Hades olhou para a janela. Raios e trovões provocavam uma forte turbulência no avião que o trazia de volta a Tóquio. Os outros passageiros estavam nervosos e apreensivos. Uma senhora usando uma maquiagem forte o olhava desejando falar alguma coisa, porém a postura fria e inacessível que ele mantinha afastava qualquer tipo de contato. Ela resignou-se a pegar um rosário da bolsa e começar a rezar.

A viagem transcorreu sem mais incidentes e logo depois de aterrissar, Hades seguiu direto para o escritório da Fundação, embora isso significasse que embarcaria em uma jornada exaustiva pela diferença de horário entre Los Angeles e Tóquio.

Uma chuva fina tornava o trânsito lento, mas ainda assim ele conseguiu chegar em tempo razoável. Logo estava diante do prédio alto e espelhado que refletia as nuvens, criando um efeito belo e pulsante como toda a arquitetura moderna, ali.

– Bom dia, senhorita June. – disse da maneira educada, porém seca, como sempre.

– Bom dia, senhor Hades. Espero que tenha feito uma boa viagem. Deixei o relatório que a senhorita Saori enviou em sua mesa. Esse homem é feito de aço ou o quê? Nem bem chegou e veio trabalhar. Pensou June enquanto tentava parecer eficiente.

Ele fez um movimento qualquer com a cabeça e entrou. Cinco minutos depois ele retornou à recepção.

– Não acredito que Saori tenha enviado isso! Parece ter sido digitado por alguém analfabeto ou que tenha quebrado todos os dedos! Mal consigo ler o que está escrito. Entre em contato com ela e repasse a ligação para mim.

– Sim, senhor.

June tratou de obedecer e logo Saori retornou com aquele tom meigo que conquistava qualquer um, menos ele. Hades não costumava elevar a voz, mas o tom autoritário funcionava como se ele o fizesse. A conversa não durou nem dois minutos e logo, ele voltava com novas instruções.

– Saori vai enviar outro. Assim que chegar envie para o meu celular, ainda tenho que verificar algumas coisas na minha empresa. – disse Hades.

June quase bateu continência, uma brincadeira que costumava fazer pelas costas de Hades.

– Sim, senhor. Não se preocupe, assim que ela enviar eu revisarei tudo e se estiver tudo certo, reenvio ao seu celular.

Assim como tinha chegado, Hades deixou o escritório. Estava cansado e irritado, presidir uma fundação filantrópica e, ao mesmo tempo, ser um predador da bolsa de valores exigia que fosse impecável e exigente consigo e com os demais. Fora assim que conquistara seu império, estudando, aprendendo, fazendo nome em Wall Street e logo em seguida mudando de cenário.

Vivia em Tóquio, fazia cinco anos, conhecia cada bairro e cada negócio daquele país. Gostava de como tudo se encaixava, tradição e modernidade, vigor e beleza. Tornara-se bem-sucedido para encerrar o passado e mantinha sua vida pessoal envolta em sigilo e mistério.

Se alguém desejava saber quem era Hades, saberia, apenas, que ele era conhecido como o Imperador do Shinjuku, o maior polo de atração dos principais grupos econômicos do Japão. Era um homem poderoso que fazia grandes negócios e dono de uma sagacidade que o fazia ser respeitado e temido.

O que ficava em off e desconhecido dos demais, era o outro lado do homem de negócios, uma face sombria que se revelava no submundo vermelho, o Kabukicho, a famosa zona dos bordéis...

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O entardecer estava envolto em nuvens cinza, enquanto as luzes da cidade já despontavam em cada prédio e casa.

No Dark Sex, um dos muitos prostíbulos do Kabukicho o movimento já começara. No saguão decorado de forma tradicional, divisórias contendo motivos florais e cenas de amor separavam os diversos ambientes. O ambiente central que recebia os clientes obedecia ao estilo tradicional de uma casa de chá, era forrado com tatame e decorado com lanternas delicadas, cuja luz emprestava aconchego ao ambiente e ajudava a avaliar a prata da casa e assim facilitar a escolha com quem passar algumas horas ou a noite.

Os quartos já eram diferenciados, alguns reproduziam o ambiente tradicional com futon, outros entravam no estilo ocidental com camas amplas e redondas, espelhos e objetos eróticos. A seleção do ambiente dependia muito do rapaz ou garota a ser levado para a cama e uma espécie de menu contendo as descrições dos serviços prestados era oferecido ao cliente, enquanto ele degustava uma bebida ou chá por conta da casa.

Uma das atrações da casa, Minos, já estava em plena atividade. Ele ergueu os braços acima da cabeça, alongando os músculos dos ombros e virando o pescoço de um lado para o outro. Estava nu e exibia um torso musculoso e esguio. Os cabelos longos e cortados de forma repicada davam ao rosto belo e juvenil um ar exótico e rebelde.

O quarto que ocupava era no estilo tradicional, com biombos reproduzindo cenas eróticas e um futon vermelho que cobria grande parte do tatame. Ele estava em pé, sendo apreciado pelo cliente, num mesmo ritual que se repetia três vezes por semana.

O homem, totalmente tatuado, sorriu e se aproximou dele por trás, tocando-o na parte interna das coxas até chegar ao pênis e fechar a mão sobre ele, arrancando um ofego e um sorriso safado de Minos. Em seguida, acariciou a curva voluptuosa de suas nádegas, afastando-as para pressionar a rígida ereção entre elas.

– Gosto de te foder, Griffon. – disse Hiroaki envolvendo a cintura do jovem e puxando-o em sua direção, enquanto levava uma das mãos ao pescoço dele e pressionava-o, enquanto o penetrava de um único golpe.

Minos fechou os olhos e gemeu, levando a mão ao próprio pênis. Em seguida, Hiroaki estocou três vezes com força, empurrando-o de encontro à parede, até gozar ruidosamente em segundos. Saiu de dentro do jovem, retirou a camisinha e olhou para os respingos de sêmen na parede, testemunhas do gozo do prostituto. Sorriu, satisfeito e, em seguida, entornou mais uma garrafa de saquê.

Hiroaki era o filho primogênito de um yakuza e cliente frequente do Dark Sex, bordel famoso por oferecer produtos de diversas nacionalidades.

Administrado pela exuberante Hilda de Polaris, o lugar se tornara uma referência em termos de sexo diferenciado. Ali, a prostituição não era, simplesmente, oferecer o corpo. Cada rapaz ou garota tinha um talento especial, algo a mais para satisfazer o cliente.

Minos mordeu o lábio inferior, assim que sentiu o tremor do corpo de Hiroaki. O próximo líder yakuza tinha ejaculação precoce e gozava logo que se afundava dentro do corpo do prostituto.

O jovem sabia disso e antes de atendê-lo era estimulado por outro prostituto da casa, o voluptuoso Afrodite que o chupava com gosto, deixando-o quase lá. Então, quando Hiroaki o possuía, era só masturbar-se, enquanto era penetrado, e gozar no mesmo ritmo do cliente.

Esse era o talento de Minos, mostrar que sentia um prazer verdadeiro, fazer com que o cliente se sentisse o máximo exemplar de virilidade, mesmo que não o fosse...

– Meu pai quer que eu case. – disse Hiroaki já bêbado e ainda afogueado pelo orgasmo relâmpago.

Pobre mulher infeliz e mal fodida! Pensou Minos, enquanto sorria e exaltava as qualidades masculinas do yakuza.

– Eu... Eu sempre vou voltar, Griffon... Eu gosto de te comer... Você é o meu puto favorito.

Minos revirou os olhos e vestiu o roupão de seda negra. Hiroaki aproximou-se dele, abraçando-o, o hálito cheirando a saquê...

– Você nasceu prá isso... Gosto de ver como goza rápido, quando eu enfio meu pau neste teu cuzinho apertado... – disse ele beijando-o no pescoço e deixando um rastro de saliva.

O ato desagradou Minos que, mesmo desprezando aquele contato, sorriu. Embora oferecesse o seu prazer como troféu para os clientes, não gostava de intimidade com nenhum deles. Aliás, não gostava de intimidade com ninguém...

Desvencilhou-se do japonês manipulando o pênis flácido e sussurrando próximo ao seu ouvido:

– Anata mo hottodaga, ima ikanakereba naranai!(Você é gostoso demais, mas tem de ir, agora)

– Anata wa akuma, Griffon... (Você é um demônio, Griffon) – disse Hiroaki sorrindo.

O jovem ajudou Hiroaki a vestir a camisa e quando abriu a porta do quarto para que ele saísse, viu um homem dirigindo-se aos aposentos de Shun. De costas, o homem parecia imponente e diferente dos clientes habituais que eram mais baixos e não possuíam o corpo tão em forma quanto aquele homem parecia ter.

É Shun, tomara que você tenha sorte... Pensou Minos ao voltar para o quarto e preparar-se para o próximo cliente.

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Hades chegou em casa no final da tarde, após verificar as coisas em seu escritório. Escolhera um prédio ao estilo ocidental para morar, embora tivesse mais três propriedades em bairros afastados. Era prático, principalmente com o trânsito congestionado.

Atravessou a arcada que conduzia a um saguão onde havia uma impressionante escadaria em espiral e vários elevadores, sendo que todos eles eram exclusivos aos moradores, todos executivos como ele. Usando um cartão de acesso, subiu até a cobertura que ficava no 33° andar.

Quando as portas se abriram, uma fabulosa sala de estar se revelou mostrando janelas que iam do chão até o teto, oferecendo uma vista espetacular das luzes e da baía de Tóquio.

O chão era forrado com tatame cor de telha e havia dois amplos sofás de couro creme separados por uma mesa baixa e retangular de vidro com pés de granito. Algumas aquarelas datando do século XVII enfeitavam as paredes claras, mas era só. Neste aspecto, Hades afinava-se com o espírito japonês de simplicidade e sobriedade. Cada sala continha o mínimo necessário e mantinha o conceito de transitoriedade.

Com um suspiro, ele tirou os sapatos e dirigiu-se ao quarto. Ali reinavam outras cores, a cama ampla era coberta por lençóis negros e cercada por cortinas escuras, porém transparentes, formando um dossel moderno. Acima da cabeceira repousava um trio de katanas feitas, especialmente para si e logo adiante, uma luminária em estilo oriental pendia do teto e uma divisória indicava os limites do quarto em relação ao closet.

Retirando o terno, Hades revelou um físico perfeito, resultado do cuidado que tinha com seu corpo. Precisava estar em forma para que sua mente também se mantivesse alerta e cuidava disso praticando o Kendô todos os dias.

Caminhou até o criado mudo e pegou o artefato que sempre usava quando frequentava certo lugar, uma máscara aderente colocada no lado direito do rosto. Olhou-a, demoradamente, antes de fixá-la e sorrir, imaginando o que despertava nos outros quando o conheciam. Talvez pensassem que ele tivesse alguma cicatriz horrível ou constatassem que ele era, apenas, excêntrico. O fato era que, aquele acessório, o permitia assumir outra personalidade e o libertava, por algumas horas, de todas as cargas e responsabilidades que possuía.

Retirou-a e despiu-se, precisava de um banho e alguma comida. O prazer poderia esperar e só antever o que viria, o fez sentir uma vibração no baixo ventre...

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Os cabelos esverdeados de Shun estavam espalhados no lençol escuro e seus braços estavam presos acima da cabeça por uma corrente dourada. Ele usava uma grossa coleira de couro e mantinha os olhos fechados, enquanto as pontas dos dedos longos do homem misterioso desenhavam círculos em volta de seus mamilos antes de beliscá-los, arrancando gemidos baixos e um tanto doloridos...

– Não olhe e nem ouse se mexer...

A ordem dada foi obedecida de imediato. Shun ou Andrômeda, como era chamado ali, era o submisso ideal, começando pela aparência inocente e juvenil, tanto de seu corpo, quanto da sua personalidade. Portava-se como se estivesse sempre disposto ao sacrifício.

Hades sempre preferira os bordéis tradicionais em oferecer BDSM. Era prazeroso exercer seus fetiches e desejos de forma eficaz em locais específicos, cujos prostitutos eram iniciados e ofereciam tudo o que ele desejava. No entanto, ao passar em frente ao Dark Sex uma voz interna o fez parar e experimentar algo novo e, olhando para aquele corpo alvo e delicioso, ele agradecia ter cedido à novidade...

– Abra os olhos, devagar...

Mais uma vez, Shun obedeceu, reencontrando a face, metade coberta por uma máscara negra que ressaltava os olhos penetrantes sobre si. O homem belo e vigoroso não estava nu, apenas abrira a braguilha da calça e tirara o paletó, ficando com a camisa aberta que exibia um peito liso, largo e forte.

Geralmente, o fetiche da dominação exigia um contrato, um acerto entre as partes sobre o que poderia ser feito e todos os cuidados, como a safe word e o esclarecimento do papel a ser vivido no momento. No entanto, aquele homem belo e usando parte do rosto coberta por uma máscara misteriosa, não havia colocado as regras, apenas ordenado que se deitasse, enquanto lhe colocava a coleira, deixando seus braços presos e agora o acariciava de forma aliciante.

– Posso conhecer as regras, meu senhor...? – questionou Shun.

– Não haverá regras, não serei um Dom tradicional. Não é isso que busco aqui, hoje. – respondeu Hades sustentando o olhar um tanto assustado de Shun.

– Então não poderei servi-lo, senhor. Não sem que façamos o contrato desta noite. – insistiu o jovem.

Um sorriso maquiavélico surgiu nos lábios desenhados de Hades. Sentia o medo tomar conta do prostituto e isso lhe despertou um prazer sádico. Não que costumasse impingir dor extrema aos parceiros e sim, porque a verdadeira dominação ocorria primeiro, na mente, depois no corpo. O que lhe dava prazer era poder controlar o próprio gozo e o corpo do outro. O orgasmo não o tirava do centro, nem do ato de dominar. Era isso que buscava nesse tipo de relação sem vínculo, apenas sexo em sua concepção mais instintiva. Só em sentir-se no mais absoluto controle, como agora, o fazia ter uma ereção que pedia para ser libertada do confinamento...

– Está com medo... Não precisa ter, não vou machucá-lo ou fazer algo que você ainda não tenha feito. – disse Hades afastando as pernas de Shun.

Ainda olhando-o daquele jeito que o perturbava, Hades libertou o pênis da calça social, gemendo baixo ao sentir o alívio. Colocou o preservativo que trouxera e o penetrou sem aviso, fazendo Shun gritar alto com a surpresa dolorida de sentir o membro rijo adentrá-lo naquela posição.

O corpo do jovem arqueou e Hades estancou, apenas ficando dentro dele, sentindo-o contrair-se e com isso, dar-lhe um prazer intenso.

– Isso... Não se mexa.

Involuntariamente e sem saber a razão, Shun desobedeceu e elevou os quadris, tomado por uma angústia e uma raiva que não eram suas, mas que sentia em si e aquilo o fez descontrolar-se. Nunca partilhara com ninguém, mas muitas vezes era capaz de sentir as emoções que o cliente possuía. Era uma empatia estranha, mas que nunca tinha sido tão forte quanto agora. Aquele homem tinha muitas dores e raiva dentro de si e lhe causava uma dor excruciante.

O ato fez Hades cerrar os dentes e repetir a ordem.

– Não... Se... Mexa!

As mãos másculas e com pequenas calosidades, pressionaram as coxas de Shun com força, imprimindo marcas avermelhadas e abrindo-as de modo que o corpo jovem ficou, totalmente, preso à cama e a sua mercê. Fitando-o com um brilho frio nos olhos, Hades se afundou ainda mais nele como se quisesse dividi-lo em dois.

O jovem ofegou, tentando suportar o ato, porém lágrimas quentes escorreram pelo rosto delicado.

Hades encarou-o e parou. Flashes do passado invadiram a sua mente ao ver aquelas lágrimas e a forma como Shun mordia o lábio, onde uma gotícula de sangue já começava a aparecer...

Ele saiu de dentro de Shun do mesmo modo abrupto com que o penetrara. Tirou o preservativo e jogou-o no lixo em forma de coração que jazia ao lado da cama.

O jovem estremeceu, dando-se conta que tinha feito algo errado.

– Perdoe-me, eu...

Hades nada disse, respirou fundo até que sua ereção arrefeceu e fechou a braguilha da calça, indo até o paletó que deixara em um cabide. Shun, pela primeira vez em sua vida de prostituto, não sabia como agir. Levantou-se da cama e tocou o braço de Hades que o olhou de forma agressiva, porém ao falar, seu tom era frio e controlado.

– Aqui está seu pagamento. – disse ele tirando um maço de notas do bolso.

– Não é necessário, senhor. Se eu o desagradei...

– O erro foi meu, não devia ter vindo aqui. – disse Hades dirigindo-se à porta.

Quando a porta se abriu, Minos surgiu, dando de cara com Hades. O jovem olhou para dentro do quarto e viu que Shun estava com o rosto banhado em lágrimas.

– O que você fez com ele? – falou Minos empurrando Hades.

Shun ficou ainda mais angustiado ao ver Minos ali.

– Não houve nada, Griffon. – disse o jovem.

A expressão de Minos era desafiadora. Ele encarou Hades e houve uma troca e fagulhas entre os dois. O jovem vestia um kimono de seda negra, que estava aberto, deixando antever o corpo nu.

– Saia, Shun! Eu vou ter uma conversa com o nosso amigo aqui. – disse Minos.

Hades não estava acreditando no que estava acontecendo. Aquele puto que não devia ter mais de vinte anos o estava enfrentando?!

– Como é? Está se referindo a mim? – perguntou num tom gélido misturado ao sarcasmo.

– Sim, você... – respondeu Minos levando o dedo na direção de Hades.

Em segundos que passaram voando, Minos se viu em uma situação dramática. Hades pegara seu dedo em riste e o dobrara, encaixando um golpe de defesa pessoal que fez o braço do jovem sofrer uma imobilização dolorosa.

– Ai! – rosnou Minos.

– Nunca mais aponte para mim. – disse Hades e o soltou com a mesma rapidez com que encaixara o golpe.

Shun estava com o rosto vermelho. Numa última tentativa ele pegou o dinheiro dado por Hades e estendeu na frente dele.

– Olhe, por favor, pegue o seu dinheiro de volta! Não vamos brigar...

– Mas o que está acontecendo aqui? Griffon, como deixa um cliente esperando? – gritou Hilda interrompendo.

Os três olharam para a mulher vistosa que os fitava com o cenho franzido, tendo ao seu lado um homem mais baixo que ela usando uma cueca com um leão impresso na parte frontal.

Hades já estava achando aquela cena absurda, desagradável e surreal, principalmente o enfrentamento que se apresentava ali.

– Griffon e... senhor... vamos ao meu escritório, por favor. E você, Shun, acompanhe o Senhor X, aqui, até a sala de massagens e ofereça uma sessão gratuita a ele. – falou Hilda.

– Sim, madame. – respondeu Shun.

– Senhora, creio não ser necessário nenhuma palavra sobre isso. Já acertei o valor e estou me retirando. – disse Hades.

– Covarde! – resmungou Minos entre dentes.

– Griffon! Peça desculpas! – disse Hilda.

Minos não obedeceu. Era nestas horas que a sua juventude se fazia presente. Rebelde e agressivo, ele ainda não completara vinte anos, a idade aceita como maioridade no Japão. Mentia que era maior de idade, mas tinha apenas dezessete, embora seu corpo tivesse as proporções de um homem adulto e ele se comportasse na vida como se fosse dono do próprio nariz.

Hades encarou-o com cinismo, olhando-o como se ele nada significasse.

– Nos encontraremos em outra oportunidade para colocar tudo em seu devido lugar. – disse Hades dando as costas para Hilda e Minos.

Assim que deixou o prostíbulo, a expressão de Hades mudou. Não achara aquilo engraçado e não estava acostumado a ser desafiado. No entanto, não deixaria abalar-se por um prostituto. Quando o manobrista trouxe o seu carro, entrou sentindo-se exatamente igual às nuvens negras que tomavam conta do céu noturno...

Passadas algumas horas, quando tudo estava mais calmo, Hilda mandara chamar os dois e olhava furiosa, para Minos e Shun.

– E então, vão me explicar o que significou tudo isso? E você, Griffon? Onde está escrito que pode destratar um cliente e desobedecer-me?

Shun abraçou o próprio corpo sem saber como explicar o que tinha acontecido. Havia sido um fato inédito, nunca havia se descontrolado daquela forma. Já Minos passava a mão nos cabelos e suspirava.

– Tá, eu pisei na bola quando... – Minos começou a falar e parou ao olhar para Shun.

– O Griffon me ouviu gritar, foi isso. Aquele homem não quis esclarecer o contrato e isso me assustou.

– Como assim te assustou? Você é um profissional, Shun!

– E-Eu sei, mas... Ele começou a...

– O negócio é o seguinte, você mesma não cansa de repetir que temos autonomia para resguardar o nosso corpo de qualquer ato que nos ameace. Shun foi ameaçado. Ponto! – disse Minos.

– Ele te ameaçou Shun? Eu não vi nenhum hematoma ou qualquer sinal de violência no seu corpo! – continuou Hilda.

– Ele não me machucou, mas eu senti como se...

Hilda suspirou.

– Bem, o que está feito, está feito. O cliente pagou, mas certamente jamais colocará os pés aqui, novamente. Com isso, você será descontado durante três meses, Shun. E você, Griffon é o único que não mora aqui, mas isso não o exclui de obedecer às regras da casa. Nenhum profissional se envolve em briga com cliente, isso é tarefa da segurança! Essa sua ousadia vai lhe custar uma suspensão, mais três meses de desconto!

– Merda! – praguejou Minos.

– Quatro meses!

– Desculpe.

– Sabe que eu gosto de vocês dois, mas sou uma mulher de negócios. Procurem não me dar prejuízo e seremos todos felizes. – disse Hilda tocando o rosto de Shun.

Vaca, vadia, cadela branca! As palavras ofensivas brotavam na mente de Minos, enquanto ele fingia acreditar na afeição da cafetina. Resignado, voltou para o quarto e atendeu um último cliente antes de ir para casa e curtir a suspensão.

Enquanto Minos atendia seu último cliente, Hades dirigia pela cidade. As luzes coloridas, os neons, o fervilhar da vida noturna passavam em frente aos seus olhos, porém o olhar atrevido daquele prostituto continuava incomodando-o.

Covarde! Ele dissera e sem saber o porquê, sentia-se, profundamente ofendido. Talvez, porque aquela palavra já estivera em outras bocas, acusando-o da mesma coisa, embora em um passado distante, quando não era adulto, nem havia revestido seu coração de uma dura couraça contra sentimentos que não pudesse controlar. Quem ele pensa que é para chamar-me assim?

Então, contrariando toda a lógica que guiava suas ações, Hades viu-se acelerando e voltando ao Kabukicho,especificamente para o Dark Sex!

Notas finais
Minha palavra de poder em 2013 foi GRATIDÃO e eu reafirmo este sentimento, porque a presença de cada um e uma foi, é e sempre será importante, acolhida e muito bem-vinda na minha vida! Um grande beijo e que venham mais fics, desafios, amores, alegrias e tudo de bom que NÓS TODOS MERECEMOS!