NOSTALGIA (VERSÃO 2026)
27 Operação "Acorda, Grissom"
A noite em Washington ainda não havia terminado para Sara quando ela decidiu ligar para a única pessoa que falava a sua língua: Catherine Willows.
— O instrutor é o Daniel Thorne, Catherine. Meu ex-namorado de Harvard — confessou Sara, suspirando ao telefone enquanto caminhava no quarto de hotel.
Do outro lado da linha, em Las Vegas, os olhos de Catherine brilharam mais que os neons da Strip. — Um ex-namorado de Harvard? Inteligente, bem-sucedido e... deixa eu adivinhar... ele ainda tem todos os dentes e não usa um colete cheio de bolsos com pinças e potes de vidro? — Catherine soltou uma risada maliciosa. — Sara, minha querida, o destino não joga dados, ele joga xadrez. Aproveite a vista!
Assim que desligou, Catherine não perdeu tempo. Ela tinha uma missão divina: salvar o casamento dos amigos através do terror psicológico.
Augusto entrou na frente correndo juntamente com Hank.
Augusto: Vovó!! Chegamos!!!
Beth abriu um sorriso largo, ajoelhou com alguma dificuldade e recebeu o abraço do neto.
BG: (sinalizando enquanto falava para Augusto entender) "Que bom meu querido!!!
Augusto: Eu vou tomar banho depois de dar agua pro Hank.
Grissom apareceu na porta alguns segundos depois, as chaves na mão, expressão levemente menos fechada do que nos últimos dias. Momentos no parque com Augusto e Hank tinham esse efeito.
Beth foi ajudar Augusto.
Grissom ficou parado na sala esperando. Quando Beth voltou sozinha alguns minutos depois, sentou no sofá.
BG: "Sara ligou. Eu atendi!
GG: Como ela está ?
Beth ficou quieta um momento antes de responder. Os dedos se moveram devagar.
BG: "Cansada. Grávida e sozinha em Washington. Mas de pé." (pausa) "Essa menina tem uma força que você não merece."
Grissom olhou para as próprias mãos.
GG: Vocês conversaram?
BG: "Conversamos sobre tudo. Inclusive que aquela mulher provavelmente sabia que estava sendo filmada."
GG: (levantou os olhos) Como ela reagiu?
BG: "Ficou quieta. Do jeito que fica quando está processando algo importante." (pausa) "Gil, essa armadilha foi bem montada. Alguém queria destruir seu casamento com premeditação. Você é perito, trate assim."
Grissom ficou olhando para a mãe por um longo momento.
Era exatamente o que Brass tinha insinuado.
GG: (baixinho) Alguém que soubesse do exame de esterilidade.
Beth assentiu devagar.
BG: "Exatamente. Porque sem esse detalhe a história toda não se sustenta." (cruzou os braços) "Quem além de você sabia desse exame?"
Grissom abriu a boca e fechou.
Era uma lista pequena. Pequena demais para ser coincidência.
No dia seguinte, no laboratório, Catherine entrou na sala de Grissom com a sutileza de um furacão. Ela "acidentalmente" deixou o tablet aberto sobre a mesa dele com uma página de busca do Google Imagens.
— Oh, Gil, você viu o instrutor da Sara no FBI? — ela perguntou, com uma voz casual que cheirava a perigo. — Daniel Thorne. Um colírio para os olhos, não acha? E parece que eles estão passando muito tempo "relembrando técnicas" de laboratório... e de Harvard.
Grissom, que estava analisando evidencias de um caso, sentiu o estômago dar um nó.
Ele olhou para a tela. Daniel Thorne aparecia em uma foto oficial: queixo quadrado, sorriso de comercial de pasta de dente, terno sob medida e um olhar de quem nunca teve dúvidas sobre a paternidade de ninguém.
— Ele parece... competente — murmurou Grissom, a voz subindo uma oitava.
— Competente? Gil, o homem é um monumento nacional! — Catherine deu um tapinha no ombro dele. — Se eu fosse você, começava a se perguntar se a Sara vai querer voltar para o deserto depois de passar um mês no "jardim" de Washington. Com licença, tenho evidências para processar.
Assim que Catherine saiu, o supervisor entrou em modo de Ansiedade Nível Especialista. Fez pesquisas sobre Daniel; se olhou no reflexo do espelho. Seus cabelos estavam despenteados, ele tinha manchas de reagente na camisa, barba por fazer e cabelos a serem cortados.
Grissom começou a andar de um lado para o outro na sala, gesticulando para as paredes. A ansiedade era tanta que ele quase ligou para Sara, mas se tocou do horário.
Catherine observava Grissom pela vidraça do corredor, segurando um sorriso. — É isso aí, Cowboy. Se você quer manter a sua rainha, é melhor começar a lutar contra os peões da Heather e o cavaleiro branco de Washington.
Em Washington, o despertador de Sara mal havia tocado quando o celular vibrou no criado-mudo. Ao ver "Grissom" na tela, ela sentiu aquele frio na barriga. Uma mistura de esperança de ouvir um "sinto sua falta" com o trauma da última briga. Sentiu vontade de não atender, mas tinha Augusto, então...
— Sidle? — ela atendeu, com a voz ainda rouca de sono.
— Sara. Bom dia. — a voz de Grissom veio rápida, quase atropelada. — Liguei para saber... como está o rendimento acadêmico? O curso de análise digital está seguindo os protocolos de Cadeia de Custódia padrão ou o FBI está usando aqueles novos algoritmos heurísticos que, francamente, tendem ao erro sistemático?
Sara piscou, confusa, sentando-se na cama. — Gil? Você me ligou às sete da manhã para falar de algoritmos heurísticos? O curso está indo bem, obrigada. O instrutor é excelente.
O silêncio do outro lado da linha foi quase audível. Em Vegas, Grissom estava no laboratório, andando em círculos e segurando um relatório que ele nem estava lendo.
— Excelente? — Grissom repetiu, a voz subindo um tom. — É... Catherine mencionou Daniel Thorne. Ele estou em Harvard, não é? Sabe, Sara, eu estava lendo um artigo sobre a sociologia das agências federais. É fascinante e preocupante. Estatisticamente, agentes do FBI têm uma taxa de divórcio altíssima. É o ego, entende? O excesso de testosterona e ternos sob medida causa uma espécie de cegueira cognitiva para relacionamentos de longo prazo. Eles são como o Gryllus bimaculatus... fazem muito barulho, mas não têm substância estrutural.
Sara afastou o telefone por um segundo, olhando para o aparelho com uma expressão de "não acredito nisso". A mágoa ainda estava lá, profunda e dolorida, mas o absurdo da situação começou a fazer cócegas em seu senso de humor.
— Você está me dizendo que os agentes do FBI são grilos barulhentos, Grissom? — Ela soltou uma risadinha curta, a primeira em dias. — E o que mais a sua "pesquisa estatística" diz sobre o meu instrutor?
— Diz que... bom, que a eficiência deles é inversamente proporcional à simetria facial! — Grissom disparou, agora totalmente entregue ao ciúme.
Sara cobriu a boca com a mão, rindo baixinho. Ela conseguia imaginar perfeitamente a expressão dele: as sobrancelhas franzidas, o cabelo bagunçado e aquele ar de quem está prestes a dar uma aula magna sobre por que ele é superior a um agente bonitão de Washington.
— Gil — ela disse, tentando recuperar a seriedade, embora a voz ainda estivesse leve. — Eu ainda estou muito brava com você. O que você disse... o que você fez... não vai embora com uma aula de entomologia ou pesquisas sobre agentes do FBI.
— Eu sei — a voz dele baixou de repente, perdendo o ímpeto agressivo do ciúme. — Eu só... eu deveria estar concentrado no trabalho, mas o meu instinto está focado nesse "grilo" de Harvard.
— Vá trabalhar, Gil — ela disse, com um suspiro que misturava cansaço e uma ponta de diversão. — E pare de pesquisar sobre egos federais. Isso não combina com você.
Ao desligar, Sara sorriu para o teto. Grissom era um desastre emocional, mas ver o grande Gilbert Grissom intimidado por um "rosto simétrico" era, no mínimo, revigorante.
Sara não conseguia conter o sorriso enquanto esperava o elevador. A ligação para Catherine foi regada a risadas sobre como a "loira fatal" de Vegas havia plantado a sementinha da discórdia na mente de Grissom.
— Catherine, você é terrível! — dizia Sara, entre gargalhadas. — Ele comparou o Daniel a um grilo barulhento! Um grilo! Eu quase conseguia ouvir o cérebro dele fritando tentando achar um inseto que fosse menos atraente que um agente do FBI.
— Eu só dei um empurrãozinho na realidade, querida — respondeu Catherine, com tom vitorioso. — Deixe ele suar um pouco. Um homem que sabe a diferença entre cem tipos de moscas, mas não percebe a joia que tem em casa, precisa de um choque de simetria facial para acordar. Divirta-se no curso!
Ao sair do elevador e entrar no elegante lobby do hotel, Sara ainda exalava aquela energia leve e renovada. A fisionomia cansada de ontem havia dado lugar a uma vivacidade que não passou despercebida por Daniel Thorne.
Ele estava encostado em uma poltrona de couro, lendo algo em um tablet, mas levantou o olhar no instante em que ela apareceu. Ele se levantou com a elegância natural de quem parece ter saído de um editorial da GQ.
— Uau — Daniel disse, com um sorriso franco. — D.C. parece estar fazendo milagres por você em menos de vinte e quatro horas. Você está radiante hoje, Sara.
— Bom dia, Daniel. Acho que uma boa noite de sono e uma dose de... humor matinal ajudaram — ela respondeu, ajeitando a alça da bolsa.
— Fico feliz em ouvir isso. Olha, o curso só começa em quarenta minutos. Tem uma cafeteria artesanal aqui no quarteirão que faz um macchiato que faria qualquer perito chorar de alegria. Aceita um café antes de irmos para o QG?
Sara hesitou por um segundo, lembrando-se da voz de Grissom falando sobre o "ego federal", mas a liberdade de estar longe das pressões de Vegas falou mais alto.
— Um café parece perfeito, Daniel. Vamos lá.
Enquanto caminhavam pela calçada limpa de Washington, Daniel mantinha uma distância respeitosa, mas a conversa fluía com uma facilidade perigosa.
— Então, o "humor matinal" teve algo a ver com Vegas? — Daniel perguntou, casualmente, enquanto abria a porta da cafeteria para ela. — Ouvi dizer que o clima lá é... instável.
— Digamos que recebi uma lição inesperada sobre a vida social dos grilos — Sara brincou, sentando-se em uma mesa perto da janela.
Daniel riu, um som rico e seguro. — Grilos? Bem, se o seu marido usa insetos para se comunicar, ele certamente é um homem original. Mas, falando sério, Sara... é bom ver você sorrindo. Ontem, por um momento, achei que Washington seria um fardo para você.
Ele a observava intensamente, e por um momento, Sara sentiu o peso daquele olhar. Era o olhar de alguém que não tinha dúvidas, ainda a achava a mulher mais fascinante da sala.
O ambiente sofisticado da cafeteria, com seu aroma intenso de grãos torrados e açúcar caramelizado, subitamente se tornou hostil para Sara. O garçom passou ao lado da mesa com uma bandeja de cinnamon rolls recém-saídos do forno, e o cheiro doce e carregado de canela atingiu Sara como uma onda física.
A cor fugiu de seu rosto instantaneamente. Ela sentiu o mundo girar e a náusea característica da gravidez de risco subir com uma força avassaladora.
— Sara? Você ficou pálida de repente... — Daniel disse, levantando-se imediatamente.
Ela tentou responder, mas apenas levou a mão à boca, sentindo as pernas fraquejarem. Antes que ela pudesse desequilibrar da cadeira, Daniel foi mais rápido. Ele a amparou pelos ombros e pela cintura, trazendo o corpo dela para junto do seu para dar suporte.
— Respire, Sara. Estou aqui. Vá com calma — ele sussurrou, a voz baixa e firme, enquanto a guiava para um banco mais afastado do balcão de doces.
Por alguns segundos, Sara ficou encostada no peito dele, sentindo o calor do terno e a batida ritmada do coração de Daniel. Era uma sensação de segurança que ela não sentia há semanas. Quando a tontura começou a ceder, ela tentou se afastar, mas Daniel manteve as mãos em seus braços por um momento a mais, olhando-a nos olhos com uma intensidade que não era apenas profissional.
— Melhor? — ele perguntou, a voz agora carregada de uma ternura perigosa.
— Sim... desculpe, Daniel. Acho que o cheiro da canela não concordou com o meu café — ela tentou brincar, mas a voz saiu trêmula.
— Sara... — Daniel começou, ignorando o pretexto do café.
Ele deu um passo para mais perto, quebrando a barreira da casualidade.
— Ver você de novo, mesmo com esse sobrenome novo e essa vida que você construiu... só me fez perceber que algumas coisas em Harvard não deveriam ter ficado no passado. Eu nunca deixei de admirar você. E, pelo visto, eu nunca deixei de sentir o que sentia.
Sara ficou estática. O silêncio entre eles era denso, preenchido apenas pelo som da máquina de café ao fundo.
Sara sentiu o peso das palavras de Daniel no ar, mas a menção aos sentimentos do passado, em vez de balançar suas certezas, trouxe o foco de volta para o que realmente importava. Ela se afastou gentilmente, recuperando o equilíbrio e a postura, embora seus olhos ainda guardassem a suavidade do agradecimento pelo amparo físico.
— Daniel, obrigada por me segurar. De verdade — ela começou, a voz ganhando uma firmeza serena. — Mas eu preciso ser muito clara com você. Eu sou uma mulher casada. E o que eu sinto pelo Gil... apesar de todos os nossos problemas e das dificuldades que estamos enfrentando... é algo que eu escolhi para a minha vida.
Ela fez uma pausa, levando a mão ao ventre de forma protetora, um gesto que Daniel agora compreendia perfeitamente.
— Eu estou esperando um filho do meu marido. E tenho outro em casa, o Augusto, que é o centro do nosso mundo. Eu vim para Washington para buscar clareza e focar na minha carreira, não para reescrever o passado. Eu valorizo nossa amizade e o respeito que temos um pelo outro desde Harvard, mas é só isso que posso te oferecer.
Daniel sustentou o olhar dela por um longo momento. Ele viu a determinação de Sara e, embora houvesse uma ponta de melancolia em sua expressão, ele assentiu com o respeito de quem conhece a integridade da mulher à sua frente.
— Eu entendo, Sara. E peço desculpas se passei dos limites. É difícil ver você passar por algo que te deixa tão vulnerável e não querer ser a pessoa que te protege — ele disse, com um sorriso triste, mas honesto. — Mas eu respeito sua família. E, se você me permitir, serei o seu aliado para garantir que ninguém neste curso perceba que você está lidando com enjoos e uma gravidez.
Sara relaxou os ombros, sentindo um peso sair de suas costas. — Obrigada, Daniel. Eu aceito o aliado.
Enquanto Sara estabelecia limites saudáveis em Washington, o destino pregava uma peça em Grissom. Ele estava no laboratório, olhando para o microscópio, quando Catherine entrou com uma expressão de "eu avisei".
CW: Sara me falou sobre como Daniel vem ajudando ela. Rapaz educado... preciso encontrar Lindsey. Tchau Gil!!
O supervisor soltou um suspiro e resolveu ir para casa.
A atmosfera no laboratório de Las Vegas, que já era tensa, atingiu o ponto de ebulição quando Lady Heather atravessou as portas de vidro. Ela não estava com suas vestes habituais de dominatrix, mas sim com um vestido de seda impecável, carregando uma cesta de café da manhã digna de um hotel cinco estrelas, completa com frutas exóticas, pães artesanais e flores.
Greg Sanders e Nick Stokes, que estavam perto da recepção se preparando para sair, trocaram olhares imediatos.
— Puxa vida, Nick... — Greg comentou, aumentando o tom de voz para garantir que todos ouvissem. — Eu processo evidências há anos, tomo café de máquina queimado e o máximo que ganhei até hoje foi uma amostra grátis de luminol.
— Pois é, Greg — completou Nick, com um sorriso sarcástico que escondia sua irritação. — Acho que o nosso erro é não ter um "vínculo intelectual" tão profundo quanto o do Grissom. Nunca ganhei nem um muffin.
Grissom, que saía de sua sala com o rosto pálido e o olhar cansado, parou diante de Heather. A equipe inteira parecia ter congelado, observando a cena. Catherine, ao fundo, apenas cruzou os braços com uma expressão de desaprovação absoluta.
— Heather, o que é isso? — Grissom perguntou, a voz sem qualquer vestígio de entusiasmo.
— Você não atendeu minhas ligações, Gil. Imaginei que estivesse tão focado no trabalho que esqueceu de se nutrir — ela respondeu com um sorriso enigmático. — Podemos conversar?
Grissom indicou a saída com um gesto seco. Eles caminharam até a calçada, em frente ao prédio do laboratório, onde o calor seco de Nevada começava a subir. Heather começou a falar sobre "conexões perdidas", sobre como Sara o havia deixado sozinho e como ele precisava de alguém que entendesse sua complexidade.
Mas Grissom não estava lá.
Seu olhar estava fixo em um ponto vago no horizonte. Enquanto Heather falava, ele só conseguia pensar na imagem de Sara no aeroporto, no peso do filho Augusto em seus braços na noite anterior e no brilho de inteligência de Daniel Thorne que Catherine fizera questão de destacar. As palavras de Heather pareciam um zumbido distante, como o de um inseto que ele já havia catalogado e que não oferecia mais nenhuma surpresa biológica.
— Heather, sinceramente... — Grissom a interrompeu, passando a mão pelo rosto. — Eu não estou prestando atenção. Eu estou cansado. Exausto.
— Gil, eu estou tentando te ajudar a atravessar esse deserto — ela insistiu, dando um passo à frente.
— O deserto é o meu habitat natural, você sabe disso — ele rebateu, finalmente olhando-a nos olhos com uma frieza que a fez recuar um milímetro. — Eu tenho um filho para cuidar. Obrigado pelo café, mas tenho que ir.
Ele deu as costas e voltou para o prédio, deixando Heather sozinha na calçada com sua cesta cara e sua paciência se esgotando.
O lugar era discreto, longe do Strip, do tipo que não aparece em guia turístico nenhum. Anthony Hentz escolheu a mesa do fundo por hábito, de costas para a parede, visão total da entrada.
Ted chegou atrasado como sempre, pediu uma cerveja sem olhar o cardápio e sentou na frente do parceiro com a expressão de quem não está com paciência para rodeios.
Ted: Quanto tempo mais a gente fica esperando? Você me prometeu que isso seria rápido.
AH: (girou o copo devagar) Tive um contratempo. O Grissom não está tão convicto de se separar quanto eu esperava.
Ted: Sara é independente. Essa viagem ira fazer bem para ela e tenho certeza que voltará com alguma decisão. Eles estão separados...
AH: Separados, mas não divorciados. E enquanto não houver divórcio e guarda definitiva do garoto, o seguro fica bloqueado. (baixou a voz) Eu preciso que a Sara saia de Las Vegas de vez. Com o menino.
Ted bebeu um gole longo antes de falar.
Ted: E a Heather? Ela está segurando o plano ou atrapalhando?
Anthony deu uma risada curta e sem humor.
AH: Heather tem seus próprios planos. Quer o Grissom de volta pra ela de verdade. Acha que se o casamento acabar ele vai correr pra cama dela.
Ted: Vai?
AH: (encolheu os ombros) Não vai. O homem parou no meio do clima quente e saiu correndo pensando na ex mulher. Mas ela não quer acreditar nisso.
Ted olhou para ele com uma expressão calculista.
Ted: Você anda transando com ela?
Anthony não respondeu imediatamente. Tomou um gole.
AH: Sou homem e ela tem sido parceira. (pausa) Mas ela quer casar com o homem inseto e eu quero o dinheiro do seguro para dar o pé de Vegas.
Ted: (baixou ainda mais a voz) Quanto é mesmo? Você nunca me falou.
AH: Posso te dizer que é um bom valor.
O táxi parou na frente da casa e Augusto desceu com a mochila nas costas.
Beth abriu a porta e Augusto entrou na frente como sempre, jogando a mochila no primeiro lugar disponível.
Augusto: Papai!!
Mas a voz do pai vinha do escritório junto com outra voz que ele conhecia. O Jim. O amigo do papai que tinha bigode e sempre trazia balas.
Augusto foi andando pelo corredor na ponta dos pés, não por maldade, simplesmente porque tinha sete anos e andar na ponta dos pés em corredor comprido era divertido.
A porta estava semiaberta.
JB: (voz grave, séria) Você tem certeza que ela vai se mudar quando a guarda sair?
GG: (longa pausa) Foi o que ela disse. São Francisco.
JB: Gil...
GG: Eu sei, Jim.
JB: E o menino?
Silêncio.
GG: Vai com ela. É a mãe dele.
Augusto ficou parado no corredor assimilando tudo. Resolve ir para o quarto ligar para a mãe.
Sara estava revisando as anotações do dia quando uma chamada no skype apareceu. Viu o rosto do filho na tela e o coração já apertou antes de ele dizer uma palavra. Conhecia aquela expressão. Era a mesma que ele fazia quando estava segurando algo grande demais para a idade dele.
SS: Oi meu amor! Saudades de você!
Augusto: (voz pequena) Oi mamãe.
SS: O que foi filho? Aconteceu alguma coisa?
Augusto: (olhou para o lado antes de falar) Mamãe... a gente vai ter que mudar de cidade?
Sara fechou os olhos por meio segundo. Abriu com um sorriso tranquilo que custou mais do que ele podia imaginar.
SS: Filho, de onde você tirou isso?
Augusto: Eu ouvi o papai falar com o Jim.
Sara ficou em silêncio por um momento.
Augusto: (a voz finalmente quebrou um pouco) Eu não queria ficar longe do papai, mamãe.
SS: (respirou fundo, a voz firme e acolhedora) Me escuta bem, tá? Olha pra mim.
Augusto olhou para a tela.
SS: Filho eu gostaria muito de ir, mas estou vendo que você não quer e a Cath me convenceu a ficar. (pausa) A gente vai continuar em Las Vegas.
Os ombros do menino desceram visivelmente.
Augusto: Jura?
SS: Juro. Agora precisamos procurar uma casa para morarmos, eu e você. Quando eu voltar de Washington, a gente vê isso juntos, tá? Você me ajuda a escolher?
Augusto: (um sorrinho tímido apareceu) Quero um quarto grande.
SS: (riu baixinho) A gente vê o que dá. (pausa, mais suave) Te amo muito filho.
Augusto: Também te amo mamãe. (hesitou) Mamãe?
SS: Sim?
Augusto: Você e o papai não vão ficar juntos mais?
O silêncio durou apenas um segundo mas pesou uma eternidade.
SS: (com toda a calma que conseguiu reunir) O que eu sei é que tanto eu quanto o papai amamos você de um jeito que nunca vai mudar. Isso é o que importa agora, tá bom?
Augusto assentiu, não totalmente convencido mas suficientemente acolhido.
SS: Tchau filho, te amo!
Augusto: Também te amo mamãe!
A tela fechou.
Sara ficou olhando para o teto por um longo momento com a mão na barriga.
Grissom saiu do escritório depois que Brass foi embora e quase esbarrou em Beth que estava encostada na parede do corredor do lado de fora do quarto de Augusto.
Ela olhou para ele.
BG: "Ele ouviu você falar com Jim."
Grissom olhou para a porta fechada do quarto do filho.
BG: "Ligou pra Sara. Ela disse que não vai mais pra São Francisco."
Grissom ficou completamente imóvel.
BG: "Ficou por causa dele." (pausa, os dedos se moveram devagar) "Não por você. Por ele. Guarda isso."
E foi para a cozinha deixando o filho parado no corredor com o peso de tudo aquilo.
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