Nós Estávamos Lá
6 Capítulo 6
Capítulo 6
Terça-Feira
“Porque eu quis”.
As palavras de Lucca não saiam da mente de Olívia. Tudo parecia ocorrer tão lentamente, mas fora somente em alguns instantes. Liv não lembrara do irmão ter a soltado pelo braço, muito menos dela ter subido as escadas apressadamente, em um piscar de olhos ela já estava em seu quarto.
Encolhida na cama e segurando sua boneca, Olívia tentava controlar a aversão que sentira por tudo aquilo. A repulsa por si mesmo e o enraivecimento por Lucca. Seus punhos estavam fechados, seus lábios serrados. Queria apenas voltar para antes, antes de saber que Lucca era seu irmão, antes dela ter esquecido Neil Gaiman e antes dele tê-la beijado no lado de fora da danceteria. Olívia iria ignorá-lo, esquecer o beijo, esquecer o ocorrido. Foi o que disse a si mesma, e com o tempo…Lucca voltaria a viver com Maurício e tudo isso não passaria de uma lembrança confusa e nublada.
Naquela noite o banho de Olívia durou mais que o esperado. Embora tentasse distrair sua mente ou apenas concentrar-se em banhar-se Liv ainda tinha flashes desconcertante do dia. Olívia parou no meio do caminho até o seu quarto enquanto penteava seus cabelos loiros. Seus pés paralisaram no instante em que viu Lucca em frente ao seu quarto. Liv podia sentir suas bochechas quentes quando o menino a encarou. Ela corou ainda mais quando lembrou que estava de camisola rosa transparente. Quando Olívia tomou coragem para olhar o irmão percebeu que o mesmo não estava mais a encarando. Lucca desviou o olhar corando.
“Liv, onde está a Carmela?” — indagou Sophia saindo apressada do quarto e indo até ao corredor.
“Mamãe a colocou na estante, ao lado do porta-joias” — murmurou.
Não demorou para que Sophia voltasse novamente do quarto com uma boneca de pano. Diferentemente da boneca que Maurício havia a dado, a segunda vestia um vestido florido, o pano ao redor dos olhos estava cedendo, e as expressões do que devia ser o rosto já estavam desaparecendo.
“Você pode dormir com a mamãe hoje Liv? Eu quero dormir com o Lucca.” — anunciou a pequena.
“Dormir com o Lucca?”
Lucca.
Lucca mau acabara de chegar e o mundo de Elisa e Sophia parecia ser ele. Liv sabia que tudo isso não passaria de uma novidade rápida da mesma maneira de quando as irmãs descobriram que a mãe estava namorando. Muitas perguntas e logo elas nem notavam mais a presença de Roberto na casa. Pelo menos era o que Liv deduzira.
“Já conversamos sobre isso” — esclareceu Elisa indo ao encontro deles — “Seu irmão deve estar cansado, precisa de uma boa noite de sono. Sophia e eu vamos dividir o quarto e Lucca ficara com Olívia” — Elisa deu ênfase ao nome de Sophia para que a caçula entendesse.
“Sophia pode ficar no quarto” — declarou Olívia perturbada — “Eu não me importo em dividir o quarto com a mamãe” — definitivamente para Liv a situação estava começando a sair do controle. Tudo o que ela menos queria era ter que dividir o quarto com Lucca.
“Não se preocupe com isso Olívia” — tranquilizou Elisa não entendendo a intenção da filha — “Eu e Sophia vamos ficar bem”.
A caçula bateu o pé no chão, brava, ela franziu o cenho e marchou arrastando a boneca consigo até o quarto da mãe.
“Ela vai ficar bem” — anunciou Elisa para Lucca. Com os braços cruzados no batente da porta Lucca assistia a tudo com um sorriso escondido no canto dos lábios.
Olívia seguiu irritada para o quarto, seus passos cada vez mais pesados. Queria ser Sophia e dormir com a mãe. Foi exatamente depois que Elisa desejou boa-noite e deu um abraço em cada um dos filhos que Liv não soubera mais o que fazer.
“Desculpe” — começou ele.
Olívia não sabia se Lucca estava se desculpando por tê-la beijado ou por pensar ser um incomodo. Poderia ser pelos dois. Liv arriscou-se a olhá-lo pelo canto do olho, diferentemente dela, ele não parecia nem um pouco tenso. Ela o ignorou quando foi chamada pelo nome.
“Você pode dormir na cama da Sophia porque a mamãe quer” — murmurou sonolenta — “Eu estou cansada”.
Liv esperou que Lucca codificasse a mensagem que havia passado. Tolerá-lo sem entendê-lo seria algo frustrante para ela.
“Está bem” — confirmou ele, parecendo entender o aviso.
Olívia deitou-se na cama e enrolou-se nas cobertas. Virou-se para o lado oposto quando percebeu que Lucca mudava de roupa para dormir. Seu coração palpitava. Ela escutou cada movimento que ele fazia e apenas desligou o abajur quando teve certeza que ele estava deitado na cama de Sophia.
“Boa noite, bonita” — ela pode escutar.
“Boa noite Lucca” — respondeu esperando que o sono a levasse para longe dali.
Olívia demorou para pegar no sono. Não era porque relembrava todo o ocorrido daquela terça-feira, era por saber que ele estava tão perto, apenas há alguns passos. Próximo o suficiente para tocá-la, próximo o suficiente para beijá-la novamente. Liv tentava afugentar os pensamentos, mas ele estavam tão perto…Deixou-se entregar a sua consciência e, por fim, adormeceu.
Os corredores estreitos pareciam levar a lugar nenhum. Olívia escutava a própria respiração. A porta a esquerda levava para outro corredor e assim suscetivamente. Perdida naquela passagem ela ouvia uma voz infantil buscando pela mãe. Não importava o quanto tentasse procurar, nunca achava a criança assustada. Sentia sua mão esquerda pesada. Olívia não perceberá que trazia consigo uma boneca de sua infância. Sabia agora que a criança assustada que pedia pela mãe era ela. Olívia apertou a boneca de pano contra o peito. Ao erguer os olhos percebeu um menino ao lado da porta esquerda; seu rosto era imperceptível. Olívia aproximou-se o suficiente para compreender que ele balbuciava palavras. “Não gosto de você. Não gosto de você Olívia”. Ele estava dirigindo-se a ela. “Você é feia, vá embora” — ele ordenava. A menina foi então, correndo na direção oposta pelos corredores, querendo apenas volta para casa. Liv resistiu ao choro, estava assustada, estava confusa, mesmo assim deixou escapar alguns soluços.
Quarta-feira
Olívia acordou assustada, seus braços pressionavam o peito como se ainda segurasse a boneca. Seu sonho parecia ser nada mais que uma lembrança, uma lembrança desbotada. Abruptamente virou-se para o lado, esperava ver Sophia, quando lembrou que era Lucca que deveria estar ali. A cama estava arrumada, não havia indícios de que alguém havia se quer dormido nela. Era tudo um sonho? O relógio no criado-mudo marcava seis e meia da manhã, era muito cedo ainda. Se perguntou o que havia acontecido com o irmão?
Foi quando desceu para tomar café da manhã que ela os encontrou. Elisa preparava torradas com geleia de morango. Olívia se surpreendeu ao ver Sophia, que era acostumada a dormir até mais tarde, acordada tão cedo. Ao lado de Lucca, a caçula terminava um desenho com giz de cera.
“Não é lindo?” — indagou ao irmão- “Parece com você”.
Olívia não escutou a resposta do mais velho, queria tomar seu café desapercebida. Serviu-se de torradas e leite; sentando-se ao lado da mãe.
“Lucca vai levar sua irmã ao balé antes da aula”- anunciou Elisa.
“Sim” — exclamou Sophia — “Quero mostrar a todas as meninas que meu irmão é o mais bonito”.
Olívia conteve o riso enquanto bebia leite.
“Acho que seria uma boa ideia, você ir com eles Olívia” — sugeriu a mãe.
Não, pensou ela. Era melhor que ficasse o mais distante o possível de Lucca.
“Combinei de encontrar a Beatriz antes da escola. Desculpa” — mentiu.
Sophia não se importou, o que era queria mesmo era que Lucca a levasse no balé. Em um instante a pequena já estava pronta. Elisa foi a primeira a sair para o trabalho, como trabalhava de corretora, tinha clientes bem cedo naquela manhã. Ela despediu-se dos filhos e lembrou que buscaria Sophia na saída. A caçula e o irmão saíram logo atrás.
Olívia viu-se sozinha em casa. Suspirou. Pela primeira vez, desde a chegada de Lucca respirou aliviada. Foi segundos depois de Sophia ter saído pela porta que ela escutou passos vindo em direção a cozinha. Deduzira que a irmã havia esquecido algo, quando virou-se para indagar, Liv deu a passo para trás. Os olhos verdes cintilantes de Lucca se encontraram com os seus. Atônita ela vislumbrou ele sorrindo. No momento seguinte, ele já havia tocado seus lábios nos dela.
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