NIKUTAI NO YOUKUBÔ (desejos da carne)
12 Capítulo 12 A FORÇA DA PAIXÃO...
Notas iniciais
“Fique...”
Em outros tempos, ele não hesitaria em tomar Minos nos braços e saciar o desejo feroz que surgia sempre que o tocava. Agora mesmo, ao acariciar com o dedo o lábio inferior dele, poderia devorá-lo com um beijo profundo e depois correr as mãos e a língua por todo aquele corpo delicioso e ardente...
Entretanto, o que via nos olhos do prostituto era uma angústia tão profunda que ele procurava amenizar com o prazer. A dor dele era tão clara que parecia ser sua também, o lembrava dos tempos em que as preocupações e as tragédias familiares o levaram a fazer o mesmo, buscar conforto em corpos e sexo frenético.
Minos não queria parecer carente, mas necessitava daquela proximidade, do calor e da força de Hades que parecia trespassá-lo sempre que ele o penetrava e o fazia ter orgasmos enlouquecedores.
– O que foi? Você não quer...? – perguntou ele ao ver que o executivo hesitava.
Um músculo do rosto de Hades tremeu, enquanto sufocava o ímpeto de tomar Minos para si. Escondendo-se sob uma fachada de total serenidade, ele retirou o dedo dos lábios do jovem e o agarrou pelos ombros.
– Venha comigo...
A frase foi dita com aquele tom imperioso misturado com intimidade. Hades puxou Minos pela mão, levando-o até o quarto. Ao chegar próximo à cama, o executivo começou a despir o jovem, impedindo-o de tocá-lo ou fazer o mesmo consigo.
– Fique quietinho. – disse ele, deixando Minos somente com a cueca boxer.
O jovem sorriu e franziu o cenho.
– Já sabe que eu não sou um bom submisso...
– Sim eu sei. – disse Hades com uma expressão maliciosa. – Mas está em meu território, então vai me obedecer. Deite-se de bruços.
Minos fez o que lhe era ordenado e, nos minutos que se seguiram, gemidos baixos escaparam dos lábios do prostituto e foram, aumentando, gradativamente...
Deitado de bruços na cama espaçosa, Minos estava totalmente entregue a massagem que Hades executava. As mãos fortes do executivo passeavam pelas costas do jovem, executando movimentos circulares e deliciosamente relaxantes.
O moreno contornava as omoplatas bem devagar, traçando o grupo de músculos acima da cintura, chegando até acima das nádegas redondas, sem tocá-las. Depois, ia descendo pelas coxas, panturrilhas, até chegar aos pés, massageando-os dedo por dedo e friccionando pontos no calcanhar e na área plantar que arrancavam suspiros de puro prazer.
Com uma precisão digna de um massagista, Hades foi executando cada movimento que deixava Minos com o corpo relaxado, os músculos tensos recebendo uma pressão que desfazia todo o cansaço que tomara espaço em seu corpo.
De olhos fechados e totalmente alheio ao tempo, o prostituto nem percebeu quando Hades o virou para si.
– Está se sentindo melhor? – perguntou o executivo apertando-lhe os ombros, antes de seguir pelo tórax e modelar as costelas, fazendo-o relembrar todas as vezes que ele havia tocado em seu corpo, principalmente quando transavam.
– Estou... – respondeu Minos, entreabrindo os lábios para puxar o ar.
– Ótimo... – disse Hades baixando a cabeça em direção à virilha do jovem.
Com os olhos quase fechando, Minos foi tomado por uma languidez até sentir algo quente e molhado em outra parte de seu corpo que o fez abrir os olhos e ser invadido por uma descarga elétrica na base da coluna. Ele sentia e via, mas não conseguia acreditar. Hades o estava chupando e movia a língua sobre toda a extensão do seu pênis do mesmo modo lento que fizera com as suas mãos em seu corpo.
– H-Hades?! – gemeu Minos, abarcado por uma onda de prazer que fez seu corpo arquear, no mesmo instante.
O moreno segurou-o pelos quadris e tomou-o, ainda mais profundamente em sua boca, antes de afastar-se e falar daquele jeito rouco e enlouquecedor:
– Estou te dando uma prova do que terá... se for, somente, meu...
Minos cravou os dentes no lábio inferior e, mesmo assim, um gemido escapou de sua boca... Instintivamente, ele afundou as mãos nos cabelos negros de Hades, movendo os quadris ao encontro da boca lasciva, sentindo todo o calor e luxúria que aquele homem sabia provocar.
Da forma dominante que o caracterizava, Hades apossou-se de Minos, sorvendo o pênis túrgido com um prazer selvagem, provocando espasmos no corpo do jovem até provar do prazer quente que irrompeu dentro da sua boca, fazendo-o sentir o gosto dele por completo.
Minos gritou ao derramar-se sob o movimento imperioso da língua e da boca de Hades. Sentiu seu gozo ser engolido e, mesmo estonteado pelo orgasmo, viu o executivo passar a língua nos lábios, após ter sorvido todo o sêmen que ele lançara. Aquela imagem ficou gravada em sua retina, o olhar do mais velho, a forma insinuosa e deslizante do corpo dele cobrindo o seu, aquecendo tanto o seu coração, quanto o seu corpo... Ele fez força para não fechar os olhos, mas eles estavam cada vez mais pesados.
Hades percebeu e buscou seus lábios com a boca que ainda guardava o gosto agridoce do prazer que acabara de provocar. O jovem entreabriu os lábios e mergulhou fundo com a língua, misturando a sua à de Hades, mesclando os gostos, um do outro, sentindo a ereção do executivo insurgir túrgido em suas coxas. Seu corpo também o queria, mas a intensidade do orgasmo e o extremo esforço que fizera, puxavam-no para o sono e seus olhos começaram a fechar...
Hades acariciou os cabelos platinados e sorriu, sussurrando rente aos lábios do jovem:
– Agora durma, relaxe...
– Mas, e você...? – Minos ainda conseguiu perguntar, mesmo de olhos fechados.
– Eu estou bem. Agora, durma um pouco. – disse ele.
Minos sorriu, notando-lhe a excitação sob a roupa e deslizou os dedos por sobre a enorme ereção, sentindo-a pulsar em sua mão. Hades enrijeceu o maxilar e interrompeu a carícia.
– Durma. Depois nós conversamos.
Minos sentiu que seus olhos estavam cada vez mais pesados. Suspirou, sentindo a mão forte de Hades acariciando seus cabelos e o cheiro dele, aquele cheiro de colônia discreta e cara unido ao aroma da pele e do sêmen...
Eu amo esse cara... Pensou Minos, quando o sono abraçou-o com a mesma intensidade que o sexo oferecido pelo executivo.
Hades percebeu que ele dormia e estreitou-o junto a si, sentindo sua ereção pulsar dolorida e, mesmo assim, com uma sensação de completude, uma emoção estranha em se tratando de um homem que cultivava a frieza e o cinismo como qualidades essenciais á sua sanidade. Olhou-o por mais alguns minutos antes de deixar a cama e pegar o celular.
– Aiacos...
Com os pés em cima da escrivaninha, o hacker atirou um dardo em um alvo na parede, enquanto atendia o celular já sabendo quem era.
– O que mais quer que eu descubra prá você, oh, Senhor dos Infernos?
– Quero saber tudo sobre Minos de Griffon. Parentes, histórico passado. Tudo.
O hacker sorriu.
– Eu só estava esperando que me pedisse...
0000****0000****0000
– Hummm... assim... assim, baby... venha para o papai aqui... – disse Ângelo passando a língua nos lábios e mostrando seu jogo.
Com uma expressão de prazer, Afrodite sorriu, malicioso e mostrou as cartas.
– Sinto muito, mas acho que meu jogo supera o seu...
– Não acredito!
– Acredite se quiser... Royal Flush supera a sua Quadra.! – disse Afrodite.
– Eu pensei... Pensei que naquele dia você tivesse trapaceado!
– Eu não trapaceio meu bem... Eu jogo! E fodasticamente muito bem! Agora quero o meu prêmio...
Ângelo sorriu e dirigiu-se até a cozinha, de onde exalava um delicioso aroma de molho. Em seguida, ele colocou a mesa. Uma toalha branca de linho, talheres de prata, pratos ornados com motivos Greco-romanos e reluzentes taças de cristal foram compondo um ambiente familiar e requintado... O vinho escolhido era tinto e frutuoso, próprio para ser consumido com macarrão à bolonhesa, acompanhado de pãezinhos quentes.
– Por favor, passemos à minha pequena sala de jantar. – disse ele, visivelmente orgulhoso.
Afrodite se sentiu lisonjeado com todos aqueles preparativos e, quando deu a primeira garfada, gemeu com um prazer genuíno, ato que desencadeou uma reação excitada no italiano. Ângelo o tinha levado à sua casa num ato impulsivo, mas não estava arrependido. O prostituto em nenhum momento tentara seduzi-lo, apesar do clima que surgia cada vez que falavam ou sorriam um para o outro.
O loiro era divertido, assertivo e o deixava à vontade para falar o que tinha vontade. Cada vez mais queria conhecê-lo, saber se a atração que sentia era, apenas, porque estava há muito tempo sem sexo ou se era porque o sexo que tivera com sua esposa sempre fora terno, sem arroubos ou orgasmos enlouquecedores. Afrodite o instigava, despertava nele uma passionalidade que fervia em suas veias e que surgia como uma necessidade que nunca fora satisfeita...
– Então? O que achou do meu macarrão?
– Hummm... ainda não posso formar uma opinião antes de repetir, mais uma vez, para ter certeza do que irei falar. – respondeu o loiro.
Ângelo riu e serviu mais uma generosa porção, feliz em ver como Afrodite comia com gosto. Assim que acabou a refeição, o loiro olhou para Máscara da Morte e sorriu.
– Uma delícia... um prato digno de um chef!
Ângelo não soube se foi o jeito que ele falou ou o olhar sedutor envolvendo-o naquele azul cristalino... Sentiu uma fisgada intensa no baixo ventre, ao mesmo tempo em que se sentia culpado por toda aquela parafernália de sentimentos e tesão. A foto de sua família estava ali, bem perto e, embora seu corpo rugisse, pedindo para dar vazão à libido, seu coração ainda sentia falta de um outro tempo em que acreditava existir felicidade.
Afrodite tinha percebido as fotos e o próprio Ângelo havia comentado sobre a sua perda. Ele parecia ter sido muito feliz e o loiro respeitava e entendia isso, muito bem. Também ele o fora no passado, quando a ingenuidade o levara a deixar tudo para trás e seguir um amor ilusório que o enganou e o deixou em um país estranho, sem dinheiro, sem outra saída a não ser fazer o que precisava para sobreviver... Podia compreender que não era fácil confiar e redescobrir a felicidade, quando tudo o que fazia sentido era arrancado da sua vida.
– Vamos fazer um brinde! – disse Afrodite erguendo a taça com vinho. – A todos que fizeram parte de nossas vidas e nos ensinaram valiosas lições!
Ângelo sorriu, brindou e encontrou uma expressão cúmplice nos olhos de Afrodite.
– Você é molto bello... Mas, não é somente seu rosto ou seu corpo que atraem. Eu sinto que você entende, mesmo que eu não diga nada. Eu o trouxe aqui, por que... Porque você me desafia. Eu nunca tinha sentido essa coisa dentro do peito, essa vontade de não pensar em mais nada, nem no passado, nem no futuro, apenas me deixar levar por esse desejo que me corrói as entranhas. Mas...
– Eu sei. – disse Afrodite tocando a mão quadrada e grande. – Eu entendo tudo o que passou. Acredite, estou feliz por estarmos assim, fazendo uma refeição juntos e conversando como pessoas normais, como se fôssemos bons amigos. Não precisamos transar, não agora...
Os dois se olharam. Depois riram como se estivessem tirando um peso de seus corações e mentes.
– Eu lavo os pratos. – disse Afrodite.
– De maneira alguma! – rebateu Máscara da Morte. – Suas mãos não foram feitas para isso!
Uma gargalhada gostosa irrompeu da boca de Afrodite.
– Verdade, minhas mãos tem outras utilidades! – brincou o loiro, dando-se conta que a malícia contribuía para acentuar o clima entre eles. — Então... Acho que está na hora de eu ir. Deixei Shun com seu amigo e...
Afrodite não terminou a frase. Ângelo respirou fundo e o brilho ávido de seus olhos azuis escuros acelerou o pulso do prostituto. Num ato inusitado e repentino, tomou a boca carnuda de Afrodite na sua...
– Oh, minha deusa Amaterasu... – gemeu Afrodite encontrando os olhos ardentes e brilhantes sobre si.
A boca fascinante de Ângelo, pela primeira vez, sorriu sem reservas.
– Eu queria muito fazer isso. – disse com voz rouca, colocando uma das mãos atrás da cabeça de Afrodite e o puxando para si, colando mais uma vez os lábios nos dele.
O loiro sentiu o aumento da pressão erótica, enquanto se beijavam com um desejo selvagem e feroz. O tipo de desejo que vinha acompanhado de mais alguma coisa que ambos pareciam pressentir e temer.
Quando Ângelo levantou a cabeça, parecia tão atordoado quanto Afrodite. Fitando-o com os olhos desnorteados, o loiro esfregou os lábios intumescidos e sentiu um tremor interno, dando um passo para trás.
– Acho melhor pararmos por aqui ou eu...
– Você o quê...? – murmurou o executivo, se aproximando novamente.
– Eu vou voltar atrás no que eu disse antes e deixar que me coma... Aliás, eu vou levá-lo a me devorar com essa boca gostosa e... E você pode se arrepender depois!
Uma onda de rubor inundou as feições másculas de Ângelo e ele saboreou a expressão chocada e excitada de Afrodite. Era conhecido no mundo dos negócios como Máscara da Morte, o homem implacável que jamais recuava ante um desafio. Então, porque recuava perante a promessa de prazer encerrada no corpo daquele belo prostituto?
– Eu posso me sentir culpado... Mas, honestamente, eu quero parar de pensar tanto. Eu quero sentir você... – disse o executivo.
Nem bem terminara sua fala, Ângelo já estava em outra dependência da casa, deitado no futon, totalmente vestido, só sem as meias e sapatos.
Sorrindo, Afrodite massageava os pés dele, cuidando de cada dedo, fazendo o italiano gemer de satisfação e sentir o corpo relaxar. Aquele toque, tão suave e, ao mesmo tempo vigoroso, estava levando-o às alturas e ele deixou-se cuidar, algo inédito para quem estava sempre no comando.
Afrodite insinuava-se, devagar, abandonando a massagem, aos poucos e subindo as mãos macias, pelo corpo de Máscara da Morte, até tocar-lhe o membro e deixá-lo rígido e pulsante. Subiu o corpo, ainda mais e cobriu a boca dele com a sua, entrelaçando as mãos nos cabelos curtos, puxando-o de encontro a si. Ele passou a língua sobre a sua orelha e mordiscou o lóbulo macio, fazendo o outro gemer e ansiar por um contato maior e mais íntimo.
O clima esquentou, as roupas foram tiradas e ambos experimentaram o contato das peles nuas, saboreando-se, reconhecendo odores e sensações prazerosas.
– Você é lindo... – murmurava Afrodite, enquanto mordiscava os lábios de Máscara da Morte e corria os dedos sobre o peito largo e forte do executivo.
Por instantes, que fizeram Máscara descobrir muitas coisas sobre si mesmo, ele ficara indefeso sob Afrodite, enquanto o belo prostituto vagava pelo seu corpo com os lábios e a língua, explorando os lugares mais íntimos e inusitados, até ele tremer e inverter o jogo. A camisinha foi colocada às pressas, entre gemidos e mãos trêmulas...
As mãos fortes seguraram Afrodite como se nunca mais fosse soltá-lo, apertando-lhe as costas, o ombro, a cabeça, desesperado para trazê-lo cada vez mais perto, até que se fundisse ao seu corpo e se derretesse em ânsia gemendo e arfando ao sentir a rígida ereção pulsar junto a sua.
Ofegante e duro como uma rocha, Máscara tornou-se o seme voraz, acomodando-se por cima de Afrodite e penetrando-o de um só golpe, fazendo-o gritar e abraçá-lo com força, a pele coberta por uma camada fina de suor.
O italiano ficou parado, acostumando-se ao aperto inusitado em seu pênis e, ao mesmo tempo, dando ao loiro um tempo para relaxar e acostumar-se com alguém dentro de si. Só quando Afrodite suplicou para que continuasse, ele arremeteu com força, movendo-se com luxúria, habilidade e uma paixão que jamais expressara, nem mesmo com sua adorada esposa.
Movia-se com força, sua virilidade intumescida arremetia fundo e Afrodite arqueava as costas, gemendo cada vez mais rápido e alto, a boca entreaberta para sorver o ar, a cabeça jogando-se para trás ao sentir o executivo aprofundado em seu corpo. Apertou o corpo de Máscara segurando-o pelas nádegas, cravando os dedos nela de forma ardente e desesperada, deliciando-se em ouvi-lo grunhir de prazer, enquanto se arremetia cada vez mais forte contra si...
Máscara gemeu rouco, engolido pelas trevas voluptuosas que o apertavam. Era como adentrar as profundezas ardentes e ser devorado por seu calor faminto, fazendo-o vivenciar um prazer violento e inédito.
Afrodite começou a se contorcer de prazer, sentindo-se tocado no íntimo do corpo, a invasão levando-o a patamares de um orgasmo eminente que ele fez questão de acentuar, ao envolver os quadris de Ângelo com as pernas e aprofundar a penetração, sentindo-o arremeter num ritmo frenético.
Com um grito, explodiu em êxtase, no tórax de Máscara da Morte e sentiu que ele mergulhou mais fundo em si e, também gozou, grunhindo e apertando-o com aquelas mãos fortes e deliciosas.
Quando Ângelo sentiu o sêmen quente de Afrodite em seu tórax, já não parecia tão estranho e sim, a melhor sensação que ele havia experimentado. Ele caiu sobre Afrodite, sentindo o sêmen do jovem escorregar em seu abdome e, antes que ele falasse algo, olhou-o com os olhos faiscantes e abraçou-o mais forte , sussurrando em sua língua materna, enquanto o beijava, mais uma vez:
–Dio mio... Mi sono perso!
0000****0000****0000
A fonte cristalina produzia um som agradável e constante. As carpas coloridas nadavam por entre nenúfares, enquanto as folhas das cerejeiras balançavam, lentamente. Tadaka atravessou o jardim com passos decididos, apesar de sua idade. O incidente com o jovem Griffon o havia despertado. Parecia que a beligerância do passado voltara ao seu sangue, como se reconhecesse o caminho de casa e ele decidira, enfim, romper com um silêncio de anos...
Naoko encontrou-o no caminho. Ela não conhecera o tio, mas algo na expressão daquele homem lembrava a sua família.
– Posso ajudá-lo? – perguntou ela, cumprimentando-o.
– Tadashi já sabe que estou aqui. Obrigado. – respondeu ele e seguiu, até encontrar o irmão alimentando os peixes.
Raiden estava próximo e Tadaka o reconheceu. Fora ele quem atacara Griffon e ali estava, guardando o homem que o enviara. O guarda-costas nada disse, apenas cedeu a passagem para o taxista que seguiu em frente.
Antes mesmo que ele dissesse algo, Tadashi falou:
– O que o faz pensar que pode apresentar-se como se fosse da família e impedir que uma ordem minha seja cumprida?
– Apenas evitei uma injustiça.
Tadashi virou-se, encarando a face resoluta do irmão.
– Há vinte e oito anos eu permiti que vivesse, apesar da sua traição. Mas, vejo que o julguei mal, eu devia ter extirpado a sua existência do seio da nossa família!
– A Gardênia, agora se ocupa em intimidar jovens inocentes, ao invés de tratar de negócios? Se for assim, então eu também o julguei mal ao deixar que liderasse a família.
– Jovens inocentes? Aquele prostituto virou a cabeça de Hiroaki! Já não bastava a preferência dele por homens, ainda tenho que vê-lo gastar fortunas para foder com um puto!
– O jovem Griffon não tem culpa e eu não permitirei que ele seja ferido.
Uma risada baixa e rouca escapou dos lábios de Tadashi.
– Não vai permitir? Quem você pensa que é para vir a minha casa e me ameaçar?
– Eu sou um yakuza. Não pense que, por não trilharmos o mesmo caminho, eu vou deixar que machuque um inocente. Lembre-se, eu sei o seu segredo e sempre o guardei muito bem. Se acontecer qualquer coisa com o jovem Griffon ou... comigo, todos saberão a verdade! Pense bem nisso, irmão.
A expressão de Tadashi mudou.
– Você não ousaria! Você jurou!
– Sim, eu o fiz e até hoje guardei este juramento. Mas, estou avisando, deixe o jovem em paz e continuaremos cada qual em nossos mundos, vivendo como escolhemos.
Tadashi olhou-o com raiva, mas logo serenou.
– Muito bem. Se gosta tanto assim desse puto, aconselhe-o a não foder com meu filho.
Hiroaki chegava, quando a conversa estava no fim. Ele percebeu a tensão, mas logo Tadaka deixou os jardins e tudo ficou um tanto confuso. No entanto, Naoko ouvira toda a conversa e seus lábios sorriam. Aos poucos, o destino e suas ações secretas iam construindo a cena com que sonhava, desde sempre... Faria história, tornando-se a primeira mulher a assumir um clã como oyabun!
0000****0000****0000
Hades estava sentado em uma pequena poltrona observando-o e refletindo sobre as informações passadas por Aiacos. Ele não imaginara algo assim e a constatação que ainda podia ser surpreendido por certos acontecimentos da vida o fazia relembrar a própria história pessoal.
Tragédias existiam, e era um fator comum ao ser humano. A forma como se reagia a elas, determinava o seu destino e, naquele exato momento, ele analisava a forma com que o jovem prostituto reagira à sua.
Ficaram gravados, em sua mente, os registros enviados por Aiacos...
Minos Solberg de Griffon nascera em 25 de março de 1997. Era filho de uma médica norueguesa, Anrid Helgason, que viera para o Japão integrar-se a uma equipe de pesquisa genética. Viúva, ela estava acompanhada da irmã mais nova, Halldora, e desenvolveu seu trabalho até sofrer um trágico acidente em Hokkaido, onde o único sobrevivente foi o seu filho. Fato considerado um milagre, já que o menino de seis anos foi retirado dos destroços sem nenhum arranhão.
Halldora se tornara a guardiã legal da criança e do seguro bastante significativo deixado pela irmã. Porém, seu comportamento promíscuo levou-a a gastar tudo e ficar em péssimas condições financeiras quando o menino chegara à adolescência.
Minos estudara até aos 15 anos quando deixara a escola para trabalhar e sustentar a si e à tia.
As informações sobre o jovem terminara ali e Hades podia completá-las, apenas com uma linha de raciocínio baseada em suas experiências e conhecimento de causa. No Japão, crianças e adolescentes deviam concluir seus estudos e o trabalho para menores era raro e fiscalizado. Sendo Minos um gaijin e sem escolaridade, só lhe sobraria tarefas braçais e pesadas, o que, conhecendo-o bem, não se adequaria ao seu perfil, embora ele tivesse tentado isso também. A tia, pelo visto, era uma parasita desqualificada, pois pelo que dizia o dossiê, nunca trabalhara e possuía amantes de caráter duvidoso. O que sobraria a um jovem bonito e inteligente que necessitava sobreviver em um país estrangeiro? A resposta era óbvia e o resultado, também.
Minos acordou assustado, mas ao olhar o relógio na parede, viu que havia se passado, apenas duas horas. De imediato, sentiu os olhos de Hades sobre si.
– O que está fazendo aí? – perguntou o jovem, levando a mão aos olhos e esfregando-os.
– Eu estava esperando mais um tempo para chamá-lo. Liguei para o hospital e disseram que sua tia está bem e que terá alta amanhã. Eles lhe deram um calmante e um analgésico para a dor, o que significa que passará o tempo todo dormindo e não poderá receber visitas. Falei com o doutor Fukugima, então não precisa se preocupar, ele informará, caso aconteça alguma alteração.
– Eu nem sei como agradecer...
– Não precisa. Quer me contar o que aconteceu?
– Foi, apenas, um acidente doméstico. Nada demais. – respondeu Minos.
Hades franziu o cenho. Sabia que o jovem mentia.
– Griffon, não é preciso mentir. Conte-me a verdade para que eu possa ajudá-lo.
– Você já ajudou. O resto da história é problema meu.
– Existe um limite tênue entre o orgulho e a estupidez. Você é jovem, não pode arcar com tudo sozinho.
Minos olhou-o, bem sério.
– Eu sei, mas não quero que se envolva nisso. – disse ele, levantando da cama.
Os olhos de Hades se transformaram em dois riscos, como se ele fosse uma fera à espreita da presa.
– Já estou envolvido. Caso não saiba, relacionar-se com um menor, aqui no Japão, implica em algumas responsabilidades.
Minos empalideceu, sua mente processando a fala de Hades, enquanto tentava achar as roupas que se encontravam dobradas no outro lado da cama.
– Como... – ia perguntar como ele havia descoberto, mas logo se deu conta que, se o executivo tinha métodos capazes de descobrir o número do seu celular, poderia ir muito além. – Bem, você pode saber disso, mas isso não tem a ver com você. Eu menti um pouco sobre mim por uma questão de sobrevivência.. – continuou ele, tentando aparentar uma calma que não sentia.
– Um pouco...? Você tem 17 anos!
– E daí? Me sustento e não dependo de ninguém. Idade é apenas um detalhe!
Uma expressão fechada cobriu o rosto de Hades.
– O único detalhe aqui, é que você é menor de idade, está fora da escola e leva uma vida promíscua. Não acha que vou compactuar com isso, não é?
A não ser por um certo aperto nos músculos, nenhuma reação visível apareceu nas feições de Minos. Quando respondeu, um instante depois, seu tom de voz indicava uma atitude desafiadora, acompanhada de um sorriso malicioso.
– Vai me dizer agora que quer me adotar? Vai ser o quê? Meu daddy?
Hades não se abalou com a resposta. Agora que sabia o quão jovem ele era, esperava e compreendia aquela arrogância juvenil que um dia, ele também manifestara.
– A ideia não é má... Quem sabe assim, posso ensiná-lo a ter respeito!
– Quer saber? Esse papo termina aqui! – disse Minos, irritado, enquanto vestia a última peça de roupa.
– Nesse ponto, você tem toda a razão. Terminamos aqui com a sua carreira como prostituto. Hoje mesmo irei falar com a cafetina.
Minos piscou para se livrar dos pontinhos vermelhos que dançavam na frente de seus olhos, consciente do sangue latejante que lhe percorria o corpo ante aquela afirmação.
– Você não pode! Você não tem o direito... Não vou admitir que interfira na minha vida só porque descobriu que fodeu com um menor! Eu vivi muito bem, todo esse tempo sem ninguém tentando bancar o benfeitor e vou continuar vivendo! Você pode ser poderoso, pode invadir a vida dos outros, mas não venha tentar acalmar a sua consciência se intrometendo onde não é chamado. Eu escolhi isso e eu decido quando parar!
Com os olhos flamejantes e o rosto enrijecido, Hades o tomou pelos ombros.
– Você gosta de ser puto? Gosta de ser fodido por qualquer um?
O tom do mais velho fez Minos recuar. Quando seus olhos encontraram os dele, viu a fúria em seu rosto tenso e ficou confuso. Ele parece se importar, mas tenho medo que seja pelo fato de ele ser um homem importante que, de repente, vai ser responsabilizado por algo que desconhecia ou que teme algum tipo de chantagem no futuro. Merda! Merda!
Sentiu os olhos se encherem de lágrimas, a pressão aumentando. Tinha que controlar a voz e as suas emoções, mesmo com a garganta apertada e o coração retumbando, ao ponto de sentir o corpo inteiro pulsar.
– Eu gosto de ser livre! Não precisa se preocupar em ser associado a alguém como eu. Estou indo embora e... E você pode, simplesmente, esquecer que me conheceu!
A fala truncada e a visível angústia de Minos fez Hades empalidecer também e ele viu-se em uma encruzilhada. Não era comum deixar-se levar pela emoção ou demonstrar compaixão. Estava acostumado a agir na vida pessoal como fazia com os negócios: controle de danos e ações certeiras. Mas, Minos mexia consigo e num nível que jamais outra pessoa conseguira. Quando viu uma lágrima solitária escorrendo pela face do jovem, abandonou o ar de altivez gélida e seu olhar aqueceu.
– Acha que é tão simples assim?
Os olhos do jovem fugiram dos dele. Não queria que o visse chorar. Ele nunca chorava! Então porque o fazia agora?O que Hades tinha que o desnudava de um jeito implacável e... cruel?
– E porque não seria? Sou um puto e você é um executivo. Qualquer um nesta situação seguiria em frente e partiria prá outra. Não precisa temer que eu use isso contra você e nem se responsabilizar por algo que não lhe diz respeito, nem afeta a sua vida. – disse ele com todas as forças que ainda restavam dentro de si.
– Não sou qualquer um.
Minos olhou-o, pensando: Eu sei! Caralho!
Um nervo na face do executivo tensionou ainda mais, começando a latejar.
– Eu não tenho medo de nada, Minos, e não quero esquecer que o conheci.
O jovem sentiu o ar faltar quando Hades se aproximou e tocou em seu rosto, limpando uma lágrima com os dedos e, em seguida, pousando o dedo em seus lábios. Porque ele sempre faz isso? Pensou, e sua garganta fechou, ainda mais.
O executivo olhou-o bem no fundo dos olhos e Minos sentiu o suspiro profundo que ele deu, antes de falar:
– Você ainda é um garoto e, mesmo assim, é o único capaz de me fazer sentir que eu ainda tenho isso...
Minos olhava, incrédulo, Hades apontar para o próprio coração. Eu? Eu o faço sentir que tem sentimentos? Sem saber o que fazer ou dizer, ele se aproximou do executivo e cobriu a mão dele com a sua.
– Você está dizendo que...
– Eu quero você... – disse Hades e sua boca tomou a de Minos.
O beijo foi diferente, mais suave, embora não menos profundo e alucinado. Minos ofegou e os cílios escuros do executivo roçaram a face alva, enquanto a língua traçava o contorno dos lábios do jovem e voltava a explorar todos os cantos da boca arfante.
A respiração dos dois foi ficando mais forte, até Hades interromper o beijo e olhar bem fundo nos olhos de Minos.
– E então... O que você me diz?
O jovem sorriu e foi a vez dele demonstrar com atos, o que sentia pelo executivo...
Fale com o autor