito. Me deixe saber o que são essas chamas azuis. ☆

Para Ayase, as horas até a chegada ao desconhecido pareciam se arrastar.

Em momento algum lhe foi informado para onde Arcadia estava se dirigindo.

“Não que eu entenda muito sobre isso, mas… eu ainda estou aqui.”

Um suspiro. Frustração. Mais uma noite dominada pela insônia.

Quando finalmente conseguia pegar no sono, a garota confrontava os seus piores pesadelos. Seus pais sendo dizimados pelos fractais; genories que devoravam cada parte de suas entranhas; uma Sumire a enforcando até a sua visão se tornar trevas.

Trevas.

Aquela era a palavra ideal para definir os seus sentimentos.

Com o passar das horas, até a menor gota de felicidade parecia ter sido absorvida por aquele ambiente, levando também o apetite da garota, que não só recusava as comidas que lhe eram oferecidas, como não fazia a mínima questão da companhia de Ryuuki ou Void.

Ayase sentia a tristeza e a frustração invadirem o seu corpo.

Com suas memórias lhe atormentando a cada não-identificação de dia ou noite, tudo o que a garota conseguia fazer era chorar no silêncio de seu novo quarto abafado.

“Sorria, Ayase. Princesas devem sorrir!”, a voz de sua mãe ecoava.

Os seus soluços se misturavam com a escuridão daquele cômodo.

“Elegância, Ayase. Se torne uma com Atlansha!”

A imagem de sua mãe dançando surgia na sua mente.

Os cabelos brancos se moviam gentilmente com a água cristalina; cada uma das mechas coloridas que desciam em cachos parecia formar um recife de corais debaixo de sua coroa de pedras preciosas.

Vermelho. Rosa. Amarelo. Verde. Azul.

Dançando uma valsa com peixes coloridos.

A cauda tão alva quanto a neve do inverno.

Dançando uma valsa com as ondas do mar.

Os olhos gentis que reluziam em dourado.

Dançando uma valsa com os raios de sol.

“Venha, Aya! Vamos dançar juntas dessa vez.”

— Você está bem, milady?

Ayase sentiu que foi arrastada de volta para a realidade.

Mesmo naquela escuridão, os olhos de Ryuuki brilhavam.

Eram tão dourados quanto os olhos da sua falecida mãe.

— S-sim…

Seus lábios trêmulos deram uma resposta automática.

Ryuuki se deitou perto dela, encolhendo o seu corpo esguio.

Suas escamas bioluminescentes brincavam com os olhos da sereia.

O dragão-serpente parou de se mover e uma pergunta pairou no ar.

— Você quer conversar, milady?

— ...

Silêncio.

A cada fração de segundos, a ansiedade florescia dentro de Ayase. Mesmo se contasse para Ryuuki, ele não seria capaz de compreender a dor que sentia.

“Por que ele está agindo como se nada tivesse acontecido?”, pensou frustrada.

Quando finalmente conseguiu reunir coragem, Ayase lhe deu uma resposta.

— Eu estou bem, Ryuu.

Em seguida, um sorriso forçado tão quebrado quanto a sua alma.

— Você pode me deixar sozinha por um tempo, por favor?

— …

Contra a sua vontade, Ryuuki assentiu e obedeceu silenciosamente.

— Como desejar.

Não havia mais nada a ser dito.

Se Ryuuki insistisse, Ayase perceberia o quão inútil ele era.

O que algo como ele poderia fazer naquele tipo de situação?

A porta do quarto foi fechada, e a escuridão voltou a abraçá-la.

— Me desculpe, Ryuu…

Aquele sussurro se esvaiu como neblina, jamais chegando ao seu destinatário.

O ar inalado queimava por dentro; o único alívio parecia vir de suas lágrimas.

Os rostos das suas pessoas preciosas surgiam gradualmente em sua cabeça.

Seus pais. Seus irmãos. Cada um de seus serviçais, professores e guardas.

As crianças que cantavam em Althum. Os genories. A própria Sumire.

“Eu não deveria estar aqui… eu deveria ter ido com eles.”

Com os olhos fechados, tudo parecia ficar ainda menor.

“P-papai… mamãe…”

Ela sentia as lágrimas rolando por seu rosto inchado.

“Me desculpem por não conseguir protegê-los…”

Ela sentia o seu coração diminuindo a cada segundo.

“Akemi… Atsushi… Aki… Aoi…”

Ela sentia os seus pulmões sufocando com as memórias de seus irmãos e irmãs.

Das cores aconchegantes de seus olhos e cabelos; de seus sorrisos radiantes quando boas notícias eram contadas; de suas lágrimas de frustração quando algum deles estava doente; de cada briga que eles poderiam ter evitado.

Do tempo que poderiam ter passado juntos se ela não fosse tão egoísta.

Do tempo que jamais voltaria, pois ela foi incapaz de protegê-los.

Ayase não merecia estar ali. Eles deveriam ter morrido juntos.

“Me desculpem, por favor... eu deveria estar com todos vocês.”

Cinco batidas a fizeram despertar daquele sofrimento, e o ranger da porta se abrindo invadiu aquele cômodo mais uma vez. A luz vinda do corredor parecia engolir as trevas presentes naquele quarto.

Do curto espaço que se criou, o elmo de Void refletia alguns pontos brilhantes.

— Eu posso entrar?

— …

Ela não queria ninguém ali.

Antes que pudesse responder, Void adentrou o quarto com uma bandeja.

As três luzes foram acesas, dissipando toda a escuridão que envolvia Ayase.

Void se aproximou dela vagarosamente, finalmente revelando o motivo da visita.

— Eu trouxe algo para você comer… apesar de não ter certeza do que você come.

— …

— Também preciso conhecer a sua rotina de sono para não te incomodar em momentos assim. Como a Ribbon me informou que você estava acordada, eu vim conversar com você.

— Vá embora, por favor.

Sua resposta foi seca.

Void deu de ombros, mas não estava disposto a sair dali.

— Só quando eu ver que você comeu alguma coisa. É bem difícil sentir fome quando estamos aqui em cima, mas você precisa fazer um esforço. Em troca disso, eu posso responder algumas de suas perguntas, o que acha?

— …

A bandeja prateada foi posta em cima dos lençóis de cor escura.

Ayase suspirou, indiferente. Ela realmente queria ficar sozinha.

Seus olhos verdes passearam pelas diversas cores e aromas presentes naquele objeto liso. Com exceção do chá de celdânia em uma xícara de tons dourados, ela não conseguiu identificar nada daquela bandeja.

As mãos alcançaram uma fruta verde-pastel com o formato de uma esfera; em uma de suas extremidades, havia um caule grosso e cilíndrico com a mesma textura macia.

— Isso é uma pêisfe! É uma fruta do planeta que estamos indo, Khürmandha.

Ayase encarou Void como se o julgasse silenciosamente.

Finalmente alguém tinha falado sobre o destino de Arcadia.

— Se você gostar dela, por favor, me avise. Tem mais algumas delas na cozinha.

— ...

Ela mordeu a fruta em um movimento rápido; um barulho crocante ecoou.

A polpa macia invadiu sua boca, umedecendo o interior com seu sabor doce.

Desde que Void entrou, era a primeira vez que Ayase tinha uma reação diferente.

— Ela é boa.

Void deixou um suspiro de alívio escapar.

— O Rashidi vai ficar feliz em ouvir isso.

— …?!

Ele empurrou a bandeja para perto de Ayase, se sentando ao lado da garota.

— Como eu não preciso comer, pedi para que ele escolhesse algumas coisas para você. Ribbon e o seu mediador nos ajudaram com algumas informações também.

— E-entendi…

Um sentimento fraco surgia no peito de Ayase.

Todos eles estavam tão preocupados assim?

Mesmo Rashidi, que implicava tanto com ela?

As lágrimas surgiram em seus olhos novamente.

— Me desculpe por preocupar vocês.

Ela precisava colocar aquilo para fora.

Void encostou o elmo na parede, pensativo.

— Está tudo bem. Nós estamos juntos nessa.

Antes de dar outra mordida naquela fruta de nome estranho, Ayase suspirou; a pergunta que saiu de seus lábios fez um arrepio percorrer o corpo de Void.

— Por que você está aqui, Void?

Com algum esforço, Ayase conseguiu engolir aquele pedaço.

Ela sabia que estava se metendo em um caminho sem volta.

— Eu soube pela Ribbon que Rashidi quer governar algo grande…

— Sim. Eu sinto que o Rashidi passou por muitas dificuldades para chegar até aqui. Pelo pouco que sei sobre vesperes, eles são muito cruéis quando alguém de sua raça não corresponde expectativas.

— Vesperes também são criadores...? Como a Dama Branca?

Void ficou espantado com as informações que Ayase tinha conseguido em pouco tempo, mas logo a imagem de Ryuuki surgiu em sua mente. O mediador da garota era um caçador de informações, afinal.

Ele voltou os olhos para o teto; uma das três lâmpadas falhou por alguns segundos.

— Sim. Eles podem criar qualquer coisa que quiserem.

— Até mesmo vida…?

— Até mesmo vida.

— …

Uma pausa na conversa. Outra mordida na doce pêife.

Void encarou as suas manoplas; suas mãos estavam trêmulas.

Em cada centímetro do seu corpo, a fraqueza se mostrou presente.

Ele fez um trato, e a pergunta de Ayase ainda não tinha sido respondida.

— Eu quero… saber quem sou eu.

— Quem você é...?!

Os olhos verdes de Ayase denunciavam toda a sua curiosidade. Void nem sequer levantou a cabeça para responder aquela pergunta; apenas um sussurro abafado por seu elmo foi suficiente.

— Sim… eu não tenho memórias.

Em uma fração de segundos, a expressão de Ayase ficou pálida.

Suas mãos se tornaram frágeis, e a fruta quase rolou pelos lençóis.

— …

Sem memórias.

Diferente dela, Void não tinha um passado para sentir falta.

O rapaz de armadura abaixou a cabeça e fechou os olhos.

— Eu sequer me lembro do meu nome.

— Então “Void” não é o seu nome...?!

— Não. Esse foi o nome que me deram.

— Quem...?!

— Rashidi.

Silêncio.

“Eu não quero conviver com algo imundo feito um Void, Dama Branca!! Primeiro essa criança de Kolasurr, agora um Void?! Me arrume parceiros melhores, por favor”, os gritos de Rashidi preenchiam a mente do rapaz.

Ayase ainda o encarava com um semblante triste.

Void voltou a observar as manoplas de sua armadura.

— Eu... nem mesmo sei para que serve essa armadura. Eu realmente preciso dela para algo? Eu estou me mantendo vivo por causa dessa coisa?

Ele cerrou os punhos, atordoado com suas próprias dúvidas.

Mas a pergunta inocente de Ayase chegou aos seus ouvidos.

— Você nunca... tirou para testar?

— Você faria isso?

— E-eu não sei…

— …

Dentre todas as coisas que incomodavam Void, a armadura era a menor delas.

O rapaz sequer se lembrava se tinha pais ou se era órfão. Não se lembrava de sua aparência, de sua raça, de seus limites. Não se lembrava das pessoas que poderiam estar sentindo a sua falta. Não se lembrava da sensação de tocar em algo frio, de sentir a textura de algum objeto, de provar uma comida gostosa.

Aquele nome lhe era apropriado: sua existência era um grande vazio.

O sussurro desanimado de Ayase o tirou daquele silêncio.

— Desculpa pela pergunta. E-eu...

— Não se preocupe com isso.

— …

— Durante essa missão, eu acabei ganhando bastante conhecimento. Tive contato com vesperes, daemonias, draconianos, geflügeltes… até mesmo conheci um indivíduo que Rashidi denominou de seyfert.

Mesmo não entendendo Void, Ayase não conseguia tirar os olhos dele.

— Eu sinto que estou recuperando algumas partes importantes de minha memória aqui. É por isso que eu devo continuar a busca por essas coisas que chamam de aglomerados.

Void se voltou para Ayase durante alguns segundos, a encarando.

— Na verdade, eu me lembro de uma coisa… de uma memória antiga.

— Do que...? Do que você se lembra?!

Ayase percebeu algo brilhando no interior do elmo de Void.

No espaço de seus olhos, algo reluzia como… chamas azuis.

— Eu odeio vesperes.

— …

Ayase piscou rapidamente com uma expressão confusa, mas antes que pudesse falar qualquer coisa, Void deu de ombros e gargalhou; ele não queria que aquele assunto rendesse mais alguma coisa.

— Bom… se você tivesse me dito algo como: “você deveria tirar essa armadura e correr alguns riscos”, eu teria retirado esse elmo agora mesmo.

Ayase franziu o cenho com uma expressão emburrada.

— M-mas isso não pode ser perigoso pra você?

— Já estamos correndo riscos mesmo…

Mesmo fora de sua visão, mesmo sob aquele elmo cobre, Ayase podia sentir que Void estava sorrindo. O seu jeito despojado estava de volta, transmitindo uma estranha sensação de alívio para ela.

Como aquela existência podia ser tão preciosa?

A risada abafada de Void fez Ayase sorrir de leve; a garota deu mais uma mordida naquela fruta de nome estranho, fazendo uma pergunta com a boca cheia.

— Quando você vai me falar desses riscos?!

— Não é necessário. Nós vamos proteger você!

— M-mas eu não quero ser protegida...

Void gargalhou com aquela resposta, o que fez Ayase corar.

— Do jeito que o Rashidi luta, tenho certeza que você é que vai proteger ele.

— Eu não sei se quero proteger o Rashidi… ele vai gritar comigo depois!

— Com certeza ele vai gritar com você!!

Os risos ecoavam pelo quarto, afastando toda a melancolia de antes.

As luzes que Void acendeu não foram apenas as daquele cômodo.

O coração machucado de Ayase podia aceitar aqueles sentimentos.

— Ohh…?!

Void percebeu algo se movendo próximo a porta e soltou outra gargalhada.

— Acho que eu preciso ir agora.

— …?!

— Acho que tem alguém querendo falar com você...

Ayase se voltou em direção à porta, percebendo que familiares olhos dourados observavam os dois. Quando percebeu que foi notado, Ryuuki se escondeu rapidamente.

— R-Ryuu…?!

Void aproximou o seu elmo ao rosto de Ayase, sussurrando.

— Faz um tempinho que ele está lá fora… eu sinto que ele realmente estava preocupado com você. Vocês dois precisam de um momento sozinhos.

Ao finalizar sua frase, ele se levantou, indo em direção à saída.

— Se precisarem de algo, estarei na sala.

— Obrigada pela companhia, Void...

Ayase sorriu, deixando aquela sensação percorrer livremente por seu corpo.

Se ela pudesse descrever o que sentia no momento, leveza seria a palavra ideal.

Void se apoiou na porta, e antes que resolvesse sair, deu uma última olhada para Ayase. A fruta verde-pastel já tinha sido devorada, e a garota já estava tateando alguma outra coisa daquela bandeja prateada.

Ele suspirou aliviado. Aparentemente ela tinha voltado ao normal.

— Nós somos um time agora, parceira.

— “Parceira”...?

O rosto de Ayase se voltou para ele; uma risada como resposta.

Void deu de ombros como sempre, finalmente saindo do quarto.

Ryuuki o esperava paciente. Os seus olhos se mantinham fixos em Void.

— …

— …?!

Nenhuma palavra foi dita naquela fração de segundos. Não era necessário.

Após abaixar a cabeça como sinal de respeito, o dragão marinho passou por ele cordialmente, adentrando o quarto onde a garota o esperava com uma expressão feliz.

Void ficou parado durante algum tempo; um sorriso estava em seus lábios.

Era no mínimo engraçado um daemonia abaixar a cabeça para um void.

— Se você tem tanto tempo livre, me ajude com uma coisa aqui.

Rashidi o encarava do outro lado do corredor, impaciente como sempre.

Void cruzou os braços, encostando o seu corpo em um dos lados da parede.

— Você poderia usar o “por favor” de vez em quando, sabe?

O vesper rolou os olhos, logo em seguida franzindo o cenho.

— Seja útil pra mim, por favor, sua pilha de sucatas.

— O que foi…? Que bicho invadiu o seu quarto agora?

— O único que teve o quarto invadido foi você. Por um peixe. Fêmea.

Antes que Void pudesse responder, Rashidi apontou para algo na direção de seu quarto; os olhos violetas demonstravam hesitação ao se fixarem em determinado ponto, e seus lábios tremiam ao revelar o problema.

— O livro que encontramos em Minstur despertou.

Notas finais
Capítulo 4, parte única. ʕ•̀ω•́ʔ✧ Percebeu que esse "capítulo" sofreu mitose e se dividiu em dois...? Poisé. Eu queria mais um capítulo para dar algumas respostas às dúvidas do prólogo e do capítulo 1 (como se eu não fosse trocar por mais dúvidas ainda, não é?!). Confesso que esse capítulo não existia até o começo dessa semana. Achei que estava dando pouca atenção para as dores da Ayase, então reservei um espacinho para trabalhar mais esse sentimento de culpa que ela sente. Como eu comentei com algumas pessoas: "Estava com um clima muito feliz." E só para finalizar: Void é o meu amor eterno. Crianças preciosas precisam ser protegidas. Obrigada por ler Stellarium~! Feedbacks são apreciados. ☆