NOSTALGIA (VERSÃO 2026)
26 Washington D.C.
O saguão do aeroporto McCarran parecia maior e mais frio do que o normal. A equipe do turno da noite estava quase toda lá; Catherine, Nick e Greg formavam um círculo protetor ao redor de Sara, tentando preencher o vazio com palavras de encorajamento e abraços apertados.
— Um mês passa rápido, Sara. Concentre-se no curso, aprenda tudo o que puder e tente descansar a mente — disse Catherine, segurando as mãos da amiga com firmeza, os olhos transmitindo um apoio que as palavras não conseguiam expressar totalmente.
— Vamos cuidar de tudo por aqui, não se preocupe com o Augusto. Todos nós ajudaremos Beth. — completou Nick, dando um beijo em sua testa.
Sara forçava um sorriso, mas sua nuca sentia um arrepio. Ela sentia a presença dele antes mesmo de vê-lo. Quando finalmente se virou para caminhar em direção ao portão de embarque, seus olhos varreram o saguão e o encontraram.
Grissom estava parado perto de uma cafeteria. Ele não se aproximou. Estava encostado em uma coluna, com as mãos nos bolsos do casaco e os ombros levemente caídos. O olhar dele era uma mistura de súplica, arrependimento e uma dor profunda que parecia gritar através do silêncio. Ele a observava de longe, como se soubesse que, se desse um passo à frente, as barreiras que Sara ergueram poderiam desmoronar em fúria ou em pranto.
Por um breve segundo, os olhares se cruzaram. Sara sentiu aquela conexão antiga e poderosa, o vínculo que os uniu por tantos anos, mas logo a imagem do vídeo e a voz dele perguntando "Quem é o pai?" ecoaram em sua mente. Ela desviou o olhar, engoliu o nó na garganta e entregou seu bilhete de embarque à atendente.
Ela atravessou o portão sem olhar para trás.
Grissom fica ali até ver o rastro de fumaça do avião desaparecer no céu de Nevada. Depois vai pegar o carro para poder ir para casa.
O celular de Grissom vibrou no bolso enquanto ele ainda caminhava pelo estacionamento do aeroporto. Ao ver o nome de Heather no visor, ele hesitou. O peso da última discussão e a imagem dele com ela no sofá ainda o perturbavam, mas a solidão que o atingira naquele instante era esmagadora.
GG: Grissom!
— Gil? — a voz de Heather veio suave, carregada de uma empatia que parecia curar feridas. — Soube que ela partiu. Senti que você precisava de uma voz amiga. Não fique sozinho hoje, venha até aqui. Podemos conversar, sem pressões, apenas para que você não se perca nos seus pensamentos.
Grissom parou ao lado do carro, olhando para o céu onde o rastro do avião começava a se dissipar.
— Heather, eu não sei se é uma boa ideia — ele respondeu, a voz rouca. — As coisas saíram do controle. A Sara foi embora me odiando, e aquele vídeo...
— Justamente por isso, Gil — ela o interrompeu docemente. — Se você ficar trancado naquela casa vazia, a culpa vai te consumir. Deixe-me cuidar de você, apenas como uma amiga que conhece a sua mente melhor do que ninguém.
Grissom suspirou fundo, apertando o volante com força. Por um momento, o silêncio da linha telefônica pareceu tentador, um convite para o esquecimento, mas a imagem de Sara se afastando no portão de embarque e o rosto de Augusto em casa agiram como um âncora em sua consciência.
— Não, Heather. Obrigado, mas não — disse ele, com a voz recuperando a firmeza característica. — Eu não vou fugir da minha realidade. Eu vou para casa ficar com o meu filho. Augusto já sentiu a partida da mãe e precisa de mim presente, não de um pai que se esconde em distrações.
— Gil, você está sendo punitivo consigo mesmo... — Heather tentou insistir, sua voz perdendo um pouco da doçura calculada.
— Eu estou sendo pai, Heather. Passar bem.
Ele desligou antes que ela pudesse responder. No banco do motorista, Grissom sentiu um pequeno alívio, como se tivesse vencido uma batalha interna crucial. Ele deu a partida no carro e saiu do estacionamento do aeroporto, decidido a enfrentar o vazio da casa e a reconstruir o que restava de sua dignidade.
Na mansão, Heather jogou o celular sobre a mesa de centro, os olhos faiscando de ódio. Anthony desceu as escadas logo em seguida, percebendo o silêncio.
— Ele não vem? — perguntou Anthony, guardando a câmera.
— Ele escolheu o papel de pai mártir — sibilou Heather. — Ele acha que ficar com a criança vai salvá-lo da solidão que a Sara deixou.
— Isso não muda nada — Anthony deu de ombros, aproximando-se de Heather. — Se ele não vem até o veneno, nós levamos o veneno até ele. Enquanto ele brinca de "pai perfeito", nós pensaremos em algo.
Grissom chegou em casa e encontrou Augusto sentado assistindo um filme, enquanto Beth Grissom estava na cozinha. Quando viu o pai, o menino correu para abraçá-lo.
— Oi papai!! Você foi com a mamãe no aeroporto?
GG: Fui sim filho! Ela viajou direitinho. Vai buscar sua mochila que tenho que te levar pra escola.
Grissom levou o filho na escola e voltou para conversar com a mãe.
Beth Grissom era uma mulher pequena de cabelos brancos que tinha criado o filho sozinha e não tinha medo de nada, muito menos de Gil quando ele fazia aquela cara fechada.
Ela prestou atenção em toda a história sem interromper. Sentada na poltrona da sala com as mãos no colo, a expressão neutra de quem está processando informação antes de emitir qualquer julgamento.
Quando Grissom terminou, ela ficou em silêncio por um momento.
BG: Qual é o nome do médico que fez esse exame?
GG: Mãe, isso não...
BG: Qual é o nome, Gil?
GG: Dr. Harmon. Por quê?
BG: Porque amanhã cedo, se eu fosse você, iria exigir a repetição desse exame. (se levantou, foi para a cozinha como se o assunto estivesse encerrado)
Grissom a seguiu e a tocou no braço.
GG: Mãe...
BG: (virou para ele, finalmente com a expressão direta que ele conhecia desde criança) Gil você conhece Sara há anos, eu a conheci pouco tempo, mas eu a adoro. Essa menina te ama de um jeito que francamente você não merece às vezes. (pausa) Você realmente olhou para ela e acreditou que ela te traiu?
Grissom abriu a boca e fechou.
Grissom abriu a boca e fechou.
BG: É o que pensei.
GG: O exame...
BG: Exames erram. Médicos erram. Laboratórios erram. Você de todos os lugares deveria saber disso. (voltou para os armários) O que não erra são anos de convivência com uma pessoa.
GG: Quer dizer que você vai ficar contra seu filho?
BG: Não. Vou ficar contra o exame. (pausa) Te digo mais, vou pedir para Sara para conviver com a criança. Ele e Augusto são meus netos, queira você ou não.
GG: Mãe, Sara e eu estamos separados, você não pode...
BG: Eu posso e vou. (o olhou firme)
Grissom ficou em silêncio.
BG: (mais suave, colocou a mão no rosto do filho) Meu filho. Você é o homem mais inteligente que eu conheço e às vezes o mais burro.
Grissom conta a mãe sobre ter quase transado com Heather. Que isso foi filmado e enviado para o laboratório onde Sara viu.
GG: Ela viajou para Washington com a certeza de que eu a traí com Heather. Mãe... eu não cheguei a consumar o ato. Parei, mas confesso que estava bem avançado.
O silêncio que se seguiu foi diferente de todos os outros silêncios da conversa. Beth parou completamente o que estava fazendo. Colocou a colher na bancada devagar e ficou de costas para o filho por um momento.
Quando se virou, a expressão não era de raiva. Era algo pior.
Era decepção.
BG: Ela viajou achando que você a traiu.
GG: Eu não consumei...
BG: Gil. (levantou a mão) Você acusou essa menina de te trair. Na mesma noite foi para a cama de outra mulher.
GG: Não fui para a cama, mãe. Eu parei.
BG: Mas estava bem avançado. Foram suas palavras.
Grissom não respondeu. Ouvir da própria mãe soava diferente de qualquer coisa que a equipe ou Brass tivessem dito.
BG: (sentou na cadeira da frente, olhou para o filho diretamente) Quem filmou?
GG: Não sei ainda.
BG: Essa Heather sabia que estava sendo filmada?
Grissom hesitou. Era uma pergunta que ele próprio não tinha se feito com seriedade até aquele momento.
GG: (devagar) Não sei.
BG: Pois deveria saber. (cruzou os braços) Porque se ela sabia, Gil, você não foi apenas fraco. Você foi manipulado. E Sara foi o alvo desde o início.
Grissom ficou olhando para a mãe.
BG: Essa mulher reapareceu na sua vida na hora exata em que seu casamento estava abalado. O vídeo foi enviado diretamente para Sara antes da viagem. (pausa) Isso não cheira a proposital pra você?
GG: (a voz mudou levemente) Está dizendo que foi armado?
BG: Estou dizendo que você é perito criminal há décadas e que deveria tratar isso como uma cena de crime.
Beth parou. Olhou para o filho por um longo momento, aquele homem inteligente e perdido que ela conhecia desde que era pequeno.
BG: Agora senta. A comida fica pronta em vinte minutos. Coma algo e vá descansar.
Grissom sentou em silêncio na cadeira da cozinha como tinha feito mil vezes quando criança, quando o mundo parecia grande demais e a cozinha da mãe era o único lugar que fazia sentido.
Alguns lugares não mudam.
A primeira noite em Washington, D.C., era o oposto do brilho neons de Las Vegas. Da janela do hotel, Sara observava a névoa cobrindo os monumentos históricos, sentindo um frio que ia muito além da temperatura externa. O silêncio do quarto era seu pior inimigo, pois permitia que o turbilhão de pensamentos assumisse o controle.
Sara sentou-se na beira da cama, com as mãos repousadas sobre o ventre ainda plano. Começou a pensar nos últimos acontecimentos:
A Briga e o Vídeo: As imagens de Grissom e Heather no sofá se repetiam em sua mente como um filme de terror em loop. O que mais doía não era apenas a proximidade física, mas o fato de Grissom ter usado uma dúvida cruel sobre a integridade dela para justificar o próprio deslize. "Como ele pôde duvidar de mim?", ela se perguntava, sentindo as lágrimas arderem.
Augusto: O coração dela apertou ao lembrar do rosto do filho. Augusto estava radiante com a ideia de ser irmão mais velho; ele já fazia planos, escolhia brinquedos e conversava com a barriga de Sara. A ideia de que aquela alegria poderia ser destruída por uma guerra de adultos e mentiras de laboratório a deixava sem chão.
Para tentar se desligar, Sara abriu a pasta com o cronograma do curso avançado de técnicas forenses do FBI que começaria na manhã seguinte. Ao ler o nome do instrutor-chefe, ela sentiu um sobressalto: Daniel Thorne.
Daniel não era apenas um instrutor qualificado; ele fora seu namorado durante os anos intensos na Universidade de Harvard. Ele era brilhante, ambicioso e, na época, representava a estabilidade que Sara ainda buscava. O relacionamento terminou de forma amigável quando as carreiras os levaram para caminhos opostos.
"De todas as pessoas no FBI, tinha que ser ele?", pensou Sara, fechando a pasta.
O destino parecia estar pregando uma peça. Aqui, em D.C., Sara teria que passar um mês trabalhando lado a lado com um homem que conhecia seu passado, suas vulnerabilidades e que, certamente, notaria que algo estava errado.
Daniel era o tipo de homem que sempre valorizou a honestidade acima de tudo, exatamente o que Grissom parecia ter perdido no meio de seus insetos e laudos médicos duvidosos.
O som do telefone tocando na sala silenciosa de Las Vegas fez o coração de Grissom saltar. Ele estava terminando de se arrumar para o trabalho e Augusto guardando as peças do quebra-cabeça, quando viu o nome "Sara" brilhar na tela. Ele respirou fundo e entregou o aparelho ao filho.
— É a mamãe, campeão.
— Mamãe! — Augusto exclamou, com os olhos brilhando. — Aqui tá tudo bem! O papai pediu pizza pra gente ! Quando você volta?
Grissom ouvia a voz de Sara do outro lado, suave e carregada de saudade enquanto falava com o pequeno. Mas tomou um susto quando Augusto estendeu o telefone dizendo "O papai quer falar com você", sendo que ele não tinha feito isso. O ar no ambiente pareceu esfriar instantaneamente.
— Oi, Sara — Grissom disse, a voz rouca.
— Oi. Como ele está? — A voz dela era gélida, estritamente profissional, como se falasse com um estranho.
— Está bem. Sentiu sua falta, mas estamos nos virando. Sara... eu... eu queria pedir desculpas pelo vídeo que recebeu.
Houve um silêncio pesado na linha. Em Washington, Sara apertava o telefone contra a orelha, sentada na beira da cama do hotel.
— As coisas ficaram daquele jeito por causa das suas escolhas, Gil. Das suas palavras — ela rebateu. — Eu sei que voltou a casa dessa mulher após seus "momentos" com ela. Gil vocês conversam com uma intimidade que sempre esteve ali. Você nega o convite, mas continua indo até lá? Qual é a próxima mentira? Que você foi apenas "estudar insetos" no jardim dela?
Grissom travou. Ele percebeu que, por mais que tentasse ser honesto sobre não ter consumado o ato, o fato de ter parado na porta de Heather para confrontá-la foi informado a sua esposa e usado contra ele.
— Não é o que parece, Sara! Eu fui confrontá-la sobre o vídeo! — ele tentou explicar, mas a voz de Sara já estava embargada.
— Chega, Grissom. Eu liguei para o meu filho. Não estrague a única coisa boa que me restou hoje. Boa noite.
O clique da ligação encerrada ecoou no ouvido de Grissom. Ele olhou para Augusto, que o observava com curiosidade, e sentiu uma impotência avassaladora.
A manhã em Washington surgiu nublada, condizendo com o estado de espírito de Sara enquanto ela caminhava em direção ao QG do FBI. No interior do auditório, Daniel Thorne organizava seus materiais na bancada principal. Ele vestia um terno impecável, mantendo a postura atlética e o olhar aguçado que Sara lembrava bem dos tempos de biblioteca em Harvard.
Ao ver o nome "Sara Sidle Grissom" na lista de presença digital, Daniel sentiu uma pontada de curiosidade. O sobrenome extra era uma pista óbvia, mas ele preferiu focar na expectativa do reencontro. Ele sempre admirou a mente brilhante de Sara e, secretamente, guardava boas memórias do tempo em que compartilhavam planos acadêmicos e cafés gelados em Cambridge.
Quando as portas se abriram e os peritos começaram a entrar, ele a procurou imediatamente. Sara entrou por último, vestindo um blazer escuro, com as olheiras levemente camufladas pela maquiagem, mas com aquele olhar determinado que Daniel conhecia tão bem.
— Bom dia a todos — Daniel projetou a voz, mas seu olhar travou em Sara por um segundo a mais do que o necessário. — Sejam bem-vindos ao Treinamento Avançado de Análise de Evidências Digitais e Biológicas.
Ao final da introdução, enquanto os alunos se organizavam para a primeira atividade prática, Daniel caminhou casualmente até a mesa de Sara.
— Sara Sidle... ou devo dizer, Sara Sidle Grissom? — Ele sorriu, um sorriso charmoso e genuíno que, por um instante, fez Sara esquecer o caos de Las Vegas. — Faz muito tempo. Fiquei feliz quando vi seu nome na lista.
Sara forçou um sorriso, sentindo o estômago dar um nó, não apenas pela gravidez, mas pela ironia de estar ali, sendo recebida com gentileza por um ex-namorado, enquanto seu marido a acusava de traição em casa.
— Daniel. Sim, faz muito tempo. Você parece estar indo muito bem por aqui — ela respondeu, tentando manter o tom profissional.
— Eu não reclamo. Mas e você? Las Vegas parece estar te tratando bem... — Ele fez uma pausa, notando a aliança no dedo dela e, com sua percepção de agente federal, percebeu que ela parecia mais pálida do que o normal. — E o sobrenome novo? O Sr. Grissom é um homem de sorte?
O aroma de café torrado e o burburinho suave da cafeteria em Washington ofereciam um refúgio momentâneo para Sara. Daniel, sempre o cavalheiro que ela lembrava, escolheu uma mesa reservada ao fundo, garantindo um pouco de privacidade.
— Então... — Daniel começou, envolvendo a xícara quente com as mãos e observando-a com uma curiosidade gentil. — Sara Sidle Grissom. O nome tem um peso acadêmico impressionante. Gilbert Grissom é aquele entomologista renomado de Vegas, não é? O supervisor?
Sara assentiu, mantendo a postura firme e um sorriso ensaiado que não chegava aos olhos, mas que era convincente o suficiente para quem não a via há anos.
— Sim, ele mesmo. Nos conhecemos quando ele foi ministrar uma palestra em Berkeley. Depois de um tempo, ele me chamou para integrar sua equipe em Las Vegas. Demorou um pouco antes de... bom, antes de tudo acontecer — ela explicou, omitindo cuidadosamente o caos dos últimos dias. — E sim, Daniel, nós nos casamos. Temos um filho, o Augusto. Ele tem sete anos e é a luz da minha vida.
Daniel sorriu, parecendo genuinamente impressionado. — Um filho de sete anos? O tempo realmente voou. Você sempre teve esse instinto de proteção, Sara. Imagino que seja uma mãe incrível.
Sara sentiu um aperto no peito ao lembrar da ligação da noite anterior, mas manteve a fachada. Ela respirou fundo e, em um momento de confiança que a pegou de surpresa, decidiu compartilhar a notícia que ainda era um segredo para quase todos no FBI.
— Nós estamos no processo de adoção do Augusto. E... tem mais uma coisa. — Ela baixou a voz, levando a mão ao ventre de forma quase inconsciente. — Eu estou grávida.
Daniel arregalou os olhos por um segundo, surpreso, e então um sorriso largo iluminou seu rosto. Ele estendeu a mão sobre a mesa, tocando levemente a dela em um gesto de parabéns.
— Sara! Isso é maravilhoso. Duas crianças, uma carreira brilhante... parece que você realmente conquistou tudo o que planejava nos tempos de Harvard. O Grissom deve estar radiante.
— Ele... — Sara hesitou por uma fração de segundo, a imagem dele gritando sobre o exame passando como um flash doloroso em sua mente. — Ele está processando a ideia. É muita coisa acontecendo ao mesmo tempo em Vegas.
— Imagino — Daniel respondeu, percebendo uma sutil hesitação, mas decidindo não pressionar. — Sabe, eu sempre soube que você seria uma força da natureza, mas ver você assim, construindo uma família enquanto domina a perícia criminal... é inspirador.
A conversa seguiu para lembranças mais leves: os professores ranzinzas de Cambridge, as noites em claro na biblioteca e os sonhos de juventude. Por uma hora, Sara não era a esposa traída; ela era apenas a Sara que Daniel admirava.
A noite...
Sara estava deitada na cama com o notebook no colo, cansada, mas aliviada de estar longe por alguns dias. Abriu o aplicativo de videochamada e discou para casa esperando ver Augusto.
A pessoa que apareceu na tela não era Grissom, nem Augusto.
Era Beth, com os óculos na ponta do nariz e uma expressão que misturava surpresa genuína com satisfação de quem acabou de ganhar uma oportunidade.
Sara ficou um segundo sem reação.
SS: Beth... Cadê meu garoto?
Beth sorriu e começou a sinalizar em ASL, com a legenda aparecendo no aplicativo que ela usava para comunicação:
BG: " Gil saiu com Augusto e Hank para o parque. Eu peguei o notebook sem querer. Mentira, peguei de propósito."
Sara deu uma risada involuntária apesar de tudo.
SS: (falando devagar e claramente para facilitar a leitura labial) Como você está, Beth?
BG: "Preocupada com minha nora. E com meu filho idiota."
Sara olhou para o lado por um segundo.
SS: Beth, eu e Gil estamos...
BG: "Separados. Eu sei. Ele me contou tudo." (pausa, os dedos voltaram a se mover) "Tudo mesmo, Sara."
Sara entendeu o peso daquele tudo. Ficou quieta.
BG: "Sobre o exame. Sobre Heather. Sobre o vídeo."
SS: (voz mais baixa) Então você sabe.
BG: "Sei que meu filho foi um idiota de proporções históricas." (pausa) "Também sei que ele parou."
SS: Parar não apaga o que aconteceu, Beth.
BG: "Não apaga. Mas é diferente de consumar." (os dedos pausaram um momento antes de continuar) "Sara, aquela mulher sabia que estava sendo filmada. Eu tenho certeza disso."
Sara franziu a testa.
SS: O quê?
BG: "Pensei nisso a noite toda. Alguém editou aquele vídeo e mandou direto pra você antes da viagem. Com timing perfeito." (pausa) "Isso foi planejado, minha filha."
Sara ficou em silêncio processando.
BG: "E sobre o exame..." (Beth se ajeitou na cadeira, mais séria) "Gil fez esse exame sozinho, sem te contar. Escondeu de você. Isso foi errado da parte dele." (pausa) "Mas Sara... exames erram. Essa criança que você está carregando é dele e vai ser uma cópia dele. Tenho certeza."
Os olhos de Sara marejaram sem avisar.
SS: (sussurrou) Eu nunca o traí, Beth.
BG: "Eu sei disso."
As duas ficaram em silêncio por um momento, separadas por milhares de quilômetros mas estranhamente próximas.
BG: "Quero que saiba que independente do que aconteça entre você e Gil..." (pausa, os dedos firmes) "Você é minha nora. Essa criança é meu neto. Augusto é meu neto. Isso não muda."
Sara não conseguiu segurar. Limpou os olhos rapidamente com as costas da mão.
SS: (sorrindo através das lágrimas) Você é impossível, Beth.
BG: "Descansa Sara. E come direito, você está magra."
SS: Estou grávida Beth, vou engordar mais do que deveria...
BG: "Melhor ainda." (começou a se levantar e parou) "Uma última coisa."
SS: O que foi?
BG: "Quando você voltar... deixa ele tentar." (pausa) "Não estou dizendo pra perdoar fácil. Estou dizendo pra deixar ele tentar."
Sara não respondeu. Beth assentiu como se a ausência de negativa já fosse suficiente por hoje.
BG: "Boa noite, minha filha."
A tela fechou.
Sara ficou olhando para o notebook escuro por um longo momento, a mão na barriga.
Fale com o autor