NO GOD: But vampires yés
4 Capítulo 4: Hollydale High
Notas iniciais
Ensina a criança no Caminho em que deve andar, e mesmo quando for idoso não se desviará dele. Pv 22:6.
O quadro negro estava cheio de datas, nomes de personalidades importantes, heróis dessa guerra sangrenta e nome de várias criaturas que antes, achávamos que só existiam em fábulas, contos de terror e livros de RPG. Já o meu caderno estava vazio de conteúdo, mas abarrotado de desenhos. Eu era um péssimo cartunista, mas isso não me impedia de tentar.
Eddy era o típico nerd estudioso. Tomava nota até da respiração do professor David Oliver. Era um homem que beirava os trinta anos, alto, que pesava cerca de uns cento e vinte quilos. Ele usava um dreadlook que criou em Sany, uma identificação instantânea. A pretensa feiticeira não parava de comentar que pediria o número da trancista dele.
― Você pode fingir que está prestando atenção na aula? ― ralhou o menino nerd.
― História das criaturas da noite não é algo que vá mudar muito a minha vida.
― É aí que o senhor se engana, Sr Dilan.
A turma virou-se para trás e contemplaram o meu rosto negro e sem graça. O professor vinha caminhando na minha direção, lentamente, com um sorriso leve e falso no rosto. Ele parou ao lado da minha carteira e encarou os meus desenhos no caderno.
― Como se mata um vampiro, Sr Dilan?
― Com... com... ― Eddy tentava balbuciar algo por detrás do professor. ― Com uma estaca de madeira no coração!
― Errado! ― ele arregalou os olhos. ― A madeira precisa ser de cedro e virgem. Não pode ter sido envernizada ou tocada por qualquer produto. E sim, o local do golpe precisa ser o coração.
Ele foi se afastando e eu pude ver alguns alunos abafando risadas, olhando para mim. A vergonha se transformou em raiva e foi aí que alguns não se contiveram e riram em alto e bom som.
― Aconselho que venha até aqui e jogue esses desenhos fora, esqueça os filmes clássicos de vampiros e preste atenção na minha aula.
― Não preciso ir até aí. ― ele voltou seu olhar para mim, curioso pelo fato deu arrancar algumas páginas do caderno, amassá-las em formato de bolas e atirá-las no ar.
O professor ergueu as sobrancelhas por detrás dos óculos redondos, achando que ele era o alvo dos projéteis, mas surpreendeu-se quando elas ricochetearam na parede e caíram certeiramente na lata de lixo ao lado de sua escrivaninha.
Todo o burburinho deu lugar a um silêncio fúnebre, mas só até Eddy puxar um salva de palmas que foi surpreendentemente seguida pelo restante da turma. O professor de História das criaturas da noite me encarou com um olhar interessado, mas fez um sinal para que a revoada de adolescentes parasse com a bagunça.
― Aproveitando o gancho do Sr Dilan, vamos falar sobre essas criaturas que se alimentam de sangue.
David começou a citar filmes e séries, clássicos e versões adolescentes bizarras e vampirescas. Crepúsculo, Entrevista com Vampiro e até 30 dias de noite. Qual deles dizia a verdade? O professor afirmou que nenhum deles, por mais que ele nutrisse um carinho especial por The Vampire Diaries e True Blood.
― O doutor Bram Stoker descobriu no segundo ano pós-apocalipse como os vampiros conseguem infectar suas vítimas. Eles inserem o próprio sangue nas veias da vítima que age como um vírus que muda completamente a estrutura celular do indivíduo em até quarenta e oito horas.
― Mas é necessário que esse corpo se alimente de sangue humano, professor!
― Vejo que é uma aluna aplicada, srta Meyers. ― Sany lançou um olhar orgulhoso e eu mostrei o dedo do meio pra ela. Ela riu. ― Como a srta Meyers pontuou muito bem, esse corpo morre e é reanimado em cerca de doze horas. Normalmente, o morto é desprovido de todas as suas faculdades cognitivas e é motivado apenas por uma necessidade básica: A fome.
David sorriu ao ver alguns aluno se benzendo, assustados, mas seu olhar não saía de cima de mim e aquilo estava começando a me incomodar.
― No início do ataque das criaturas da noite, foi um grande caos. Os mortos levantavam de suas tumbas e perseguiam os humanos. Por mais que lentos, desajeitados e muito sensíveis a golpes físicos, eles acabaram conseguindo se alimentar e rapidamente se tornaram o exército que conhecemos hoje.
― Mas professor! ― Eddy levantou a mão e atraiu toda atenção para si. ― Ninguém nunca assistiu The Walking Dead?
― Creio que não, porque depois da saga do Governador fica muito ruim, Sr Cody... ― a sala explodiu em risadas e eu abri um leve sorriso. Talvez esse cara não fosse tão ruim e babaca. ― Como disse: A vida real é bem diferente da fábula e por isso, estamos na situação em que estamos. A lição de hoje é: Vocês vão encontrar vários desses zumbis pelas ruas a procura de uma oportunidade de uma gota de sangue. Normalmente, os vampiros capturam humanos que sirvam de “comida instantânea” para os zumbis.
Acho que finalmente bateu a consciência do que estávamos fazendo ali. Era tão bizarro olhar todas aquelas informações no quadro e pensar que eu não nasci nesse mundo louco. Eu lembrava exatamente de como o mundo era antes de tudo terminar.
O som dos auto-falantes cortou a explicação do Prof David e os meus pensamentos, simultaneamente. A distorção incomodava os ouvidos, como se estivesse cravando agulhas nos tímpanos e a voz do diretor Portman não ajudava. Era aguda e anasalada.
― Sejam bem vindos ao primeiro dia de aula na Hollydale High. Espero que vocês tenham um início de aulas tranquilo. Dou as boas vindas, principalmente, aos novos alunos do primeiro ano que formarão o quadragésimo esquadrão de combate contra as criaturas da noite, o que também me lembra de advertir aos veteranos para que peguem levem nos trotes realizados com os mesmos. ― nós conseguimos ouvir a vaia das turmas no andar de cima, provavelmente se tratava dos veteranos. ― E voltando aos novatos, eu super recomendo que vocês procurem por um clube que tenha a ver com vocês. Mesmo depois do apocalipse, a adolescência é uma fase difícil, portanto, tentem se divertir um pouco. Boas aulas.
Sincronizadamente com o recado do diretor, veio a sirene do término das aulas. Os alunos foram guardando os materiais e checando seus horários pessoais.
― Eu vou para aula de Pergaminhos antigos! ― disse Eddy.
― Eu vou para Introdução a Wicca. ― comentou Sany.
― Eu vou para o laboratório. ― meus amigos fecharam os seus sorrisos e sentiram pena de mim, mas eu revirei os olhos. ― Fiquem tranquilos, não é porque eu fui exposto no primeiro dia de aula que significa que o restante do dia será um caos também.
Eu acabei esbarrando no meu estojo e as canetas se espalharam pelo chão. Pedi que Eddy e Sany fossem na frente e fiquei ali catando meus materiais.
― Sr Dilan! ― o professor estava ao meu lado e me mirava com aquele olhar esquisito novamente. ― Sei que precisa ir para a próxima aula e a pergunta que lhe farei a seguir, pode ser meio esquisita, mas... Sempre teve essa mira?
Eu ergui uma sobrancelha e demorei a processar o que aquele homem queria dizer. Eu, então, encarei a lata de lixo ao lado de sua escrivania e percebi que ele falava da bolinha de papel que eu havia atirado.
― Sim... bem, eu acho que sim.
― Já sabe em que clube vai entrar?
― Provavelmente nenhum.
Peguei minhas coisas e sem esperar por uma resposta dele, eu já me encaminhava a porta.
― Caso até o final do dia, ainda mantenha essa resposta, eu gostaria que fosse a minha sala. Eu gostaria de lhe fazer uma proposta.
― Do que está falando? ― eu já preparava o punho. Sei lá, vai que esse cara é um pederasta. ― Por que você está me olhando desse jeito?
― Me desculpe se fui e estou sendo invasivo com o senhor, mas... Eu tenho motivos para acreditar que o senhor seria uma aposta perfeita para o meu clube.
― E que clube seria o seu?
― Caçadores.
Eu arregalei os olhos e dei as costas sem qualquer resposta. Atravessei a porta da sala vazia e acabei esbarrando num rapaz de cabelos cacheados que caiam por cima de seus ombros. Ele me encarou e eu pude ver o seu grande nariz ossudo apontado para mim e seu olhar frio mirando-me.
― Me desculpe. ― eu gelei e segui para o laboratório.
― Quantas vezes, eu preciso dizer que não precisamos de ajuda, David? ― disse ele num tom chateado ao professor de História das criaturas da noite. ― Nós damos conta.
― Não sei, Petter. Eu fiquei com um bom pressentimento com o Sr Dilan.
― Então, deixe-me dar as boas vindas a ele. Afinal, eu sou o melhor caçador do seu bando, certo?
― Não exagere.
O menino torceu o nariz e abriu um sorriso malicioso. E sem que eu percebesse, ele me seguia até o laboratório. A verdadeira prova de fogo estava por vir e eu jamais imaginaria que o meu primeiro dia de aula seria tão sangrento.
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