No quarto silencioso, o monitor cardíaco emitia um bip suave, misturado ao cheiro de desinfetante. Renesmee estava recostada na cama, ainda pálida, mas com o olhar firme.

Bella estava sentada ao lado dela, segurando sua mão com força.

— Você me deu um susto daqueles — disse a mãe, tentando sorrir, mas a preocupação ainda estampada no rosto.

A porta se abriu e Edward entrou apressado. Seus olhos, sempre atentos, varreram a filha dos pés à cabeça antes mesmo de se aproximar.

— Graças a Deus… — Ele a envolveu num abraço apertado. — Eu vim o mais rápido que pude.

— Pai… eu tô bem. — Nessie sorriu, tentando acalmá-lo. — Alguém… alguém se feriu?

Bella trocou um rápido olhar com Edward e respondeu:

— Não. Todos conseguiram sair, felizmente.

Nessie respirou fundo, como se um peso saísse de seu peito.

— Ainda bem…

O médico entrou, consultando a prancheta.

— Senhorita Cullen? — sorriu educadamente. — Você inalou uma quantidade considerável de fumaça, mas nada grave. Está estável e já pode ir para casa. Só recomendo repouso e bastante água.

Um alívio genuíno tomou conta da garota.

— Obrigada, doutor.

Edward apertou a mão do médico.

— Agradecemos muito.

Bella ajudou a filha a se levantar, apoiando-a pelo braço.

— Vamos, querida. — disse, com um sorriso caloroso. — É hora de ir pra casa.

Renesmee deu um último olhar para a janela do hospital, mas sua mente ainda estava no momento em que o Lobo da Noite a tirou das chamas. Seu coração nao estava tranquilo, ele havia se ferido e ela precisava descobrir se ele estava bem.


A luz filtrava pela janela do quarto trazendo um tom dourado e calmo à manhã — em contraste total com o caos da noite anterior.

Jacob despertou devagar, sentindo o peso do corpo e a ardência no braço enfaixado. O cheiro de antisséptico denunciava que alguém tinha cuidado bem dele. A sonda de oxigênio ainda estava presa ao nariz. Ao lado da cama, Harry e Leah o observavam.

— Você me assustou de verdade ontem — disse Harry, o tom misto de alívio e bronca.

Leah cruzou os braços, arqueando uma sobrancelha.

— Eu jamais imaginei que o passatempo do meu irmão de criação fosse bancar o herói mascarado por aí.

Jacob franziu o cenho, encarando Harry.

— Você contou pra ela?

Harry suspirou, levantando as mãos num gesto de rendição.

— Ela é a única médica da família. Eu não tinha escolha, Jake.

Jacob se recostou na cama, soltando um suspiro cansado.

Leah se aproximou e, com um leve sorriso, disse:

— Relaxa. O seu segredinho está seguro comigo.

— Onde está Nessie? — perguntou ele, quase sem pensar.

Leah revirou os olhos, como se já esperasse essa pergunta.

— Essa mulher vai matar você — resmungou, saindo do quarto com um balançar de cabeça.

Harry, então, retomou o assunto.

— Você tinha um compromisso com o prefeito hoje. Como está sem condições, inventei que pegou um resfriado forte. E, antes que pergunte de novo, a senhorita Cullen está em casa. Segura.

Jacob voltou a se deitar lentamente, o corpo ainda pesado. Seu olhar se perdeu no teto.

— Ontem… — disse, a voz mais baixa — eu senti o mesmo medo que senti quando perdi minha família.

Harry se aproximou, pousando uma mão firme no ombro dele.

— E foi justamente esse medo que fez você salvá-la.

O silêncio tomou conta do quarto, mas na mente de Jacob o rosto de Renesmee ainda queimava tão vivo quanto as chamas da noite anterior.


A manhã na mansão Cullen estava silenciosa, mas carregada de tensão.

Do corredor, Renesmee ouviu a voz grave do pai conversando com o avô Charlie na sala.

— A perícia ainda está levantando o motivo do incêndio — dizia Charlie, o tom sério, quase exasperado. — Pode ter sido um acidente… ou não.

Renesmee entrou devagar, os olhos inevitavelmente caindo sobre o jornal aberto sobre a mesa de centro.

Na primeira página do Seattle Daily, uma foto do prédio do Verdade Urbana ainda envolto em fumaça, com a chamada em letras fortes:

"Incêndio no prédio do Verdade Urbana: acidente ou retaliação?"

Ela sentiu o peito apertar. O som da própria respiração pareceu mais alto por um instante. Sentou-se no sofá, apoiando os cotovelos nos joelhos. Não era só pelo jornal — era por ele. Pela ausência de notícias do Lobo da Noite desde a noite anterior.

O celular vibrou nas mãos dela, tirando-a dos pensamentos. Uma mensagem de Quil piscava na tela:

"Você tá bem?"

Ela respondeu rápido:

"Sim… mas lamento muito pelo jornal."

Quil demorou poucos segundos para responder:

"O importante é que todos estão bem. O resto a gente corre atrás."

Um pequeno sorriso escapou dela. Ainda assim, o aperto no coração não passava. Levantou-se, sentindo a necessidade de ficar sozinha, e subiu para o quarto, deixando para trás o burburinho da conversa entre o pai e o avô.

No silêncio do andar de cima, fechou a porta, encostou as costas nela e respirou fundo. A imagem do Lobo surgindo entre as chamas voltou à mente, intensa e viva.


Renesmee largou o celular sobre a mesa de cabeceira e se jogou na cama, o corpo cansado, mas a mente inquieta.

As lembranças da noite anterior vinham em ondas: o cheiro de fumaça, o calor sufocante, o som da madeira desabando… e então, como um vulto entre as chamas, ele. O Lobo da Noite.

Ela fechou os olhos e se viu de novo nos braços dele, sentindo a força com que a protegia, o calor do corpo dele como escudo, a respiração pesada de quem estava suportando a dor sem reclamar. Lembrou-se do instante em que tocou o chão e de como ele cambaleou antes de desmaiar.

Era isso que a corroía.

Não saber.

Não saber se ele estava ferido gravemente, se alguém o ajudara, onde ele estava.

A noite caiu e a mansão mergulhou num silêncio confortável para todos… menos para ela. Cada hora que passava sem notícias apertava mais seu peito. Não conseguia ficar parada.

Perto das 21 horas vestiu o casaco e saiu sem fazer barulho. As ruas estavam quase desertas, e o vento frio cortava o rosto enquanto ela caminhava rápido até o beco onde, tantas vezes, ele aparecera.

O mesmo canto mal iluminado, o mesmo silêncio carregado de expectativa.

Ela esperou.

E esperou.

Cada farfalhar de folhas, cada sombra movendo-se a fazia prender a respiração… mas não era ele. Minutos viraram quase uma hora, e o vazio daquele lugar começou a pesar mais do que o frio.

— Onde você está?… — sussurrou para o escuro, a voz embargada.

Quando percebeu que ele não viria, um nó subiu à garganta. Voltou para casa com passos lentos, e naquela noite o sono não veio — apenas a inquietude crescente e a sensação de que algo estava muito errado.