NIGHTWOLF- Blood & Roses

2 O lobo da torre de vidro



A Rainier Avenue South estava quase deserta naquela noite. As árvores altas formavam sombras longas sobre o asfalto, balançando lentamente sob o vento frio de Seattle. O único som constante era o ronco baixo do motor da van preta dos Black.

Billy Black estava ao volante, com as mãos firmes no volante, embora seus olhos se movessem preguiçosos pela estrada. Ao lado dele, Sarah sorria de leve, aproveitando o silêncio raro entre compromissos e filhos barulhentos.

No banco de trás, Rachel e Rebecca — ambas adolescentes — dividiam cochichos e risadinhas. No meio delas, Jacob, com apenas oito anos, estava completamente imerso em um pequeno videogame portátil, o rosto iluminado pela tela azulada.

— Jacob, coloca o cinto! — reclamou Rachel, cruzando os braços.

Ele nem levantou os olhos. — Tô jogando...

Sarah se virou, com aquela voz que não permitia discussão.

— Jacob, agora.

Ele bufou, mas soltou o jogo por um instante, puxando o cinto com preguiça.

Foi nesse momento que dois faróis fortes iluminaram o interior do carro. Um veículo passou rápido pelo lado esquerdo. Logo atrás, outro se aproximou pelo lado direito, encostando perigosamente.

Billy franziu o cenho. — O que está acontecendo...?

O coração de Sarah acelerou. — Billy...

Mais dois carros surgiram por trás. O pânico se instalou no instante em que o som seco de tiros cortou o ar. O vidro lateral explodiu. Billy gritou e seu corpo tombou para o lado — um tiro o acertara no ombro. A van perdeu o controle, derrapou na pista molhada e capotou, girando até parar de cabeça para baixo no meio da estrada.

O mundo parecia girar em câmera lenta. O cheiro de gasolina, vidro quebrado e fumaça tomou conta do ar.

— Saiam! Saiam agora! — gritou Sarah, tentando soltar o próprio cinto.

Jacob caiu para o lado, tonto, mas conseguiu destravar o fecho e se arrastar para fora pela porta traseira. Atrás dele, Rachel e Rebecca se debatiam, presas nos cintos travados.

Luzes se aproximaram. Dois veículos estacionaram com as portas abertas. Sussurros e passos rápidos ecoaram na noite. Jacob correu, o coração martelando, até se esconder atrás de um monte de pedras à beira da estrada.

Então, ouviu.

Seis tiros secos. Um grito abafado. E silêncio.

O som de sua própria respiração ecoava no vazio.

Jacob adulto acordou com um sobressalto, o suor frio colando a camisa ao corpo. A escuridão de seu quarto era densa, mas não mais do que o peso daquele pesadelo. Ele se sentou, passando a mão pelo rosto, tentando afastar a lembrança.

Era sempre o mesmo sonho.

A mesma noite.

A respiração de Jacob ainda estava acelerada quando ouviu a porta do quarto se abrir suavemente.

Harry, de terno impecável mesmo tão cedo, entrou com a expressão de quem já sabia a resposta.

— Outro pesadelo, senhor? — perguntou, fechando a porta atrás de si.

Jacob se levantou da cama, os músculos ainda tensos, e caminhou até a janela, mas não a abriu.

— Há vinte anos eu não sei o que é sonhar, Harry. — Sua voz era baixa, carregada de algo que não era tristeza… era raiva contida.

Harry caminhou até as cortinas e as puxou. A luz cinzenta de Seattle entrou no quarto, revelando a chuva fina lá fora e a silhueta distante da cidade.

— O senhor tem um compromisso nas Indústrias Black às nove… — começou ele, ajustando o relógio. — E, às onze, uma reunião com o prefeito Cullen.

Jacob girou levemente a cabeça, lançando um olhar frio.

— O mesmo Cullen que quer minha ajuda política?

— O próprio.

Jacob bufou, como se o nome fosse veneno.

— Eu odeio política, Harry. Foi a política que matou minha família.

Harry apenas sorriu de lado, com aquele ar de quem está prestes a dizer algo incômodo.

— Senhor, com todo respeito… o senhor faz política todos os dias. Só troca discursos por punhos e votos por medo.

O silêncio que se seguiu foi denso. Jacob o encarou por alguns segundos, como se decidisse se responderia ou não. Então, se afastou da janela.

— Prepare-se. Vamos aos compromissos.

Harry assentiu, mas o leve brilho em seu olhar mostrava que, mesmo sem admitir, Jacob sabia que ele tinha razão.


A sala de conferências das Indústrias Black tinha paredes de vidro que revelavam o horizonte cinzento de Seattle. Lá dentro, executivos em ternos caros analisavam gráficos projetados na tela, enquanto o som suave da chuva contra as janelas criava um pano de fundo quase hipnótico.

Jacob estava sentado à cabeceira da mesa. O uniforme do Nightwolf estava longe dali — agora, ele vestia um terno sob medida, mas a postura rígida e o olhar afiado deixavam claro que não se sentia à vontade naquele cenário.

Um dos diretores apontava para o gráfico.

— Os resultados do último trimestre foram os mais promissores dos últimos cinco anos. E com as novas filiais previstas para Tóquio, Berlim e Dubai, teremos um crescimento global de dois dígitos.

Outro completou:

— Com sua aprovação, senhor Black, podemos avançar para a próxima fase de expansão.

Jacob inclinou-se levemente para frente.

— Enviem todos os documentos e relatórios para minha análise. Quero detalhes sobre custos, logística e segurança.

Houve um murmúrio de concordância. Sem mais delongas, ele se levantou.

— É só.

O clima na sala mudou. Os executivos trocaram olhares rápidos, acostumados à objetividade quase cortante do chefe.

Harry já estava à porta, esperando. Enquanto caminhavam pelo corredor moderno e silencioso, ele comentou:

— O senhor deveria passar mais tempo no escritório.

Jacob nem olhou para ele.

— Odeio me sentir preso.

Harry suspirou.

— O senhor tem um império. Mas prefere a rua.

— Prefiro liberdade. — respondeu Jacob, abrindo a porta que levava ao saguão principal.

Do lado de fora, alguns repórteres aguardavam, câmeras e microfones prontos. As perguntas começaram a chover, mas Harry abriu caminho, ignorando todos. Jacob apenas seguiu, o rosto inexpressivo.

Entraram no veículo preto blindado. As portas se fecharam, isolando o ruído. O motorista ligou o motor.

— Para a casa do prefeito Cullen. — ordenou Harry.

Enquanto o carro se afastava, Jacob olhou pela janela para a cidade molhada, já pensando no próximo encontro — e no quanto odiava política.



•••••••••••••••••••••



A mansão dos Cullen, no bairro mais nobre de Seattle, era um monumento à riqueza e à influência. Lustres de cristal, tapetes persas e quadros de artistas renomados decoravam cada canto. No escritório, Edward Cullen, prefeito da cidade, revisava com seu assessor os últimos detalhes da reunião que teria com Jacob Black.

O apoio do homem mais rico de Seattle não era apenas desejável — era o ponto-chave para garantir sua reeleição.

Mas antes que pudesse concluir uma frase, a porta se abriu com violência.

— Pai! — A voz cortou o ar como um trovão.

Renesmee Cullen entrou como um furacão, os cabelos ruivos emoldurando um rosto carregado de indignação. Nas mãos, ela segurava o exemplar fresco do jornal Seattle Daily Tribune.

— Você viu isso?! — ela exclamou, jogando o jornal sobre a mesa de mogno.

A manchete da coluna social estampava: "Renesmee Cullen, a nova queridinha do jornalismo de moda".

Edward respirou fundo.

— Nessie…

— Não me chama assim agora! — interrompeu, a voz firme. — Eu sou repórter investigativa. Não passo horas cobrindo desfiles e escolhendo vestidos! Isso não é o meu trabalho!

Edward fez um gesto para que os empregados e o assessor saíssem. A porta se fechou, deixando apenas pai e filha no ambiente.

— Eu só quero proteger você, Renesmee. — disse ele, com o tom paternal que tantas vezes usara para encerrar discussões.

Ela deu um passo à frente.

— É o meu trabalho, pai. Se eu não puder investigar, então o que me resta? Escrever sobre sapatos?

O olhar de Edward endureceu.

— Você me prejudica quando se mete em assuntos perigosos. — Sua voz agora era fria. — E a partir de agora, você vai fazer o que eu pedir… ou nem jornalista de moda será mais.

Renesmee o encarou, os olhos ardendo de frustração e desafio. Mas antes que pudesse responder, passos se aproximaram do corredor.

O motorista anunciou:

— Prefeito, o senhor Jacob Black chegou.

Edward recostou-se na cadeira, retomando a postura política.

— Ótimo o tratem como um rei.

Renesmee deu um último olhar ao pai, mas não disse nada. Ainda segurava o jornal, os dedos apertando o papel com força.