NO GOD: But vampires yés
3 Capítulo 3: Mancebo
Notas iniciais
Então disse Jesus: "Deixem vir a mim as crianças e não as impeçam; pois o Reino dos céus pertence aos que são semelhantes a elas".
Matheus 19:14
― Daynian... Daynian... ― alguém parecia ter me achado no meio daquele caos.
Eu acordei assustado, tendo uma visão compartilhada do teto e do rosto do meu pai. Ele parecia preocupado por me ver suando, mas eu disse que só estava tendo um gostoso pesadelo. Notei que havia adormecido com os fones do velho walkman nos ouvidos e o Fallen, do falecido grupo de New Metal, evanescence, ainda tocava.
Meu pai foi a pequena cozinha americana, enquanto eu afastava a cortina da janela para certificar-me de que havia anoitecido. Eu notei que havia dormido de calça jeans e minha convencional regata preta.
― Como foi o seu dia na fábrica? ― eu puxei uma cadeira e sorri ao sentir o cheiro dos ovos mexidos amanteigados que ele havia acabado de fazer. ― Ovos mexidos? É meu aniversário?
Ele riu e começou a descrever a rotina convencional dele que eu estava cansado de ouvir. Eu só quis puxar papo, porque sabia exatamente o porquê de tanto mimo por parte dele. Eu só não estava a fim, só isso.
Antes que o Filho de Deus retornasse para buscar os seus favoritos, meu pai cuidava de uma pequena clínica veterinária. Ele estava castrando uma linda gatinha quando tudo aconteceu. Agora, ele trabalhava em uma fábrica no centro da cidade, construindo balas de prata ungida, estacas de cedro e todo tipo de arma projetada pelos engenheiros solares.
― Empolgado para a sua primeira noite de aula?
― Uhum! ― terrivelmente convincente. ― Eu só fiquei chateado que Sany não fará tantas matérias comigo.
A conversa foi interrompida por gritos e som de latas de lixo sendo reviradas e projéteis atingindo as janelas blindadas da casa.
― Eles estão animados, hoje! ― disse meu pai falsamente tranquilo. ― Quanto acha que esse novo esquadrão dura?
― Uma semana!
― Sempre otimista! Meu garoto!
Ele sentou-se para lanchar seu misto-quente, enquanto eu me deliciava de torradas com manteigas e um copo duplo de café com leite. Terminado o lanche, fui tomar um banho frio para despertar e depois um banho com a loção a base de alho. Afinal de contas, se eu batesse de frente com um daqueles malditos, eu precisaria estar minimamente temperado para ser jantado.
Eu coloquei minha bermuda jeans, uma camisa preta e lisa, meu par de meias soquete brancas e meu característico All star cano rasteiro, vermelho desbotado. Verifiquei a mochila e vi que meu pai havia comprado tudo que estava na lista de material da Hollydale High— local que confirmaria o fim da minha vida adolescente e prelúdio da morte eminente que eu sofreria.
― Tchau pai!
― DAYNIAN! ― ele soltou um grito. ― Está de noite.
Eu deveria estar sob efeito do sono ainda. Vi que estava me encaminhando em direção à porta e preparado para desativas as mais de dez trancas da porta de ferro puro, benzida com óleo e salvia, e com um símbolo rúnico talhado que se ativou quando eu a toquei.
― Desculpa, eu ainda estou...
― EU SEI QUE O DIA DE HOJE É DIFÍCIL.
Ele não se aguentou. Eu continuei de costas, cerrei os punhos e acho que corria risco de ficar banguela com a força que trincava os meus dentes.
― Eu só errei a maldita saída.
― Não precisa se fingir de forte que não está...
― Chateado? ― ele virou o olhar. ― Eu sempre estou chateado.
― Eu a perdi também, eu sei como você está se...
― Não sabe. ― cortei-o friamente e insolentemente, me aproximei, ficando cara a cara com aquele homem vinte centímetros mais alto que eu, mirando o grosso bidode felpudo. ― Eu não fiquei chateado apenas por Deus ter levado a minha mãe, mas eu fico puto com o fato de ter sido a única criança que não subiu com seus pais.
Meu pai tentou me abraçar, mas eu me livrei dos seus braços. Voltei a porta da frente e ativei aquela runa idiota de novo.
― Esta merda está com defeito. Ao invés de ficar tentando adivinhar como eu estou me sentindo, porque não a conserta? Afinal, se ela reage a humanos, ela pode falhar com as criaturas da noite.
Eu peguei minha mochila, desviei do meu pai e puxei o tapete no centro da sala quarto, revelando um alçapão de madeira, no meio do piso de tábua corrida. Eu abri o alçapão e pela primeira vez, naquela noite, eu me senti culpado em encarar o meu pai.
― Eu te amo, filho.
― Eu também... Tchau.
Bati o alçapão e comecei a descer a escada rente a parede em direção aos esgotos. Eles eram a passagem mais segura durante a noite. Na verdade, eram túneis, a tubulação de dejetos corria em outras vias.
Eles demoraram cerca de três anos para ficarem prontos e serem cem por cento seguros. Os refletores com raio UV garantiam que caso algum ser infernal indesejado conseguisse se infiltrar, fosse fritado no segundo seguinte.
Eu acompanhei a marcha de adolescentes que seguiam pelo caminho com o mesmo destino. Eu me misturei a eles, agora, me culpando por explodir com o meu pai. Por mais que ele estivesse certo. Eu estava puto demais.
O apocalipse aconteceu no último dia de Fevereiro, durante um ano bissexto. Logo, o memorial sempre acontecia no dia primeiro de Março, no caso, hoje. E todo ano, eu era revirado em exames, exposto a materiais sagradamente radioativos para os monstros, na tentativa de entenderem o porquê de Deus ter me rejeitado.
Tanto que fizeram uma identidade falsa pra mim, constando que eu tenho dezessete anos. Isso me colocaria como pré-adolescente nos acontecimentos de sete anos atrás, idade em que haviam casos de permanência como a minha.
― Olá, Day! ― fui arrancado dos meus pensamentos ao ouvir aquela voz familiar. ― Noite sinistra!
― Noite! ― devolvi o cumprimento. ― Como está, Eddy?
Imaginem um adolescente incrivelmente branco a ponto de suas veias parecerem linhas férreas por debaixo da pele. Cabelo lisos, curtos, mas com um topete pretuberante na frente. Sorriso bobo e infantil, contrastando com seus um metro e oitenta de estatura.
Mas o ponto alto eram as roupas. Eddy parecia um turista do Hawaí. Ele vestia um short esportivo de pano maleável, sandálias de tira de couro e uma blusa florida de abotoar e pano quase transparente.
― Eu vou muito bem! Empolgado pelo primeiro dia de aula! ― ele sacou o seu horário do bolso da frente da sua mochila e comparou com o meu. ― Teremos a primeira aula juntos. Oba!
― Runas antigas? Introdução aos manuscritos do mar morto? Aria — nível 1? ― foi impossível de não notar as aulas extra-currículares. ― Você por um acaso...
― Não sei ainda, mas se eu for seguir os passos do meu pai quem sabe eu me torne um...
― Padre? ― ergui uma sobrancelha. ― Você não é o um cara a favor da abstinência sexual, Eddy.
― Mas estou em abstinência desde sempre... ― ele sacudiu os ombros. ― Contra a minha vontade, mas...
O assunto foi alternando conforme os corredores do esgoto iam se alargando para contemplar os outros jovens que vinham de outras áreas da cidade. Haviam calouros como nós e veteranos que nos encaravam sedentos, imaginando que trotes pregariam em nós.
― Eu já ia esquecendo! ― disse Eddy sacando um pote de protetor solar fator trinta. ― Daynian! Você não pode sair sem um desses. Não é porque você tem mais melanina que não vai morrer de câncer.
― Fica tranquilo, Eddy. Dificilmente teremos uma vida longa! ― Eddy fez o sinal da cruz me repreendendo e eu ri. ― Vamos procurar uma fila, vamos.
Quando chegamos numa espécie de Hall que era o encontro de três grandes túneis esgotais, o chão começou a se ascender e Eddy soltou um grito fino que fez com que os adolescentes ao redor rissem de nós. As runas se ativaram e pareciam escanear a todos nós. Um mecanismo de defesa que visava identificar D.N.A noturno.
Graças ao sol, ninguém foi exposto, então começamos seguir a fila indiana até uma construção de ferro puro, benzido com óleo e salvia e mais runas. Eram os elevadores que nos levariam ao Hall da escola. Neles, cabiam dez alunos por vez e haviam três que operavam simultaneamente.
― Quer? ― Eddy me ofereceu o seu protetor e eu o encarei assustado ao ver que ele tinha passado tanto creme no rosto que estava mais fantasmagórico que de costume. ― O que foi?
― Nada, gasparzinho.
Ele me socou no ombro e adentramos o elevador. Subimos alguns andares e saímos no Hall da escola de frente para um corredor gigantesco, cheios de armários presos às paredes. Me incomodei um pouco com a intensidade dos refletores UV e fui obrigado a encarar o chão por alguns segundos. Foi aí que notei que a Hollydale High possuia pisos pretos e brancos, alternados, igualzinho um tabuleiro de Xadrez.
― Daynian! ― eu reconheci aquela voz feminina e notei que Sany se aproximava de nós, mas ao colocar os olhos no turista fantasmagórico, eu senti uma breve e leve feição de desagrado.
Suponho que uma bruxa e um clérigo não devam se dar bem.
― Estão prontos para o fim de nossos dias, meus amigos? ― encarei a ambos e a tensão desapareceu.
Nos separamos um pouco para guardar parte dos nossos materiais em nossos armários. Nos encontramos novamente no meio do corredor e Sany de braços dados comigo de um lado e Eddy sorridente do outro, me acompanharam até a sala do primeiro ano, onde ocorreria a nossa primeira aula do dia e do ensino médio.
Naquele momento, não havia como voltar atrás. Nós fazíamos parte da quadragésima turma de formandos do fundamental que seriam treinados para o combate das criaturas da noite. Eu só não sabia que os desafios do ensino médio eram tão mortais quanto os monstros que nos aguardavam do lado de fora.
― Preparados? ― disse Sany paralisada, observando um professor negro como nós, arrumando a sua mesa e preparando a sua aula.
― “No mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo; eu venci o mundo” — João 16.33.― recitou o clérigo.
― Bruxa! ― segurei a mão de Sany. ― Padre! ― encarei Eddy. ― Vamos salvar o mundo.
Eu botei o primeiro pé dentro da sala, depois da minha esdruxula frase de efeito, saudei o professor e procurei um lugar no fundo da turma, onde pudesse dormir sem ser perturbado.
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