NO LIMITE DO ATRITO
10 As Rosas da Terra do Nunca
Notas iniciais
Capítulo 10: As Rosas da Terra do Nunca
🏎️ POV Edward
O despertador do meu quarto de hotel em São Paulo não precisou tocar naquela manhã de domingo. O céu sobre a capital paulista havia amanhecido com aquela tonalidade cinzenta e pesada, típica das grandes decisões em Interlagos — uma névoa baixa que subia do asfalto ondulado e trazia o cheiro de chuva tropical iminente para dentro do paddock. Minha mente, no entanto, operava em um circuito totalmente diferente. Eu ainda conseguia sentir o calor da pele de Bella Swan contra os meus dedos e a vibração do seu último gemido ecoando na minha memória, uma lembrança tão nítida que fazia os trezentos quilômetros por hora da pista parecerem uma câmera lenta.
Às seis da manhã, enquanto a maioria dos pilotos ainda tomava o café focado com seus preparadores físicos, eu já cruzava as ruas da Zona Sul de São Paulo em um sedã escuro. Eu tinha uma missão pessoal, algo que exigia que eu burlasse o protocolo rígido da Cullen Racing e o monitoramento constante de Jasper Hale.
Quando finalmente estacionei o carro nos bastidores do Autódromo de Interlagos e empurrei a porta de vidro do motorhome da equipe, faltavam menos de quarenta minutos para a abertura oficial do pit lane. O ambiente ali dentro estava em puro estado de colapso nervoso. Jasper andava de um lado para o outro com o tablet na mão, o rosto vermelho de irritação, enquanto Garrett e Alec ajustavam as fivelas dos capacetes reserva com uma pressa violenta.
— Onde caralhos você estava, Edward?! — Jasper esbravejou no segundo em que botei os pés no recinto, batendo a prancheta de alumínio contra a mesa de centro com um estrondo que fez os copos de plástico tremerem. — O comissário da FIA já veio aqui duas vezes checar o seu peso! O grid de largada está sendo montado, a pista está no sentido anti-horário com uma umidade de oitenta e cinco por cento, e o nosso piloto principal simplesmente desaparece de São Paulo sem dar notícias! Você enlouqueceu de vez?
— Calma, Jazz — respondi, mantendo a voz perfeitamente modulada, exibindo um sorriso de lado que só serviu para aumentar o desespero do meu estrategista. Peguei o meu macacão azul-marinho do cabide com uma calma insultuosa. — Eu estava apenas resolvendo uma questão de acerto técnico de última hora. Um detalhe crucial para a corrida.
— Questão de acerto técnico na Avenida Paulista às sete da manhã? — Garrett interveio, soltando uma risada sarcástica enquanto limpava os dedos sujos de graxa em um pano. — Edward, você estava aprontando. E eu coloco o meu bônus de engenharia como aposta de que essa sua armação tem o emblema da Ferrari vermelha estampado no meio.
— Eu não faço a menor ideia do que você está falando, Garrett — pisquei para ele, enfiando as pernas no macacão azul e puxando o zíper com firmeza.
Por trás da minha fachada de lorde britânico polido, o meu coração martelava de pura expectativa. Sim, eu estava aprontando. Eu havia passado as últimas duas horas rodando os fornecedores mais exclusivos da cidade para garantir que a minha promessa de Mônaco e a minha entrega na madrugada anterior tivessem o desfecho cinematográfico que a Lince merecia. Mas a pista não esperava por romance, e o circuito de Interlagos estava pronto para cobrar o seu preço em sangue, suor e fibra de carbono.
🏎️ POV Bella
O peso da história parecia esmagar o teto do cockpit da minha Ferrari vermelha enquanto eu esperava o sinal verde na Pole Position do grid de largada de Interlagos. O Autódromo de Interlagos é uma arena sagrada, um circuito lendário, ondulado e desafiador por sua configuração anti-horária que força os músculos do pescoço dos pilotos até o limite da exaustão física. Palco de decisões de títulos inesquecíveis que imortalizaram lendas como Ayrton Senna, Fernando Alonso e Lewis Hamilton, aquela pista mística exigia respeito absoluto. E com o céu paulistano fechando-se em um tom de grafite ameaçador, a margem para erros era zero.
— Rádio checado, Bella. O Cullen conseguiu alinhar a tempo, ele está logo atrás de você — a voz de Jacob Black estalou no meu capacete, fria, focada e totalmente limpa. — A umidade subiu. Foco na tração da largada. Não dê espaço no S do Senna.
— Entendido, Jake. O carro é um raio — respondi, fechando a viseira escura do meu capacete e deixando que a fúria fria da Lince assumisse o controle total dos meus reflexos.
As cinco luzes vermelhas se acenderam no pórtico de Interlagos. O motor da Ferrari urrou a treze mil rotações, uma vibração brutal que reverberou direto pelos meus músculos doloridos da madrugada.
As luzes se apagaram.
Soltei a embreagem e a Ferrari vermelha tracionou com perfeição, mas o Porsche azul de Edward Cullen veio como um torpedo vindo da segunda posição. Entramos no S do Senna par a par, os pneus lixando o asfalto a milímetros de um toque que jogaria ambos no muro de contenção. Eu segurei a linha de dentro com uma agressividade selvagem, sentindo o deslocamento de ar do carro dele sacudir a minha asa lateral.
O que se seguiu pelas setenta voltas seguintes foi uma das disputas mais insanas, viscerais e cinematográficas da história moderna da Fórmula 1. Virou um duelo pessoal, um confronto pau a pau onde a tecnologia de ponta das nossas equipes foi totalmente anulada pelo talento bruto de dois pilotos obcecados. Edward me ultrapassou na Descida do Lago usando o vácuo de forma cirúrgica; eu dei o troco três voltas depois, colocando a Ferrari de lado na Ferradura, desafiando as ondulações do asfalto com o pé cravado no acelerador.
Na volta final, a chuva fina começou a cair, transformando a subida dos Boxes em um sabão asfáltico. Vínhamos colados, o bico da minha Ferrari vermelha emparelhado com a lateral do Porsche azul dele. O som dos dois motores era um rugido ensurdecedor que ecoava pelas arquibancadas lotadas de Interlagos. Entramos na reta de chegada dividindo cada centímetro de pista, os carros escorregando no limite da física.
Cruzamos a linha de chegada em um borrão de velocidade.
Olhei para o painel digital do meu volante de fibra de carbono. O visor piscou em verde: P1. Eu havia vencido. A diferença na linha de cronometragem foi de absurdos quatro milésimos de segundo — uma fração quase invisível a olho nu, mas o suficiente para garantir a minha segunda vitória consecutiva no campeonato mundial.
— Vitória em Interlagos, Bella! Você conseguiu de novo! Que corrida espetacular! — Jacob gritava no rádio, a voz dele competindo com o clamor da torcida brasileira que invadia a pista.
O pódio de Interlagos foi uma catarse de emoções. No topo do pódio, com a bandeira dos Estados Unidos novamente sobre os meus ombros, ergui a taça de ouro sob a chuva de champanhe dourado que desabava sobre nós. Edward Cullen estava no degrau do segundo lugar; ele tinha o rosto suado, o macacão azul manchado de espumante e, embora o orgulho britânico dele estivesse sangrando pela derrota por milésimos, os olhos verdes que ele fixava em mim carregavam aquela mesma admiração secreta e avassaladora que ele havia confessado no quarto. No terceiro lugar, o veterano Dimitri exibia um sorriso largo, comemorando o resultado da Renault com a experiência de quem sabia que tinha testemunhado um duelo de titãs.
Após a cerimônia de premiação, no grande salão de transição dos boxes antes das coletivas oficiais de imprensa, todos os pilotos do grid estavam reunidos em um grupo barulhento, conversando, rindo e nos parabenizando pela corrida histórica que havíamos entregado. Charlie e Renee estavam abraçados perto da bancada, enquanto Alice e Leah guardavam os meus equipamentos eletrônicos.
Foi quando a porta dupla de acesso ao pit lane se abriu e dois funcionários do circuito entraram carregando algo que interrompeu o burburinho do salão de imediato.
Eram vários buquês imensos de rosas vermelhas, de uma qualidade chique, rara e absurdamente caras, amarradas por fitas de cetim preto texturizado. O perfume das flores invadiu o ambiente estéril de graxa e combustível no mesmo segundo. Os funcionários caminharam direto na minha direção, pousando a imensa quantidade de flores sobre a mesa de centro da Swan-Black.
— Mas que porra é essa? — Riley Biers soltou uma gargalhada alta, apontando para as flores e cutucando Dimitri com o cotovelo. — A Lince agora tem um admirador secreto bilionário em São Paulo?
Ben Chang, o piloto japonês conhecido por sua total falta de filtro social, correu até os buquês e arrancou um pequeno envelope de papel texturizado que estava preso entre as pétalas vermelhas.
— Deixa eu ver isso aqui! — Ben Chang gritou, abrindo o envelope com uma cara lavada inacreditável, enquanto os outros pilotos começavam a zombar e a fazer barulho ao meu redor. Ele limpou a garganta, lendo o cartão em voz alta com uma entonação dramática que ecoou por todo o salão: — “Rosas vermelhas para a maior pilota da F1. Você é o cara, Swan. Com amor, Peter.”
O salão explodiu em uma cacofonia de piadas, assovios e empurrões. Os mecânicos da Swan-Black começaram a rir, e no canto da sala, Alice Brandon e Leah Clearwater entraram em verdadeiro êxtase. Alice deu um grito agudo, batendo palmas de alegria ao decifrar o enigma no mesmo milésimo de segundo, enquanto Leah abria um sorriso de lado, balançando a cabeça diante da audácia da jogada.
— Peter? Quem diabo é Peter, Bella? — Riley Biers continuou a provocar, cruzando os braços e me encarando com um sorrisinho malicioso. — O Capitão Gancho vai ficar com ciúmes desse cara! Quem é o ricaço que está tentando comprar a liderança do campeonato com floricultura chique?
Olhei de relance para o lado. Edward Cullen estava encostado na bancada da Cullen Racing, segurando uma garrafa de água mineral com uma calmaria intocável. No entanto, o canto dos lábios dele estava contraído naquele seu habitual e irresistível sorriso torto e safado. Ele entrou na brincadeira do Biers, cruzando os olhos verdes com os meus com uma cumplicidade ardente que fez o meu estômago dar uma volta completa.
— É, Swan... conta para o grid — Edward provocou, a voz saindo naquele tom rouco e cínico que só eu conhecia na intimidade. Ele deu um gole na água, sem desviar o olhar das minhas bochechas que começavam a esquentar discretamente. — Quem é esse tal de Peter que sabe exatamente como amaciar o coração de pedra da nossa campeã?
Eu sustentei o olhar dele, sentindo uma onda de calor misturada ao triunfo da pista me invadir por completo. Eu sabia exatamente quem era. Peter... Peter Pan. O menino que não queria crescer. Era isso que o Edward estava aprontando logo cedo nas ruas de São Paulo antes da corrida. Ele havia encomendado as rosas mais caras da cidade apenas para me dar o sinal de que a confissão da madrugada continuava valendo, assinando com o nosso segredo mais íntimo da Figueira.
Recolhi o cartão da mão de Ben Chang com um movimento rápido, guardando-o no bolso do meu macacão vermelho da Ferrari, e lancei o meu melhor sorriso de lado na direção do grupo de pilotos, focando fixamente no par de olhos verdes que me assistia com uma satisfação masculina insuportável.
— É apenas um fã especial, rapazes — respondi, a voz saindo firme, misteriosa e perfeitamente imperturbável. — Um fã que, pelo visto, sabe exatamente o tamanho do meu braço na pista... e o quanto eu gosto de deixar os meus rivais comendo a poeira das minhas rosas vermelhas.
Peguei o buquê de rosas vermelhas entre os braços, sentindo o peso das flores e o perfume adocicado contrastar intensamente com o cheiro de borracha queimada que ainda vinha do meu macacão. Sob os olhares curiosos e as risadas abafadas dos pilotos que continuavam dispersando pelo salão, caminhei a passos calmos em direção a um corredor lateral mais isolado, que dava acesso aos escritórios dos comissários da FIA — uma área que eu sabia que estaria deserta àquela hora, já que todos estavam focados na organização da coletiva de imprensa oficial.
Assim que cruzei a porta corta-fogo, o barulho do salão diminuiu significativamente. Encostei-me na parede cinza do corredor, respirando fundo e deixando as flores descansarem no meu colo. Não demorou mais do que trinta segundos para que o som de passos firmes ecoasse no azulejo.
Edward passou pela porta de forma discreta, fechando-a atrás de si com um estalo suave. Ele já havia retirado a parte de cima do macacão azul-marinho da Cullen Racing, mantendo as mangas amarradas na cintura sobre a camiseta preta da equipe. Os olhos verdes dele me encontraram na penumbra do corredor, brilhando com aquela mesma intensidade que havia me desarmado na madrugada anterior.
— Obrigada pelas flores, Edward... — comecei, a minha voz saindo baixa, despida de qualquer tom de deboche da pista. Olhei para as pétalas perfeitas entre as minhas mãos. — Elas são realmente lindas. Uma das coisas mais chiques que já ganhei na vida.
Edward deu dois passos lentos na minha direção, eliminando o espaço entre nós e escorando uma das mãos na parede, bem acima do meu ombro. Ele inclinou a cabeça, exibindo aquele sorriso torto e sincero que fazia o meu coração capotar o giro.
— Elas não chegam nem perto da sua beleza, Bella — ele sussurrou, a voz saindo rouca e carregada de uma admiração tão crua que me fez prender o respiração. — Principalmente quando você está no topo do pódio, com champanhe no cabelo e esse olhar de quem sabe que é dona do mundo.
Eu engoli em seco, forçando a Lince dentro de mim a resgatar a racionalidade que o toque dele insistia em apagar. Desviei o olhar por um segundo, encarando o crachá da Ferrari estampado no meu peito.
— Edward, nós não podemos fazer isso... — murmurei, balançando a cabeça e colocando a mão livre contra o peito dele para impor uma distância mínima. — Nós somos rivais históricos. Nossos patrocinadores e as nossas equipes precisam dessa rivalidade para mover os bilhões da Fórmula 1. O Charlie e o Carlisle... eles nunca aceitariam isso. É profissionalmente perigoso demais para nós dois.
Edward segurou a minha mão que estava contra o seu peito, entrelaçando os nossos dedos com uma firmeza avassaladora. Ele deu mais um passo à frente, colando o corpo dele ao meu, os olhos verdes fixos nos meus sem desviar por um único milímetro.
— Eu falei sério quando disse que estou apaixonado por você, Bella — ele declarou, a voz firme, sem nenhuma máscara de marketing ou orgulho britânico. Era o homem se entregando por completo. — Eles não vão saber... O que o paddock pensa ou o que os patrocinadores querem não me importa mais. Eu não quero saber de política corporativa quando estou longe do cockpit. Eu só quero namorar você. Namora comigo, Bella?
Olhei para o rosto dele, vendo a sinceridade desarmante impressa em cada linha da sua expressão. Toda a raiva, toda a disputa por milésimos de segundo e todo o atrito acumulado desmoronaram diante daquela pergunta. A linha tênue entre o ódio e o amor havia sido completamente apagada.
Em vez de responder com palavras, puxei Edward pelo colarinho da camiseta preta, encurtando a distância restante e respondendo-o com um beijo profundo, ardente e cheio de paixão. Minha boca se abriu sob a dele em uma entrega total, selando o nosso pacto secreto ali mesmo, nos bastidores do circuito onde éramos inimigos, mas onde agora pertencíamos um ao outro.
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