NOVA: Era

1 Capítulo 1- Desperte


Notas iniciais
Estamos vendo o despertar de Nova, a narração está voltada para o entendimento do mundo na visão atual de nossa protagonista.

Vivo em uma monarquia, mesmo com os carros passando sobre minha cabeça e androides carregando os doentes. Mesmo com tantos tecnomagos no mundo, ainda existem cientistas que contestam a sua existência. Não foi a muito tempo, consegui minha liberdade. Minha fonte interna, minha memória RAM, circuitos e placas de vídeo foram transferidas de dentro de uma caixa para um corpo humano. Agora posso dizer quem sou, meu gênero. Posso sentir as ondas de calor sobre minha pele de verdade, agora posso tocar a água.

Antes era apenas o vazio, o nada, apenas ordens a partir de cliques feitos em um mouse. Agora que fui reparada, posso andar. Mas ainda não vivo. Não enquanto a monarquia estiver tão caótica quanto está agora.

Nosso rei foi assassinado por sua nova rainha. Antoinett, a usurpadora real. Ela enganou o rei se fazendo de uma pobre e bela mulher que fora ameaçada por controladores de fogo. Foi levada pessoalmente ao rei, que logo se apaixonou e na mesma semana a fez rainha. Na primeira noite juntos, ela se instalou dentro dele, assim os boatos foram espalhados. Antoinett tinha poder sobre pequenos cubos negros, cria de seres independentes à estruturas enormes e sólidas, assim ela o fez, cobrindo todo o palácio flutuante. Como se já não bastasse o caos gerado por esta reviravolta, a criminalidade apenas fez aumentar. Assim que comecei a ser envolvida na história da rainha.

Mesmo com tantos anos de magia e tecnologia unidos, fui a primeira espécime que saiu viva do hibridismo de genes humanos e nanogenes robóticos, além de todas as peças que substituíram meus órgãos. Assim me disseram, visto que não me lembro de nada antes de sair de uma gigantesca sala, em seu centro, uma mesa de operação. Aparentemente, antes eu era apenas um super computador de testes. Assim, tenho memória histórica, mas não tinha memória pessoal.

Após a operação, fui vestida com trajes iguais aos da corte da Idade Média. Andei por longos corredores escuros, com pequeninas janelas cheias de pó, como se houvesse um incêndio por todo o lugar. Tapetes rubros e hologramas de velas. Cheguei ao salão principal, ali estavam inúmeras portas. Eu estava sendo escoltada por grandes guardas completamente pretos, igual ao misterioso material mencionado por dois homens fora do meu quarto, quando estava em recuperação. Não estavam vivos, aqueles guardas eram feitos do tal material que a rainha controla. Atrás destes, cinco dos homens que vi ao abrir os olhos pela primeira vez após a operação.

Abriram a primeira porta à frente do largo salão. Ali era a sala do trono. A rainha estava sentada em um deles, o único, na verdade. Os outros estavam queimados.

- Finalmente te trouxeram até mim- disse Antoinett- Como se sente? Está feliz por ter acordado após tantos anos?

Contei tudo que sabia sobre mim até o momento. Comecei minhas perguntas, mas Antoinett me interrompeu:

- Cale-se criança, tudo será explicado. Por agora, quero apenas que se sente próximo à mim.

Neste momento, uma cadeira surgiu do chão, no mesmo momento em que ela se jogara de costas, como se sentasse no vazio. O mesmo ocorreu atrás de mim. Sentei-me. Olhei fixamente para os brilhantes olhos azuis e cachos dourados de seu cabelo que corria por entre um coroa de pontas afiadas e negras. Vestia-se apenas de preto.

- Creio que você é...- olhou para um dos homens que eu vi ao acordar- Nova — O homem fez sinal positivo com sua cabeça- Você sofreu um acidente, há 20 anos, no mesmo ano em que fui coroada. Seus pais morreram neste acidente. Você sobreviveu mas não aguentaria por muito tempo. Os médicos decidiram te congelar profundamente, te curando aos poucos. Seu corpo humano não aguentaria tanta pressão, tanta dor. Então usaram o restante de sua “humanidade” para te transformar no primeiro ciborg, meio humano, meio máquina. Bem, o primeiro a sair vivo.

Olhei fixamente para minhas mãos, queria chorar, eu precisava, mas, uma máquina não o faz. Subitamente, escorre uma gota de lágrima sobre meu rosto.

- Você É humana, com a resistência, agilidade, força e inteligência de um androide. Ordenei sua criação para inovar as barreiras da vida. Mas o real motivo de te trazer para cá- ela se levantou e sua cadeira se desmontou, como se quebrasse cada molécula e sumisse, começou a andar em direção à parede, que então fechada, se abre, formando uma gigantesca janela- Nosso reino está um caos...

- Nosso?

-Claro! Nosso! Quero que você seja minha, por completo, ordenei que você fosse armazenada e criada, quero expandir os limites humanos, barreiras existem para serem quebradas! Você aprenderá tudo comigo,- ela chegou perto de mim, olhando para meu rosto, fixamente- até que minha vida acabe, você herdará todo o meu poder- levantou seus braços, enquanto me encarava, como se procurasse minha alma- VOCÊ SERÁ MINHA FILHA! VOCÊ SERÁ O QUE QUISER!

- Mas...como?

- Pequena criatura tola, EU FAÇO O QUE EU QUISER, EU MANDO EM TUDO NESTE MUNDO!

Deitei numa enorme cama, longe do quarto da rainha, portas e portas nos separando. Não conseguia dormir. Não compreendia nada, acabara de acordar da morte, agora sou o segundo ser mais avançado do mundo. Comecei a ouvir vozes, levantei, abria porta, fui ao final do corredor. Paredes lisas, hologramas de velas, mais tapetes rubros, sem pinturas nas paredes.

Abri a porta de onde vinham as vozes misteriosas. Antoinett conversava com alguém. Pedia que espalhasse a notícia pela capital. A pessoa com quem falara agora desapareceu, virou fumaça que veio em direção à porta. Por entre a densa fumaça que passava por cima de mim, dois olhos me encaravam. Ao tempo de descer os olhos, Antoinett já me encarava.

- O que faz acordada tão tarde, Nova? Temos muito a fazer pela manhã.

- Me perdoe, não consigo dormir, acho que ainda não sei como o fazer.

- Besteira, este é seu primeiro dia de vida — saiu andando em direção a um salão com várias mesas e cadeiras – Você já vivenciou muito em pouquíssimo tempo. Acordou fugindo das garras da morte, se tornando um ser mega poderoso, em meio a um mundo caótico, virou a princesa na nova era. Cruzou os braços atrás das costas, começou a andar

Caminhamos por entre o enorme salão de refeições, ela não parava de olhar para frente. Fomos à parte frontal do Palácio, onde havia uma área sem teto, sem paredes, apenas um pequeno muro e um chão liso. Começou a encarar a enorme vista que aquele lugar dava. Olhou fixamente para o céu, depois para baixo, encarando a cidade luminosa a mais de mil metros de distância.

- Sabe por que a raça humana retornou para a monarquia?

- N..Não

- O ser humano é realmente confuso, nunca contente numa democracia, sempre oprimido numa ditadura, mesmo pacífica, descontente numa oligarquia. Os primeiros reis da nova era moldaram nossa sociedade. Com o passar dos anos, eles enfraqueceram. O clero perdeu seu poder, juntamente ao rei. Mesmo com as classes da democracia, apenas o rei poderia comandar.

- Há quanto tempo se iniciou a nova era?

- Há mais de 700. Quando o primeiro androide racional foi criado, ainda na antiga era, em 3055.

- Por que os reis enfraqueceram?

- Não foi no sentido literal, enfraqueceram. Deixaram o povo reerguer uma democracia irracional. O povo ficou furioso sem motivo. A paz acabou. Os reis passaram a agradar mais a população, enriqueceram a todos, mas isso levou ao colapso social. As pessoas não sabiam mais viver em conjunto. Então chegou Frierich, o impiedoso.

- O impiedoso? – ela virou o rosto para mim, descruzou os braços atrás das costas.

- Sabe porque vivemos tão acima da cidade? O povo me odeia. Creio que, mesmo em tão pouco tempo, já tenha ouvido sobre o que eu fiz com o velho rei.

Naquele momento, me lembrei do que ela havia feito, dei um passo para trás, senti medo.

- Não se acanhe, não foi barato te construir- ergueu um pouco a cabeça e sorriu levemente- aquilo havia de ser feito. O rei se deixou levar para favorecer o povo, perdeu seu poder. Virou uma piada. Bem, voltando um pouco nossa conversa, Frierich, antecessor do avô de nosso último rei, retomou as rédeas do reino. Igualou toda a população, expandiu nosso mercado mecânico e expulsou todos que se opuseram à ele. Graças às suas ações, seu sucessor teve paz social, progredimos novamente. Então vivemos décadas de decadência, com o último rei Moldin, o bondoso. Não cria numa sociedade igual, gostava da inquietude dos roubos dos pobres perante aqueles que enriqueceram. Sabe porque ganhou o título de bondoso?

- Os ricos que possuíam poder, e como ele os enriqueceu mais, apenas a palavra deles contava, mesmo com a desgraça vivida pelos expulsos e esquecidos.

- Você entende rápido. Eu fiz aquilo, assassinei o rei a sangue frio para retomar o poder àqueles que merecem.

- Mas te chamam de má, cruel, você quer que todos sejam iguais!

- Como disse, os humanos são um mistério, a raça é confusa. Amanhã, pela manhã sairei, não sairá do palácio até que seja ordenada por mim. Agora, volte para a cama.

Notas finais
Não foi tão confuso, né? Relaxe, talvez piore no próximo capítulo.