NOS BRAÇOS DO ALFA
15 Capítulo 14 – Onde Dói, Ela Cura
O céu da cidade estava carregado de nuvens, como se sentisse a dor silenciosa de Dimitri. Ele entrou em casa devagar, o corpo cansado da caçada e do susto, mas a mente? Estava em ruínas.
Sofia dormia no sofá, enrolada em uma manta, os braços ainda com os curativos que Ellen fez. A expressão serena contrastava com o aperto no peito dele. Aquilo… aquilo nunca deveria ter acontecido. Mas tinha acontecido. E agora ele sabia o motivo.
A sombra do passado havia retornado.
Dimitri se aproximou, ajoelhando-se diante dela, e acariciou com delicadeza o rosto da sua pequena. Sofia resmungou baixinho, abrindo os olhos com lentidão.
— Você voltou... — ela sorriu com doçura, mas logo notou a tensão nos olhos dele. — O que houve?
— Preciso te contar uma coisa. — sua voz estava baixa, como se temesse que qualquer ruído o fizesse desabar.
Sofia se endireitou, ainda envolta na manta, e segurou a mão dele.
— Então me conta. Estou aqui. Sempre estarei.
Dimitri respirou fundo. Por um instante, hesitou. Mas ao olhar nos olhos da mulher que se tornara sua casa, ele soube que não precisava esconder mais nada.
— Antes de você… houve outra. Eu achava que a amava. Confiei nela com tudo que eu era. Ela foi meu primeiro amor. E meu primeiro erro.
Sofia permaneceu em silêncio, sem julgamentos. Seus olhos apenas diziam: continue.
— Ela era prima de Richard. Se fazia de doce, de gentil… mas por trás disso, havia uma ambição tão suja quanto o coração dela. Quando o Conselho decidiu que eu me tornaria Alfa… ela tentou me convencer a deixar tudo para fugir com ela. Disse que queria uma vida longe da matilha. Eu... recusei. E naquela mesma semana, ela me traiu com meu primo.
A voz de Dimitri falhou por um segundo.
— Eles fizeram parecer que foi culpa minha. Como se eu tivesse sufocado ela. E o pior… ela ainda levou parte do meu clã com ela. Fui ridicularizado, humilhado… traído. Não só como homem. Mas como Alfa.
Sofia apertou sua mão. Com os olhos marejados, ela se aproximou e encostou a testa na dele.
— Isso... isso machucou tanto, né? Você se fechou, criou muralhas, achando que se esconder te protegeria. Mas não protegeu.
Dimitri sentiu o calor da voz dela atingir partes do seu coração que estavam congeladas há anos.
— E aí veio você… com essa boca atrevida, esses olhos de céu e esse cheiro de bolo de maçã… — ele sorriu, amargo e apaixonado — e tudo o que eu tentei esquecer, você fez questão de lembrar. Que ainda dói. Mas que ainda pulsa.
Sofia o abraçou forte, como se pudesse protegê-lo da dor passada.
— Não sou ela, Dimitri. Nunca serei. Eu sou a que vai ficar. Sou a que quer cuidar, até das partes que você acha que ninguém deveria ver. Deixa eu cuidar de você, meu Alfa.
Dimitri não respondeu com palavras. Apenas a envolveu com força nos braços, como se aquele abraço fosse a ponte entre o ontem e o agora. As lágrimas que ele segurava escorreram, silenciosas, no ombro dela. E ali, naquele gesto, ele entendeu…
As cicatrizes ainda estavam ali. Mas, com ela, elas não doíam mais.
~*~
O aroma de café fresco e pão quentinho tomava conta da casa. Sofia estava sentada à mesa, usando um dos moletom de Dimitri — aquele que, segundo ela, tem cheiro de alfa possessivo — quando ouviu batidas leves na porta. Antes que pudesse se levantar, Dimitri apareceu no corredor, camisa cinza justa e aquele ar de quem poderia segurar o mundo nos ombros… e ainda reclamar que ele tá leve demais.
— É minha mãe. — disse ele com um meio sorriso, já indo abrir a porta.
Ellen entrou como uma brisa fresca, carregando uma sacola com frutas, um sorriso maternal e olhos que analisavam Sofia dos pés à cabeça.
— Está comendo direito? Dormindo? Teve febre? — disparou em sequência, já indo até Sofia para apertá-la num abraço suave, porém firme.
— Ela sobreviveu a mim. Tá indo muito bem. — Dimitri provocou, ganhando um tapa no ombro da mãe.
— Sobreviver não é o que eu quero, quero que ela floresça, viu? — respondeu Ellen, beijando Sofia na testa.
Logo atrás, Jeremy entrou com um sorriso debochado e um jornal embaixo do braço.
— Liguei pro meu irmão hoje cedo. — ele disse enquanto se acomodava no sofá — E adivinha só? Josh largou Eleonor. Descobriu que ela também o traiu.
Dimitri soltou uma risada seca, quase cínica.
— Poético. — disse, sem emoção.
Mas foi Logan quem falou mais alto, com um rosnado mental carregado de sarcasmo:
“Bem feito.”
Sofia escondeu o sorriso atrás da caneca de café, mas não passou despercebido por Ellen, que piscou para ela.
A visita foi breve, mas cheia de afeto. Quando os pais foram embora, prometendo um jantar em família em breve, Sofia mal teve tempo de se recostar no sofá antes de ouvir novas batidas na porta.
Dessa vez, eram Jonathan e Richard. O primeiro sério como sempre, o segundo com aquele ar de “vou aprontar alguma piada”.
— Precisamos conversar sobre a segurança. — Jonathan disse direto, entrando já com um tablet em mãos.
— Sofia foi atacada e ninguém percebeu até que foi tarde. Não podemos falhar de novo. — completou Richard, agora sério.
Dimitri assentiu e todos se reuniram na sala. Sofia sentou-se perto da lareira, ouvindo atentamente. O plano envolvia reforçar o perímetro, dobrar o número de guerreiros nos turnos da manhã e rever a rotação de vigilância.
Foi então que ela levantou a mão timidamente.
— O intervalo entre a troca de turno na segunda e quarta-feira é de quase 40 minutos. Eu reparei isso quando ia trabalhar… Acho que foi por esse intervalo que a pessoa entrou.
Os três lobos a encararam por um segundo. Jonathan franziu o cenho, surpreso.
— Isso faz sentido. Não havíamos percebido esse lapso…
Dimitri abriu um sorriso orgulhoso, e Logan fez questão de cantar vitória mentalmente:
“É por isso que ela é nossa Luna.”
— Jonathan… — Dimitri disse, fingindo refletir — Talvez eu tenha que repensar quem é meu Beta. A Luna aqui está se mostrando bem mais eficaz.
Richard riu alto.
— Pode deixar, vou atualizar o sistema de segurança… e chorar no banho depois.
Todos riram, e Sofia apenas balançou a cabeça, bochechas coradas, mas o coração cheio. Ela podia ser humana. Podia ser pequenininha. Mas ali… era respeitada. Amada. Vista.
E isso era tudo o que ela sempre quis.
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