Capítulo 2

Segunda – Feira

Olívia cumprimentou Maria Bandeira quando chegou à escola. Cumprimentou Amanda Muniz e Mara Esteves quando ambas passaram sorrindo por ela. Cumprimentou Agnes, sua professora de álgebra. Marcelo Paes deu um tímido oi quando se aproximou dela e o capitão do time de basquete da escola a cumprimentou com um sorriso.

Olívia Novaes não era uma típica estudante; embora sua vida inteira tenha tentado ao máximo se encaixar. A jovem também não reagia muito bem a elogios, sempre fora tímida demais para isso; embora agora já estivesse um tanto acostumada.

Olívia Novaes não era apenas uma boa estudante, era a menina mais bonita da escola. Os garotos queriam namorá-la e as meninas queriam ser suas amigas. Os professores a mostravam como exemplo por suas notas altas e sua boa vontade em ajudar os outros. Para todos não poderia existir uma garota tão dedicada e de bom coração como ela. Para Olívia todo aquele excesso de atenção a sufocava; ela apenas queria passar desapercebida.

Como de costume a senhora Rodrigues não havia chegado para ministrar à aula de ciências, ela era uma mulher de meia idade que parecia viver constantemente apressada. Enquanto esperava a chegada da professora; Olívia abriu seu livro de Neil Gaiman, sentou-se perto da entrada do jardim da escola e desejou que ninguém interrompesse sua leitura.

Liv sabia que Thomas logo chegaria. Thomas era um calouro desajeitado e magricela que logo acabou mostrando uma imensa gentiliza com ela. Era evidente que Thomas estava interessado nela e ele fazia questão de demonstrar; Olívia, no entanto, preferia se fazer de desentendida. Ela sabia que logo ele estaria a rodeando com a intenção de segurar seus pertences ou fazer algum tipo de favor.

Abruptamente Olívia parou sua leitura; instintivamente ela sentiu um para de olhos a fitando. A jovem esperava por Thomas, mas quando ergueu os olhos, o garoto que viu era muito diferente de quem ela imaginou. Parado em sua frente estava um garoto de cabelos loiros e nariz comprido. Tranquilamente ele parecia que a estava analisando, um sorriso debochado expandia-se sob os lábios. Ele permaneceu alguns segundos em silêncio antes de indagar.

“Com licença. Sabe aonde fica a sala da senhorita Campos?”.

Olívia não tinha nenhuma professora com o sobrenome Campos, logo deduziu que ele deveria ser aluno do terceiro ano. Ao que se lembrava Daniel já havia mencionado uma professora com esse nome.

“Claro – respondeu ela – Siga pelo saguão e dobre a esquerda. Você então sobe as escadarias e é a última sala do corredor”.

O garoto permaneceu calado enquanto a fitava.

Olívia levantou-se e juntou seu material quando Thomas chegou. Ele pareceu perceber o silêncio estranho entre Olívia e o jovem.

“Está tudo bem Olívia?”

“Claro” — afirmou ela.

Thomas gentilmente pegou a mochila e os pertences da garota.

“Podemos ir?” — indagou secamente.

“Sim”.

Liv sorriu timidamente, embora tenha achado estranha a reação silenciosa do rapaz. Assim como todos os outros ele devia ter a achado bonita. Liv deu de ombros, enquanto Thomas a puxava pelo pulso em direção a primeira aula.

“Espera, bonita” — chamou o rapaz.

“Obrigado” — disse ele quando seus olhos se cruzaram.

Beatriz Sales era uma menina bonita, não tão bonita quando Olívia mas tinha os seus encantos. Cabelos negros e cacheados desciam delicadamente até seus ombros, suas bochechas rosadas transpareciam quando sorria, seus grandes olhos castanhos eram gentis. Assim como Olívia ela era cobiçada pelos garotos mais velhos e invejada pelas meninas. Para Liv no entanto, Bea era uma boa amiga, mesmo sendo um tanto protetora.

Olívia comia uma maçã e Beatriz contava as calorias de uma rosquinha quando uma acelerada Caroline juntou-se a mesa do refeitório. Caroline Paz ingressará na escola no começo daquele ano, embora bonita podia-se claramente perceber arrogância e exacerbado narcisismo quando falava. Para Caroline a aparência e a popularidade de Olívia e Beatriz era o suficiente para que já as considerasse amigas de longa data.

“Perceberam que há um novo garoto no último ano?”- indagou Caroline apressada ao sentar-se.

“Karen Ferreira disse que ele é muito bonito” — concluiu Beatriz dando de ombro.

“Bonito é pouco perto dele” — disse Caroline.

Um aglomerado de meninas do primeiro ano foi juntando-se no canto do refeitório. Elas fitavam animadamente a porta de entrada do local. Não demorou para três garotos passarem por ali.

Rômulo Arantes, o capitão o time de futebol, foi o primeiro a aparecer com seu sorriso vibrante. Se Olívia era a menina mais bonita de toda a escola, com certeza, ele era o cara. Daniel apareceu logo em seguida com seus cabelos desgrenhados e suas bochechas vermelhas. Quando o último entrou atrás deles segui-se no refeitório um minuto de silêncio antes que os sussurros e as vozes abafadas percorressem o local.

Atrás deles mais jovens com olhares curiosos se aproximavam.

Olívia seguiu o olhar das meninas animadas e novamente cruzou seus olhos com o dele. Ele ergueu a sobrancelha e sorriu timidamente para ela.

“Ele não é tão bonito assim” — concluiu Bea devorando sua rosquinha.

“Se você acha” — sorriu Caroline não parecendo acreditar nela.

“Conversei com ele hoje” — Liv disse.

As duas meninas se entre olharam curiosas e a encararam.

“Ele me perguntou onde era a sala da senhorita Campos”.

“Apenas isso?” indagou Caroline decepcionada.

“Sim” — afirmou enquanto mordia sua maçã.

Ele havia a chamado de bonita, isso ela não mencionou.

Durante todo aquele dia não houve outro assunto, a não ser sobre o garoto bonito que entrará na escola. A maioria das meninas já podia se imaginar em um relacionamento sério com ele, mas não Beatriz Sales e não Olívia Novaes. Embora os olhos dele fossem estranhamente familiares para Liv.

Caroline dissera que Daniel gostava dela, Bea também dissera o mesmo. Olívia sabia que até mesmo a pequena Sophia achava que eles fariam um belo par. Durante algum tempo Liv pensara que ficar com Daniel poderia ser bom. Ele gostava dela e diferentemente de Thomas ele não a sufocava. Um ótimo garoto, prestativo e confiante era o que a maioria das pessoas diziam sobre ele.

“Isaiah Chaves não para de olhar você” — deduziu Beatriz.

Olívia timidamente abaixou o rosto. Ela já havia percebido os olhares sugestivos que o garoto do terceiro ano transmitia para ela. Isaiah era um jovem bonito, de pele bronzeada e olhos cor de chocolate. Do outro lado do local ele segurava um copo de bebida.

“Onde está Daniel?” mudou ela de assunto. “Pensei que estaria com você?”.

“Ele foi pegar uma limonada para nós”.

Na mesa de bebidas Daniel alegrava-se conversando com os amigos. Enquanto servia-se de limonada as meninas podiam escutar o som contido de suas risadas.

Olívia não gostava de lugares fechados nem de multidões, mas Daniel havia a convencido de que seria bom que fossem na inauguração da nova danceteria.

No meio da pista de dança Caroline seguia Rômulo Arantes, mas ele não parecia dar-se dê conta das investidas da garota. Não demorou para que um jovem do primeiro ano tomasse coragem e convidasse Beatriz para dançar. Olívia assentiu que a amiga deveria se divertir; logo viu-se só.

Daniel não parecia tão interessado nela, ele continuava entreter-se com os outros. Aquilo havia sido uma péssima ideia. Liv desejou estar enrolada em seu cobertor terminado a leitura de seu livro. Ela não gostava de festas.

Os rapazes a olhavam com atenção enquanto ela andava pela multidão, sentou-se em uma das poltronas vagas, esperando que Daniel lembrasse-se dela.

Olívia percebeu quando uma mão estendeu-se em direção a ela. Daniel estava de volta. Segurou a mão e ele a levou para o canto mais afastado da pista de dança. Na escuridão da danceteria ele ofereceu um copo de limonada, mas, quando as luzes de led passaram por seu rosto, Liv percebeu que aquele não era Daniel.