NO LIMITE DO ATRITO
12 A Sombra de Emmett
Notas iniciais
Capítulo 12: A Sombra de Emmett
🏎️ POV BELLA
Sexta-Feira, Auditório Principal de Suzuka
O ar condicionado da sala de imprensa de Suzuka soprava rajadas congelantes contra a minha nuca, mas o suor frio que escorria pela minha espinha não tinha nada a ver com a temperatura do ambiente. À minha frente, sob uma bateria incansável de flashes que cegavam a vista e o zumbido contínuo de dezenas de gravadores digitais, repousava a mesa principal da coletiva oficial da FIA.
Ao meu lado esquerdo, separado por uma distância milimetricamente calculada de trinta centímetros, estava Edward Cullen. Ele vestia o polo azul-marinho oficial da Cullen Racing, impecavelmente passado, com os cabelos acobreados levemente desalinhados com aquele charme milimetricamente estudado que os fotógrafos adoravam. O rosto dele era uma máscara inexpressiva de gelo britânico, a exata imagem do "Príncipe de Azul-marinho" que a mídia aprendera a venerar e temer.
Não tínhamos trocado uma única palavra desde a discussão no motorhome na quarta-feira. Nem um olhar. Nem um aceno nos boxes. Éramos dois estranhos habitando o mesmo raio de destruição.
— Isabella Swan, aqui, da Gazzetta dello Sport — um jornalista italiano de cabelo grisalho levantou o microfone, projetando a voz no salão lotado. — As notícias sobre seu namoro com o Edward Cullen continuam dominando as manchetes mundiais. A diretoria da Ferrari e o próprio conselho da Swan demonstraram desconforto com a proximidade entre os dois líderes do campeonato. Como isso afeta sua mentalidade para o Grande Prêmio do Japão? Você confirma que há uma trégua em andamento na rivalidade entre as famílias?
Apertei o cabo de plástico do meu microfone até sentir os nós dos meus dedos estalarem. Senti o olhar de Edward se mover suavemente pelo canto do meu olho, mas recusei-me a virar o rosto.
— Fotos tiradas de ângulos distorcidos e que não passam de fake news, eu não nenhum tipo de relacionamento com Edward Cullen.— respondi, minha voz saindo limpa, cortante e desprovida de qualquer hesitação. — O meu foco nunca esteve tão afiado. Se a imprensa precisa inventar novelas para preencher espaço de jornal, isso é um problema de vocês, não meu. Na pista de Suzuka, a única coisa que me interessa é ver o Porsche do Cullen desaparecer comendo poeira pelo meu retrovisor.
Uma onda de murmúrios baixos correu pela plateia de jornalistas. O assessor de imprensa da FIA ao meu lado mexeu-se desconfortavelmente na cadeira. Sem perder a postura, Edward aproximou o microfone dos lábios. Um sorriso gélido e de puro deboche curvou o canto da sua boca.
— É curioso ouvir a Swan falar sobre 'manter o foco' — a voz de Edward ressoou pelos alto-falantes da sala, aveludada, carregada daquela arrogância calculada que fazia o meu sangue ferver. — Alguns pilotos parecem se desconcentrar com extrema facilidade quando o barulho de fora aumenta. Precisam dar explicações longas e dramáticas para justificar a própria insegurança. Eu não preciso de desculpas, e certamente não preciso de tréguas. O campeonato se ganha nas tangências, não nas coletivas de imprensa. Se a Swan acha que pode segurar a pressão de um motor Porsche na caça durante cinquenta e três voltas em Suzuka... sugiro que ela aperte os cintos e reze para que a chuva não venha.
Eu me virei devagar, encarando-o diretamente pela primeira vez em quarenta e oito horas. Os olhos verdes dele me sustentaram sem piscar, frios como lâminas de aço. Havia uma mágoa profunda ali, sepultada sob camadas de puro orgulho e afronta.
— Desculpa, Cullen? — rebati no microfone, fora da minha vez de falar, ignorando o sinal do moderador. — Você fala como se estivesse na frente na tabela. Lembre-me: quem cruzou a linha de chegada em primeiro em Interlagos?
— Quatro milésimos de segundo não é uma supremacia,Swan...— ele devolveu imediatamente, inclinando o corpo na minha direção, a voz baixando para um tom quase íntimo que o microfone captou com clareza aterrorizante. — É apenas sorte e a sorte costuma acabar exatamente na Curva 130R.
O moderador da FIA interveio às pressas, encerrando a coletiva sob o estalo descontrolado das câmeras. Levantamo-nos ao mesmo tempo. Durante três segundos, ficamos frente a frente sob as luzes do palco. Ninguém sorriu. Ninguém pediu desculpas. A guerra fria tinha chegado ao seu ápice.
Domingo, Grid de Largada do GP de Suzuka
O ronco dos vinte motores V6 turbo-híbridos ecoava pelas arquibancadas lotadas do Circuito de Suzuka como o rugido de um monstro mitológico prestes a despertar. O céu sobre a ilha de Honshu estava coberto por nuvens cinzentas e densas, mas a pista permanecia seca, envolta em uma atmosfera abafada e carregada de eletricidade estática.
Eu estava sentada no cockpit da minha Ferrari de número 14, ajustando a P2 no grid. À minha esquerda, na Pole Position por meros seis milésimos obtidos num treino classificatório brutal no sábado, estava a Porsche azul-marinho de Edward Cullen.
Jacob Black inclinou-se sobre a proteção lateral do meu cockpit, ajustando o cabo do rádio no meu capacete. O rosto do meu chefe de mecânicos estava tenso, com olheiras profundas denunciando noites mal dormidas.
— Bella, ouça com atenção — Jacob disse, a voz abafada pelo barulho dos geradores. — O vento de cauda na reta dos boxes está fortíssimo. A telemetria mostra que o Edward ajustou o aerofólio traseiro dele para velocidade final máxima nas retas, sacrificando um pouco de pressão nas curvas rápidas. Ele vai tentar te engolir na largada ou na aproximação do setor dois. Não force a entrada nos Esses se não tiver a linha limpa.
— Eu não vou dar espaço para ele, Jacob — respondi, fechando as mãos revestidas pelas luvas antichama ao redor do volante de fibra de carbono. — Nem um milímetro.
— Bells... — Jacob fez uma pausa, o olhar vacilando por um segundo ao olhar para a garagem da Cullen Racing mais adiante. — O seu pai está no pit wall. Ele não disse nada, mas... o clima no paddock está insuportável. Todo mundo lembra do que aconteceu neste mesmo circuito com o Emmett. Por favor... seja racional lá fora.
O nome do meu irmão bateu no meu peito com a força de um impacto hidráulico. Encarei a pista à frente, sentindo a adrenaline pura começar a substituir a fumaça de ressentimento que queimava na minha mente.
Abaixo a viseira escura do meu capacete. À minha esquerda, vi o capacete prateado e azul de Edward virar-se na minha direção. Por trás do acrílico, nossos olhares se cruzaram uma última vez. Não havia ódio, nem amor visível, apenas uma determinação cega e perigosa de dois pilotos que preferiam quebrar a ceder.
Os mecânicos abandonaram o grid. O sinal luminoso sobre a reta principal começou a acender, um a um, os cinco luzes vermelhas.
Um. Dois. Três. Quatro. Cinco.
As luzes se apagaram.
O estrondo do grid foi devastador. Minha Ferrari destracionou por uma fração de segundo na zebragem seca, mas consegui prender a traseira e colar no vácuo da Porsche de Edward antes mesmo da primeira perna da Curva 1. Edward cobriu a linha interna com uma agressividade implacável, forçando-me a frear quase dentro do limite da física para não estampar o seu difusor.
[RÁDIO — SWAN GARAGE]: Bela largada, Bella! Mantém a P2, temperatura dos pneus perfeita. O Cullen tá forçando o ritmo desde a volta um.
Durante as quarenta voltas seguintes, a corrida se transformou em uma exibição de pilotagem cirúrgica e aterrorizante. Edward e eu nos isolamos na liderança, abrindo mais de vinte e cinco segundos de vantagem para o terceiro colocado. Tínhamos nos tornado um único organismo duplo: ele acelerando no limite do atrito, eu colada a menos de três décimos de segundo do aerofólio dele, aproveitando cada centímetro de vácuo.
Na volta 48 de 53, a oportunidade surgiu na chicane Casio. Edward espalhou levemente a entrada da curva para evitar um retardatário. Enfiei a Ferrari no espaço mínimo entre a zebragem e o pneu dele, tocando as rodas de lado em uma manobra audaciosa que arrancou gritos de incredulidade das arquibancadas. Consegui a tração limpa na saída e assumi a P1.
[RÁDIO — SWAN GARAGE]: P1! P1, BELLA! QUE MANOBRA! Faltam cinco voltas! Mantém a cabeça no lugar, o Cullen tá furioso atrás!
Pelo retrovisor, vi a Porsche de Edward crescer furiosamente. Ele não aceitava a derrota. A cada freada, ele colocava o bico do carro ao lado do meu, forçando trocas de posição no limite do regulamento. Éramos dois cometas em rota de colisão desgovernada.
Volta 52. Penúltima volta. A chuva prometida finalmente começou a dar seus primeiros sinais na forma de uma garoa fina e traiçoeira que manchava a viseira do capacete. O asfalto da Curva 130R, a varredura mais rápida e assustadora do automobilismo mundial, feita a mais de 300 km/h, estava se tornando uma roleta russa de aderência.
[RÁDIO — SWAN GARAGE]: Bella, cuidado com a umidade no setor três! Cuidado na 130R!
Ignorei o aviso. Eu podia sentir o hálito quente do motor da Porsche nas minhas costas. Edward colocou o carro por fora, tentando uma manobra impossível pela linha molhada da curva.
Entrei na 130R a 305 km/h, segurando o volante com toda a força do meu corpo. Mas a combinação de pneu slick gasto, a fita de asfalto úmida e a turbulência do ar do carro de Edward ao meu lado quebrou o equilíbrio aerodinâmico da Ferrari de forma súbita.
A traseira do meu carro escapou de golpe.
Tentei esterçar o volante para corrigir a trajetória, mas era tarde demais. A Ferrari rodou a mais de 280 km/h, decolando na zebra externa e colidindo com uma violência descomunal contra a barreira de pneus e o muro de concreto.
O estalo de fibra de carbono se partindo ecoou dentro do meu capacete como uma explosão. A força G destruidora arremessou minha cabeça para a frente, e a escuridão me atingiu por um segundo antes do carro começar a capotar fora de controle, destruindo a suspensão, o aerofólio e a estrutura de proteção, até parar de cabeça para baixo no gramado de proteção.
O mundo ficou silencioso e distorcido. Eu estava presa pelos cintos de cinco pontas, suspensa de cabeça para baixo. O cheiro sufocante de gasolina de aviação e óleo queimado inundou o interior do cockpit destruído. Tentei mover as mãos, mas meus braços pesavam toneladas. O painel eletrônico piscava em vermelho frenético antes de apagar por completo.
Então veio o calor. Um estalo grave vindo da parte traseira, perto do tanque de combustível, e o brilho alaranjado das chamas começou a lamber a lateral do meu macacão, avançando rapidamente em direção ao cockpit.
[RÁDIO — SWAN GARAGE]: BELLA! BELLA, VOCÊ TÁ ME OUVINDO?! RESPONDE, BELLA! PELO AMOR DE DEUS, RESPONDE!
A voz de Jacob era apenas um ruído fraco e distante. Minha visão estava turva, coberta por uma névoa escura. O pânico paralisante tomou conta dos meus pulmões. Era exatamente como o relatório do acidente do Emmett dizia. A mesma curva. O mesmo incêndio. O mesmo fim.
Eu vou morrer aqui , pensei, as lágrimas finalmente transbordando sob a viseira enquanto o fogo consumia o ar ao meu redor.
🏎️ POV EDWARD
Eu vi tudo.
Vi o exato momento em que a traseira da Ferrari de Bella perdeu o contato com o asfalto. Vi o carro vermelho decolar, girar no ar como um brinquedo quebrado e se despedaçar contra o muro da 130R a quase trezentos quilômetros por hora. O som do impacto foi um golpe direto no meu crânio.
[RÁDIO — CULLEN GARAGE]: Bandeira amarela total! Cullen, mantenha o ritmo de safety car, diminua a velocidade! A Ferrari da Swan sofreu um impacto gravíssimo no setor três!
— NÃO! — o grito rasgou a minha própria garganta dentro do capacete.
[RÁDIO — CULLEN GARAGE]: Edward, mantenha o carro na pista! Os fiscais estão a caminho! Não faça nenhuma loucura!
Ignorei solenemente o rádio da minha equipe. Pisei no freio com toda a força do meu pé direito, fazendo os pneus da Porsche cantarem enquanto eu atravessava o carro de atravessado no meio da pista, parando a poucos metros dos destroços fumegantes da Ferrari.
Puxei o cinto de segurança, soltei o volante de um soco e arranquei a trava da porta. Não esperei os fiscais de prova. Não olhei para trás. Atravessei a área de escape correndo como um insano, sentindo o calor brutal da fumaça preta que subia em espirais para o céu de Suzuka.
O carro dela estava destruído, de cabeça para baixo, e o fogo devorava rapidamente a parte traseira, alastrando-se para a célula de sobrevivência do cockpit.
— BELLA! — gritei em desespero, me jogando sobre a grama e me ajoelhando ao lado da estrutura retorcida. — MEU AMOR, VOCÊ PODE ME OUVR?!
Nenhuma resposta. Através do acrílico da viseira dela, vi que o capacete estava caído para o lado, imóvel. O cheiro de combustível e borracha queimada era insuportável, e o calor do incêndio começou a derreter a película de proteção do meu próprio capacete.
— NÃO HOJE! HOJE NÃO! — bradei, tomado por uma força sobrenatural impulsionada pelo terror absoluto de perdê-la.
Ajoelhei-me na fumaça e meti as mãos nuas, protegidas apenas pelas luvas de corrida para dentro da estrutura de carbono destruída. O metal e a fibra de carbono estavam em uma temperatura escaldante, queimando o tecido das minhas luvas, mas eu não sentia a dor. Encontre a trava central do cinto de segurança de Bella e a apertei com força até ouvir o estalo de liberação.
O corpo inerte de Bella desabou contra a parte superior do cockpit. Enfiei os meus braços por debaixo dos ombros dela, travando as minhas mãos ao redor do seu peito.
— Vamos, meu amor ! Me ajuda! Por favor, me ajuda! — supliquei, as lágrimas cegando os meus olhos dentro do capacete.
Com um urro de puro desespero, puxei o corpo dela para fora dos destroços retorcidos. A estrutura arruinada da carenagem rasgou o tecido do meu macacão e feriu os meus braços, mas continuei puxando até conseguir arrancá-la por completo da armadilha de ferro e fogo.
Puxei o corpo dela para os meus braços e rastejei para trás na grama, afastando-nos a toda velocidade da Ferrari destruída.
Dois segundos depois, o tanque de combustível principal da Ferrari cedeu ao calor intenso e explodiu em uma colossal bola de fogo e detritos , arremessando uma onda de choque que nos jogou de costas na grama molhada.
O calor da explosão queimou as costas do meu macacão, mas eu usei o meu próprio corpo como escudo sobre o dela, cobrindo-a por completo até que a chuva de destroços cessasse.
O silêncio caiu sobre a área do acidente, quebrado apenas pelo crepitar das chamas gigantescas e pelas sirenes dos carros médicos que finalmente se aproximavam a toda velocidade pela pista.
Ajoelhei-me sobre o gramado, tremendo incontrolavelmente, e retirei com as mãos trêmulas o meu próprio capacete, jogando-o no chão. Em seguida, desencaixei as travas do capacete de Bella, tirando-o com todo o cuidado do mundo do rosto dela.
O rosto de Bella estava pálido, com pequenos cortes na testa e marcas de fuligem nas bochechas, mas o peito dela subia e descia em uma respiração fraca e descompassada.
— Bella... amor, por favor... abre os olhos... — apertei o rosto dela entre as minhas mãos trêmulas, cobrindo a testa dela de beijos desesperados, sem importar que a equipe médica e as câmeras de televisão de todo o mundo estivessem chegando ao local. — Por favor, amor... eu tô aqui. Eu tô aqui, meu amor... me desculpa... me desculpa por tudo...não me deixa...
Os cílios de Bella tremeram devagar. Os olhos castanhos dela se abriram com dificuldade, focando lentamente no meu rosto manchado de suor, lágrimas e fuligem.
— Ed...ward...e...eu...am...amo...você — a voz dela saiu em um sopro fraco, quase inaudível.
Uma lágrima de alívio puro cortou a sujeira no meu rosto e caiu sobre a bochecha dela. Deitei a minha testa contra a dela, chorando abertamente no meio da pista de Suzuka, enquanto os médicos da FIA nos cercavam com macas e equipamentos de emergência.
— Eu tô aqui, meu amor — murmurei contra os lábios dela, segurando a mão de Bella junto ao meu peito, sentindo o coração dela bater contra o meu. — Eu fica comigo...não me deixa...
A corrida havia acabado. O campeonato tinha sido esquecido. Naquele pedaço de grama sob a chuva do Japão, cercados pelo fogo e pelos destroços da nossa rivalidade, apenas uma verdade sobrevivia: nós tínhamos nascido para pertencer um ao outro, e nem a morte seria capaz de mudar isso.
O cheiro penetrante de antisséptico daquela sala de espera parecia sufocar ainda mais o ar pesado da noite. O som do relógio de parede marcava cada segundo de uma espera dilacerante. Eu estava sentado em uma das cadeiras de plástico, de cabeça baixa, com os dedos entrelaçados nos cabelos, lutando para manter o controle enquanto meu pai, Carlisle, andava de um lado para o outro.
E no canto oposto da sala estava Charlie.
O homem parecia prestes a explodir a qualquer momento. Ver a única filha sobrevivente dar entrada no hospital após um acidente terrível na mesma pista que tirou a vida de Emmett anos atrás tinha destruído qualquer resto de frieza nele. Não havia o homem de negócios implacável da Swan-Black ali; havia apenas um pai desesperado e furioso. A rivalidade histórica entre a Swan-Black e a Cullen Racing não importava para mim naquele segundo, mas eu sabia que, para Charlie, a minha presença ao lado da filha dele só tornava o pesadelo ainda mais insuportável.
— O que você ainda está fazendo aqui, Cullen? — Charlie vociferou, a voz rouca quebrando o silêncio da sala. Ele deu dois passos na minha direção, o rosto vermelho de raiva. — A culpa é da sua família! A sua equipe nos empurrou até o limite naquela pista! Primeiro o Emmett... e agora a Bella! Se acontecer alguma coisa com ela, eu juro que acabo com vocês!
— Chega, Charlie — Carlisle interveio, posicionando-se de forma firme entre nós, mantendo a voz baixa, porém imperiosa. — Não é momento para a rixa das nossas equipes. Estamos todos aqui pelo mesmo motivo.
— Não coloque a minha dor no mesmo nível que a sua, Carlisle! — Charlie gritou, descontrolado, avançando mais um passo.
Antes que a discussão escalasse para algo físico, as portas duplas do corredor de emergência se abriram com um estrondo seco. Um médico de avental cirúrgico e expressão exausta entrou na sala, fazendo o ambiente congelar instantaneamente.
— Acompanhantes de Isabella Swan? — perguntou ele.
Charlie se projetou para a frente, a voz trêmula de pavor:
— Sou o pai dela! Pelo amor de Deus, doutor, me diga que a minha filha está viva!
O médico ergueu a mão, pedindo calma, e olhou para o grupo Tenso reunido.
— Acalme-se, senhor. A Bella está viva e conseguimos estabilizá-la.
Um suspiro pesado escapou da minha garganta, e senti minhas pernas fraquejarem por um segundo. Fechei os olhos, agradecendo em silêncio. Mas o médico continuou, e suas próximas palavras caíram como uma bomba no meio da sala:
— A Bella está fora de perigo imediato, e o bebê também está bem.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Chocante.
— O... o quê? — Charlie gaguejou, o rosto empalidecendo drasticamente. — Que bebê? De que diabo o senhor está falando?
Eu travei no lugar. Olhei para o médico, com o coração disparado a um ritmo frenético. Bebê? Bella... grávida?
— A paciente está no início de uma gestação — explicou o médico, alheio ao caos que acabara de instaurar. — Pelos exames, ela está de pouquíssimas semanas. É muito provável que nem a própria soubesse ainda. E é justamente por isso que o caso dela se tornou extremamente grave e delicado.
O médico deu um passo à frente, ajustando a postura ao perceber a tensão absurda entre as famílias.
— O impacto do acidente causou um trauma físico imenso. O corpo de uma mulher nos primeiros estágios da gravidez passa por alterações hormonais e vasculares severas. Diante de um choque desse porte, o risco de um aborto espontâneo ou de uma hemorragia interna maciça era gigantesco. A estabilização foi extremamente difícil porque a medicação de emergência que normalmente usaríamos para a dor e para conter o choque podia ter sido fatal para o feto. Tivemos que equilibrar a vida da mãe e a manutenção da gestação no limite da medicina.
A mente de Charlie parecia processar a informação em câmara lenta, até que o choque deu lugar a uma fúria cega. Ele lentamente virou o rosto na minha direção, os olhos cravados em mim como lâminas.
— Você... — Charlie rosnou, a voz falhando de ódio. — Ela está grávida... de um Cullen?!
— Charlie, se acalme! — Carlisle tentou intervir, surpreso com a notícia, mas mantendo a postura.
— Se acalmar?! — Charlie explodiu, partindo para cima de mim e me agarrando pelo colarinho da jaqueta com força total. — Você desgraçou a minha filha! A Swan-Black perdeu o Emmett naquela pista maldita, e agora você colocou a vida da Bella e de uma criança em risco com a sua inconsequência! Fora daqui! Eu não quero um Cullen perto da minha filha nunca mais!
Não me mexi para me defender do empurrão. Minha mente ainda tentava absorver a ideia de que a mulher que eu amava carregava um filho meu no ventre, e que quase perdi os dois no mesmo dia.
— Eu não vou embora — respondi com a voz firme, encarando Charlie nos olhos, apesar da tremedeira nas minhas mãos. — O senhor pode me odiar o quanto quiser, a rivalidade das nossas famílias pode continuar, mas eu amo a sua filha e ela está carregando meu filho. Eu não saio daqui.
— Doutor! — Charlie gritou para o médico, ignorando-me completamente. — Eu sou o pai dela e o responsável legal enquanto ela estiver inconsciente. Tire esse rapaz da sala de observação agora!
O médico, visivelmente desconfortável com o escândalo no meio do hospital, pigarreou:
— Senhores, por favor! Este é um ambiente hospitalar. A Bella precisa de repouso absoluto. O estresse ao qual o corpo dela foi submetido quase custou a vida dela e do bebê. Se vocês continuarem com essa briga aqui dentro, terei que pedir à segurança para retirar todos vocês.
Charlie soltou meu colarinho com um empurrão violento, respirando fundo, tentando conter a fúria que o consumia.
— Eu quero ver a minha filha — Charlie exigiu, a voz embargada pela mistura de raiva e choro. — Agora.
— Ela acabou de ser transferida para a UTI para monitoramento contínuo pelas próximas horas — o médico disse. — Apenas uma pessoa por vez, por poucos minutos.
Charlie olhou para mim uma última vez com um desprezo profundo antes de seguir o médico pelo corredor. Fiquei parado no meio da sala de espera, com o impacto daquela revelação ecoando na minha cabeça. Carlisle colocou a mão no meu ombro, mas eu mal conseguia sentir. A rivalidade das nossas equipes tinha acabado de virar uma guerra declarada, mas nada disso importava. A Bella estava viva. E nós seríamos pais.
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