NOSTALGIA (VERSÃO 2026)
39 A Surpresa de Grissom 🌹
A manhã de sexta-feira na residência dos Grissom tinha aquele agito animado. Malas estavam posicionadas perto da porta e o café da manhã estava alegre. Grissom, já vestido para a reunião no laboratório, observava a cena com satisfação.
— Mãe, obrigado por levar Augusto — disse ele, dando um beijo carinhoso no rosto dela. — Aproveitem o ar do mar. Marina Del Rey vai fazer bem para vocês dois.
— Não precisa agradecer, filho. Eu que estou feliz de poder mostrar meu neto pra todas as amigas — Beth respondeu, ajeitando o colarinho da camisa de Gil com aquele instinto materno que nunca desaparece. — Depois desejo que vocês vão para mostrar a família que você construiu e meu mais novo netinho ou netinha.
Grissom sorriu, aceitando o conselho com um aceno de cabeça. Ele então se virou para Augusto.
GG: Ei, campeão!! Promete que vai cuidar da vovó por mim?
Augusto abriu um sorriso largo e fez um sinal de "positivo" com vigor.
— Prometo, papai! Vou ver os barcos grandes e trazer uma foto para você e para a mamãe!
Grissom abraçou o pequeno com força, sentindo uma gratidão imensa por aquele momento.
Grissom saiu para o laboratório, despedindo-se da esposa com um beijo mais demorado que o normal. Por dentro, ele revisava mentalmente a lista de compras e os detalhes do jantar que planejava, mas manteve a postura profissional de sempre.
SS: Então... vou levar Beth e o Guto no aeroporto e depois resolver umas coisas. Chega cedo em casa?
GG: Farei o possível. Nos vemos mais tarde?
— Com certeza. Cuidado na estrada — respondeu Sara, com um sorriso enigmático que quase o fez desconfiar de que ela também tramava algo.
O clima no saguão do aeroporto era de uma doçura contagiante. Sara observava Augusto, que parecia ainda mais radiante sob as luzes do terminal, pulando levemente de empolgação enquanto segurava a mão de Beth.
— Não esqueça o protetor solar, mocinho — Sara falou carinhosamente com o filho.
Augusto soltou a mão da avó por um momento para abraçar a cintura de Sara com força.
— Eu vou procurar a concha mais bonita de Marina Del Rey para você e para o meu irmãozinho ou irmãzinha!
Sara sentiu o peito aquecer, dando um beijo carinhoso no topo da cabeça do filho. — Vou ficar esperando ansiosa, meu amor. Divirta-se muito com a vovó.
Beth aproximou-se e envolveu a nora em um abraço acolhedor. — Aproveite o silêncio daquela casa, querida. Vocês dois precisam disso. E não se preocupe com esse pequeno aqui, ele está em boas mãos — disse Beth, piscando para ela.
Sara acenou até que os dois sumissem pelo portão de embarque. Ao caminhar de volta para o carro, ela sentiu uma sensação de liberdade e renovação.
Depois, Sara dirigiu-se ao flat que alugara durante a separação.
Entrar naquele lugar foi uma experiência estranha. O silêncio ali não era acolhedor como o de sua casa; era um silêncio de solidão. Ela começou a dobrar as roupas e a guardar os poucos pertences que levara. Cada gaveta que esvaziava parecia tirar um peso de seus ombros. Ao entregar as chaves e encerrar o contrato, Sara sentiu uma liberdade indescritível.
"Acabou," pensou ela. "Não existe mais 'o meu lugar' e 'o lugar dele'. Agora é o nosso."No laboratório...
CW: Ela não desconfiou de nada?
GG: Nada.
CW: Então me conta. O que está planejando?
GG: Encomendei a refeição no Alizé. Eles vão entregar lá em casa. Pedi para a floricultura deixar flores em casa antes de eu chegar.
CW: O Alizé?? Gil, isso é...
GG: Ela merece. Merece muito mais do que isso. Queria fazer a refeição, mas o tempo está curto.
CW: E o bebê? Ela vai conseguir aproveitar?
GG: O chef vai preparar um menu especial sem nada que possa fazer mal.
CW: Olha só você, Gil Grissom. Planejando cada detalhe de um jantar romântico.
GG: É o mínimo.
CW: Vai ser lindo. E Gil? Fala o que precisa falar hoje à noite. Tudo que ainda está travado aqui. Ela precisa ouvir. E você precisa dizer.
GG: Eu sei.
Catherine encostou-se no batente da porta, os braços cruzados, um sorriso de incredulidade no rosto enquanto Grissom terminava de contar como havia conseguido a folga.
— Eu estou chocada... — ela disse devagar, como se precisasse de um momento para processar. — Vivi para ver Conrad Ecklei ajudar Gilbert Grissom.
Grissom deu um sorriso discreto, aquele jeito tipicamente dele, de cantos dos lábios curvados sem exagero.
— Augusto mudou ele mesmo.
Catherine soltou uma risada curta e balançou a cabeça.
— Sabia que o Guto falou que Conrad é o padrinho dele? — Grissom acrescentou, e havia um calor genuíno na voz quando mencionou o menino. — Esse menino é demais.
— É demais mesmo... — Catherine concordou. Depois sacudiu os ombros e bateu as palmas das mãos. — Bom. Temos uma noite surpresa para organizar. Partiu?
— Partiu.
O Summit Mall estava moderadamente movimentado para uma tarde de dia de semana. Grissom caminhava com a lista mental que havia montado, Catherine do seu lado com aquele passo resoluto de quem conhece cada corredor de shopping como a palma da mão.
— Já que a questão da refeição você já organizou — ela disse enquanto passavam por uma vitrine — vamos focar nos itens. Você sabe o que quer?
— Tenho ideia.
— Ideia ou plano?
— As duas coisas.
Catherine ergueu uma sobrancelha, mas não pressionou. Conhecia Grissom o suficiente para saber que quando ele dizia que tinha um plano, tinha mesmo.
A primeira parada foi uma loja de lingerie, boutique discreta, iluminação suave, vendedoras de sorriso profissional. Grissom percorreu o espaço com a mesma seriedade analítica com que examinaria uma cena de crime, o que por si só já era desconcertante o suficiente.
Catherine o observou por exatamente quarenta e cinco segundos antes de não aguentar mais.
— Gil. — Ela inclinou a cabeça, voz baixa mas divertidíssima. — Você está escolhendo essa lingerie para a Sara ou para o seu bel prazer?
Ele ergueu os olhos do cabide com uma calma absoluta.
— Os dois, ué. A brincadeira tem que ser boa.
— Deixa de ser pervertido, homem de Deus!!
As duas vendedoras mais próximas perderam completamente a compostura — uma tapou a boca, a outra desviou o rosto fingindo arrumar um display. Os ombros de ambas tremiam.
Grissom, imperturbável, voltou atenção ao cabide.
— Você me perguntou — disse ele simplesmente.
— Não faço mais perguntas na sua vida.
A joalheria ficava no piso de cima. Ambiente mais sério, vitrines iluminadas, um vendedor de meia-idade que se aproximou com aquele sorriso treinado de quem já estimou o poder aquisitivo do casal antes mesmo de eles chegarem ao balcão.
Casal. Esse foi o erro do homem.
— Boa tarde! — ele cumprimentou, olhando alternadamente entre os dois, mas direcionando a fala principalmente a Catherine. — A senhora já tem algo em mente, ou prefere que eu mostre algumas peças especiais?
Catherine abriu a boca. Fechou.
Olhou para Grissom.
Grissom olhou para ela.
Nenhum dos dois corrigiu o homem imediatamente e esse meio segundo de hesitação foi o suficiente para o vendedor prosseguir animado, apresentando colares, pulseiras, brincos, com toda a dedicação de quem acredita estar auxiliando um marido muito apaixonado.
Foi quando Catherine viu o colar.
Ouro rosé. Corrente delicada. Um pingente em forma de lua crescente com um pequeno brilhante no centro , discreto, elegante, o tipo de coisa que ela jamais compraria para si mesma, mas que ficaria perfeita contra sua clavícula.
Ela nem percebeu que havia parado de respirar.
Grissom percebeu.
— Esse aí — ele disse ao vendedor, apontando para o colar sem cerimônia.
Catherine voltou a si.
— Gil, não.
— Catherine.
— Eu não sou a Sara, você não precisa...
— Eu sei que você não é a Sara. — Ele já estava passando o cartão. — Você passou a tarde inteira me ajudando. Deixa.
Ela ficou em silêncio por um momento, o que, para Catherine Willows, era praticamente um evento histórico.
— Você é impossível — ela murmurou.
— Já me disseram.
Para Sara, ele escolheu um relicário de ouro, oval, clássico, com uma pequena gravura floral na tampa. O tipo de peça que guarda coisas pequenas e preciosas. O tipo de coisa que Sara Sidle jamais compraria para si mesma, mas que Grissom tinha certeza, ela abriria toda noite antes de dormir.
Saindo do shopping, sacolas nas mãos, Catherine tocou levemente no colar que ele havia insistido que ela usasse já ali mesmo.
— Obrigada — ela disse. Simples, sem drama. Que para Catherine também era um evento histórico.
— Obrigada você — Grissom respondeu. — Agora eu preciso ir. Tenho uma missão para começar.
Ela riu.
— Vai lá, Gil. Faz ela feliz.
— Esse é o plano.
Antes de voltar para casa, Sara decidiu que o recomeço pedia uma mudança visual. No salão, ela observou as pontas dos cabelos caírem no chão, sentindo-se renovada. O corte mais moderno e leve refletia exatamente como ela se sentia por dentro: sem o peso do passado, pronta para o que o futuro e os que os hormônios reservavam.
A adrenalina de Grissom era palpável. Ligou para ela que avisou que dentro de 30 minutos estaria em casa. Para um homem que passava horas imóvel observando o comportamento de colônias de insetos, aqueles trinta minutos pareciam uma eternidade no cronômetro da ansiedade.
Ele deu uma última volta pela casa, garantindo que cada detalhe estivesse em conformidade com o seu "plano de reconciliação".
As sacolas do restaurante gourmet já haviam sido desembaladas e os pratos aquecidos. O aroma de manjericão fresco e molho de vinho preenchia o ar. Sobre a mesa de centro, os presentes escolhidos esperavam sob laços elegantes.
O buquê da floricultura não era apenas um conjunto de plantas; eram flores que ele sabia que Sara amava, sem cheiros excessivamente fortes que pudessem incomodar a sensibilidade olfativa dela durante a gestação.
No andar de cima, a banheira já estava pronta. A temperatura da água fora testada duas vezes. Velas (novamente, as de LED, para evitar qualquer risco de incêndio enquanto estivessem distraídos) criavam sombras suaves contra as paredes de azulejo, e sais minerais com essência suave de lavanda prometiam relaxar cada músculo tenso de Sara.
Ele trocou de camisa pela terceira vez, optando por uma de tom azul-escuro que Sara sempre dizia destacar a cor dos olhos dele. Ele sentou-se no sofá por um instante, mas levantou-se logo em seguida.
Grissom estava de costas para a porta, ajustando pela terceira vez o arranjo de velas sobre a mesa, quando ouviu a chave na fechadura.
Olhou para o relógio.
Dez minutos antes. Dez minutos antes.
Ele se endireitou rapidamente, passou uma mão pelo cabelo num gesto que Catherine teria achado hilário. Gilbert Grissom, que enfrentava cenas de crime sem piscar, levemente em pânico porque a mesa não estava exatamente como havia planejado.
— Já chegou, amor?!
Sara parou na entrada da sala. A bolsa ainda no ombro e na mão uma mala. Os olhos percorrendo a mesa posta, as velas, o jantar, os detalhes que ele havia escolhido com um cuidado que ela reconheceu imediatamente.
— O que você está aprontando??
Havia surpresa na voz. E algo mais, mais fundo uma hesitação, como se ela ainda não tivesse certeza de que podia acreditar no que estava vendo.
Grissom deu um passo em direção a ela. Parou a distância justa não tão perto que parecesse pressão, não tão longe que parecesse fuga.
— Sara... — ele começou, e a voz saiu mais suave do que ele havia ensaiado. — Eu queria fazer algo especial para você. Na verdade, para nós dois. Olha, me escuta um pouquinho, tá?
Ela depositou a bolsa devagar no sofá. Cruzou os braços, não num gesto de defesa, mais de contenção, como se precisasse se segurar.
— Ok. Pode falar.
Grissom respirou fundo.
— Peço desculpas se te magoei, meu amor. — As palavras saíam sem o distanciamento habitual dele, sem o escudo intelectual que ele usava quando o assunto ficava grande demais. — Eu falo sem pensar e, por vezes, me expresso sem prestar atenção nas palavras. Sei que o que te disse te machucou muito, e por isso peço perdão.
Sara não disse nada. Mas os braços cruzados afrouxaram levemente.
— Por favor, não me abandone. — A voz ficou mais baixa, e havia algo ali que ela raramente ouvia nele — vulnerabilidade real, sem disfarce. — Eu não consigo acreditar em como agi feito um tolo com você. Você merece um homem que te coloque em primeiro lugar. Eu não agi dessa forma no passado e por isso, lhe peço perdão.
Os olhos de Sara brilharam. Ela piscou uma vez, duas vez... batalha perdida.
— Eu te prometo que serei o melhor homem para você. — Ele deu mais um passo. Agora estava perto o suficiente para ver a lágrima que ela não conseguiu segurar. — Eu te amo, Sara. Mais do que tudo.
O silêncio que se seguiu durou talvez três segundos.
Para os dois, pareceu muito mais.
Sara abriu a boca, e a voz saiu levemente quebrada, mas o sorriso que acompanhou era inteiro, era real, era ela.
— Grissom, eu também te amo muito. — Ela deixou os braços caírem. — Eu já tinha te perdoado, seu bobo.
Ele abriu a boca para falar, mas ela continuou.
— Eu estou vindo agora do flat onde eu fui rescindir o contrato. Trouxe minhas roupas...
Ela não terminou a frase.
Não porque tivesse esquecido o que ia dizer, mas porque Grissom havia atravessado o espaço entre eles num único passo e tomado a boca dela num beijo que não deixou espaço para mais nenhuma palavra. Intenso, feroz, com a urgência de alguém que passou tempo demais sem algo que não deveria ter deixado escapar.
Sara correspondeu com a mesma força.
Grissom, ainda segurando o rosto de Sara após o beijo, encostou a testa na dela, fechando os olhos como se quisesse registrar aquele momento na memória.
— Você rescindiu o contrato... — ele sussurrou, a voz carregada de um alívio que nenhuma prova pericial poderia mensurar. — Sara, eu estava pronto para te reconquistar todos os dias, pelo tempo que fosse necessário. Mas saber que você escolheu voltar... é o melhor presente que eu poderia receber.
Ele a conduziu para o centro da sala com uma firmeza possessiva, mas carregada de ternura. Sob a luz bruxuleante das velas, as flores e a mesa posta eram apenas o cenário para a eletricidade que estalava entre os dois. Sara, com o brilho das lágrimas ainda retido nos cílios e um sorriso que desarmava qualquer protocolo, deslizou a mão pelo braço dele, sentindo o músculo rígido sob o tecido da camisa azul que ela tanto amava.
— O meu marido realmente se superou — sussurrou ela, a voz ligeiramente rouca, aproximando-se o suficiente para sentir o calor que emanava dele. — Jantar gourmet, flores, velas... e esse discurso que me deixou sem chão. Onde foi que você guardou esse Gil Grissom todo esse tempo?
Grissom não respondeu de imediato. Em vez disso, ele a envolveu pela cintura, trazendo-a para mais perto, até que a respiração dela tocasse seu pescoço.
— Ele sempre esteve aqui, Sara — ele respondeu, a voz descendo uma oitava, vibrando contra o ouvido dela. — Ele só precisava aprender que, às vezes, é necessário olhar para cima do microscópio para não perder o que é realmente essencial. E o que é essencial está bem aqui, nos meus braços.
Ele a afastou apenas o suficiente para puxar a cadeira com uma reverência lenta, mas seus olhos nunca deixaram os dela. O olhar de Grissom agora queimava com uma admiração despida de qualquer reserva.
— Aliás... — ele começou, deixando os dedos roçarem deliberadamente na nuca dela enquanto ela se sentava, sentindo o contraste da pele nua com o novo comprimento dos fios. — Eu não consegui tirar os olhos de você desde que entrou. Esse novo corte de cabelo... ele acentua a curva do seu pescoço de uma forma que eu considero altamente... perturbadora. Você está maravilhosa, Sara. Absolutamente magnífica.
Sara sentiu um arrepio percorrer sua espinha, o tipo de reação biológica que nenhum livro de fisiologia explicava tão bem quanto o toque dele. Ela inclinou a cabeça para trás, encontrando o olhar azul profundo de Grissom, que agora prometia que o jantar seria apenas o prelúdio de uma noite muito mais longa.
— Perturbadora, Supervisor? — ela provocou, com um brilho desafiador e sedutor nos olhos.
— No sentido mais científico e carnal da palavra — ele confirmou, inclinando-se para depositar um beijo persistente logo abaixo da orelha dela. — Considere isso uma anomalia irresistível que eu pretendo estudar bem de perto... a noite inteira.
O jantar transcorreu entre risadas, confissões e planos para o futuro. Eles falaram sobre Augusto e a alegria do menino em Marina Del Rey, sobre a chegada do novo bebê e sobre como a casa, agora, estava completa.
A noite havia começado tranquila no restaurante Meridian. Conversa animada, taças erguidas, o tipo de ambiente que o Xerife Rory Atwater escolhia para seus jantares de confraternização com a cúpula do departamento.
Ninguém havia percebido Marcus Moss até que ele já estava no centro do salão.
Colete. Detonador na mão. Olhos de alguém que havia cruzado uma linha da qual não pretendia voltar.
O pânico inicial, cadeiras arrastadas, gritos abafados, guardas que instintivamente foram à cintura foi contido pela simples imagem do polegar dele sobre o botão.
— Ninguém se move.
A voz era calma. Essa era a parte mais assustadora.
Do lado de fora, o perímetro havia sido estabelecido em questão de minutos. Viaturas em ângulo, atiradores de elite nos telhados adjacentes, o brilho frio dos holofotes cortando a fachada do Meridian.
Jim Brass estava na linha de frente com o telefone no ouvido, paletó aberto ao vento seco de Las Vegas, mascando a situação com a expressão de alguém que já viu muita coisa ruim e reconhecia quando algo estava prestes a piorar.
A linha aberta com o interior do restaurante cracklejou.
— Marcus. — Brass manteve a voz no registro que havia aprendido em vinte anos de negociação: firme, sem ameaça, sem condescendência. — Acabe com isso. Você fez reféns, gente importante está lá dentro. Quero que você me escute e solte todos para você sair bem.
Uma pausa longa. Barulho de fundo: o choro contido de alguém, o rangido de uma cadeira.
A resposta chegou pelo telefone, mas também do interior — alta o suficiente para atravessar as paredes.
— Capitão. — A voz de Marcus Moss tinha um fio de algo que Brass identificou imediatamente como decepção. Quase tão perigoso quanto raiva. — Eu quero o Gilbert Grissom aqui. Se ele vier, solto todos.
Brass fechou os olhos por exatamente um segundo.
Grissom.
Vartan o olhou por um momento.
— Marcus, ainda estou aqui. — Ele manteve o tom. — Me conta o que você precisa enquanto a gente trabalha nisso, tá bem? Vamos achar o Grissom. Passo a passo. Ninguém precisa sair machucado essa noite.
O jantar havia sido exatamente o que Grissom havia planejado.
Depois as coisas haviam evoluído naturalmente.
Como sempre evoluíam entre eles quando o mundo finalmente parava de interferir.
A blusa de Sara havia encontrado o chão da sala em algum momento entre o segundo beijo e o terceiro, ninguém havia registrado exatamente quando. As mãos dele conheciam cada centímetro dela de memória e mesmo assim tratavam cada vez como se fosse descoberta. A respiração dos dois estava entrecortada, o mundo lá fora havia deixado de existir completamente, e Grissom estava com dois dedos no fecho do sutiã quando
♪ Bzzzz. Bzzzz. Bzzzz. ♪
Ele parou. Sara parou. O sutiã de Sara, que estava prestes a ser rendido pela perícia tátil das mãos do supervisor, permaneceu no lugar enquanto ela, com a respiração ainda pesada e os lábios inchados soltava um bufo frustrante.
Os dois olharam para o celular dela vibrando na mesa de centro com a insistência de algo que não ia desistir.
— Eu desliguei os telefones — Grissom disse, a voz rouca, sem tirar os olhos do aparelho com uma expressão que sugeria que ele estava reconsiderando seus princípios éticos em relação a objetos inanimados. — Esqueci de pedir pra você desligar o seu.
Sara já estava se inclinando para pegar o aparelho e então viu o nome na tela.
— Brass.
Uma palavra. Suficiente para mudar completamente o peso do momento.
— O Capitão não ligaria a essa hora se não fosse algo crítico, Gil — sussurrou Sara, tentando recuperar o fôlego enquanto Grissom enterrava o rosto no pescoço dela, bufando de frustração.
Ela atendeu.
— Oi?
— Sara. — A voz do capitão tinha aquela textura específica que ela havia aprendido a reconhecer ao longo de anos, controlada demais para ser rotina. — Preciso falar com Grissom urgentemente.
Sara virou para ele. Grissom já havia lido a resposta no rosto dela.
— É para você — ela disse, passando o telefone. — E ele está muito nervoso.
Grissom pegou o aparelho. Fez uma última tentativa.
— Oi, Brass. — A voz ainda carregava um resíduo de impaciência. — Eu disse pra você não me ligar. Estou no início de uma noite maravilhosa que preparei pra minha esposa, e...
O que Brass disse nos minutos seguintes apagou tudo o mais.
Explosivos. Colete detonador. Reféns. O jantar do Xerife. E a exigência que fazia a noite toda virar de cabeça pra baixo:
Ele quer você aqui.
— Eu entendi, Jim. Estamos a caminho — disse Grissom, desligando o aparelho com um movimento seco.
Ele olhou para Sara, que já estava catando a blusa do chão. O clima de sedução foi substituído por uma urgência eletrizante.
— Vou com você — ela disse. Não era pergunta.
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