NOVA: Era
2 Capítulo 2- Todos saúdam a rainha
Abri os olhos, despertei pela segunda vez. Olhei para o teto, passavam feixes de luz, anunciando notícias do dia. Não dei moral, vesti-me novamente com roupas de um estilo da velha era.
Antoinett não estava no palácio, como dito pelo androide que me guiava pelos corredores. Sentei-me à mesa. Comi. Uma máquina, comendo. Inusitado, como esperado. Retornei ao observatório, na parte frontal do palácio. Vi a rainha saindo em um carro flutuante. Saiu pelos gigantescos portões que separam a cidade do palácio. Voltei ao meu quarto, queria segui-la. Percebi, no caminho, que ainda não havia visto meu rosto. Mesmo com tantas paredes reluzentes pelo tom metálico que possuem, não havia pensando sobre. Não distante da porta de meu quarto, havia um espelho. Pela primeira vez, eu vi como eu era.
Olhos grandes, verdes. Cabelo alto, cacheado. Lábios grossos, nariz curto, algumas sardas. Ruiva e pálida.
– Eu sou...
– Bela, com certeza, disse uma voz ao longe.
– Quem está ai? – perguntei, olhando para as sombras, para os lados e para cima- Revele-se!
– Não precisa agir assim só porque agora você é da realeza.
O medo e a confusão tomaram conta de mim. Uma luz acendeu em meu rosto, nos exatos lugares onde seriam minhas veias e sobre meu olho direito. Minhas mãos serraram-se em punhos e começaram a brilhar. Um sujeito estranho desceu do teto, bem em minha frente, com as mãos erguidas.
– Não faça isso! Não se lembra de mim?
– Muito aconteceu comigo em dois dias, mas tenho certeza que em todos os momentos, não havia você por perto!
– Calma! Não vou te fazer mal, Nova.
– Como você me conhece?
– Vou lhe mostrar.
Ele tirou de uma mochila que estava sem suas costas um pequeno disco, lançou-o no chão e um holograma apareceu. Um vídeo, mostrando nós dois e outras poucas pessoas foi mostrado. Como se, em algum momento, eu fosse uma jovem normal, com aquele estranho homem próximo a mim.
– Não me recordo de nada disso! Saia daqui antes que eu te machuque!
Ele ficou boquiaberto após eu falar aquilo, fez cara de quem quer chorar. Pegou o disco e pulou do observatório. Saiu flutuando, sobre uma plataforma reluzente. Olhei-me no espelho. As luzes em minha face se apagaram. Sem entender nada, troquei minhas vestes reais por outras simples, que estavam sob uma parte do guarda-roupas escrito “Casual”.
Andei pelos corredores em busca de uma porta que me levasse para fora do palácio. Quando finalmente encontrei a porta e corri para perto dos portões, longe o bastante para perder os guardas negros de vista, apaguei.
– Onde estou? Morri? O que...Ajuda...alguém...por favor...Será que eu...morri? Será que...dei defeito? – Conversei comigo mesma como se passassem horas. Acordei não mais de cinco minutos depois. Estava deitada no chão- O que houve comigo?
Levantei, ordenei que abrissem os portões. Um carro chegou e parou ao meu lado. Entrei.
– Me leve para onde a rainha está.
– Não posso realizar esta ação, senhorita Nova.
– Me leve, agora!
– A rainha ordenou que...
– Não importa! Me leve até onde ela está! Não serei vista por ela, voltarei antes dela!
O androide me levou até um lugar chamado de Setor K-13. Passei por vários outros, próximos ao palácio, com grandes mansões e uma pessoa só possuindo vários androides pessoais. Mas este Setor K-13 foi o que mais me chamou a atenção. Prédios pequenos, velhos, pessoas jogadas nas ruas, morrendo. O androide parou numa esquina.
– A rainha está nesta curva, no final da rua, naquele prédio beije. Mas como não desejas ser vista por ela, parei distante.
– Obrigada, fique aqui, não deixe que ela te veja. Quando eu estiver voltando, se prepare para sair, e rápido.
Corri pelas calçadas, agachei próxima à uma janela. Olhei abaixada. Ali estava ela, sentada num trono do material negro que ela comanda. Em sua frente, várias pessoas em pé gritando e socando o ar. Estavam furiosos. Os guardas negros dela empurravam aquelas pessoas, aparentemente, se chegassem próximo à rainha, iriam machuca-la. Ela olhava para os lados, com cara de tédio. Se levantou, ergueu a cabeça, olhou para baixo. Paredes negras se formaram ao seu redor. Os guardas aumentaram de tamanho, assim como suas armas. Ela apareceu instantaneamente atrás de mim. Pegou firme em meu pulso, com olhos furiosos.
– Veja! Isso é o que acontece quando alguém se opõe à mim. Você ousou me desobedecer, faça-o novamente e o mesmo acontecerá com você.
Olhei fixamente em seus olhos. Vi terror, medo, porém, o que mais podia ver, era ódio, fúria e desgosto. Fiquei vidrada em seus olhos azuis. Então eles sumiram, junto ao resto de Antoinett. Olhei novamente para dentro do prédio. Consegui entender.
– Ela quer ajudá-los, eles não aceitam. Querem matá-la. ACEITEM! ACEITEM SEUS TOLOS!
Apenas uma mulher, que estava próxima à janela conseguiu me ouvir. Olhou para trás. Eu gritava e gritava. Os guardas negros entraram em pose de guarda. Todos gritaram em uníssono.
– Todos saúdam a rainha!
Rapidamente, eles desmancharam, a parede negra que a cercava se expandiu, esmagando todos em sua frente. Uma parede densa dividia aquela sala em dois. A mulher que olhara para mim tornou o olhar para o centro da sala. Subitamente, retornou os olhos para mim, consegui ler em seus lábios mudos, “Me ajude”.
A parede central se abriu, tocando os cantos da sala, atropelando todos lá dentro, fogo surgiu, sangue jorrava para os cantos após as pareces desaparecerem. A rainha andava, sobre uma ponte do material negro, cruzando a sala, Inclinada para a frente, com um olhar morto, braços cruzados atrás das costas, cabisbaixa, sem expressões.
Caí para trás, me virei contra a parede enquanto comecei a chorar. As portas se abriram, ela saiu, levantou a cabeça:
– Eles me rejeitam...
– Porque? Porque fez aquilo?
– Viu o que acontece? – sussurrou- VIU O QUE ACONTECE? – gritou.
Entrou em seu carro e ao chegar na esquina onde meu androide estava parado, abriu o vidro do banco onde estava e colocou o braço para fora. O carro foi engolido por uma esfera negra, torcido e esmagado por ela. Antoinett recolheu o braço e continuou o trajeto. Fiquei paralisada em frente à janela do prédio. Não consegui crer no que havia visto.
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