NO LIMITE DO ATRITO
4 Zona de Impacto
Notas iniciais
Capítulo 4: Zona de Impacto
🏎️ POV Bella
O peso do capacete de fibra de carbono sobre o meu pescoço parecia três vezes maior naquela tarde de domingo, mas nenhuma força G artificial conseguia superar a pressão esmagadora que se acumulava bem no centro das minhas costelas. Sentada no cockpit estreito e claustrofóbico da Swan-Black, eu conseguia ouvir o som abafado e rítmico da minha própria respiração ecoando contra a viseira espelhada, um contraste absoluto com o pandemônio que engolia o grid de largada de Mônaco do outro lado da minha bolha de Kevlar. Celebridades de Hollywood, magnatas do petróleo e mecânicos de todas as equipes se espremiam no asfalto quente, mas a minha mente estava perigosamente flutuando a poucas horas dali, presa na escuridão daquele banheiro de mármore do hotel Twiga.
Cada vez que eu tentava me concentrar na sequência de botões do volante para o procedimento de largada, o meu corpo protestava. Eu sentia a queimação discreta nas minhas costas e os pontos doloridos nos meus quadris onde as mãos longas e firmes de Edward haviam me prensado contra a pia. Eu ainda conseguia sentir o gosto de uísque e pecado da boca dele na minha, uma lembrança irritante que fazia o meu sangue correr mais rápido pelas veias do que a própria adrenalina da corrida.
— Cintos checados, Bella. Pressão dos pneus na janela ideal — a voz de Jacob Black estalou no rádio do meu capacete, limpa, focada e totalmente alheia ao colapso interno que me consumia. Olhei de relance para o lado e vi Jacob concentrado no painel lateral do carro, enquanto logo atrás dele, ostentando os fones de ouvido pretos da equipe com uma pose imponente, Leah Clearwater mantinha os braços cruzados. Ao lado dela, Alice Brandon parecia uma fada da moda elétrica, balançando o corpo no ritmo de uma música invisível e piscando para mim por cima das lentes dos seus óculos escuros. Elas sabiam. Elas não sabiam os detalhes matemáticos, mas a perspicácia de Leah e o instinto aguçado de Alice tinham captado o meu atraso de duas horas na noite anterior e o leve desalinho do meu vestido vermelho.
— Entendido, Jake. O carro está pronto — respondi, forçando a minha voz a sair com aquela frieza cirúrgica que o paddock esperava de mim.
O grid começou a ser esvaziado pelos fiscais da FIA, os cobertores térmicos foram arrancados dos meus pneus compostos macios e o silêncio tenso da morte se instalou no Principado. Olhei pelo espelho retrovisor esquerdo e vi a silhueta imaculada do carro azul da Cullen Racing posicionado exatamente treze milésimos de segundo atrás da minha asa traseira. Edward estava ali dentro. Eu não conseguia ver os seus olhos através da viseira escura do seu capacete, mas eu sabia que a mente dele estava tão desgovernada quanto a minha. A diferença era que eu usaria aquela queimação como pólvora para destruí-lo.
As luzes vermelhas começaram a se acender, uma a uma, no pórtico acima da reta dos boxes. Cinco luzes. Meu pé esquerdo cravou a embreagem, a mão direita segurou a borboleta de marchas e o motor Swan-Black urrou a treze mil rotações por minuto, fazendo toda a estrutura de carbono vibrar contra a minha espinha.
As luzes se apagaram.
Eu soltei a embreagem com a precisão de um gatilho. A traseira dourada e preta da Swan-Black tracionou de forma violenta, os pneus traseiros mordendo o asfalto quente de Monte Carlo sem patinar um único milímetro. Pelo espelho, vi o Porsche azul de Edward hesitar por uma fração de segundo — um erro milimétrico de reação que, naquele nível, era um suicídio esportivo. Entrei na curva Sainte-Dévote na liderança absoluta, jogando o carro sobre a zebra amarela sem aliviar o pé, deixando que o impacto mecânico reverberasse direto pelos meus músculos doloridos.
— Se ele quer perfeição de laboratório, eu vou entregar um pesadelo de rua — pensei, cravando o pé no acelerador rumo à subida íngreme da Beau Rivage.
🏎️ POV Edward
— Você perdeu dois décimos na reação de largada, Edward. Concentração. A Swan está abrindo — a voz gélida de Jasper Hale chicoteou o meu rádio, mas o aviso serviu apenas para aumentar a fúria cega que nublava a minha visão dentro do cockpit.
Eu apertei o volante com tanta força que as costuras das minhas luvas azuis estalaram. Eu sabia exatamente o porquê de ter falhado na largada. No segundo em que as luzes vermelhas se acenderam, a imagem daquela maldita garota de vestido vermelho colado, arfando contra o meu pescoço e sussurrando que me odiava enquanto o meu corpo se afundava no dela, invadiu o meu cérebro como uma pane no sistema elétrico. O ódio que eu usava como escudo protetor contra ela tinha sido completamente contaminado por uma obsessão física doentia. Eu conseguia sentir o cheiro do jasmim do cabelo dela impregnado no meu macacão, uma alucinação olfativa que me fazia querer acelerar até o carro se desintegrar contra o muro.
Eu mudei o mapa do motor para o modo de ataque máximo, engolindo as marchas enquanto contornava a curva do Cassino, os pneus do meu carro azul lixando o asfalto na tentativa de caçar a asa traseira preta e dourada da Swan-Black. Mas a telemetria não mentia, e o que eu via na pista era um show de horror para o meu orgulho aristocrático.
Bella Swan não estava apenas pilotando; ela estava flutuando sobre os muros de Mônaco com uma agressividade que beirava o sobrenatural. Na volta 15, a distância já era de quatro segundos. Na volta 40, o abismo tinha subido para doze segundos. Ela tangenciava a Chicane do Porto e a curva da Piscina raspando os pneus na proteção com uma precisão milimétrica, desafiando as leis da física que os engenheiros da minha equipe passaram meses calculando nos computadores da Volturi Energy.
— Onde ela está conseguindo esse ritmo, Jasper?! — gritei no rádio, a minha voz saindo rouca, esganada pela frustração de ver o meu carro perfeito ser humilhado por uma garagem privada em rede nacional. — O carro dela deveria estar perdendo rendimento nos pneus traseiros!
— Os dados mostram que ela está abrindo o diferencial cinco por cento mais cedo na saída das curvas lentas, Edward — Jasper respondeu, a voz mantendo aquela calmaria de general que só servia para me dar mais ódio. — Ela está arriscando a integridade do chassi a cada volta, mas o braço dela está compensando a instabilidade. Você não vai alcançá-la hoje. Mantenha a segunda posição e salve os pontos do campeonato. O conselho está assistindo.
— Que se foda o conselho! — esbravejei, jogando o carro sobre a zebra da Rascasse de forma violenta, a traseira do Porsche azul escorregando e quase beijando o guard-rail.
Ver o carro vermelho da Swan sumir no horizonte da pista, transformando a maior e mais glamourosa corrida do mundo em um monólogo particular, era a maior humilhação da minha carreira profissional. E o pior de tudo, o pensamento mais corrosivo que destruía a minha mente a cada passagem pela reta dos boxes, era saber que aquela loba indomável que estava destruindo o meu império mecânico era a mesma mulher que, poucas horas antes, estava gemendo o meu nome de forma desesperada com as pernas presas ao redor da minha cintura.
🏎️ POV Bella
Quando a bandeira quadriculada finalmente se agitou acima da minha cabeça na volta 78, o rádio da Swan-Black explodiu em uma cacofonia de gritos, choros e aplausos que quase estouraram os meus tímpanos. Eu soltei o volante por um segundo, erguendo o meu punho esquerdo no ar enquanto cruzava a linha de chegada com uma vantagem humilhante de quase vinte e cinco segundos sobre o segundo colocado. Uma distância histórica nas ruas estreitas de Monte Carlo.
— Pole position e vitória em Mônaco, Bella! Você foi absoluta Cinema hoje, garota! — Jacob gritava no rádio, abandonando toda a sua postura técnica em um acesso de pura euforia fraternal. — O motor aguentou, o diferencial funcionou e você destruiu o império deles!
Eu estacionei o carro na área do parque fechado, bem embaixo do camarote real, arrancando o volante e saindo do cockpit com os músculos tremendo pelo esforço físico e pela descarga final de adrenalina. No segundo em que tirei o capacete, o som ensurdecedor da torcida organizada que se espremia nas arquibancadas invadiu a minha mente, misturado aos gritos de Alice e Leah que pularam a grade de proteção do pit lane para me esmagar em um abraço triplo que cheirava a vitória e champanhe.
— Eu avisei que esse vestido vermelho traria a fúria que você precisava! — Alice gritou no meu ouvido, os olhos brilhando enquanto me entregava o boné de pódio da equipe. Leah apenas me deu um tapa firme no ombro, exibindo um sorriso orgulhoso que valia mais do que qualquer troféu de ouro.
Eu me afastei do abraço e caminhei em direção à balança de pesagem oficial da FIA, ajeitando o cabelo que estava colado ao meu pescoço pelo suor. Foi quando Edward Cullen entrou no recinto.
Ele arrancou o capacete com uma violência que quase quebrou a fivela de segurança, jogando-o no chão do pit lane antes de ser contido por um assessor de imprensa da Cullen Racing. Seu rosto aristocrático estava vermelho de fúria, os cabelos bronzeados completamente ensopados de suor e desalinhados, e os olhos verdes disparavam adagas na minha direção. A mandíbula dele estava tão travada que os músculos do seu pescoço pareciam cordas esticadas sob o macacão azul-marinho. Ele tinha ficado em segundo lugar, o primeiro dos perdedores, e a distância absurda que eu tinha colocado entre nós dois era uma cicatriz que ele demoraria a apagar do seu histórico perfeito.
Caminhei na direção dele com passos lentos, sabendo que as câmeras de TV do mundo inteiro estavam focadas em nós, procurando por qualquer sinal da rivalidade que movia as manchetes. Parei a poucos centímetros do seu peito arfante, sustentando o seu olhar de ódio com uma arrogância fria que eu fiz questão de saborear.
Ergui o canto dos meus lábios em um sorriso de lado, cortante e terrivelmente provocativo, descendo o meu olhar deliberadamente para as marcas sutis de arranhões que apareciam na linha do seu pescoço, logo acima da gola do macacão — as marcas das minhas unhas da noite anterior.
— Parabéns pelo segundo lugar, Cullen — sussurrei, a voz saindo baixa o suficiente para que apenas ele ouvisse, mas alta o suficiente para manter a pose diante dos fotógrafos. — Parece que a perfeição de laboratório da sua equipe esqueceu de calcular o peso do meu braço quando o asfalto esquenta. Vai lá receber o seu troféu de prata... e se precisar chorar, o colinho do Carlisle continua bem ali no box ao lado.
Edward deu um passo à frente, os nós dos seus dedos ficando brancos enquanto ele segurava a própria luva, o peito colando quase no meu em uma postura de pura intimidação que já não surtia efeito nenhum sobre mim. Suas pupilas dilataram de uma forma selvagem, e ele inclinou a cabeça milimetricamente na minha direção, a voz saindo como um sibilado gélido e perigoso que fez a minha espinha vibrar com a memória do mármore.
— Aproveite o pódio, Swan. Saboreie cada gota desse champanhe — ele sibilou, os olhos verdes brilhando com uma promessa de guerra total que ia muito além das pistas de corrida. — Porque na próxima etapa, eu não vou apenas recuperar a liderança. Eu vou fazer você engolir cada milímetro dessa sua arrogância americana, na pista ou fora dela. Você não vai conseguir fugir do que aconteceu naquele banheiro por muito tempo.
Virei as costas para ele sem dar o direito de resposta, caminhando de cabeça erguida em direção às escadas do pódio sob o som dos hinos nacionais, sentindo o peso do troféu de Mônaco nas minhas mãos e sabendo que a guerra na Fórmula 1 estava apenas começando.
O hino nacional americano ecoou pelos alto-falantes de Monte Carlo, uma melodia solene que parecia flutuar por cima dos mastros dos iates e ricochetear nas rochas do Principado, mas para mim, aquele som era apenas um pano de fundo para o silêncio que se instalava na minha mente. No topo do pódio, com a bandeira dos Estados Unidos estendida orgulhosamente sobre os meus ombros e o tecido vermelho do meu macacão brilhando sob o sol da tarde, eu sentia o peso de cada decisão que me trouxera até ali. Olhei diretamente para o céu azul e limpo de Mônaco, ignorando por um segundo a massa de fotógrafos abaixo, e fechei os olhos. — Essa é para você, Emm — dediquei em pensamento, sentindo um aperto familiar e terno no peito. — Eu disse que colocaria o nosso sobrenome no topo do mundo de novo.
Assim que a última nota do hino se dissipou, o locutor oficial do circuito tomou o microfone, sua voz estrondosa e carregada de emoção reverberando por todo o Principado e fazendo o público explodir em um clamor unificado:
— E agora, recebendo o troféu do Grande Prêmio de Mônaco... Isabella Swan! A irmã do lendário Emmett Swan é a primeira mulher a ganhar uma corrida na história da Fórmula 1!
O rugido da arquibancada foi ensurdecedor. Dei um passo à frente para erguer a pesada taça de ouro e cristal, sentindo o metal frio contra as minhas mãos calejadas. Olhei para a base do pódio e vi a garagem da Swan-Black em puro estado de festa. Em meio aos mecânicos, Charlie e Renee estavam agarrados um ao outro, chorando e pulando de alegria junto com Jacob, Billy e o restante da equipe. Ver o orgulho estampado no rosto dos meus pais, depois de tudo o que a nossa família passou com o luto, foi o combustível que finalmente desfez a minha postura defensiva. Alice e Leah gritavam logo ao lado, agitando os braços no ar em uma comemoração caótica.
Foi o sinal para a loucura começar. Benjamin e os outros pilotos acionaram as imensas garrafas de champanhe, e uma chuva torrencial de espumante dourado e gelado desabou sobre nós. A espuma lavou o suor do meu rosto e grudou no meu cabelo enquanto eu erguia a minha própria garrafa, rindo abertamente e me entregando àquela catarse de adrenalina e triunfo.
No meio daquela névoa brilhante de bebida e flashes, meus olhos involuntariamente procuraram o degrau do segundo colocado. Edward Cullen estava um pouco afastado, com a sua garrafa abaixada, observando a minha comemoração. Pensei que encontraria o mesmo olhar de ódio e ressentimento de minutos atrás, mas, por uma fração de segundo, a armadura dele cedeu. Edward estava me olhando de um jeito completamente diferente; seus olhos verdes pareciam marejados pela grandiosidade do momento e um sorriso sincero, aberto e genuinamente admirado moldava os seus lábios aristocráticos. Não era o sorriso irônico das entrevistas, era o homem reconhecendo a pilota.
Mas o encanto durou pouco. No instante exato em que ele percebeu que eu o flagrara me olhando daquela maneira, o sorriso sumiu dos seus lábios como se tivesse sido arrancado à força. Edward travou o maxilar de imediato, fechou a cara e desviou o olhar para a multidão, recuperando a sua máscara gélida e irritante de rival ferido.
Eu soltei uma gargalhada alta no meio da chuva de champanhe, virando a garrafa contra o público. A guerra na pista estava longe de terminar, mas, por hoje, Mônaco pertencia aos Swan.
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