NOSTALGIA (VERSÃO 2026)
2 O Peso do Não Dito
O estacionamento do laboratório estava quase vazio quando Grissom chegou ao carro.
Ele ficou parado por um momento com a chave na mão, sem pressa de ir a lugar nenhum. A conversa com Sara continuava reverberando, as palavras dela, a calma com que havia falado, a forma como saiu sem dar a ele sequer o consolo de uma porta batida. Havia algo perturbador em ser dispensado com tanta precisão por alguém que você sabia que estava machucado.
Preciso fazer alguma coisa. O pensamento era claro. O quê ainda não.
O celular vibrou.
Lady Heather.
Ele atendeu antes de pensar muito.
— Gil. Estou perto do laboratório. Café?
— Claro. Me manda o endereço.
Desligou. Jogou o celular no banco do passageiro. Entrou no carro.
Foi só quando o motor pegou que a ficha caiu.
Havia dito a Sara que tinha uma reunião importante. Havia recusado o café dela, um convite que, no fundo, sabia que era mais do que café e em menos de cinco minutos havia aceitado sem hesitar o convite de outra pessoa.
Grissom ficou com as mãos no volante por um segundo mais longo do que necessário.
Muito bem, Gil.
O desconforto foi real. Ficou com ele durante todo o trajeto, instalado no banco de passageiro como um acompanhante indesejado que ninguém havia convidado mas que ninguém sabia como mandar embora.
Heather já estava numa mesa quando ele chegou — elegante como sempre, com aquele jeito particular de ocupar um espaço como se ele houvesse sido feito para ela.
— Bom dia, Gil. — O olhar dela o avaliou com a rapidez discreta de quem foi treinada a ler pessoas. — Está com o semblante triste. Aconteceu alguma coisa?
Grissom sentou, dobrou os óculos sobre a mesa.
— Tomei algumas atitudes que magoaram uma pessoa. — Pausou. — Estou me sentindo mal com isso.
Heather o olhou por um momento sem dizer nada.
— Ela tem nome?
Ele não respondeu. O que, para Heather, era resposta suficiente.
— Bom. — Ela apoiou o queixo na mão com um leve sorriso. — Mas você não veio até aqui para falar de você, veio?
— Não!! — Ele a olhou com seriedade. — Então me conta. O que aconteceu?
E Heather contou.
Os dois conversaram como velhos amigos que sabem guardar os segredos um do outro — sem julgamento, sem rodeios, com aquela honestidade rara que só existe quando duas pessoas não querem nada além da conversa em si.
Quando finalmente saíram, a rua estava mais movimentada do que quando haviam chegado.
A despedida foi breve. Heather se virou para ele, e com uma naturalidade que não avisou com antecedência, segurou o rosto de Grissom entre as mãos e depositou um beijo lento, leve, mas demorado o suficiente para não deixar dúvidas sobre o que era.
Grissom não se moveu. Não correspondeu, mas também não recuou. Ficou simplesmente parado, como um homem que não sabia ao certo em que cena havia acabado de entrar.
Heather se afastou com um sorriso enigmático, virou-se e foi embora sem olhar para trás.
Ele ficou na calçada por um momento, processando.
O que Grissom não sabia, não podia saber, era que do outro lado da rua, através do vidro de uma lanchonete, cinco pares de olhos haviam acompanhado cada segundo da cena.
Em silêncio absoluto.
Com exceção de Greg, que deixou escapar um "nossa" em voz baixa antes que Nick o silenciasse com um olhar.
— Na lanchonete —
Sara colocou o garfo no prato com cuidado excessivo — o tipo de cuidado que se tem quando as mãos precisam de algo para fazer enquanto o resto de você tenta se manter inteiro.
— Gente, o café foi ótimo. — O sorriso apareceu no lugar certo, com o tempo certo. — Mas pra mim deu. Preciso ir pra casa. Até mais tarde!
Pegou a jaqueta, jogou a bolsa no ombro e saiu antes que alguém pudesse dizer qualquer coisa que ela não tivesse condições de ouvir naquele momento.
Catherine abriu a boca.
Nick tocou levemente o braço dela.
Ela fechou a boca.
Os quatro, ficaram em silêncio e acompanharam com os olhos a silhueta de Sara desaparecendo pela porta.
O carro estava estacionado a meio quarteirão. Ela percorreu a distância com passadas firmes, chave na mão, olhar no asfalto.
Entrou. Fechou a porta.
E só então deixou.
As lágrimas não vieram com drama vieram com o cansaço de quem as havia segurado por tempo demais. Escorreram em silêncio pelo rosto enquanto ela ficava de mãos no volante, olhando para nada através do para-brisa.
— Por que mentir, Grissom? — A voz saiu rouca, pequena, só para o interior do carro ouvir. — Por quê?
Do lado de fora, Las Vegas seguia seu ritmo de sempre. Indiferente. Barulhenta. Completamente alheia a uma mulher que havia dado o suficiente de si mesma para alguém que continuava escolhendo não ver.
Sara respirou fundo. Depois de novo. E mais uma vez.
Limpou o rosto com as costas da mão com o mesmo gesto prático e sem cerimônia que tinha para quase tudo na vida.
— Preciso ficar longe deste homem. — A voz estava mais firme agora, mas o peso era o mesmo. — De verdade. Longe de verdade. — Uma pausa. — Ou vou me destruir.
Não era a primeira vez que dizia isso.
Mas era a primeira vez que a voz não tremia ao dizer.
Ela girou a chave na ignição. Sara Sidle colocou o carro em movimento e com ele, silenciosamente, alguma coisa dentro dela também começou a se mover em uma direção sem volta.
Enquanto isso, do outro lado da cidade, um garoto de sete anos brincava sem saber que o mundo ao redor dele estava prestes a mudar e que, de uma forma que ninguém ainda poderia imaginar, o caminho dele e o dela se encontrariam.
Sara não havia planejado parar.
O carro simplesmente foi diminuindo a velocidade até que ela percebeu que havia estacionado em frente a uma praça pequena e arborizada, daquelas que existem nos bairros tranquilos de Las Vegas como se fossem um segredo bem guardado da cidade.
Ela ficou no banco por um momento. Depois saiu, encontrou um banco de madeira sob uma árvore e ficou ali, deixando o sol bater no rosto e as lágrimas fazerem o que precisavam fazer.
Não havia ninguém suficientemente perto para ver. Ou pelo menos era o que ela pensava.
Uma presença pequena surgiu do nada ao seu lado.
E então suave, inesperada, completamente desarmante, uma mãozinha apareceu no seu rosto e enxugou as lágrimas com a seriedade de quem está realizando uma missão muito importante.
— Chora não, moça. Fica triste não!! — A voz era pequena, firme e absolutamente convicta. — Vou ficar com você até você melhorar!
Sara piscou.
Na sua frente estava um menino de olhos curiosos e expressão determinada, com o cabelo levemente bagunçado e um ar geral de alguém que havia acabado de sair de alguma situação que provavelmente não deveria contar para os adultos.
— Oi. — Ela abriu um sorriso involuntário, ainda com o rosto úmido. — Estou um pouco triste. Mas obrigada por me fazer companhia.
— De nada!! — Ele se sentou ao lado dela com a naturalidade de quem havia sido convidado. — Eu sou Augusto. E você?
— Eu sou Sara.
— Sara. — Ele testou o nome como se estivesse arquivando. — Está sozinha aqui ?
Sara quase riu.
— Estou sozinha, mas eu sou adulta, então tá tudo bem. — Ela inclinou a cabeça. — E você? Está sozinho ou está com alguém, Augusto?
— Estou com minha mãe! — Ele apontou sem cerimônia para um grupo de mulheres reunidas do outro lado da praça. — Ela está ali naquele grupo. Estão fazendo uma reunião chata então vim dar uma volta.
Sara olhou na direção indicada, depois voltou os olhos para ele com uma expressão divertida.
— E as outras crianças ali? Por que não ficou com elas?
Augusto abriu um sorriso que tinha sapeca escrito em letras garrafais.
— Bom... — Ele juntou as mãos no colo com uma postura de quem vai explicar algo muito razoável. — Eu fui fazer uma experiência com as formigas. Estava testando uma teoria sobre deslocamento de massa em insetos e... acho que errei um pouquinho os cálculos. — Pausa dramática. — Aí causou uma pequena explosão. — Ele abriu levemente os braços para ilustrar a escala. — Pequenininha. E as formigas voaram e caíram nas crianças e elas gritaram muito. Acho que exageraram um pouco honestamente.
Sara olhou para ele por um segundo.
Depois largou a gargalhada de verdade, do fundo, o tipo de risada que aparece sem pedir licença e leva embora um peso que você nem percebia que estava carregando.
Augusto riu junto, satisfeito com o efeito.
— Deslocamento de massa em insetos? — Sara ainda sorria, limpando o canto dos olhos — agora por outro motivo. — Você tem quantos anos?
— Sete. — Ele falou com a segurança de quem poderia muito bem ter dito trinta e dois.
— Sete. — Ela repetiu, impressionada de verdade. — E você gosta de física?
— Adoro!! — Os olhos acenderam de um jeito que Sara reconheceu imediatamente, era o mesmo acendimento que ela sentia quando o assunto era bom. — Gosto de física, química, experiências... minha mãe montou um laboratório pra mim em casa! É pequenininho mas funciona. Estou treinando para a feira de ciências.
— Sério? — Sara se virou mais para ele, genuinamente interessada. — Que legal. Eu sou formada em física.
Augusto abriu a boca.
Fechou.
Abriu de novo.
— De verdade?! — A voz subiu uma oitava. — VOCÊ É FORMADA EM FÍSICA?!
— Sou. — Ela riu da reação.
— E o que você faz?! Dá aula?! Faz experiências?! Trabalha num laboratório?!
— Trabalho num laboratório, sim.
— QUE TIPO DE LABORATÓRIO?!
A conversa que se seguiu durou tempo suficiente para Sara esquecer completamente por que havia estacionado ali. Augusto tinha perguntas, muitas, encadeadas, sem pausa para respirar e ela respondia com uma animação que não havia planejado sentir. Ele falava sobre suas teorias com a seriedade de um cientista e o vocabulário criativo de uma criança de sete anos, o que resultava numa combinação que Sara achou absolutamente encantadora.
Eles estavam no meio de um debate sobre a viabilidade de um experimento com bicarbonato de sódio e vinagre em escala "um pouco maior do que o normal" quando uma voz feminina chegou pelo caminho.
— Augusto.
A entonação tinha aquela musicalidade específica de mãe que não está com raiva ainda, mas está chegando lá.
Uma mulher de sorriso gentil e olhar cansado da forma boa, o cansaço de quem tem muito amor para administrar se aproximou com a expressão de quem já estava imaginando o que o filho havia aprontado agora.
— Aqui está você! — Ela olhou para Sara com um sorriso de desculpas. — Espero que ele não tenha te incomodado...
— Pelo contrário. — Sara se levantou, sincera. — Foi um prazer enorme. Ele é incrível.
Augusto ficou na ponta dos pés discretamente.
— Mamãe, ela é formada em física!! E trabalha num laboratório!! — Ele puxou a manga da mãe com urgência. — Você pode pegar o telefone dela pra mim? Preciso tirar dúvidas científicas importantes!!
Mary olhou para Sara com uma expressão que misturava orgulho e pedido de socorro.
— Você não precisa se sentir obrigada...
— Não, pode deixar. — Sara já estava pegando um cartão da bolsa — um hábito de investigadora que desta vez serviu para algo bem mais agradável. — Fica à vontade pra me ligar quando tiver dúvidas, Augusto. — Ela se abaixou levemente para ficar na altura dele. — E sabe o quê? Quando você estiver preparando a feira de ciências, me fala. Posso ajudar.
Os olhos de Augusto ficaram do tamanho de dois experimentos bem-sucedidos.
— E posso visitar seu laboratório um dia?!
Sara sorriu de um jeito que não havia sorrido em muito tempo.
— Esse é um convite oficial. Um dia eu te levo lá.
Augusto virou para a mãe com a urgência de quem acabou de fechar o melhor negócio da história.
— MAMÃE!! EU VOU GANHAR A FEIRA DE CIÊNCIAS!!!
Mary pegou o cartão de Sara com um sorriso de gratidão genuína, o tipo que não precisa de palavras porque já diz tudo.
— Obrigada. De verdade.
— Eu que agradeço. — Sara olhou para Augusto uma última vez. — Foi ele quem me fez companhia quando eu precisava.
O menino estufou o peito com a dignidade de quem havia cumprido uma missão.
Enquanto mãe e filho seguiam de volta para a praça — Augusto já explicando para Mary a diferença entre uma pequena explosão e uma explosão de verdade — Sara ficou parada por um momento, olhando os dois se afastarem.
O peso que havia entrado no carro com ela não estava mais lá.
Ela não soube explicar direito. Apenas sentiu.
E sorriu.
A equipe chegou ao laboratório com uma energia que não tinha nada a ver com café ou descanso.
Tinha a ver com o que haviam visto do outro lado de uma janela de lanchonete — e com a vontade coletiva, mal disfarçada, de fazer o supervisor suar um pouco.
Greg entrou na sala de briefing com o sorriso de quem guardou uma piada boa por tempo demais e está chegando no limite.
— Então... — Ele jogou a pasta na mesa e ficou de pé, casual demais para ser casual. — Alguém sabe como foi a reunião importante do chefe ontem?
— Greg. — Catherine falou sem levantar os olhos do arquivo que estava abrindo.
— Estou perguntando, Catherine. Por interesse genuíno no desenvolvimento profissional do nosso supervisor.
— Para. — Nick foi seco, mas o canto da boca traiu um sorriso.
— Eu achei ela muito produtiva. — Warrick murmurou, examinando a própria caneta com interesse repentino. — Do que eu vi, pelo menos.
Greg apontou para ele com entusiasmo.
— EXATAMENTE. Muito produtiva. Com um encerramento bastante... conclusivo.
— Vou fingir que não ouvi nada disso. — Catherine fechou o arquivo e olhou para o relógio. — Sara ainda não chegou.
— Incomum. — Nick franziu a testa levemente.
— Muito incomum. — Warrick concordou.
E então a porta se abriu.
Sara entrou com a pontualidade de quem calculou o horário para chegar exatamente a tempo, nem um minuto antes, nem um depois. Pasta sob o braço, postura impecável, expressão tranquila.
Greg abriu a boca.
O olhar de Catherine o fechou antes que qualquer som saísse.
Ninguém disse nada sobre o horário. Ninguém disse nada sobre ontem. A mensagem havia sido recebida com clareza: Sara não veio para esse papo.
O que a equipe não havia calculado era que, no mesmo instante em que ela entrava por uma porta, Grissom entrava pela outra.
O supervisor a viu imediatamente.
— Bom dia, Sara.
O cumprimento foi direto, com aquele tom que ele usava quando estava tentando soar neutro mas havia algo por baixo.
Sara pegou sua pasta na mesa, organizou dois papéis que não precisavam ser organizados e respondeu para o espaço à sua frente:
— Bom dia.
Dois palavras. Tom profissional. Olho zero.
Grissom ficou parado por um segundo, o tipo de segundo que dura mais do que deveria.
A equipe toda de repente ficou muito interessada em suas próprias anotações.
Greg estudava o teto.
Nick estudava os sapatos.
Warrick estudava a parede.
Catherine era a única olhando diretamente para a cena, com a expressão de alguém assistindo a um documentário que já sabia como ia terminar mas não conseguia desgrudar os olhos.
Grissom se moveu em direção à sua posição habitual na sala, e quem conhecia bem o rosto dele — Catherine conhecia, por exemplo — notou o imperceptível aperto de algo que ele estava processando em silêncio.
Ele havia sido ignorado.
Não com raiva. Não com drama.
Com indiferença. Que era, de longe, muito pior.
A distribuição de casos estava prestes a começar quando Catherine colocou as mãos na mesa com um sorriso que não prometia nada de bom.
— Grissom, quero te dar parabéns.
Ele ergueu os olhos dos arquivos com a expressão cautelosa de alguém que já aprendeu a desconfiar de parabenizações não solicitadas.
— Posso saber por quê?
— Ué, chefinho. — Greg não conseguiu se conter. — Pelo seu namoro com Lady Heather!! Vimos vocês juntinhos ontem!
O silêncio durou exatamente um segundo.
Grissom olhou para a equipe — e então, quase involuntariamente, os olhos foram direto para Sara.
Ela estava de cabeça baixa. Caneta na mão. Imóvel do jeito de quem está se concentrando muito em não demonstrar absolutamente nada.
— Como assim... vocês nos viram juntos? — A voz saiu mais devagar do que ele pretendia.
— Grissom, por favor. — Catherine cruzou os braços. — Não testa nossa inteligência.
— Fomos conhecer uma lanchonete nova. — Nick encolheu levemente os ombros. — Você estava no restaurante em frente.
— E quando saíram... — Warrick pausou com o timing de quem sabe exatamente o que está fazendo — vimos vocês dois juntinhos e aos beijos e—
— Acho melhor o Grissom liberar logo os casos para podermos trabalhar.
A voz de Sara saiu calma, prática, cortando o ar da sala com a precisão de um bisturi. Ela não levantou a cabeça. Apenas virou uma página.
— Credo, Sara!! — Greg se virou para ela com indignação genuína. — Espera eu saber das fofocas!!
— Greg Sanders. — Grissom foi seco. — Não tem nada para saber. Sara tem razão. Vamos trabalhar.
Catherine abriu a boca.
Fechou.
Reabriu — porque Catherine Willows não havia chegado até aqui para ficar quieta.
— Claro que Sara tem razão. — A voz tinha aquele tom manteiga que antecedia algo afiado. — É muito melhor trabalhar do que ficar aqui ouvindo qual vai ser a desculpa esfarrapada pra explicar por que você disse que tinha uma reunião importante... — ela pausou com precisão dramática — ...quando na verdade foi encontrar a namorada. — Uma pausa menor. — Poderia ter sido sincero, Grissom. Não íamos reclamar.
O silêncio que se seguiu tinha textura própria.
Grissom ficou imóvel por um momento — sem graça de um jeito que a equipe raramente havia visto — e então decidiu encerrar o assunto do único jeito que sabia quando não tinha argumentos: com rispidez.
— Catherine, chega desse assunto. — A voz saiu mais grossa do que pretendia. — Heather é só minha amiga.
A sala ficou quieta.
Greg olhou para Nick.
Nick olhou para Warrick.
Warrick olhou para o teto.
E então veio — de onde ele menos esperava, no tom que ele menos conseguia rebater:
— Amiga com benefícios. — Sara virou mais uma página, a voz absolutamente neutra, quase entediada. — Mas não é da nossa conta sua vida pessoal. — Finalmente ergueu os olhos, direto para os arquivos na frente de Grissom. — Quais são os casos?
O silêncio durou dois segundos a mais do que o confortável.
Greg estava mordendo o lábio com uma força considerável.
Warrick havia desenvolvido um interesse súbito e profundo pelo próprio crachá.
Nick estava olhando para a janela com a expressão de quem está rogando para não rir.
Catherine, e apenas Catherine, encarou Grissom com um olhar sereno que dizia você fez isso com você mesmo.
Grissom abriu a pasta.
— Temos três casos. — A voz voltou ao tom profissional como se nada houvesse acontecido. — Vamos trabalhar.
Grissom olhou para Sara e o que viu foi suficiente para calar qualquer argumento que ainda estivesse ensaiando.
Não era raiva. Raiva ele saberia lidar.
Era mágoa. Quieta, contida, do tipo que alguém carrega quando já está cansado demais até de demonstrar.
Ele fechou a pasta e foi para o escritório sem dizer mais nada.
O turno transcorreu com a normalidade profissional de sempre, casos distribuídos, evidências analisadas, relatórios preenchidos. A equipe trabalhou bem, como sempre trabalhava, e se alguém notou que o supervisor havia ficado mais recluso do que o habitual, ninguém comentou.
Grissom ficou entre seus relatórios e seus pensamentos, e os dois lhe deram trabalho igual.
Foi perto do final do turno que ele ouviu.
A voz de Sara chegou pelo corredor, animada, leve, com um tom que ele não havia ouvido em muito tempo. Um tom que claramente não era reservado para o laboratório.
— Pode deixar que te encontro na hora do almoço. Tchau!!
Grissom ficou imóvel por um momento com a caneta na mão.
Depois pousou a caneta. Levantou. E foi.
Ele a encontrou ainda com o celular na mão, guardando na bolsa. Chegou com o semblante sério de quem tomou uma decisão no caminho.
— Poderia falar com você antes de ir embora, Sara?
Ela o olhou com a expressão neutra que havia aperfeiçoado nas últimas semanas.
— Alguma coisa relacionada ao trabalho?
Uma pausa de menos de um segundo.
— Sim.
Mentira.
Usou essa alternativa antes de vê-la sair por aquela porta em direção a um almoço com alguém cuja voz ele não havia ouvido, e essa perspectiva foi mais rápida que a honestidade.
Sara estudou o rosto dele por um momento. Então assentiu.
— Certo. Eu fico.
Grissom voltou para a sala de briefing com passos medidos.
— Podem ir, pessoal. Bom descanso.
A equipe começou a se mover. Casacos, pastas, o ritual do fim de turno. Catherine passou por ele e o olhou de um jeito que durou apenas um instante, mas disse: eu sei exatamente o que você está fazendo. Ele não correspondeu ao olhar.
Greg saiu animado. Nick e Warrick saíram conversando. A sala foi esvaziando até que restaram apenas dois.
O silêncio entre eles tinha o peso específico das coisas não ditas.
Grissom gesticulou levemente em direção ao corredor.
— Meu escritório?
Sara pegou a pasta sob o braço, postura impecável, expressão que não entregava nada.
— Certo.
E seguiu.
Ele caminhou ao lado dela pelo corredor, não na frente, não atrás e pelo breve trajeto até o escritório, nenhum dos dois disse uma palavra.
O que precisava ser dito ainda estava procurando coragem para aparecer.
O escritório estava em silêncio.
Grissom havia trancado a porta — um gesto que Sara notou mas não comentou — e agora estava apoiado na beira da mesa, de costas para ela, olhando para nada com a postura de alguém que ensaiou o que ia dizer e perdeu o texto no caminho.
Sara ficou de pé, pasta na mão, esperando.
Um segundo. Dois. Cinco.
— O que de tão sério eu fiz que você não sabe nem como começar a falar?
Ele se virou. O rosto tinha aquela expressão que ela raramente via — desconfortável. Genuinamente desconfortável.
— Na verdade... quem fez algo sério fui eu. — A voz saiu mais baixa do que o normal. — Menti para você ontem e estou me sentindo um lixo por isso. Queria que você soubesse que estou muito mal com o que fiz, que—
— Você está mal só porque eu vi a cena.
A frase saiu calma. Direta. Sem raiva aparente — o que a tornava mais difícil de rebater.
— Se eu não tivesse visto, você estaria completamente normal. Sem remorso nenhum. — Ela inclinou levemente a cabeça. — Na verdade, nem acredito que esteja ressentido neste momento.
Grissom franziu o cenho.
— Que tipo de pessoa você pensa que sou?
Sara o olhou por um momento — e havia algo naquele olhar que era pior que acusação. Era decepção fria, já processada, já guardada no lugar que não dói mais.
— Um cara cínico e mentiroso. — A voz continuava sem drama. — Eu não sou nada mais, nada menos do que sua subordinada, Grissom. Não precisava mentir pra mim. Era só falar que ia sair com sua namorada. Simples assim.
— ELA NÃO É MINHA NAMORADA.
A intensidade saiu mais alta do que ele pretendia. Ecoou levemente entre as quatro paredes.
Sara não se moveu. Não piscou.
— Ficante. Amiga com benefícios. Seja lá o nome que você dá. — Um gesto leve com a mão, como se o detalhe fosse irrelevante. — O ponto é que não precisava mentir. Não para mim.
Grissom respirou fundo.
— Certo. Menti, mas não foi para esconder o encontro com Heather. Ela me ligou depois da nossa conversa, me chamou para um café e eu fui. Foi impulsivo e eu deveria ter—
— Ou seja. — Sara cortou, ainda no mesmo tom controlado. — Café com Sara, nem pensar. Café com outras pessoas, prontamente. — Uma pausa curta. — Não sei nem por que ainda me surpreendo com isso.
— Sara—
— Já entendi, Grissom. — Ela pegou a pasta com aquele gesto final de quem está encerrando um arquivo. — Comigo não tem mudança nenhuma. Não precisa me explicar mais nada. — Caminhou em direção à porta, destravou a fechadura e pousou a mão na maçaneta. — Se me der licença, preciso descansar. Tenho um compromisso mais tarde.
A última frase foi dita de passagem, quase como informação. Quase.
Mas o efeito foi imediato.
Grissom sentiu aquilo pousar no peito como uma pedra.
Compromisso.
— Ouvi você no telefone marcando um encontro. — A voz saiu mais direta do que planejava. — Você vai sair com quem?
Sara se virou devagar.
O olhar que ele recebeu tinha camadas, surpresa, incredulidade e algo que rapidamente se transformou em uma frieza calculada.
— Está louco, Grissom? — A voz era baixa mas tinha peso. — Eu não te devo satisfações da minha vida.
— Sara, me escuta por favor. — Ele deu um passo em direção a ela, baixando o tom. — Eu não tenho nada com a Heather. O que você viu foi—
— Grissom. — Ela o cortou com uma paciência que estava claramente chegando ao fim. — Eu vi vocês se beijando. — Pausa. — Para com isso. — Olha, já entendi como as coisas são entre nós dois. Chefe e subordinada. Só isso. Então me deixa em paz, assim como vou te deixar em paz.
— Mas eu não quero te deixar em paz.
Ela parou.
— E assim como — a voz dele saiu diferente agora, mais baixa, mais honesta do que ele havia sido em muito tempo — eu quero você no meu pé.
Sara o olhou por um momento longo e pela primeira vez em dias, a máscara profissional vacilou levemente. Apenas o suficiente para mostrar que havia algo por baixo ainda vivo, ainda prestando atenção.
— O que você quer dizer com isso?
Grissom abriu a boca.
Toc. Toc. Toc.
Três batidas na porta do escritório, firmes, educadas, absolutamente inoportunas.
Os dois ficaram imóveis por um segundo, olhando um para o outro com a expressão de quem foi interrompido no meio de algo que levou tempo demais para chegar.
Sara, por estar mais perto, foi até a porta e abriu.
A pessoa do outro lado entrou com um sorriso de quem não tinha a menor ideia do que havia acabado de interromper.
— Bom dia! Desculpe interromper o trabalho de vocês — os olhos foram direto para Grissom — mas preciso falar com você.
O silêncio que se instalou tinha três camadas distintas: a surpresa de Sara, o desconforto de Grissom e a captura no ar de quem havia acabado de interromper algo bem sério antes de entrar.
E a conversa que finalmente estava começando a dizer o que precisava ser dito ficou suspensa no ar, sem resposta, sem conclusão, sem o próximo passo que os dois ainda não sabiam se estavam prontos para dar.
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