Capítulo 5

Terça – Feira

Maurício era um homem em forma que aparentava ter menos idade do que tinha. Seus cabelos pretos eram ondulados, muito bem penteados para trás com gel. Ele vestia uma calça azul-marinho combinando com seu colete beje. Seus olhos pequenos possuíam algo que Olívia não conseguia identificar, não sabia se eram maliciosos ou gentis. De maneira nenhuma ele parecia ser um ser humano condescendente.

—“Liv, Liv” — exclamava Sophia sem fôlego — “O Lucca não é lindo? Ele é do jeitinho que eu imaginava”. — Sophia já estava absorta nos braços do irmão.

Olívia não conseguia manter a calma, muitos pensamentos se formavam ao mesmo tempo em sua mente. Por que Lucca havia beijado? Ele sabia que eram irmãos? Talvez não soubesse, mas na noite em que se encontraram na danceteria Liv recordou que ele perguntará se sabia quem ele era. Por que não falou como se chamava? Por que não disse que era Lucca? Se havia passado, passou ligeiramente a ideia de que eles poderiam ter um relacionamento. Tudo estava acabado antes mesmo de sequer ter começado.

Olívia engolia em seco. Ela não se atrevia a olhar para ao lado e ver o irmão, nem mesmo Sophia.

“Pensei que chegariam apenas na quinta”— relembrou rapidamente.

Elisa apanhou uma mecha solta do cabelo e o prendeu atrás da orelha. Assim como a filha ela parecia não esperar pela vinda de Lucca tão cedo. A menina encarou a mãe com receio. Compreendendo o olhar confuso de Olívia, Elisa se pôs a explicar.

“Seu pai e Lucca chegaram mais cedo. Maurício achou melhor que eles chegassem um pouco antes. Lucca queria se familiarizar com a escola”.

“Pelo visto Lucas a reconheceu” — afirmou animado o pai.

“A Livie nunca muda, não há como não reconhecê-la, continua com as mesmas sardas de quando pequena” — concluiu Lucca.

Olívia permaneceu atônita, mesmo assim pode vislumbrar um sorriso dada pelo irmão pelo canto dos lábios. A frase fala dele respondeu a pergunta que Liv fazia internamente. Sim. Ele sabia quem era ela. E pelo modo como falou sabia muito bem.

“A Olívia é a menina mais bonita da escola. É fácil reconhecer ela. Lucca devia saber disso. Não é?”- indagou a caçula ao irmão mais velho.

“Então você é a mais linda do mundo” — disse Lucca a Sophia. Ele ergueu a irmã pequena nos braços.

“Sim” — confirmou Sophia aos quatro vento, enquanto gargalhava feliz.

“Ótimo” — deduziu Maurício “Ele ficará bem aqui”.

Olívia se surpreendeu ao ver seu pai sentado na poltrona preta da sala de estar, não era uma visão que ela pensou em presenciar um dia, era peculiar. Elisa o convidou para entrar, anos atrás ele teria dado uma simples desculpa e rapidamente voltado para o escritório de sua cidade natal. Hoje não. Hoje era diferente. Hoje ele entrara. Hoje ele estava animado e confiante.

Sophia se jogara no carpete da sala. A pequena rasgava o papel de uma caixa retangular que o pai havia dado de presente. Era uma boneca de pano, de olhos de botão, cabelos de linha azul e vestido em tons verde-água. A irmã menor analisava os detalhes da boneca sem perder nem um.

“Espero que não esteja tão velha para bonecas Liv” — anunciou o pai com certa cautela — “Minha amiga Berta disse que são para colecionadores”.

Sentada no sofá beje da sala, Olívia se acomodou para desembrulhar o presente. Conforme o papel de presente desenrolava-se da caixa ela vislumbrava a boneca. Não era de pano como a da Sophia e Liv apostara que havia custado muito mais caro também. Uma boneca de porcelana, de uns quarenta centímetros. Era como uma jovenzinha pequena, de vestido comprido e azul, cheio de babados. Os olhos da boneca tinha o mesmo tom de azul dos olhos de Olívia. Uma fita vermelha prendia os cabelos pretos e cacheados. Era bonita, mas, a tempos Olívia não brincava mais de boneca, na verdade preferia pelúcias.

“Obrigada” — agradeceu — “Ela é linda”.

Sentada ao lado de Olívia, Elisa estava radiante, diferente da filha ela não tirava os olhos de Lucca.

“Você também não mudou nada Elisa” — mencionou Maurício.

“Quanto tempo vai ficar?” — indagou a mãe mudando rapidamente de assunto.

“Hã..”- Lucca olhara para o pai receoso.

“Não sabemos…Creio… que seja até terminar a escola ou talvez menos…”.

Eles trocaram um breve olhar gélido. Olívia claramente deduziu que qualquer que fosse o segredo que olhos deles compartilharam naquele momento, nada dizia respeito a mãe nem as irmãs.

Elisa suspirou tranquila, queria que o filho ficasse mais do que algumas semanas, ela acreditava que seria bom para todos, principalmente para as meninas.

“Bem” — concluiu Elisa contente — “Lucca pode ficar conosco o tempo que ele quiser. Se quiser passar a vida toda aqui…A casa sempre estará aberta para ele”.

Maurício não demorou para mencionar que estaria de viagem naquela mesma noite. Sophia insistiu que o pai ficasse mais tempo, mas ele já havia comprado sua passagem com antecedência e tinha clientes importantes para atender na quarta feira. O semblante do pai estava triste, ele não gostava de desapontar a filha caçula.

Era nove horas da noite quando Roberto chegou para jantar.

Depois da despedida de Maurício; Olívia ajudou a mãe a cortar os vegetais e as fatias de frango. Durante todo o tempo em que esteve com a mãe na cozinha Liv não se recordara de nada, nem mesmo se a mãe tivera mencionado algo. Todos os pensamentos da menina se dirigiam para o cômodo ao lado em que Sophia e Lucca jogavam baralho. Queria tanto interrogá-lo. Por que fizera? Quanto mais pensava mais irritada começava a se sentir com a situação. Decidirá que por enquanto que iria apenas ignorá-lo.

Elisa elogiara Lucca a Roberto quando o mesmo chegou para o jantar. Era um bom aluno, tinha ótimas notas e participava do clube de futebol. Lucca animou-se em saber que Roberto também seria seu professor. Ele lecionava português para os alunos do terceiro ano.

Sophia comeu seu frango e mesmo que não gostasse de legumes esforçou-se para comê-los, não queria fazer feio para o irmão.

Foi depois de terem jantado e as irmãs lavarem os pratos. Elisa e Roberto assistiam a um filme pela TV, pareciam como um jovem casal de namorados. Sophia jogara-se novamente no carpete enquanto terminava sua lição de matemática. Olívia apanhou o presente recebido pelo pai. Ela deu boa noite a mãe e a Roberto. Parou no terceiro degrau para os cômodos de cima quando Lucca a segurou pelo braço. Olívia não queria virar-se e encarar os olhos cintilantes do menino, mas abruptamente acabou por fazer.

“Você está bem Livie?” — indagou ele.

Apertou a boneca contra o corpo, encarando-o rabugenta.

Eles já haviam tido uma conversa como aquelas palavras e Olívia sabia até onde tudo aquilo havia levado.

“Estou bem” — mentiu soluçando.

“Por que você não falou comigo desde que cheguei?” — perguntou erguendo as sobrancelhas.

“Por que mentiu para mim?” — indagou mais para si do que para o irmão.

A conversa deles não passava de um murmúrio.

“Eu não menti” — concluiu ele secamente.

Olívia negava com a cabeça, não entendia o que estava acontecendo.

“Você é meu irmão….Somos irmãos…Você sabia? Então por que você…?” — Liv não se atreveu a dizer as palavras sabendo que a irmã e a mãe estavam logo perto.

Lucca suspirou jogando a cabeça para trás. Olívia imaginou pela reação que nem ele sabia da resposta. Lucca olhou para o vazio por alguns segundos antes de falar.

“Porque eu quis” — fora sua única razão.