Já era noite, e como Gil e Sara não apareciam na sala, Beth Grissom pediu que Augusto fosse chamá-los.

O menino foi todo animado até o quarto.

— Papai… mamãe… — chamou, subindo na cama com cuidado — a vovó tá chamando vocês!

Foi fazendo carinho no rosto de Sara, com aquele jeitinho doce, até que ela começou a despertar.

— Humm… — murmurou, ainda sonolenta, abrindo os olhos devagar.

Levou alguns segundos para perceber onde estava… e mais alguns para notar que não estava sozinha.

Virou o rosto… e encontrou Grissom ali, ao seu lado.

Por um instante, ficou em silêncio, absorvendo.

— Como… eu vim parar na cama? — perguntou, ainda meio perdida.

Grissom abriu os olhos também, com um leve sorriso cansado.

— Eu te trouxe… — respondeu — você dormiu no sofá. Eu deitei um pouco por causa da dor… e acabei apagando também.

Sara franziu levemente a testa, sentando-se devagar.

— Você não devia ter feito esse esforço…

Antes que ele respondesse, Augusto se intrometeu, cheio de convicção:

— Papai é forte, mamãe!

Os dois não conseguiram evitar um pequeno sorriso.

Sara passou a mão no cabelo, ainda se ajeitando.

— Vamos… — disse, levantando — a vovó tá esperando.

Na cozinha, o clima era acolhedor. Beth já havia preparado algo leve, e os três se sentaram por alguns minutos.

Sara conversou com ela, agradeceu novamente pelos cuidados com Augusto.

Depois de um tempo, levantou-se.

— Vou passar no meu apartamento… preciso me arrumar pro trabalho.

Augusto fez um biquinho.

— Já vai, mamãe?

Ela se abaixou, beijando o rosto dele.

— Já já eu volto, tá bom?

Ele assentiu, mesmo contrariado.

Sara então se despediu rapidamente… e saiu.

A porta se fechou e logo Grissom chegou na cozinha.

O silêncio que ficou foi leve… mas cheio de significado.

Beth olhou para o filho e sinalizou, com um meio sorriso:

BG : Você vai ter trabalho pra reconquistar essa mulher…

Grissom soltou um pequeno riso, passando a mão na nuca.

— Eu sei… — respondeu — e, sinceramente… eu mereço.

Olhou na direção da porta por onde Sara havia saído.

— Mas eu não vou desistir.

Augusto, sentado à mesa, acompanhava tudo com atenção.

Grissom então voltou o olhar para ele, suavizando a expressão.

— E aí… — perguntou, em tom mais leve — a mamãe vai morar com a gente, né?

Os olhos do menino brilharam.

— SIMMM!!!

Beth riu, emocionada, levando a mão ao peito.

E, naquele instante…

Mesmo com tudo ainda bagunçado…

A sensação de família continuava ali.

Mais forte do que nunca.

No início do plantão, o clima no laboratório já era outro.

A equipe foi chegando aos poucos… e, pela primeira vez em dias, havia leveza no ar.

Assim que Greg bateu o olho em Sara, não perdeu a oportunidade:

— Nossa… que sorriso é esse, hein?? — disse, colocando a mão na cintura — tá felizinha demais, Sarita… devo me preocupar?

Sara revirou os olhos, mas não conseguiu segurar o riso.

— Hehehe… seu palhaço! — rebateu — tô sim, muito feliz, Greguinho.

Deu uma pequena pausa, com o olhar suavizando.

— Mas é porque encontrei meu filhote… então tô em paz.

Catherine se aproximou, cruzando os braços com um sorrisinho cúmplice.

— Ele tava radiante com você… — comentou — agora… e com certo supervisor?

Levantou a sobrancelha, provocando.

— Se acertaram?

Sara soltou um suspiro dramático.

— Não… — respondeu — ainda não.

Mas logo emendou, com um tom mais leve:

— Só que… eu acredito que ele não fez aquilo pra me prejudicar na guarda.

Nick, que ouvia de longe, se aproximou.

— Olha só… evolução!

Sara apontou pra ele, rindo.

— Calma, cowboy… não se empolga não!

Voltou a falar, agora com um toque de ironia:

— O problema é que ele deu confiança demais pra Heather… liberdade demais… e ela fez a festa.

Greg arregalou os olhos, teatral:

— Ihhh… liberdade + Heather… combinação perigosa!

Sara cruzou os braços, fingindo indignação.

— Pois é! Agora aguenta… vai brincar de chicote com ela então!

Por um segundo, ficou silêncio…

E então, todos caíram na gargalhada.

— Meu Deus, Sara! — disse Catherine, rindo — essa eu não esperava!

Warrick balançava a cabeça, segurando o riso.

— Essa foi pesada…

Greg já estava quase sem ar.

— Eu vou anotar essa… “vai brincar de chicote” — disse, entre risos — clássico!

Sara deu de ombros, divertida.

— Ué… cada um com seus hobbies!

Nick completou, entrando na brincadeira:

— Só não mistura trabalho com vida pessoal… dá problema!

— Tarde demais pra isso, né? — respondeu Sara, arrancando mais risadas.

A troca de provocações continuou por alguns minutos, leve, descontraída… como há tempos não acontecia.

A conversa leve da equipe foi interrompida assim que a porta se abriu.

Jim Brass entrou ao lado de Gil Grissom, ambos com expressões sérias, o tipo de expressão que mudava o clima na hora.

— Gente… — começou Brass — desculpa acabar com a alegria de vocês, mas… temos problemas.

O silêncio voltou.

Catherine Willows foi a primeira a reagir:

— O que aconteceu, Brass?

Grissom deu um passo à frente.

— O ataque que eu sofri hoje… — disse — foi a mando de Anthony Hertz.

Alguns olhares se cruzaram, tensos.

— Ele quer levar o Augusto… — continuou — e eliminar a mim e à Sara do mapa… se é que vocês me entendem.

O peso daquilo caiu sobre todos.

Brass completou:

— E antes que perguntem… eu já reforcei a segurança na frente do prédio do Gil.

Olhou diretamente para Sara.

— O Augusto vai pra escola com um policial acompanhando o tempo todo… inclusive dentro da escola.

Nick Stokes franziu a testa, ainda incrédulo.

— Mas ele não é só um trambiqueiro? Precisa disso tudo?

Grissom negou levemente com a cabeça.

— Infelizmente… precisa.

Respirou fundo.

— Ele se juntou com um grupo rival ao do Sanches… e voltou com força. Se essa guerra começar… não sabemos até onde vai.

Sara cruzou os braços, já focada.

— Então vamos precisar falar com o Sanches.

— Exatamente — confirmou Grissom — você e a Cath vão até ele.

Olhou para o restante da equipe:

— Warrick, preciso que você avalie um endereço que conseguimos.

— Nick, Greg… temos um duplo homicídio no The Venetian Resort.

Todos assentiram.

O clima leve de antes havia desaparecido completamente. Agora era trabalho… e perigo real.

A equipe começou a se movimentar.

Sara já estava saindo quando sentiu uma mão segurar levemente seu braço.

Ela se virou.

Grissom.

O olhar dele… preocupado.

— Cuidado… — disse, baixo — se cuida.

Fez uma pequena pausa, sem conseguir conter:

— Eu te amo.

Sara o encarou por um segundo.

E, dessa vez… não fugiu.

— Você se cuida também… — respondeu — e… eu também te amo muito.

Um leve sorriso surgiu.

— Tchau.

E saiu.

Grissom ficou parado por alguns segundos, observando ela ir.

Com um sorriso bobo… inevitável.

Passou a mão no rosto, quase rindo de si mesmo.

— Sara, Sara… — murmurou — você ainda vai me dar muito trabalho…

O olhar suavizou.

— Mas vai voltar pra mim.

O cassino tinha aquela atmosfera específica dos lugares que funcionam em camadas o que aparecia para quem entrava pela porta da frente e o que acontecia nas salas dos fundos, separados por corredores que não estavam no mapa oficial do estabelecimento.

Sara e Catherine haviam chegado ao local.

Sanches era um homem que ocupava o espaço com a naturalidade de quem havia decidido há muito tempo que o mundo ao redor era território dele não com arrogância aparente, mas com aquela presença específica de quem não precisa afirmar o que já é dado.

Estava sentado à mesa quando as duas entraram.

Señoritas. — Ele gesticulou para as cadeiras com a hospitalidade de quem recebe em casa. — Sentem.

Sentaram.

— Sei que estão procurando Anthony Hentz. — Ele foi direto, com aquela objetividade de homem que não gosta de rodeios quando o assunto é negócio. — E sei que sabem que eu também estou procurando ele.

— Sabemos. — Sara foi igualmente direta. — A questão é o que você pretende fazer quando o encontrar.

Sanches a olhou por um segundo com aquele olhar de quem avalia se a interlocutora merece a versão honesta ou a versão para visitantes.

Aparentemente decidiu pela honesta.

— Hentz me deve dinheiro. — Simples, direto. — Muito dinheiro. E além do dinheiro, me deve a humilhação de ter usado meu nome e minha operação para fazer negócio com rival. — Ele abriu as mãos. — Isso não se deixa passar.

— E como pretende não deixar passar? — Catherine perguntou, com aquela objetividade que não era ingênua — era estratégica.

Ah. — Sanches recostou na cadeira com um sorriso que tinha satisfação dentro. — Aqui está a parte interessante. Él es un hombre amante del dinero. — disse Sanches, com aquela certeza de quem conhece o tipo. — Vai cair. E vou pegá-lo.

Catherine havia ficado olhando para ele por um momento.

— E depois que pegar?

Depois— — Sanches gesticula com a mão de forma que poderia significar muitas coisas dependendo de quem interpretava.

Sara havia decidido ser direta.

— Você vai nos avisar para prendermos ele. — Havia dito, no tom de quem está apresentando um fato e não hipótese. — É isso?

Sanches havia ficado em silêncio por um segundo.

Sí, sí, chica. — Havia dito, com aquela magnanimidade levemente forçada de quem está concordando com algo que não havia exatamente planejado concordar. — Soy da paz.

Do lado de fora do cassino, as duas caminharam em direção ao carro sem falar com aquele silêncio de quem está processando a mesma coisa e sabe que a outra está chegando na mesma conclusão.

— Ele não vai entregar Anthony pra polícia. — Sara confirmou, abrindo o carro.

— Nunca que ele vai. — Catherine entrou no banco do passageiro.

No caso de Nick Stokes e Greg Sanders, a confirmação veio rápido e pesada.

Os corpos tinham ligação direta com o grupo mexicano.

A guerra… tinha começado.

De volta ao laboratório, o clima era tenso.

Warrick Brown foi direto ao ponto:

— Gente… no endereço que eu fui… tinha fotos do Grissom e da Sara.

O silêncio caiu na sala.

— Também encontrei um mapa do cassino do Sanches… — continuou — e um manual de montagem de bomba.

Todos se entreolharam.

Gil Grissom passou a mão no queixo, pensativo.

— Eles querem fazer algo grande… — concluiu, sério.

Sara franziu a testa, claramente incomodada com outro ponto.

— Mas… por que o Anthony quer o Augusto? — questionou — ele nunca gostou do menino…

Catherine estreitou o olhar, como se estivesse conectando peças.

— Tem alguma coisa nessa história… — disse, firme — Greg, levanta toda a documentação da adoção do Augusto.

Greg piscou, surpreso.

— Você acha que tem algo aí?

Antes que Catherine respondesse, Nick se adiantou, olhando para ela com entendimento.

— Acho que sei o que você tá pensando, Cath…

Ela cruzou os braços, mantendo o olhar fixo.

— Então fala.

Nick respirou fundo.

— E se o Augusto… não for só “o menino da Sara”?

O silêncio ficou ainda mais pesado.

Greg arregalou os olhos.

— Você tá dizendo que…

Nick assentiu devagar.

— Que o Augusto pode ter algo valioso que com isso esta sendo o motivo do interesse de Anthony por ele.

Sara sentiu o coração acelerar.

— Não… — murmurou — isso não faz sentido…

Mas, no fundo…

A dúvida já tinha sido plantada.

Catherine completou, firme:

— Até agora, nada nessa história tem sido por acaso.

O apartamento era do tipo que não aparece em nenhum registro, alugado por semana, pago em dinheiro, com o nome de outra pessoa numa lista que ninguém verificava com cuidado.

Anthony havia aprendido, nos últimos anos, que Las Vegas tinha muitos desses lugares.

A cidade que nunca dorme também nunca perguntava muito sobre quem estava acordado e por quê.

— Preciso descobrir onde a Mary deixou o documento. — A voz saiu baixa, com aquela tensão de quem está chegando no limite da paciência com a própria situação. — Procurei em todo lugar que sabia que ela havia ido. — Ele fechou a pasta com mais força do que pretendia. — Nada.

O homem ao lado deixou o silêncio durar um segundo antes de responder.

— Pelo jeito ela já vinha desconfiando de você faz tempo.

Anthony ficou olhando para a pasta fechada.

Não contestou.

Havia coisas que Mary havia feito nos últimos meses, pequenas, discretas, do tipo que uma mulher inteligente faz quando começa a construir uma saída sem que o outro perceba que está construindo.

Ele havia notado.

Havia escolhido não agir.

Erro.

— Pode ser. — Ele admitiu, com frieza — Mas não adiantou nada esconder. — Ele se levantou, foi até a janela com os braços cruzados. — Porque vou descobrir onde ela guardou esse documento.

— E se já estiver nas mãos erradas?

Anthony ficou olhando para a rua lá embaixo.

Mãos erradas.

Havia uma lista de possibilidades e no topo dela, com uma consistência que o incomodava mais do que queria admitir, estava um nome.

Sara Sidle.

A perita do laboratório criminal que havia aparecido na vida de Augusto de um jeito que não havia sido planejado, mas que havia resultado numa proximidade grande.

Mary confiava nela.

Augusto a ama.

Anthony: Então preciso recuperar antes que saibam o que significa.

— E se já souberem?

Ele ficou em silêncio.

— Então — a voz saiu com aquela frieza que havia se instalado no lugar onde outras coisas haviam estado antes — vou precisar agir mais rápido do que planejei.

Anthony se afastou da janela.

— Vou encontrar esse documento. Antes que alguém entenda o que está segurando.

No laboratório, Greg Sanders voltou praticamente correndo, com uma expressão de quem tinha encontrado algo grande.

— Gente… achei uma coisa.

Todos se voltaram para ele.

— A Mary fez um seguro de vida… — continuou — e o beneficiário é o Augusto.

O impacto foi imediato.

Warrick Brown franziu a testa.

— Então é isso… — murmurou — é por isso que o Anthony quer o menino.

Greg assentiu.

— Só que tem dois problemas pra ele — completou — ele não sabe que não tem mais a guarda… e nem onde estão os documentos da apólice.

Catherine cruzou os braços.

— E ela não deixou nada indicando onde isso estaria?

— Pelo que levantamos… nada — respondeu ela mesma, já antecipando.

Foi então que Sara parou, como se uma peça tivesse finalmente se encaixado.

— Gente… — disse, pensativa — na hora eu não dei importância… mas agora faz sentido.

Gil Grissom se aproximou na mesma hora.

— O que foi, querida?

Sara respirou fundo.

— Na carta que a Mary me deixou… — começou — no final tinha um endereço.

Todos ficaram atentos.

— E ela escreveu: “melhor verificar, pois nesta casa um futuro bom para Augusto encontrará.”

O olhar de Grissom mudou na hora.

— Onde está essa carta?

— Na minha bolsa… — respondeu — só que ela ficou na sua casa, Gil.

— Então vamos passar lá — disse ele, decidido — e pedimos pra minha mãe pegar.

Catherine concordou:

— Perfeito. E vocês dois vão até esse endereço verificar.

Sara rapidamente rebateu:

— Não precisa o Grissom ir comigo, eu posso...

— Nem pensar. — cortou ele, firme — você não vai sozinha.

Warrick apoiou:

— É melhor irem juntos… e mantenham a gente informado.

Grissom assentiu.

— Minha mãe vai nos esperar na portaria.

Sara pegou suas coisas com pressa.

— Então vamos, senhor Grissom? — provocou, já andando — vou pegar umas coisas no armário… te espero no carro.

— Tchau, gente!

Ela saiu.

Catherine observou o sorriso que ficou no rosto dele e não perdoou:

— Que sorrisinho é esse, hein?

Grissom deu de ombros, divertido.

— Sorriso de quem vai ter algumas horas agradáveis…

— Tchau!

— Aproveita a viagem! — gritou Catherine.

Greg completou, rindo:

— Pelo jeito… vai aproveitar muito bem!

Minutos depois, já na casa de Grissom, Beth Grissom os aguardava na portaria com a bolsa de Sara.

— Cuidado, vocês dois — sinalizou ela, em ASL, com um olhar preocupado.

Sara apertou a mão dela com carinho, antes de entrar no carro.

Dentro do veículo, abriu rapidamente a bolsa, procurando a carta.

Encontrou.

E lá estava.

O endereço.

Grissom leu por cima… e ergueu as sobrancelhas.

— Isso fica em Kingman…

Sara olhou para ele.

Os dois sabiam.

Aquilo não era só um endereço.

Era uma resposta.

— Então vamos descobrir… — disse ela, firme — o que a Mary deixou pra proteger o Augusto.

Grissom ligou o carro.

E, juntos… Partiram em direção a mais uma verdade escondida.

— Mansão de Heather Kessler — Tarde —

A mansão de Heather tinha aquela qualidade específica de lugares que foram construídos para impressionar sem parecer que estavam tentando.

Anthony Hentz havia chegado com a cautela de homem que havia aprendido, nas últimas semanas, que aceitar convites sem verificar a origem era erro que custava caro.

Mas havia algo no convite de Heather Kessler que havia sido difícil de ignorar.

O nome. A reputação. E a frase específica que havia chegado pelo intermediário:

Sei o que você está procurando. E sei onde está.

Havia aceitado.

— Fico feliz que tenha aceitado meu convite. — Ela disse, com aquele sorriso cínico debochado.

Anthony ficou na cadeira com a postura de quem está à vontade e não está.

— Aceitei na curiosidade. — A voz saiu direta, sem cerimônia. — O que a famosa Dominatrix Heather Kessler deseja comigo?

Heather inclinou levemente a cabeça do jeito que fazia quando estava avaliando com cuidado o que o interlocutor havia revelado sem perceber.

Famosa. Havia dito famosa com uma entonação que não era elogio, mas também não era insulto. Era reconhecimento de que havia pesquisado. De que havia chegado preparado para uma versão dela que havia construído antes de entrar pela porta.

Bom.

Homens que chegam preparados são mais fáceis de trabalhar do que homens que chegam desprevenidos porque os primeiros acreditam que o preparo é proteção suficiente.

— Senhor Hentz. Sei que está procurando Augusto.

Anthony não confirmou nem negou.

— E sei — ela continuou, com aquela pausa calculada — que há algo específico que precisa encontrar. Algo que a Mary escondeu antes do.... antes do que aconteceu.

O silêncio durou dois segundos.

Havia algo no rosto de Anthony que havia mudado levemente, não o suficiente para ser confirmação, mas o suficiente para Heather saber que havia acertado o alvo.

— Tenho uma proposta. — Ela pousou as mãos na mesa com aquela compostura de quem está chegando na parte que importa. — Sei como você pode ter acesso ao Augusto de forma legal através de um processo que já está em andamento.

Anthony ficou olhando para ela.

— Em troca?

— De algo simples. — Heather foi direta. — O processo de guarda que entrei tem um obstáculo. — Uma pausa menor. — Sara Sidle.

Anthony ficou quieto.

— Ela está pedindo a guarda do menino. — Heather continuou, com a neutralidade de quem apresenta dado. — E tem pessoas que estão torcendo por ela — dentro do laboratório e fora. — Ela o olhou diretamente. — Preciso que esse obstáculo seja removido de uma forma que não me envolva diretamente.

— Que tipo de remoção? — A voz de Anthony saiu cautelosa — do tipo que quer entender o que está sendo pedido antes de concordar ou recusar.

— Do tipo que a afaste do processo. — Heather foi cuidadosa com cada palavra. — Definitivamente.

Anthony ficou olhando para ela por um momento longo e então, com aquele sorriso maquiavélico:

— Sou todo ouvido. — Ele disse. — Tenho certeza que vou ficar muito feliz de fazer negócios com você.

Heather correspondeu ao sorriso com o dela igualmente sem calor, igualmente satisfeito.

A estrada em direção a Kingman começou mergulhada em um silêncio quase incômodo.

O som do motor… o vento… e pensamentos demais ocupando espaço entre Gil Grissom e Sara Sidle.

Mas não por muito tempo.

Grissom respirou fundo, como quem toma coragem… e quebrou o silêncio.

— Sabe que nesses últimos dias… eu fiquei lembrando de quando a gente se conheceu?

Sara virou levemente o rosto, curiosa.

— É? — perguntou — e por quê? O que te fez lembrar?

Ele deu um pequeno sorriso de canto.

— Você.

Ela arqueou a sobrancelha, meio provocativa.

— Posso saber por que eu fui a responsável… sendo que, por muito tempo, o senhor fez questão de me afastar?

Grissom assentiu, como se esperasse aquela pergunta.

— Afastei… — começou, sincero — por um medo idiota.

Fez uma pausa.

— Medo de você acordar um dia… e perceber que não poderia passar a vida ao lado de um “velho”.

Sara soltou um suspiro leve, balançando a cabeça.

— Grissom… desde o dia em que nos conhecemos, você sabe que idade nunca foi um problema pra mim.

O tom dela era firme… mas cheio de sentimento.

— Eu não me apaixonei pela sua idade… me apaixonei por você. Pelo homem que estava ali, na minha frente.

Olhou direto pra ele.

— Me apaixonei pelo pacote completo.

Grissom absorveu aquelas palavras como se fossem um alívio tardio.

— Eu sei… — disse, mais baixo — e é por isso que eu fiquei lembrando de você.

Deu um pequeno suspiro.

— Porque você nunca me deu motivo pra duvidar disso… e mesmo assim eu duvidei.

Passou a mão pelo volante, pensativo.

— Minha vida mudou no momento em que nossos olhares se cruzaram naquele seminário.

Um sorriso nostálgico surgiu.

— Até aquele dia… eu era um cara que vivia de encontros passageiros… sem apego nenhum.

Olhou rapidamente para ela.

— Mas com você… foi diferente.

A voz suavizou.

— Meu coração disparou de um jeito que eu nunca tinha sentido… eu queria estar com você o tempo todo.

Deu uma leve risada.

— E quando a gente ficou junto pela primeira vez… eu estava mais nervoso do que quando perdi a virgindade.

Sara não conseguiu evitar um sorriso.

— Você foi amor à primeira vista… — continuou ele — e eu fui burro o suficiente pra demorar pra entender.

Ela ficou em silêncio por um instante… absorvendo tudo.

— Por que está me dizendo isso agora? — perguntou, mais suave.

Grissom não hesitou.

— Porque eu quero que você acredite em mim quando eu digo que te amo.

O olhar dele era firme… verdadeiro.

— Sara… você é a mulher da minha vida.

O coração dela acelerou.

— Eu não me vejo vivendo o resto dos meus dias sem você.

Ele respirou fundo.

— Eu quero uma família com você… quero mais filhos… já temos o Augusto… já temos um cachorro, que é o Hank…

Sara levantou a mão, interrompendo, ainda impactada.

— Grissom… espera…

Olhou bem para ele.

— Você tem noção do que está dizendo?

Ele respondeu sem titubear:

— Tenho. É exatamente o que eu quero.

Houve um pequeno silêncio… carregado.

Então ele lembrou de algo.

— Eu trouxe uma coisa pra você…

Com uma das mãos, pegou um pequeno objeto e entregou a ela.

Sara abriu devagar.

E seus olhos se encheram de emoção.

— Eu… achei que tinha perdido…

Era o colar com o pingente de borboleta.

— Meu irmão me deu… antes de nos separarmos…

A voz dela falhou levemente.

Grissom sorriu de leve.

— Eu encontrei na minha bolsa… quando voltei de São Francisco.

Olhou para frente, mas a voz saiu carregada de sentimento:

— Guardei como uma lembrança sua… além de todas as outras memórias incríveis que vivi com você.

Sara segurou o colar com cuidado, como se fosse algo precioso demais para soltar.

A morena ficou em silêncio por alguns instantes, ainda segurando o colar com a borboleta entre os dedos.

As palavras dele ecoavam na sua mente… cada uma delas.

O amor declarado.

O arrependimento.

Os planos… uma família… um futuro.

Era tudo o que ela sempre quis ouvir.

Mas também era tudo o que, naquele momento, mais a assustava.

Respirou fundo, tentando organizar os sentimentos.

Olhou pela janela.

A chuva caía forte agora, pesada, quase como se refletisse a confusão dentro dela.

Preferiu não responder.

Ainda não.

Virou levemente para ele, mudando o foco com suavidade:

— A chuva está muito forte, Grissom…

Ele acompanhou o olhar dela para a estrada, percebendo a intensidade.

— Está mesmo…

Sara voltou a falar, em um tom mais prático, mas ainda carregado de emoção contida:

— Acho melhor a gente parar em algum lugar… descansar um pouco… esperar diminuir.

Fez uma pequena pausa.

— A estrada assim fica perigosa.

Grissom assentiu na hora, entendendo não só o motivo da parada…

Mas também o que ela não estava dizendo.

— Tem um motel de beira de estrada alguns quilômetros à frente — comentou — podemos parar lá.

Sara concordou com um leve aceno.

O silêncio voltou a ocupar o carro.

Mas agora… não era mais desconfortável.

Era um silêncio cheio de pensamentos.

De sentimentos sendo processados.

De decisões que ainda precisavam de tempo.

E, enquanto a chuva caía cada vez mais forte…

Os dois seguiam em frente.

Não apenas na estrada.

Mas, aos poucos…

Um na direção do outro.