O quarto estava silencioso, apenas o som constante e suave da respiração de Renesmee preenchia o espaço. A luz fraca do abajur deixava seu rosto pálido ainda mais delicado. O médico acabara de sair, garantindo a Jacob que era apenas uma crise nervosa provocada pelo choque — mas que ela precisava de repouso absoluto.

Jacob permanecia sentado ao lado da cama, a mão forte envolvendo a dela, como se o simples toque pudesse protegê-la de qualquer mal. Seus olhos estavam pesados, mas não se permitia piscar por muito tempo, temendo perder qualquer sinal de que ela acordaria.

Harry entrou, hesitante.

— Senhor… a senhorita Alice Cullen está na sala… junto com a senhorita Hale. Querem notícias da sobrinha.

Jacob soltou um suspiro, o olhar voltando para o rosto adormecido de Nessie. Inclinou-se e depositou um beijo suave em sua testa.

— Eu já volto, minha pequena.

Ele se levantou, ajeitou a coberta sobre ela e seguiu para as escadas, descendo em passos firmes.

Na sala de estar, Alice estava de pé, visivelmente ansiosa, enquanto Rosalie Hale — com seu ar elegante e olhar cortante — mantinha os braços cruzados. Ambas se viraram assim que ele entrou.

— Como ela está? — Alice perguntou, a voz tensa.

Jacob respirou fundo.

— Teve uma crise nervosa… o médico disse que foi o choque. Está descansando agora. — Ele fitou as duas por um momento, medindo as palavras. — E sobre o Edward?

Alice e Rosalie trocaram um olhar rápido, como se não soubessem por onde começar. Por fim, Rosalie foi quem falou, num tom contido:

— Ainda não tivemos acesso a ele. A polícia está tratando o caso como prioridade e… não dão muitas explicações.

Alice completou, mais suave:

— Há coisas estranhas nessa acusação, Jacob. Não parece… real.

Jacob franziu o cenho, aquela sensação incômoda voltando a se instalar.

— Estranhas como?

Rosalie inclinou levemente a cabeça.

— Como se alguém tivesse armado para ele. E se for isso… a pessoa por trás é muito mais perigosa do que imaginamos.




O quarto estava mergulhado em um silêncio pesado quando Renesmee abriu os olhos. Por um momento, ficou imóvel, tentando entender onde estava, sentindo o coração bater acelerado. O cheiro familiar da casa de Jacob a envolvia, mas junto vinha uma pressão no peito, como se a lembrança quisesse romper todas as barreiras que ela tentava erguer.

De repente, o estômago revirou. Ela se sentou na cama com um sobressalto, respirando fundo, mas a sensação não passou. Descalça, levantou-se e seguiu em direção à porta, como se o simples ato de caminhar pudesse dissipar aquela angústia.

Cada degrau que descia parecia pesar o dobro. Parte dela desejava que, ao chegar lá embaixo, descobrisse que tudo não passava de um pesadelo — que Charlie estava vivo, que seu pai não havia sido preso. Mas o ar carregado e a tensão na voz das pessoas no andar inferior quebraram essa ilusão antes mesmo que ela chegasse à metade da escada.

— …acho que ele está sendo usado como bode expiatório — Jacob dizia, a voz firme, mas com um tom de preocupação. — Nada se encaixa direito.

— Isso quer dizer que o Corvo ainda está solto — Rosalie completou, séria.

Nessie parou no último degrau e falou, a voz embargada:

— Meu pai é inocente. Ele jamais… jamais mataria o meu avô Charlie.

O silêncio tomou conta da sala. Jacob se virou de imediato ao vê-la ali, pálida e frágil, mas de pé.

— Você não deveria estar fora da cama. Precisa descansar.

Ela balançou a cabeça, determinada.

— Não, Jake. Eu preciso ir para casa dos meus pais… ficar com a minha mãe. Ela deve estar muito mal agora.

Jacob deu um passo na direção dela, hesitando.

— Nessie, você acabou de ter uma crise. E lá fora as coisas estão perigosas.

Mas o olhar dela não vacilou, mesmo com as lágrimas queimando seus olhos.

— Ela é minha mãe, Jake. E eu não vou deixá-la sozinha.


•••••••••••••••••••••••••••



A casa estava mergulhada em uma penumbra silenciosa, quebrada apenas pelo som suave da respiração de Bella, que dormia após os calmantes. Renesmee ajeitou o cobertor sobre o corpo da mãe, seu coração apertando ao ver o rosto cansado e marcado pelo choro.

Com passos leves, ela saiu do quarto, fechando a porta com cuidado para não acordá-la. No corredor, encontrou Henry parado, abraçando o próprio ursinho de pelúcia, os olhos grandes refletindo insegurança.

— Nessie… eu tô com medo — disse ele, a voz quase um sussurro.

Ela não pensou duas vezes. Abaixou-se e o pegou no colo, sentindo o calor e o peso familiar do irmão mais novo contra o peito.

— Eu sei, meu amor. Mas está tudo bem — disse, caminhando pelo corredor até o quarto dele. — Logo o papai vai estar de volta, e tudo isso vai passar.

Colocou Henry sobre a cama, ajeitando os lençóis e certificando-se de que o ursinho estava seguro nos braços dele. Mas, antes que ela pudesse se afastar, o menino segurou sua mão com força.

— Fica comigo… por favor.

Renesmee sentou-se ao lado dele e começou a passar os dedos pelos cabelos castanhos, num gesto suave e tranquilizador.

— Eu não vou a lugar nenhum, Henry. — Seu tom era firme, mas cheio de carinho. — Eu prometo.

O menino fechou os olhos, mas manteve a mão dela presa, como se aquele contato fosse o último fio de segurança num mundo que parecia desmoronar. E, enquanto o sono o vencia, Nessie permaneceu ali, implacável contra o medo que rondava a casa, mantendo sua promessa de não deixá-lo sozinho.


••••••••••••••••••••••••


A chuva fina caía sobre Seattle, transformando as ruas em espelhos quebrados pelas luzes da cidade.

O rugido grave da moto ecoou pelo beco até parar nas sombras, onde o Lobo da Noite desceu com movimentos calculados.

No ponto de comunicação, a voz de Harry soou clara:

— Dois guardas na entrada principal, outros três na ala leste. A troca de turno acontece em quatro minutos. Depois disso, você vai ter uma janela de apenas cinco.

— Entendido — respondeu Jacob, ajustando a máscara e observando o prédio iluminado. — Mantenha-me atualizado.

Quando o sinal veio, ele se moveu como uma sombra viva. Escalou a lateral do prédio, usando pontos cegos e câmeras já desligadas por Harry. Em segundos, estava dentro, evitando encontros diretos, deslizando pelos corredores até chegar à cela de segurança máxima.

Lá dentro, Edward Cullen ergueu o olhar, surpreso.

— Então… veio me matar? — perguntou com um meio sorriso frio, mas o cansaço era evidente.

— Não — respondeu o Lobo, a voz grave soando mais como uma declaração do que uma garantia. — Estou aqui para ajudar. Mas isso só vai funcionar se você colaborar… e me contar o que está escondendo.

Edward franziu o cenho.

— E por que um vigilante mascarado faria isso?

Jacob se aproximou da grade, olhando-o nos olhos.

— Porque foi um pedido da sua filha, Renesmee.

O silêncio que se seguiu foi pesado. Edward avaliou a situação, respirou fundo e, por fim, falou:

— Na prefeitura… há um livro, capa azul, na estante do meu escritório. Dentro dele, existe um pen drive. Lá você vai encontrar o que procura.

Jacob assentiu, já se preparando para sair. Mas antes de dar o primeiro passo, ouviu Edward completar:

— Se minha filha confia em você… eu também confio.

Os dois trocaram um último olhar, carregado de tensão e respeito, antes de o Lobo desaparecer novamente pelas sombras do centro de polícia.





Renesmee saiu do quarto e encontrou Rosalie no corredor, encostada na parede com os braços cruzados.

A tia não disse nada de início, apenas a puxou para um abraço caloroso — algo raro vindo de Rosalie, que nem sempre era tão efusiva.

— Você precisa descansar, Nessie — disse ela com voz suave, mas firme.

— Eu sei, tia… já estou indo — respondeu Renesmee, esboçando um sorriso cansado.

Rosalie a observou por um instante, como se quisesse ter certeza de que ela estava mesmo se cuidando.

— E… você deveria ligar para o Jacob. Ele deve estar preocupado.

Nessie assentiu.

— Vou falar com ele, sim. Boa noite, tia.

— Boa noite, querida.

Ao entrar no quarto, Renesmee largou-se na cama. O celular, sobre o criado-mudo, vibrou.

Ela o pegou e sorriu ao ver o nome de Jacob na tela.

Mensagem de Jacob:

"Boa noite, minha linda. Sei que o dia foi pesado, mas lembre-se: você é a melhor parte de tudo o que eu vivo. Dorme bem e sonha comigo, porque eu vou estar sonhando com você. ❤️"

O coração de Nessie se aqueceu. Ela digitou rapidamente:

"Boa noite, amor. Obrigada por estar sempre aqui… mesmo quando não está. Te amo."

Ela deixou o celular sobre o travesseiro, mas antes de guardá-lo na gaveta, uma nova notificação surgiu.

O remetente… nenhum número. Apenas a mensagem fria na tela:

"Se você deseja ver seu pai livre, me encontre no Armazém 17, na zona portuária, amanhã às 9 horas."