A igreja estava repleta. O som abafado da chuva contra os vitrais coloridos se misturava aos murmúrios respeitosos e ao suave eco de passos sobre o piso de mármore. O caixão, coberto por flores brancas, repousava no centro, cercado por coroas enviadas de todas as partes de Seattle.

A esposa de Richard Callahan permanecia diante dele, com o rosto coberto pelo véu negro, os ombros trêmulos. Ao lado dela, o filho, Noah Callahan, um jovem de olhar firme e maxilar cerrado, a amparava com um braço, tentando conter a própria dor.

O prefeito Edward Cullen, vestido com um terno impecável, subiu os poucos degraus até o púlpito. O silêncio na nave principal se tornou absoluto.

— Richard Callahan — começou, com a voz grave e controlada — não foi apenas um homem de fé no serviço público. Ele foi um construtor de pontes, um defensor incansável de nossa cidade. Sua partida não é apenas uma tragédia para a família Callahan… é uma ferida aberta no coração de Seattle.

Ele fez uma pausa, deixando as palavras penetrarem no ar carregado de tristeza.

— Hoje, mais do que nunca, devemos nos unir contra aqueles que tentam governar pela sombra e pelo medo. Não permitiremos que o terror cale a voz da justiça.

A esposa de Callahan soluçou alto, sendo envolvida pelo abraço mais firme do filho.

Renesmee, sentada nas primeiras fileiras com a família, manteve o olhar fixo no caixão até sentir que Noah a observava. Quando seus olhos se encontraram, houve um instante de reconhecimento silencioso, algo que misturava passado e presente. Mas Nessie desviou, ajeitando-se no banco, como se o peso daquele momento fosse demais.

Foi então que percebeu movimento próximo à entrada. Jacob Black atravessava o corredor central com passos firmes, o olhar varrendo o ambiente até encontrá-la. Sem hesitar, ele se colocou ao seu lado, o calor e a presença dele dissolvendo um pouco da tensão que havia em seu peito.



Jacob manteve a mão de Renesmee entre as suas durante toda a cerimônia, como se fosse uma âncora silenciosa para ela. Nessie tentava se concentrar nas palavras do prefeito e no murmúrio dos presentes, mas sentia, vez ou outra, o peso do olhar de Noah Callahan. Era um olhar persistente, quase inquisitivo, que a fazia desviar os olhos e ajeitar-se no assento.

Edward aproximou-se de Jacob, tocando-lhe discretamente no ombro.

— Precisamos conversar — disse, num tom baixo, e Jacob assentiu, lançando um olhar rápido para Nessie antes de se afastar com o sogro.

Renesmee ficou ao lado de seu irmão mais novo, que mexia distraidamente no casaco. Foi então que ouviu, vindo logo atrás dela, uma voz familiar, grave, mas carregada de nostalgia:

— Renesmee… há quanto tempo.

Ela se virou. Noah estava a poucos passos, o olhar fixo nela, o luto estampado nas roupas e na expressão.

— Sim… seis anos — respondeu, com um pequeno sorriso educado. — E… sinto muito pelo que aconteceu com seu pai, Noah.

Ele respirou fundo, os olhos fugindo por um instante para o caixão.

— Meu pai foi um grande homem. Quem fez isso… vai pagar.

Renesmee manteve a compostura, mesmo sentindo o peso das palavras.

— Eu acredito na justiça — disse com firmeza.

Nesse momento, Jacob reapareceu, a presença dele como um escudo.

— Noah Callahan — disse Renesmee, voltando-se para Jacob. — Este é meu noivo, Jacob Black.

Os dois homens se encararam por um breve momento antes de apertarem as mãos.

— Meus sentimentos pelo seu pai — disse Jacob, num tom firme, mas cortês.

— Obrigado — respondeu Noah. — Eu preciso voltar para minha mãe.

Ele se afastou, indo até a mulher de luto. Jacob acompanhou cada passo dele com o olhar, só desviando quando Noah já estava fora de alcance.

— Você o conhece há muito tempo? — perguntou, voltando-se para Renesmee.

— Desde o ensino médio… mas não o via desde que ele foi embora — respondeu ela.

Jacob franziu o cenho, a voz mais baixa:

— Ele parece… tranquilo demais pra quem acabou de perder o pai.

Renesmee não respondeu, mas no fundo, também achava o mesmo.



O carro avançava pelas ruas úmidas de Seattle, o som abafado da chuva batendo contra os vidros. Renesmee mantinha o olhar perdido na janela, como se ainda estivesse presa às imagens do velório.

Jacob, observando-a de canto de olho, quebrou o silêncio:

— Você está calada demais. Isso tem haver com Noah Callahan? — ele fez uma pausa, a expressão endurecendo. — Percebi que ele não tirou os olhos de você nem por um segundo.

Nessie desviou o olhar da rua para ele, arqueando uma sobrancelha.

— Você está com ciúmes, Jacob Black?

Ele soltou um pequeno riso incrédulo.

— Ah, claro… agora sou eu que estou te fazendo rir.

Ela manteve o sorriso, mas a voz ficou mais suave.

— Noah e eu… fomos namorados. Ele ter ido embora foi o motivo do término.

Jacob ficou em silêncio por alguns segundos, apenas olhando para frente.

— Entendi.

Ela notou a leve rigidez na postura dele, o jeito como os dedos tamborilavam no joelho. Ciúmes.

— É passado, Jake — disse, inclinando-se um pouco mais para ele. — Agora eu estou olhando para o homem que é dono do meu coração… no presente.

Antes que ele respondesse, ela o beijou, lenta e profundamente.

Do banco da frente, Harry olhou pelo retrovisor e balançou a cabeça com um suspiro teatral.

— Esses dois… — murmurou para si mesmo, antes de abaixar o vidro fumê que separava os passageiros do motorista.

Jacob percebeu que agora estavam isolados do mundo lá fora. Um sorriso lento surgiu em seu rosto. Sem dizer nada, ele passou o braço pela cintura dela e a puxou para o seu colo, ignorando completamente a vista da cidade que passava pelas janelas.


O motor do carro ronronava baixo enquanto a chuva engrossava, criando um ritmo hipnótico no vidro.

Jacob manteve Renesmee no colo, os beijos se aprofundando, intensos, como se o tempo tivesse deixado de existir.

Ela se afastou por um segundo, os lábios ainda roçando nos dele.

— Jake… e se o Harry…

— Ele está muito ocupado fingindo que não vê nada — Jacob sussurrou com um meio sorriso, deslizando a mão pela curva da cintura dela.

O vidro embaçado denunciava o calor crescente no interior do veículo. Nessie segurou o rosto dele com as duas mãos, afundando-se novamente no beijo. Jacob só se afastou quando sentiu o carro desacelerar diante dos portões da mansão Black.

Assim que entraram, Harry nem tentou disfarçar o olhar divertido, mas Jacob o ignorou completamente, conduzindo Nessie pela mão até as escadas.

Subiram rápido, quase sem fôlego, e assim que a porta do quarto se fechou atrás deles, Jacob a prendeu contra a madeira, os beijos retomando com urgência. Ela puxou o paletó dele, e ele, sem interromper o contato, a guiou até a cama.

Caíram juntos sobre o colchão, o peso dele envolvendo-a, as mãos explorando cada curva com a mesma fome que o olhar carregava desde o carro. Nessie entrelaçou as pernas na cintura dele, sentindo o coração acelerar no mesmo compasso do dele.

O mundo lá fora poderia estar mergulhado em perigo, mas naquele instante, para eles, só havia calor, respiração acelerada e a certeza de que nenhum passado importava — apenas o presente, e o que ainda estava por vir.