Capítulo 4

Terça – Feira

Olívia remexia–se na cama com frequência. Ela não parava de pensar em tudo o que havia acontecido naquela noite, sobretudo no beijo que o garoto havia dado nela. Liv nunca imaginou que seu primeiro beijo seria com um desconhecido, previu que provavelmente seria com Daniel, não que ela não se importasse com isso, ela estava surpresa.

Beatriz havia telefonado antes que Liv fosse para a cama. A noite de Beatriz também não fora tão boa como a de Olívia. Júnior Ferreira, seu parceiro do segundo ano, resolverá tomar uma bebida, infelizmente ele não tinha um estômago muito forte, acabou que não houve tempo dele chegar ao banheiro e o alvo dele terminou sendo o vestido novo e os sapatos altos de Bea. Liv apenas mencionou que torceu o tornozelo; o resto ela decidiu que apenas contaria para Cinthia.

Olívia demorou para pegar no sono. Na cama do lado Sophia dormia como uma pedra. Ela desejou ter a idade de Sophia, não se importar com nada que não fosse suas bonecas e sua família.

“Como está o seu tornozelo?” — perguntou Elisa enquanto tirava a jarra de leite da geladeira.

Olívia quase não perceberá a chegada da mãe na cozinha. Ela estava terminado sua lição de matemática enquanto comia cerais e frutas.

“Está bem” — assegurou olhando em direção a ele.

“Que ótimo querida” — concluiu a mãe.

Elisa serviu-se de leite, torradas de manteiga e uma porção de morangos.

“Roberto jantará conosco está noite” — anunciou ela animada.

Olívia levou uma colher de cerais a boca. Para ela e principalmente para Sophia era temeroso pensar em mamãe cozinhado. Elisa não era má cozinheira, mas suas receitas não combinavam. Sempre que Roberto vinha para jantar Liv e Sophia acabavam por levantar no meio da madrugada e juntar as sobras dos dias anteriores, assim não passariam tanta fome.

“O que vamos comer?” — interpelou Liv apreensiva.

“Cubos de frangos com vegetais e evas finas, receita da tia Elza”.

“Parece bom” — afirmou Olívia. A irmã de sua mãe fazia boas receitas.

Júnior Ferreira não cumprimentou Beatriz quando passou pelas meninas no corredor. De olhar baixo em seus cadernos ele agiu como se não a conhecesse. Atrás delas um grupo de garotos que sabia o que havia acontecido na noite anterior o chamou de perdedor.

“Esses garotos não deviam ser tão cruéis” — murmurou ela.

“Ele destruiu os seus sapatos novos” — declarou Caroline, como se fosse algo excessivamente ruim.

“Ele está constrangido” — falou descontente.

Olívia deixou que as meninas seguissem para próxima aula quando encontrou um Daniel tenso a sua procura. Tudo o que Liv não queria mais era recordar o que havia acontecido na noite anterior e ali estava Daniel pronto para desculpar-se.

“Sinto muito pelo que aconteceu ontem Liv, acho que eu os caras passamos um pouco dos limites… espero que não esteja chateada”.

Olívia não queria ter aquela conversa com Daniel naquela hora. Ela não estava chateada com ele, o que mais a surpreendia era ter sido beijada por um estranho. Não importaria o que quer que falasse com Daniel, ele sempre dava um jeito de se aproximar novamente, não havia como afastá-lo.

“Não se preocupe Dani, eu me diverti muito com a Bea ontem” — ela soluçava cada que sentia o tom de falsidade de sua própria voz. Felizmente Daniel pareceu não perceber seus soluços. Um sorriso estampou-se pelo rosto dele, seu semblante parecia mais tranquilo.

“Que bom que se divertiu. Nos vemos depois?”

“Claro”.

No decorrer daquela terça-feira Liv tentou encontrar o garoto que a tinha beijado. Frustrada ela imaginou que ele não teria vindo naquele dia. Esperava que ele não dissesse aos outros que tinha conseguido roubar um beijo de Olívia Novaes. Seria terrível, principalmente para Daniel. Liv se segurou na esperança de que ele não contaria nada a ninguém e acalmou-se por não tê-lo visto em nenhum local da escola. Bem que tudo podia ter sido um sonho.

Foi no final da tarde de terça-feira, depois que Olívia saiu de sua aula de ginástica que ela o viu. Ele estava sentado no banco, esperando que o treinador Denis Costa o chamasse para o treino de futebol. Enquanto caminhava envolta do campo para voltar para casa, percebeu que se nome fora chamado, Daniel acenará para ela do outro lado do campo. Ela retribuiu imaginado que estava longe demais para que Daniel percebesse. No instante seguinte, seus olhos se cruzaram com os dele. Antes que Olívia pudesse se quer pensar em ignorá-lo ele já estava ao seu lado. Liv sentiu seu coração gelar.

“Espera!” — exclamou olhando para o relógio no pulso “Me dê três minutos que eu trago seu livro”.

Liv já afastara-se dele quando ele mencionou sobre o livro. Suspirou tentando parecer tranquila.

“Está bem” — surpreendeu a si mesma ao falar, sua voz era rude.

O garoto pareceu não de importar ou apenas ignorou. Ele sorriu para Liv e no momento seguinte corria em direção ao vestiário. Não demorou para que aparecesse novamente mas, como Olívia imaginou ele demorara mais do que três minutos.

Pela primeira vez Olívia o olhou com atenção, ela estava nervosa e curiosa, queria saber quem era o desconhecido que havia a beijado na noite anterior. Os cabelos dele eram cor de ouro, como os primeiros raios de sol da manhã, estavam molhados e bagunçados. Tinha a boca larga e os lábios finos. Usava camisa branca e calça de moletom azuis.

“Aqui esta” — anunciou enquanto tirava o livro da mochila e entregava a Olívia.

“Obrigada” — murmurou timidamente.

O jovem espreguiçou-se.

“Quer que eu te acompanhe?” — indagou encabulado.

Olívia sabia que ele não precisava acompanhá-la. Por que o garoto estava sendo educado? Liv riu ao imaginar que ele estava querendo se envolver com ela.

“Não precisa, não quero que perca seu treino”. — mentiu, deduzindo que ele era gentil.

“Tudo bem” — respondeu bem-humorado — “Eu não gosto de futebol”.

Fora essa a única vez que Liv ouvirá que um garoto não gostava de futebol.

Olívia deixou que ele a acompanhasse. A casa em que ela morava era seis quadras da escola. Ele estava realmente feliz quando anunciou que suas casas deveriam ser próximas uma da outra.

“Meu pai gosta de esportes”- disse ele — “Embora tenho certeza que ele nunca tocou em uma bola na vida”.

Olívia queria sorrir. Lembrou-se da mãe. Elisa podia gostar de cozinhar, mas Liv e Sophia sabiam que a mãe não era boa nisso.

“Devia dizer a ele que não gosta” — falou.

“Queria que fosse tão fácil como dizer isso…Sou o único filho homem que ele tem, não quero desapontá-lo”.

Liv não sabia o que era ser filha única, nem a mais velha e nem a caçula, isso porque ela era a do meio. Já havia imaginado como seria viver apenas ela e a mãe, mas desde que Sophia nascerá a pequena começou a ser uma parte importante da família dela.

“Aqui está bom, minha casa é a quarta desta quadra” — anunciou Liv.

A casa que ela se referia era um pequeno sobrado. Os tijolos vermelhos se sobressaiam entre as casas da vizinhança. As escadas para o primeiro andar eram de grandes degraus brancos. Olívia percebeu um carro preto na entrada. Ela conseguia enxergar o cabelo castanho de sua mãe embaraçava com a brisa. Elisa aos pés da escada conversava com um homem. Ambos olharam em sua direção. As mãos de Liv suavam. Imaginou o que deveria dizer ao seu pai quando ele a visse voltando para casa com um garoto e muito mais a sua mãe. Elisa apenas conhecia Daniel.

Olívia não notou Sophia agarrada ao pai. A caçula abraçava-o desajeitadamente. Olívia tranquilizou-se quando percebeu que a irmã correu em direção a ela, mas não entendeu o porque da pequena ter passado uns passos mais atrás. Liv franziu o cenho e olhou incrédula para irmã que desastrosamente obrigava o garoto a abracá-la.

“Lucca!?” — perguntou Sophia curiosa.

Olívia olhou para trás não querendo acreditar no que seus olhos viam.

Sua pequena irmã que antes estava agarrada a um homem, que deveria ser seu pai, estava agora nos braços do garoto que havia a beijado na noite anterior.

“O que…”.

O que você está fazendo? Era isso o que Liv ia perguntar a irmã quando os olhos deles se cruzaram novamente. Eram olhos verdes e cintilantes, familiares, que Olívia já havia visto diversas e diversas vezes em fotos. Eram olhos verdes, quase idênticos aos de seu pai.

A jovem se lembrou que nem o nome dele era sabia. E se ele se chamasse Lucca?

“Sophia?” — indagou o garoto animado.

A pequena afirmava diversas vezes com a cabeça enquanto o abraçava.

“Liv por que você não me disse que já conhecia o Lucca?”

“Simples”— pensou Olívia.

“Porque eu não sabia que ele era o meu irmão”.