No local do cativeiro, Anthony e Ted estavam nervosos, discutindo, pois Ted queria sair dali logo, mas levando Sara.

A discussão havia esquentado. Ted de pé, Anthony bloqueando a porta onde Sara estava presa.

Ted: Precisamos sair AGORA. Levar ela e sair...

AH: Ela vale um milhão de dólares, Ted. Um Milhão. Não vou simplesmente...

Ted: Você não entende que Sanches pode nos achar e..

O som da discussão na sala de estar havia mudado de patamar. O pânico de Ted era quase palpável, filtrando-se pelas frestas da porta de madeira como um presságio ruim. Sara, com o corpo tenso e os sentidos aguçados pela adrenalina, tentou puxar a corrente mais uma vez, mas o metal apenas mordeu seu tornozelo, implacável.

— Pelo jeito, Sanches vai chegar antes da equipe — sussurrou ela, fechando os olhos por um breve segundo, as mãos protegendo instintivamente o ventre. — Deus nos proteja nessa hora...

Foi então que um som diferente cortou o silêncio do quarto. Não vinha do corredor, mas do lado de fora.

Clac. Clac.

Era o som de metal contra madeira. Alguém estava forçando a moldura da janela da cabana, que estava emperrada. Sara congelou, o coração martelando contra as costelas. Se fosse um dos homens de Sanches, ela estaria encurralada.

Na sala os dois homens continuavam a discutir quando ouviram barulho do lado de fora. Passos na madeira seca. Mais de um par.

Os dois congelaram.

A porta se abriu devagar. Três homens armados. O que estava na frente tinha um sorriso largo e completamente frio.

Homem de Sanches: Buenos dias, caro Anthony. (abrindo os braços) El jefe nos enviou para una visita... surpresa. ¿Te gustó? ¡Desapareciste y no nos diste ninguna noticia! ¡Qué horrible!

Silêncio de dois segundos.

Anthony e Ted se olharam.

A mesma coisa nos dois rostos, pânico puro tentando se disfarçar de calma.

AH: Sanches mandou me matar?? Não dá pra conversarmos? Podemos negociar! Eu vou receber a quantia de um milhão... passo pra vocês.

Homem de Sanches: Inteligente. Tentando negociar... porém fez isso muito tarde. Você enganou o chefe!! Dinheiro nenhum paga!! Homens preparem a casa para o serviço e rapidamente.

Ted: Eu não tenho nada a ver com tudo isso. Eu só...

Homem de Sanches: Você estava com ele. El jefe não faz distinção.

Ted fechou a boca.

Os homens colocaram combustível em toda a casa e a prepararam para a explosão. Dado o start, saíram dali rapidamente levando a encomenda de Sanches.

— Estrada para Mount Charleston —

O céu à frente ficou laranja.

Depois o som. Grave, surdo, chegando pelo chão antes mesmo de chegar pelos ouvidos.

Grissom agarrou o painel instintivamente.

GG: Brass, pelo amor de Deus... espero que esse barulho não tenha vindo de onde estou pensando.

Brass não falou nada. Só enterrou o pé no acelerador.

— Rádio do carro —

Sofia: Brass, vocês viram isso?

JB: Vimos. Continuem. Todos continuem.

Sofia: Estou solicitando Ambulância!

JB: Certo!!

O carro mal parou quando a porta já estava aberta.

Grissom correu.

GG: SARA!! SARAAAAA!!

JB: Grissom, espere!! Cuidado com o fogo!!

GG: Me solta, Jim!! Preciso salvar a Sara!!

JB: Por Deus, homem!! Você vai se matar entrando aí!!

As chamas rugiam. O teto da cabana rangia prestes a ceder.

JB: Sinto muito... mas não tem como fazer mais nada agora.

Grissom parou. Por um segundo, apenas um, algo nele simplesmente... parou. Os olhos nas chamas. A fumaça subindo. O calor na face.

GG: Não. Não, não, não... Ela está viva, Jim. Deu tempo. Deu tempo do Jack tirar ela daqui. Eu sei.

JB: Grissom. Quem é Jack?

GG: Ele trabalha pra minha mãe no Instituto Gilbert. Fica muito tempo numa cabana aqui perto.

Sara se espantou com o homem na janela que logo começou a se comunicar em língua de sinais. A morena, mesmo ainda no aprendizado, conseguiu compreender. Ele entrou na casa, explicou que Grissom havia pedido para ele resgata-la e assim ele começou a tirar as correntes que estavam mega apertadas nela e ao conseguir, retirou a perita da casa rapidamente.

O impacto da explosão sacudiu o solo sob os pés de Sara, lançando uma onda de calor que contrastava violentamente com o ar gélido da montanha. O estrondo ecoou pelo cânion como um trovão, e a cabana de madeira transformou-se em uma pira de chamas e estilhaços em questão de segundos. Se tivessem demorado mais um minuto, o plano cruel de Heather teria sido bem-sucedido.

Jack amparou Sara com firmeza.

Ao chegarem a um abrigo natural sob alguns pinheiros densos, a adrenalina de Sara começou a baixar, e a dor, que até então estava anestesiada pelo instinto de sobrevivência, atingiu seu tornozelo como um choque elétrico. Ela cambaleou e precisou se sentar em um tronco caído, o rosto pálido e a respiração curta.

— Meu tornozelo dói muito... — ela gemeu, tocando a pele marcada pelo metal das correntes que Jack removera com tanta pressa.

Jack agachou-se à frente dela, os olhos atentos a qualquer movimento na trilha abaixo. Ele sinalizou com calma, mantendo o rosto visível para que ela pudesse ler sua expressão e seus sinais:

— Respire. Você está segura agora. O perigo ficou para trás. — Ele fez uma pausa — Vamos esperar o Grissom.

Sara encostou a cabeça no tronco, fechando os olhos por um momento.

— Floresta, Mount Charleston —

O capitão sugeriu que fossem gritando por Sara para ver se não estavam por ali perto. Assim o entomologista recomeçou os gritos chamando pela esposa. Um pouco mais a frente, já para dentro da floresta, veio a resposta que aliviou o coração de ambos.

JB: Tente. Pode ser que ouçam.

GG: SARA!! SARA, ESTAMOS AQUI!!

Silêncio. Vento. Folhas.

Brass abriu a boca para falar e então...

SS: AQUI, GRISSOM!! ESTAMOS AQUI!!

O eco da voz dela atravessou a mata como um choque elétrico.

Grissom congelou por um segundo, não de dúvida, mas de reconhecimento absoluto.

GG: …Sara?

JB: Você ouviu isso?!

GG: Ali! À frente!

Os três avançam, desviando de galhos, pedras, a vegetação fechando ao redor. O terreno irregular dificulta, mas ninguém desacelera.

GG: SARA!! CONTINUA FALANDO!!

SS: AQUI!! MAIS À DIREITA!! CUIDADO COM A DESCIDA!!

Daniel escorrega levemente, se apoia numa árvore. Brass o segura pelo braço sem parar.

JB: Vai com calma, garoto!

Daniel: Eu tô bem!

Ele viu a silhueta de Jack e, ao lado dele, a figura morena que era o centro do seu universo.

— Sara! — o grito de Grissom cortou o ar da montanha, carregado de um alívio que ele nunca soube que poderia sentir.

Chegou até ela e a abraçou com os dois braços, o rosto enterrado no cabelo dela, e as lágrimas vieram antes que ele pudesse fazer qualquer coisa a respeito.

GG: Graças a Deus. Graças a Deus... Eu pensei que tinha perdido vocês. (os olhos descendo para a barriga dela, depois voltando para os olhos dela) Está tudo bem? O bebê? Não fizeram nada, né?

SS: Estamos bem, Grissom. Só meu tornozelo que está doendo muito. (olhando para Jack ao lado) Graças ao Jack... estou viva.

GG: Obrigado, Jack. Você salvou o amor da minha vida.

Jack: Não foi nada, Grissom. Você salvou a minha lá atrás. Empatamos. Fique bem vocês dois. Tchau, Sara!

SS: Muito obrigada, Jack. Não sei nem como te agradecer!!

Jack: Ficando bem!!

Grissom a envolveu com uma força que Sara não via nele há anos. Ao erguê-la, ele o fez com cautela, como se estivesse segurando uma coisa rara e mais preciosa do mundo, mas o olhar que ele sustentava era puramente humano.

— Você está segura agora — Grissom murmurou contra o cabelo dela, ignorando o cansaço e o ar rarefeito da montanha.

— Gil Grissom... — os olhos brilhando — ...tudo bem. Pode me carregar.

Daniel, parado a poucos metros, observava a cena. O "Grilo de Harvard" sentiu um alívio genuíno ao ver que o vínculo entre os dois não havia apenas sobrevivido, mas se fortalecido sob o gelo do Mount Charleston.

— Obrigada por ter vindo ajudar, amigo! — Sara disse, olhando para Daniel por sobre o ombro de Grissom.

— Não foi nada, Sara! — Daniel retribuiu com um sorriso largo e sincero, guardando o rastreador. — Você faria exatamente o mesmo por mim. E, convenhamos, eu precisava conhecer o grande Gil Grissom que você sempre falou.

Grissom olhou para Daniel e, desta vez, não havia ciúme, apenas o reconhecimento entre dois homens que respeitavam a mesma mulher.

— Obrigado, Daniel. Foi um prazer te conhecer também — disse Grissom com um aceno de cabeça.

Enquanto desciam, o som das labaredas consumindo o que restava da cabana de Anthony ficava para trás.

Quando Grissom surgiu entre os pinheiros, carregando Sara, um suspiro de alívio coletivo varreu a equipe.

Greg e Nick, que haviam subido a montanha em tempo recorde, pararam estáticos. Ver a amiga naquele estado, pálida, com o tornozelo marcado, mas viva foi o choque necessário para que a ficha da gravidade da situação caísse.

— Sara, você está bem? — Greg perguntou, aproximando-se rapidamente.

— Ei, irmã, como você está? — Nick completou, tocando de leve no braço dela enquanto os paramédicos a acomodavam na maca. — O "trocinho" está bem? — Ele apontou para a barriga dela com sorriso.

Sara apenas assentiu, exausta, segurando a mão de Grissom enquanto os bombeiros e peritos começavam o trabalho de rescaldo. Mas o clima de "alívio" durou pouco. David Phillips, o legista assistente, aproximou-se do grupo com uma expressão de estranhamento.

— Gente, vou levar os corpos para o necrotério — começou David, ajustando os óculos enquanto olhava para os sacos pretos sendo fechados. — Mas temos uma anomalia biológica... ou melhor, criminosa. Um deles está sem a cabeça.

— O quê? — Nick exclamou, sentindo o estômago revirar.

Jim Brass, que observava os destroços com um olhar cínico de quem já viu o pior de Vegas, cruzou os braços.

— Creio que este corpo seja o do Anthony — sentenciou o Capitão. — O Sanches não veio para resgatar ninguém. Ele veio para cobrar a dívida. Levaram a cabeça para ele.

Grissom, que não tirava os olhos de Sara enquanto ela recebia os primeiros cuidados, olhou para os restos da cabana.

— Uma forma de mostrar que não se mexe com ele — Grissom explicou. — Essa cabeça agora é um troféu macabro, um exemplo para qualquer um que pense em trair ou falhar com o cartel. O Anthony achou que estava jogando com amadores, mas acabou sendo descartado pela própria moeda que tentou usar.

Ele apertou a mão de Sara, sentindo o pulso dela estabilizar.

— Greg, Nick... assumam a cena. Eu vou acompanhar a Sara ao hospital — Grissom olhou para Brass. — Não saio do lado dela por um segundo sequer.

Enquanto a ambulância fechava as portas e partia sob a escolta de uma viatura, a equipe de Vegas ficava para trás, encarando o horror do que o submundo era capaz de fazer.

Corredor do Hospital

A equipe estava toda lá. Todos de pé. Todos esperando. O corredor cheirava a café ruim de máquina e ansiedade.

Dr. Emanuel: Quem é o responsável por Sara Sidle?

GG: Sou eu. Gilbert Grissom. Sou marido da Sara.

Dr. Emanuel: Senhor Grissom, me chamo Emanuel e estou cuidando de sua esposa. Ela está bem. Foi avaliada pelo obstetra e está tudo bem com o bebê. A única lesão é uma entorse no tornozelo. Ela vai precisar de bota ortopédica por dez dias. Pela manhã o senhor já pode levá-la para casa.

GG: Obrigado, doutor. Muito obrigado.

CW: Podemos vê-la, doutor?

Dr. Emanuel: Podem, sim. Quarto 214.

Sara estava sentada na cama, o tornozelo já enfaixado, o cabelo ainda bagunçado da floresta, um roxo discreto no braço esquerdo. Mas os olhos, os olhos eram os de sempre.

A porta se abriu e ela riu antes mesmo de ver quem era. Porque era impossível não sentir a energia deles chegando.

NS: Sidle!! Você deu um susto danado na gente!! Como você está?

SS: Nick, você está me amassando...

WB: Com licença. Nunca mais faça isso com a gente, tá?

SS: Promessa difícil, Warrick.

Greg: Eu estava muito preocupado. Muito mesmo.

SS: Eu sei, Greg. Obrigada.

CW: Você é impossível, sabia?

SS: Aprendi com vocês.

JB: Bom te ver acordada, cookie.

SS: Brass obrigada por tudo!

Grissom havia ficado para o final.)

Quando o quarto foi abrindo espaço naturalmente, como se todos soubessem, ele se aproximou da cama e simplesmente ficou de pé, olhando para ela.

Sara olhou de volta. Uma conversa inteira sem uma palavra.

GG: Bota ortopédica por dez dias.

SS: Dez dias.

GG: Vou ter que te suportar em casa o dia inteiro.

SS: (inclinando a cabeça no ombro dele) Você vai adorar.

Ele não respondeu, mas a mão apertou a dela um pouco mais firme.

A equipe havia se dispersado aos poucos. O quarto estava mais quieto agora.

Grissom estava sentado ao lado de Sara, a mão dela ainda na dele, quando bateram levemente na porta.

Daniel: Posso entrar?

SS: Daniel! Claro, entra!

GG: Daniel!!! Fico feliz que tenha vindo.

Daniel: Grissom. Você me deu um susto e tanto, Sidle. Igual ao de sempre.

SS: (rindo) Igual ao de sempre?

Daniel: (puxando uma cadeira, sentando) Lembra de Quântico? Você sumiu por três horas durante um treinamento e todo mundo entrou em pânico.

SS: Aquilo foi intencional. Estava testando os protocolos de busca.

Daniel: (olhando para Grissom) Ela estava dormindo numa árvore.

Grissom olhou para Sara.

SS: Era uma árvore muito confortável.

Os três riram, o tipo de risada que só vem depois que o perigo passou de verdade.

Daniel: Vim me despedir. Preciso voltar para Washington ainda essa noite. Tem coisa que não para só porque a gente quer ficar.

SS: Obrigada, Daniel. Por tudo. Sei que não era sua jurisdição, que você veio porque...

Daniel: Porque você é minha amiga. Não precisa de mais motivo do que esse. E porque eu queria conhecer esse seu marido que tanto você falou e que demonstrou enormes ciúmes.

Sara virou para Grissom.

GG: Não sei do que ele está falando.

Daniel: (se levantando, rindo) Claro que não. (estendendo a mão para Grissom novamente, dessa vez segurando por um segundo a mais) Cuide bem dela.

GG: Pode contar que farei isso.

Daniel: Descansa. Recupera esse tornozelo. E...parabéns. Vai ser uma mãe incrível.

SS: Obrigada, Daniel.

Ele acenou na porta. E foi embora com a mesma discrição com que havia chegado.

O quarto de hospital mergulhou em um silêncio suave, quebrado apenas pelo bipe rítmico do monitor e o som do vento batendo na janela. Grissom puxou a poltrona para mais perto da cama, observando Sara com uma mistura de adoração e uma culpa que parecia pesar toneladas.

— Sara, eu acho melhor você ficar lá em casa — ele insistiu, a voz baixa para não quebrar a calma do ambiente. — Você vai precisar de ajuda com esse tornozelo, e minha mãe vai adorar ter você por perto. O Augusto também não vai querer sair do seu lado. Na sua casa, você ficaria sozinha a maior parte do tempo, e eu não conseguiria fechar os olhos sabendo disso.

Sara suspirou, a resistência cedendo ao cansaço e à lógica impecável dele. — Olhando por este lado, até que tem razão... Ok, eu vou para lá. Mas não precisa passar a noite nessa poltrona desconfortável.

— Eu faço questão de ficar aqui com você — ele rebateu imediatamente, sem abrir margem para discussão.

Sara o encarou por um longo tempo. A luz fraca do quarto acentuava as olheiras de Grissom, mas também a sinceridade crua em seu olhar. — Grissom, a noite depois do jantar foi maravilhosa, mas precisamos conversar de verdade.

— Você não imagina o quanto estou arrependido por tudo o que fiz — ele confessou, a voz falhando levemente.

— Sei sim, Grissom — ela respondeu, com uma lucidez que doía. — Não sou tão insensível a ponto de não perceber seu jeito abatido e constrangido. Mas, como eu falei, às vezes tomamos atitudes que depois ficam difíceis de mudar. Eu fui humilhada por você, exposta no meu local de trabalho e tratada como uma mulher vulgar. Fui traída pela sua desconfiança... enfim. O lado bom da história é que o Augusto vai ficar comigo, juntamente com esse bebê que carrego. Me desdobrarei para cuidar deles muito bem.

Grissom inclinou-se para frente, segurando a mão de Sara com uma delicadeza quase sagrada. Ele sabia que as cicatrizes que ele causara eram profundas e que o tempo seria o único reagente capaz de curá-las.

— Eu queria dizer que estou muito feliz pelo filho que vamos ter. Queria muito um filho nosso, Sara. Que ele ou ela seja parecido com a mãe, uma mulher linda e maravilhosa por dentro e por fora. — Ele fez uma pausa, respirando fundo. — Vou pedir perdão para você o resto da minha vida. E mesmo que você decida me manter longe, eu vou ser o pai mais presente possível para nossos filhos. Jamais vou te deixar sozinha nessa.

Sara deu um leve aperto nos dedos dele, um gesto pequeno, mas que, para Grissom, significou o mundo naquele momento. — Que bom... — ela murmurou, fechando os olhos enquanto o efeito dos medicamentos começava a pesar. — Vou descansar um pouco.

Grissom não soltou a mão dela. Ele ficou ali, vigiando o sono de Sara, enquanto a mente dele já começava a traçar um plano para reconstruir a confiança que ele mesmo havia implodido. Ele sabia que o caminho para casa seria longo, mas pela primeira vez em meses, eles estavam na mesma rota.

A luz da manhã entrava suave pelas janelas da casa dos Grissom, trazendo uma sensação de paz que contrastava com o pesadelo da noite anterior. No momento em que a porta se abriu, Augusto correu pelo corredor com os braços abertos, seus sinais e sua voz misturando-se em pura emoção.

— Mamãe, que saudade! Eu estava com muito medo! — falou o menino, enterrando o rosto no abraço de Sara.

— Ahhh, meu filho! Mamãe agora está bem! — Sara respondeu, acariciando os cabelos. — Fique tranquilo, tá? Já passou.

Beth, observando a cena com os olhos marejados, aproximou-se para dar um beijo na testa da nora. — E o bebê, Sara? Tudo bem?

— Sim, Beth, graças a Deus, tudo bem! — Sara sorriu, tocando a barriga de forma inconsciente.

— Vá para o quarto, minha querida! Te levo alguma coisa já, já para você se alimentar — disse Beth, assumindo seu papel cuidadoso.

Grissom, que vinha logo atrás carregando as bolsas, deu um passo à frente. — Eu te levo, Sara!

— Não precisa, Grissom! Eu vou com o auxílio das muletas — ela tentou recusar, buscando manter um pouco da sua independência ferida.

— Faço questão! — ele disse, com aquela teimosia gentil que Sara conhecia tão bem. — Quando eu não estiver por aqui, você usa as muletas. Mas, enquanto eu estiver, serei o seu suporte.

Sem esperar por uma resposta, ele a pegou no colo com uma facilidade que fez o coração de Sara dar um salto. Ele a levou escada acima até o quarto, acomodando-a na cama com uma delicadeza extrema, quase como se ela fosse feita de cristal.

— Se precisar de qualquer coisa, é só chamar — explicou ele, mantendo uma distância respeitosa. — Vou tomar um banho rapidinho e dormir um pouco no escritório. Com licença.

Ele já estava quase na porta quando a voz de Sara o deteve, suave e sincera. — Grissom... é... obrigada!

Ele parou, virando-se lentamente. — Não há de quê, eu...

— Eu estou agradecendo por ter salvo a minha vida! — ela o interrompeu, os olhos fixos nos dele. — Se você não tivesse pedido para o Jack ir lá me tirar, eu estaria morta agora. Eu sei o quanto foi difícil e o quanto você se moveu por mim.

Grissom sentiu um nó na garganta. Ele deu um passo de volta para dentro do quarto.

— E eu morreria de tabela, Sara — ele confessou, a voz embargada. — Eu estava desesperado com o risco de te perder. Eu sei tudo o que fiz de errado, o quanto falhei com você e com a nossa confiança... mas saiba que, quando digo que te amo, é a maior verdade da minha vida. Você é o grande amor da minha vida, e nada, nem ninguém, vai mudar isso.

Houve um silêncio carregado de significados entre os dois. Grissom forçou um pequeno sorriso triste, respeitando o tempo que ela precisava para processar tudo.

— Bom, vou deixar você descansar. Com licença.

Ele saiu, fechando a porta silenciosamente. Sara encostou a cabeça no travesseiro, sentindo o perfume familiar dos lençóis e o peso das palavras de Grissom. O caminho para a cura ainda era longo, mas pela primeira vez em semanas, ela não se sentia sozinha.