Ao abrir a porta, a morena tem uma surpresa.

SS: Oi Jack, que surpresa?! Entra!!

JW: Oi Sara, desculpa incomodar!! Vim para falar sobre o Augusto.

SS: Sim, claro!! Deixa eu te apresentar aqui rapidinho, esse é Gilbert Grissom, meu supervisor e Grissom esse é Jack Wilson.

GG: Muito prazer Jack!! O que tem pra falar sobre o Augusto?

Jack Wilson tinha aquele jeito de quem trabalha com crianças há tempo suficiente para saber que notícias importantes precisam ser dadas com cuidado, mas também com clareza, porque crianças merecem clareza.

Entrou e foi ao ponto com a objetividade de alguém que vem trabalhando arduamente e vem apresentar os resultados.

— Consegui com o juiz que ele fique com Sara por 72 horas. — Ele abriu as mãos levemente. — Após esse período, vai ser preciso definir. Ou você tenta a guarda, Sara, ou ele vai para a casa de acolhimento enquanto o processo segue.

O silêncio na sala tinha peso.

Grissom olhou para Sara.

Sara olhou para Jack com a expressão de quem estava processando, não a decisão, que em algum nível já havia sido tomada num corredor de hospital em Reno, mas o tamanho do que estava sendo dito.

Nenhum dos três ouviu os passos no corredor.

— De novo não, por favor.

A voz chegou pequena e clara do corredor e os três se viraram ao mesmo tempo.

Augusto estava parado na entrada da sala de pijama, os cabelos amassados do travesseiro, um copo d'água na mão e os olhos com aquela expressão de criança que ouviu o suficiente para entender e está tentando não demonstrar o quanto entendeu.

— Fica comigo, tia Sara. — A voz não tremia, mas havia algo por baixo dela que era sete anos de história tentando não vazar de uma vez. — Não quero voltar.

Sara já estava se levantando.

— Ohh, meu anjo. — Ela chegou até ele, se abaixou na sua altura, as mãos nos ombros dele com aquele cuidado que não precisava de instrução. — Fique calmo. Você vai ficar comigo. Tá?

Augusto a olhou por um momento com aqueles olhos que processavam tudo e arquivavam tudo e às vezes viam mais do que os adultos gostariam.

Assentiu. Uma vez. Firme.

Grissom havia se levantado também, ficou de pé alguns passos atrás, com as mãos no bolso, observando.

— Você morava numa casa de acolhimento? — A voz saiu gentil, sem peso de surpresa negativa, apenas a pergunta direta que ele sempre preferia à rodeio.

Jack respondeu antes que Augusto precisasse:

— Mary e Anthony o haviam adotado há dois anos.

— Sim. — Augusto foi para o sofá. Sentou. Pousou o copo na mesa de centro. — Foram os dois anos mais longos que passei com uma família.

O jeito que disse mais longos, não com alegria, mas com o peso específico de quem havia medido o tempo porque havia aprendido que o tempo com famílias tinha prazo fez o ar na sala mudar de temperatura.

— Você quer contar? — Sara sentou ao lado dele, sem pressão, só presença. — Só se quiser.

Augusto ficou olhando para as próprias mãos por um momento.

E então começou.

Contou com a voz quieta de quem já contou para si mesmo tantas vezes que as palavras saem sem tropeçar — mas com os olhos que entregavam que cada trecho ainda pesava do mesmo jeito que havia pesado na primeira vez.

A mãe biológica que havia ido embora sem deixar endereço.

A casa de acolhimento que havia se tornado o primeiro endereço fixo que conheceu.

A primeira adoção aos dois anos, eu nem lembro direito, só sei pelo papel, que havia durado oito meses até a família decidir se mudar para outro país e devolvê-lo com a naturalidade burocrática de quem devolve algo que não coube na mala.

— Me devolveram. — Ele disse, simples, sem drama. — Como se eu fosse uma coisa que não tinha servido.

Sara fechou os olhos por um segundo.

Jack olhou para o chão.

Grissom ficou absolutamente imóvel — com aquela expressão que ele tinha quando estava sentindo algo que não havia catalogado antes e não tinha pressa de arquivar.

— Depois disso fui mudando. — Augusto continuou, os olhos ainda nas mãos. — Cada lugar era diferente. Alguns eram bons. Outros não muito. — Uma pausa pequena. — Aprendi a não se apegar muito porque a gente nunca sabe quanto tempo fica.

— E então vieram a Mary e o Anthony. — Sara disse baixinho.

— É. — O menino ergueu os olhos. — A mamãe Mary chegou diferente. Ela me olhou de um jeito que as outras pessoas não olhavam. — Ele pausou, procurando a palavra certa com aquele cuidado que tinha quando o assunto era importante. — Como se eu já fosse dela antes de assinar qualquer papel.

Ninguém disse nada.

— Dois anos. — Augusto olhou para Sara. — É o maior tempo que passei com uma família. — Uma pausa. — E foi bom. Mesmo com o papai Anthony sendo difícil às vezes, foi bom.

O silêncio que veio depois tinha a qualidade específica das coisas que não precisam de resposta imediata que pedem apenas que alguém fique ali, presente, sem tentar resolver o que não tem solução rápida.

Jack ficou — com os olhos vermelhos que ele estava administrando com a profissionalidade de quem havia aprendido que chorar na frente das crianças às vezes as assusta e às vezes as alivia, e que a linha entre os dois depende inteiramente da criança.

Augusto olhou para os três.

E então, com aquela perspicácia que aparecia sempre na hora mais inesperada:

— Os três estão com vontade de chorar? Podem chorar. Não me incomoda.

Jack soltou um som que era meio tosse, meio risada contida.

Sara pressionou os lábios por um segundo.

Grissom foi até o sofá e sentou do outro lado do menino — e Augusto ficou ali entre os dois, pequeno e inteiro ao mesmo tempo, com a história que havia contado ainda pousada na sala como algo que pesava menos agora do que havia pesado dentro dele durante todo esse tempo.

— Tia Sara. — Ele falou depois de um momento.

— Hm?

— Você vai tentar ficar comigo de verdade? — Os olhos foram direto para ela. — Não precisa responder agora se não souber ainda. Aprendi a esperar.

Aprendi a esperar.

Sete anos. Sete anos aprendendo a esperar.

Sara o olhou por um longo momento.

— Não preciso esperar para responder. — A voz saiu firme, sem tremor, com a clareza de quem chegou numa conclusão que estava tomando forma desde uma praça, numa tarde de Las Vegas, quando uma mãozinha havia enxugado as lágrimas de uma desconhecida. — Vou tentar ficar com você, sim.

Augusto ficou em silêncio.

Então — devagar, com o cuidado de criança que aprendeu que gestos de afeto às vezes precisam de permissão — encostou a cabeça no ombro de Sara pela segunda vez naquela noite.

E desta vez havia algo diferente no gesto.

Havia menos peso de despedida.

E mais coisa parecida com começo.

SS: Augusto eu não vou te abandonar. Vou ficar com você!!

GG: Eu também amigão, vou estar sempre aqui!!

O menino abraçou Grissom que aproveitou e o levou para o quarto.

Jack Wilson era o tipo de pessoa que havia mantido o jeito direto de São Francisco mesmo depois de anos em Las Vegas. Sem rodeios, sem embrulhar as coisas em papel bonito quando o conteúdo era difícil.

É por isso que Sara sempre gostou dele.

— Sara, não vou mentir ou te iludir. — Ele ficou parado na soleira, a pasta debaixo do braço, o olhar direto. — No seu caso — você sendo solteira, morando sozinha, com um trabalho em turno noturno... vai ter uma dificuldade real em conseguir a guarda dele. O sistema vai levantar essas questões. Sempre levanta.

Sara ficou com a mão na porta por um momento.

— Eu sei. — A voz saiu firme, sem drama. — Mas vou fazer tudo que estiver ao meu alcance.

Jack a olhou por um segundo com aquele olhar de quem conhece Sara Sidle há tempo suficiente para saber que tudo ao meu alcance não é figura de linguagem.

— Tenho certeza disso. — Ele assentiu. — Então vamos por partes. Primeiro precisamos conseguir a retirada da tutela de Anthony. — Uma pausa. — A Mary faleceu, mas ele ainda está vivo. Ainda tem poder legal sobre Augusto enquanto não houver processo formal.

— Estamos investigando como ele apareceu sozinho naquele hotel. Dopado. — Sara segurou o olhar. — Quando tivermos o quadro completo, você vai ter o que precisa.

— Certo. — Jack pegou a pasta com mais firmeza. — O que eu puder fazer para ajudar, vou fazer. Pode contar. — Recuou um passo. — Até mais, Sara.

— Até mais. Obrigada por vir.

A porta se fechou.

Sara ficou parada na entrada por um momento — com a mão ainda na maçaneta, olhando para o corredor vazio do apartamento.

Solteira. Sozinha. Turno noturno.

Ela conhecia aquelas palavras. Havia convivido com elas a vida inteira sem que pesassem muito eram só fatos, descritivos, parte do inventário de uma vida que havia sido construída de determinada forma.

Mas ditas num contexto de uma criança de sete anos que havia ligado para se despedir porque sabia que precisaria de alguém...

Pesavam diferente.

Sara respirou fundo e foi procurar os rapazes.

O quarto estava no silêncio macio do sono profundo.

Ela parou na porta.

E ficou.

Augusto estava na cama, o cobertor puxado até o queixo, um livro na mesa de cabeceira, a respiração tranquila de quem finalmente havia encontrado o descanso que o corpo havia estado pedindo desde o hotel de Reno.

E Grissom estava ao lado dele.

Deitado sobre o cobertor, de lado, com o braço levemente estendido e Augusto havia encontrado aquele braço em algum momento do sono e estava abraçado a ele com a confiança absoluta de criança que encontrou o lugar certo e não vai a lugar nenhum.

Os dois dormiam.

Grissom com aquela expressão que Sara raramente via, tranquila, despreocupada. Apenas ele, abraçado por um menino de sete anos que havia o chamado de tio Gil com a naturalidade de quem sabe o que sabe.

Sara ficou na porta por um tempo que não soube medir.

E então sem que precisasse de muito mais do que aquela cena para entender o que estava acontecendo dentro dela, a conversa da sala chegou de volta com uma clareza que ela não havia conseguido segurar completamente.

Quero me juntar a você. E ficar pro resto da vida ao seu lado.

Ela olhou para os dois.

Fechou os olhos por um segundo.

Não posso me iludir de novo.

Havia dito isso para si mesma antes. Havia acreditado antes. Havia construído distância antes com a mesma habilidade que usava para qualquer outra coisa difícil.

Mas havia algo diferente em tentar construir distância de um homem que estava dormindo abraçado ao menino que você ama num quarto do seu próprio apartamento.

A distância simplesmente não encontrava onde pousar.

Sara apagou a luz do corredor devagar, sem fazer barulho.

Foi para o seu quarto descansar, sem pensar demais, sem analisar, sem dar ao pensamento tempo suficiente para construir argumentos contra.

Uma coisa de cada vez. Havia dito isso para Brass. Havia dito para si mesma.

Por esta noite — só por esta noite — a única coisa era esta. E era suficiente.

Sara voltou à consciência gradualmente da mesma forma boa de antes, sem pressa, sem alarme.

Mas desta vez havia sons que não estavam lá na noite anterior.

Cheiro de comida, esse ela já conhecia e havia desenvolvido uma resposta pavloviana nas últimas horas.

Risadas de Augusto, essa também era familiar e fazia o mesmo trabalho que café no quesito de acordar o humor.

E então.

Latidos.

Sara abriu os olhos completamente.

Ficou parada por um segundo processando o inventário sonoro do próprio apartamento.

— Tem um cachorro aqui?

Se aprontou com a eficiência de quem tem perguntas urgentes para fazer e foi para a sala.

O cenário que encontrou tinha camadas.

Grissom na cozinha de volta à posição natural, mexendo em algo que cheirava muito bem para ser justo com alguém que ainda estava acordando.

Augusto no meio da sala de pijama, descalço, no estágio avançado de uma brincadeira que envolvia um travesseiro do sofá sendo usado como brinquedo de perseguição.

E um cachorro.

Médio porte, pelo caramelo, orelhas que não haviam decidido ainda se ficavam em pé ou caídas com aquela energia específica de animal que foi a algum lugar novo e achou que era exatamente onde deveria estar o tempo todo.

O cachorro viu Sara.

E veio.

Todo serelepe, rabo em rotação, com a dignidade zero de quem ainda não havia aprendido que nem todo mundo aprecia ser recebido com a mesma intensidade que um reencontro depois de anos.

Sara ficou parada olhando para o animal que farejava os próprios pés.

— Grissom. — Ela ergueu os olhos para a cozinha. — Como surgiu um cachorro aqui em casa?

— Ele é meu, Sara. — A resposta veio tranquila, de quem não vê problema algum na situação.

Ela piscou.

— Você tem um cachorro????

— Tenho.

— Isso é... — ela olhou para o animal que agora havia decidido que o melhor lugar do apartamento era em cima dos próprios pés dela. — ...realmente uma novidade interessante. — Ela ergueu os olhos. — Qual o nome dele?

Grissom pausou.

Virou levemente o rosto de volta para o que estava no fogão.

— Você vai rir quando ouvir.

Sara cruzou os braços.

— Por que vou rir?

— O nome dele é Hank!! A informação veio de Augusto.

Sara ficou imóvel por um segundo.

Olhou para o cachorro.

Olhou para Grissom.

E então aconteceu. A risada saiu inteira, de verdade, do tipo que dobra levemente o corpo e não pede desculpa.

— Sério?! — Ela apontou para o animal que balançava o rabo com entusiasmo renovado diante da animação geral. — Você colocou o nome do paramédico no cachorro? Do meu ex namorado?

— Não é o nome do paramédico. — Grissom se virou com a expressão de quem preparou essa defesa com antecedência. — Na verdade... é. Mas ele já veio com esse nome. É em homenagem a um jogador de beisebol.

— Certo, certo. — Sara ainda estava sorrindo, fazendo carinhos no cachorro — Mas que é engraçado, isso é. — Ela ergueu os olhos. — Como ele veio parar aqui?

— Fui com o Augusto até minha casa buscar ele enquanto você dormia.

Sara olhou para Augusto.

Augusto olhou de volta com o sorriso de cúmplice de quem participou da operação e está orgulhoso disso.

— Foi ideia minha. — Ele anunciou, sem a menor intenção de minimizar o próprio papel. — Falei que o tio Gil não podia deixar o Hank sozinho.

— E tinha razão. — Grissom concordou, com seriedade.

— Claro que tinha.

Sara olhou de um para o outro, o homem de quase cinquenta anos e o menino de sete, com a mesma expressão de quem tomou uma decisão completamente razoável e não entende por que alguém questionaria.

— Vocês dois — ela disse, com o tom que estava tentando ser repreensão e não estava conseguindo — são a mesma pessoa.

Augusto achou isso hilário.

Grissom voltou para o fogão com o canto da boca traindo o sorriso que estava administrando.

Hank saiu dos pés de Sara, fez uma volta rápida pela sala sem propósito aparente e voltou para Augusto, que o recebeu com os braços abertos e aquela energia de criança que encontrou um amigo no tamanho certo.

Sara ficou parada no meio da sala por um momento — com o cheiro de comida, o barulho de Augusto brincando, o som de Grissom na cozinha e um cachorro chamado Hank que havia chegado sem avisar e já estava completamente instalado.

— Augusto está empolgado com ele. — Ela disse, para ninguém em particular.

— Notei. — Grissom respondeu da cozinha. — Também notei que você está sorrindo.

— Estou analisando a situação.

— Com um sorriso.

— Grissom.

— Senta, Sara. O café está quase pronto.

Ela ficou parada mais um segundo olhando para a sala que havia sido dela sozinha até ontem e que agora tinha um menino, um cachorro, um entomologista cozinhando e um nível de barulho que ela não havia autorizado mas estava, estranhamente, achando muito difícil de querer que parasse.

Foi sentar e Hank veio junto naturalmente.

Grissom apareceu na porta da cozinha com duas xícaras de café.

— Vou levá-lo de volta antes do plantão. — Ele disse, pousando as xícaras na mesa com cuidado. — Poderíamos ir juntos para o trabalho. Aceita?

Sara pegou a xícara.

— Aceito. — Ela disse, com uma naturalidade que havia decidido não analisar por enquanto. — Mas por causa do Augusto, que pelo jeito não vai querer desgrudar do Hank tão cedo.

Grissom a olhou.

— Certo. — O tom tinha um sorriso que não apareceu no rosto. — Vou fingir que acredito nisso.

Sara ergueu uma sobrancelha.

Da sala veio o barulho de Augusto tentando ensinar Hank a sentar com uma paciência que o cachorro estava testando com entusiasmo considerável.

Grissom tomou um gole de café e então, no tom de quem mudou de assunto:

— Você vai ler a carta quando?

Sara olhou para a bolsa que estava na bancada.

O envelope tinha estado lá desde Reno, quieto, esperando com a paciência das coisas que sabem que vão ser abertas quando a hora chegar.

— Eu queria ler sem o Augusto por perto. — A voz saiu baixa, quase sussurro, com um olho na porta da sala onde o menino ainda negociava com o cachorro.

Grissom assentiu devagar.

— Como vamos levá-lo para o plantão mesmo... — ele pensou em voz alta, poderíamos pedir para a Catherine levá-lo para brincar com a Lindsay depois do plantão.

— Pode ser. — Ela concordou, olhando para a bolsa mais uma vez. — Catherine não vai recusar?

— Catherine vai adorar. — Grissom falou com um tom que conhecia a colega há tempo suficiente para ter certeza.

— E vai fazer mil perguntas.

— Também. — Ele concordou.

Os dois ficaram em silêncio por um momento — com o café, o barulho de Augusto e Hank ao fundo, a carta esperando na bolsa e o plantão chegando no horizonte com tudo que ainda precisava ser resolvido.

— Griss. — Sara falou, sem olhar para ele.

— Hm?

— Obrigada. — Pausa pequena. — Por ficar.

Ele ficou em silêncio por um segundo.

— Não tinha intenção de ir a lugar nenhum. — A voz saiu simples, sem ornamento.

Da sala, a voz de Augusto chegou com a urgência de descoberta científica:

— TIOOO GIL!! O HANK APRENDEU A SENTAR!! VEM VER!!

Grissom pousou a xícara.

— Com licença. — Ele disse, com a solenidade de quem foi convocado para algo importante.

Sara ficou com a xícara na mão, olhando para ele ir em direção à sala — onde Augusto estava apontando para o cachorro que havia sentado por aproximadamente dois segundos antes de decidir que já havia cumprido sua parte no acordo e voltado a correr.

Ela olhou para a bolsa.

Para o envelope.

Uma coisa de cada vez.

Tomou um gole de café.

A chegada de Augusto ao Las Vegas Crime Lab foi, nos termos mais precisos disponíveis, um evento.

Não havia sido planejado como tal. A intenção era discreta. Uma criança no laboratório por algumas horas enquanto os adultos trabalhavam, visita rápida, sem alarde.

O laboratório, entretanto, não havia sido informado sobre o plano de discrição.

Greg foi o primeiro a ver e reagiu com o entusiasmo de quem reencontra um velho amigo, o que era tecnicamente impreciso dado que se conheciam havia poucas horas, mas que Augusto correspondeu com energia equivalente.

— GREG!! — O menino abriu os braços no corredor.

— AUGUSTO!! — Greg se abaixou para o abraço com uma empolgação que alguns diriam ser desproporcional para um cientista forense em horário de trabalho.

Nick chegou logo depois, com o sorriso largo de sempre.

O tour havia sido autoguiado com Sara e Grissom tentando estabelecer um perímetro razoável e Augusto ultrapassando cada um deles com a desenvoltura de criança que não vê paredes onde os adultos insistem que existem.

Cada setor recebia uma versão diferente da mesma reação: olhos arregalados, perguntas em rajada, observações que faziam os técnicos parar o que estavam fazendo para responder com mais atenção do que haviam planejado.

E então chegaram ao corredor administrativo.

Conrad Ecklie estava saindo da própria sala quando o pequeno cientista apareceu na sua frente com aquele olhar avaliativo de quem está processando uma nova variável.

O supervisor administrativo e o menino de sete anos se encararam por um segundo.

Ecklie abriu a boca para dizer algo educado e rápido.

Augusto foi primeiro.

— Uau. — O menino olhou para a sala, para os arquivos organizados, para a placa na porta, e então para Ecklie com uma expressão de admiração genuína que o diretor claramente não estava acostumado a receber sem agenda prévia. — O senhor é muito inteligente. Por isso que é o chefe, né?

Ecklie piscou.

— Eu... sim. — A resposta saiu levemente descalibrada.

— Achei muito legal o seu trabalho. — Augusto continuou, com a seriedade de um colega avaliando um par. — Organizar tudo isso deve ser muito difícil. O senhor deve ser muito bom.

O silêncio durou dois segundos.

Conrad Ecklie que havia sobrevivido a décadas de política departamental, disputas de orçamento e a equipe do turno noturno de Grissom, ficou completamente sem o texto habitual diante de um menino de sete anos que o havia elogiado com a precisão de um diplomata experiente.

— Gostei deste garoto. — Ele disse, para ninguém em particular, com um tom que tinha algo perigosamente próximo de afeto genuíno. — Tem visão. É inteligente. — Olhou para Augusto. — Quando quiser vir de novo, é só vir.

Augusto sorriu com todos os dentes.

Grissom, dois passos atrás, estudou o próprio sapato com interesse repentino.

Sara olhou para a parede oposta.

A notícia chegou à sala de descanso antes de Grissom e Sara.

Catherine estava com Nick quando a história foi relatada por Greg, que havia acompanhado o tour com a dedicação de repórter cobrindo evento histórico.

— E o Ecklie falou pra ele voltar quando quiser. — Greg terminou, com a solenidade de quem acaba de anunciar algo que muda a ordem natural das coisas. — Com sorriso e tudo.

O silêncio durou um segundo.

— Acho que o Augusto vai ser político. — Catherine disse, tomando um gole de café com a tranquilidade de quem chegou a uma conclusão sólida.

Nick virou para ela.

— Por que diz isso?

— Nick, querido. — Ela pousou a xícara com paciência pedagógica. — Ele dobrou o Ecklie só no papo. — Abriu as mãos. — Em menos de dois minutos. Sem preparação, sem agenda, sem nada. — Uma pausa. — Você está vendo como o homem está empolgado? Falou pro menino voltar quando quiser. Ecklie. Conrad Ecklie.

Nick ficou processando por um segundo.

— Conrad Ecklie que manda relatório de três páginas quando alguém usa a cafeteira errada.

— O mesmo.

Os dois caíram na risada ao mesmo tempo, uma daquelas risadas que começam controladas e perdem o controle rapidamente, do tipo que faz os ombros sacudir e é difícil de encerrar.

Greg os olhou de um para o outro com a expressão de quem não entendeu nada, mas está rindo junto por solidariedade.

— Eu só estou dizendo — Catherine limpou o canto do olho, recuperando a compostura — que se esse menino um dia resolver entrar para a política, Conrad Ecklie vai votar nele. E vai achar que foi ideia própria.

— Isso é assustador. — Nick disse.

— Isso é talento. — Catherine corrigiu, pegando a pasta. — Completamente diferente.

Sara apareceu na porta da sala de descanso procurando a perita loira.

Catherine ergueu os olhos da pasta imediatamente ao ver a morena chegando, mas com um semblante tenso.

— Sara. O que foi?

— Preciso de um favor. — A voz saiu direta, sem rodeio, do jeito que Sara fazia quando estava sendo honesta sobre precisar de alguma coisa. — Augusto pode ficar com a Lindsay esta tarde?

Catherine fechou a pasta.

— Claro. — Sem hesitar, sem condição. — A Lindsay vai ficar feliz.

— Obrigada, Cath.

Catherine a olhou por um segundo mais longo do que o necessário.

— É por causa da carta.

Sara ficou em silêncio por um momento.

— Quero ler sem ele por perto. — A voz saiu baixa, com aquela contenção cuidadosa de quem está administrando mais de uma coisa ao mesmo tempo. — Não sei o que tem dentro.

— Não abre sozinha, tá?

— Certo. — Sara assentiu.

— Ótimo. — Catherine já estava se movendo em direção ao corredor. — Agora me leva até o pequeno político antes que ele convença o Ecklie a aumentar o orçamento do laboratório.

Sara soltou uma risada.

— Não está tão longe assim dessa possibilidade.

— Eu sei. — Catherine deu uma gargalhada.

A sala de descanso estava com a energia de fim de turno quando Catherine apareceu na porta com o sorriso de missão cumprida.

— Sara. — Ela entrou jogando a bolsa no ombro com desenvoltura. — Minha mãe levou o Augusto. Estão bem, já ligou confirmando. Então podemos seguir para a sua casa.

Sara já estava se levantando.

— Cath, muito obrigada. — A bolsa no ombro, a chave na mão. — Vamos logo ler essa carta que já estou mega curiosa.

— Imagina eu?! — Catherine foi junto, igualmente em movimento.

— Eu também. — Warrick disse, do canto da sala.

Todos pararam.

Viraram para ele.

— Warrick, você está curioso?? — Sara e Catherine falaram ao mesmo tempo, com a mesma entonação, a mesma sobrancelha levemente erguida.

O silêncio durou um segundo.

Warrick olhou de uma para a outra com a expressão de quem foi pego em algo que não havia planejado revelar.

— Gente... — ele abriu as mãos — ...vocês falaram em coro.

— Responde a pergunta? — Catherine perguntou.

— Sim. — Ele admitiu, com a dignidade de quem decide que negar seria pior. — Estou curioso. Todo mundo está, só ninguém estava falando.

Nick havia ficado em silêncio durante toda a troca, apoiado na bancada com o café na mão e aquela expressão de quem está aguardando o momento certo.

— Depois dessa é melhor irmos mesmo!!!!

Finalmente. — Greg surgiu do corredor com o casaco na mão, como se houvesse estado esperando essa conclusão há mais tempo do que seria razoável admitir. — Eu já estava de casaco há cinco minutos.

Grissom apareceu na porta da sala com a pasta fechada e a jaqueta no braço.

E foi suficiente.

A equipe se moveu em direção à saída com a energia coletiva de quem tem destino e propósito.






















Notas finais
O termo pavloviana (ou pavloviano) refere-se ao condicionamento clássico desenvolvido pelo médico russo Ivan Pavlov, um processo de aprendizagem associativa onde um estímulo neutro (como um sino) passa a gerar uma resposta automática (como salivação) após ser repetidamente emparelhado com um estímulo incondicionado (como comida)