Nó(s)
3 Dois
A madrugada de Theo estava agitada. Recebera um telefonema ás 5h da manhã do porteiro do prédio de Daniel avisando que o designer de games estava na calçada e se negava a sair dali.
O músico levantou-se com cuidado da cama para não atrapalhar o sono de Anna, não queria envolvê-la mais nisso do que o necessário, e com toda a sua boa vontade o músico foi até a rua do apartamento do amigo para ajudá-lo. Chegando lá, encontrou Daniel deitado na calçada com uma garrafa de Vodca ao seu lado. O músico suspirou respirando fundo, pois não podia perder o controle.
— Ele está assim faz uma meia hora. — Disse o porteiro do lado de dentro da propriedade abrindo o portão para Theo.
— Obrigado por ligar, Sr. Mendes. — Agradeceu o ruivo abaixando-se para erguer Daniel.
Henry Mendes é o porteiro do prédio do designer desde antes do jovem se mudar para lá, sabia de cada história que acontecia no prédio e com a sua lábia fazia amizade com todos e por ter um bom coração sempre tentava ajudar Daniel o máximo que podia, afinal, todos nós temos problemas.
Theo havia explicado sem muitos detalhes a situação de Daniel para o porteiro e lhe entregou seus números de telefone para caso do designer causar algum problema o que, tristemente, vinha acontecendo com frequência nos últimos tempos.
— Não por isso, Sr. Abnaara. — falou Henry ajudando Theo — Sei como isso é difícil.
O músico sorriu agradecido carregando um Daniel semiconsciente nos braços.
— Theo... — murmurou o designer olhando o rosto do músico
— Isso mesmo, Danny.
— Você tá aqui! — ele disse feliz
— E onde mais eu estaria? — Respondeu Theo tentando não deixar Daniel cair no chão — Agora colabora comigo e vamos para o seu apartamento.
Ambos subiram com dificuldade até o terceiro andar do prédio. Daniel era difícil de carregar já que era mais alto e pesado do que Theo. O músico possuía uma cópia da chave do apartamento do amigo para casos como esse e ficou agradecido por nunca tirá-la de seu chaveiro.
— Só mais um pouquinho, Danny — Disse Theo chegando perto do sofá onde colocou o amigo. Seria muito mais trabalhoso tentar fazê-lo tomar um banho e deitar-se em sua própria cama então decidiu deixá-lo ali mesmo quando o designer acordasse poderia se arrumar sozinho.
Daniel acomodou-se no sofá murmurando palavras indecifráveis e Theo sentou-se no chão ao seu lado, cansado e ao mesmo tempo aliviado por não ter que levá-lo para o hospital dessa vez.
— O que eu faço com você, Danny? — ele desabafou baixinho — Eu estou tentando, juro que estou, mas acho que não consigo mais.
~~*~~
Theo estava sentado no banco da praça onde havia assistido ao nascer do sol e os primeiros sinais de um novo dia estavam aparecendo: pessoas apressadas, carros buzinando, pássaros cantando. O músico suspirou cansado acomodando-se no banco. Theo estava chegando no limite e não sabia se conseguiria resistir por muito mais tempo. Seu pequeno tormento foi interrompido por uma mensagem em seu celular: “café”
O músico sorriu, levantou-se do banco e foi em direção ao seu apartamento para o motivo que o fazia seguir em frente: Anna. A jovem sabia que o namorado tinha seus devaneios pelas ruas da cidade e não cobrava explicações ou respostas, pois sabia que Theo conversaria com ela quando estivesse pronto e o melhor que poderia fazer era cuidar dele até esse momento chegar. O ruivo chegou em casa e a namorada o esperava com um café quente e torradas, o músico a abraçou forte e sentou-se próximo a bancada da cozinha.
A morena passou as mãos pelos cabelos do rapaz depositando ali um beijo para depois seguir em direção ao quarto do casal.
~~*~~
— Você está encarando essa foto há muito tempo, Theo Abnaara. — Provocou Anna com um sorriso travesso que logo sumiu ao perceber o olhar perdido do músico. Theo colocou o porta-retratos de volta no lugar e olhou nos olhos castanhos da namorada. Isso sempre lhe dava força.
— Sinto falta deles. — suspirou — Nós costumávamos passar todos os verões juntos. Mesmo em universidades diferentes os verões eram sempre nossos. Sempre achávamos um jeito de irmos à praia e aproveitar as férias ou os finais de semana — Anna sorriu e segurou a mão do namorado — Nós enterramos uma cápsula, uma caixa, com nossos desejos e sonhos para o futuro na Baía dos Rochedos, perto do farol. Combinamos de deixá-la lá por cinco anos e depois desenterrá-la.
— Daqui a três meses vocês deveriam se encontrar para isso, não é? — Confuso, Theo encarou Anna: como ela sabia? — Você circulou essa data no calendário. — Ela apontou para a geladeira onde eles marcavam as datas — Você só marca alguma coisa realmente importante. — Ela sorriu passando a mão pelo braço do namorado — Você acha que eles virão?
— Não sei, mas seria ótimo vê-los de novo. Isso poderia ajudar o Danny. Tirar esse peso dele, sabe? E de certa forma de mim também. Tudo aconteceu tão rápido e quando percebi estava sozinho com o Daniel.
— Vocês precisam se perdoar, sabia? — falou a jovem com a mão no rosto do namorado — Principalmente o Daniel. Ele era jovem e não sabia o que estava fazendo. Era tanta coisa na cabeça dele que ele acabou surtando e os outros foram tão impulsivos que não deram uma chance para ele se explicar.
Theo suspirou. Anna tinha razão, nenhum deles sabia o que estava realmente fazendo: Daniel cometeu um erro e Emma não soube lidar com ele então fugiu para
Paris. Olívia culpou Daniel pela partida da melhor amiga e disse coisas horríveis para o designer que até hoje o assombram. Diego não tomou partido e apenas foi embora, pois o grupo já não era mais o mesmo. Theo poderia não ter feito nada de errado, mas em sua cabeça cometeu o pior erro de todos: assistiu seus amigos irem embora e não fez nada para impedi-los.
Ele beijou a testa da namorada e foi em direção ao quarto tentar descansar. Não queria mais perturbá-la com essa história. Anna, por outro lado, já estava colocando sua mente para funcionar e encontraria uma maneira de ajudar o ruivo que tanto amava a reunir os amigos de novo.
Anna é formada em arquitetura e urbanismo e se especializou em decoração de ambientes, trabalhava em uma conceituada empresa no ramo de decorações e atuava como freelance algumas vezes para não ficar presa a rotina. A jovem adorava ser uma mulher bem sucedida e independente, mas depois que conheceu Theo começou a repensar suas prioridades.
Os dois estavam há três anos juntos e Anna já não saberia mais como se acostumar a viver sem seu ruivo. Amava quando Theo tocava seu violão e cantarolava enchendo o apartamento de música, amava as pequenas surpresas que ele fazia todos os dias e seu fanatismo por Star Wars, amava a doçura e o cuidado que o músico colocava em tudo que fazia, amava seu jeito desleixado de músico e sua seriedade de professor. Amava Theo por sua determinação e por ele mostrar a sabedoria que conquistou com as experiências que a vida lhe trouxe, mas o amava, principalmente, por nunca desistir de alguém.
Anna observava o cuidado e o carinho que o músico mostrava pelas pessoas até mesmo por aquelas que não tinham uma participação convicta em sua vida. Theo lhe ensinou que nunca devemos desistir daqueles que são importantes para nós e era por esse motivo que a decoradora não iria desistir até encontrar os amigos do namorado e trazê-los para perto dele.
~~*~~
Encontrar as meninas não foi muito difícil. Anna só precisou entrar em contato com a editora para conseguir o e-mail e telefones de Olívia e visitar a página das galerias de arte em Paris para encontrar Emma, pois no sites sempre tinham informações sobre os curadores. Diego, porém, seria um caso mais complicado: sempre viajando não era o tipo de pessoa que checaria seus e-mails e mensagens diariamente, mas por sorte a namorada de Theo não era uma pessoa que desistia fácil.
Anna lembrou que Diego era adepto as competições esportivas e em todas as fotografias que viu do rapaz ele estava com seu skate, a decoradora procurou por um grande evento que aconteceria nas redondezas capaz de abrigar vários atletas desse estilo. Encontrou um campeonato de Skate que aconteceria em um estado próximo era um tiro no escuro, mas Anna resolveu arriscar.
Pesquisou os skatistas que participariam e encontrou um rosto familiar entre eles visto nas inúmeras fotografias do namorado: um rapaz da idade de Theo com um sorriso travesso, Diego Boneet era o nome dele. Anna comemorou. Estava com sorte. Ligou para a produção do evento fingindo ser uma jornalista pedindo os contatos de Diego para uma possível entrevista.
Logo, a decoradora já estava com tudo pronto e só precisava tomar coragem e mandar uma mensagem direcionada aos três:
“Cápsula do tempo em três meses. A amizade de vocês merece mais uma chance.”
Depois uma espera frustrada e de várias ligações e mensagens de texto Anna combinou as escondidas de Theo e Daniel que encontraria os três amigos quase dois meses antes de abrirem a cápsula. Tempo suficiente para esclarecerem tudo — ela pensou — ou piorarem tudo. Talvez fosse um erro talvez fosse um acerto Anna não sabia o que poderia acontecer em seguida, mas sabia quer tinha que tentar. As coisas poderiam ficar bem piores para a mente de Daniel e Theo poderia ficar magoado com ela, porém a jovem sabia no fundo do seu coração que aquilo era o certo a fazer. Um amigo sempre merece uma segunda chance.
Ela combinou de encontrá-los no aeroporto para depois levá-los até Theo. Daniel precisaria de mais tempo de preparo, pois a sua vida já era confusa para largar isso sem nenhum cuidado nela. Anna esperou na sala de desembarque o que pareceu serem os 20 maiores minutos da sua vida segurando uma plaquinha com o nome de Emma, Olívia e Diego escritos à mão.
A curadora foi a primeira a chegar: de boina vermelha e casaco preto na altura das coxas era um retrato clássico das ruas de Paris. A jovem avistou a placa de Anna e sorriu aliviada por aquela ideia louca realmente ser verdadeira.
— Você deve ser a Anna — Ela disse nervosa para a morena — Prazer em conhecê-la.
Anna ofereceu um abraço para Emma na tentativa bem sucedida de lhe passar conforto e calma.
— Vai dar tudo certo — sussurrou a decoradora dentro do abraço e Emma respirou fundo: Agora não tinha mais volta. — Você é ainda mais bonita pessoalmente.
— Obrigada. — respondeu Emma e Anna sorriu.
~~*~~
A loira estava nervosa. Mudava o peso de um pé para o outro frequentemente e não sabia o que fazer com as mãos. Depois de tanto tempo iria rever os amigos. Queria sentir o abraço de todos novamente, esperara por isso durante cinco anos. Anna, em uma tentativa de tentar acalmá-la, perguntou se a jovem queria segurar sua mão Emma sorriu e as duas permaneceram de mãos dadas encarando a sala de desembarque.
A curadora avistou, no meio da multidão, um rosto familiar e seu coração deu um pulo. Os cabelos mais curtos agora platinados e com mechas cor de rosa não escondiam o olhar tímido e vibrante de Olívia que sorriu quando encontrou o olhar nervoso de Emma.
— Em — falou a escritora correndo na direção da amiga desviando das pessoas e suas bagagens. O passado já não importava mais para Olívia. Emma estava ali. Todos logo estariam ali. Tudo acabaria bem, tudo precisava acabar bem. Eles mereciam isso depois de tantos desencontros.
As duas se encararam por um breve momento buscando uma certeza de que aquele momento era mesmo verdade. Emma soltou a respiração e Olívia a puxou para um abraço apertado cheio de lágrimas e sorrisos.
— Senti tanto a sua falta — Sussurrou a curadora — Me perdoa, Lívi. Eu fui uma idiota. Você é minha melhor amiga e merecia mais de mim. Me perdoa, por favor.
— Você sempre foi uma idiota — Respondeu Olívia divertida e Emma soltou a respiração — Merecia uns tapas e eu também — Ela encarou a amiga — O que está feito está feito. Vamos nos concertar no futuro, okay? — Ela sorriu secando as lágrimas no rosto da amiga.
Emma concordou com os olhos cheios d’água abraçando a amiga novamente.
— Será que tem lugar para mim nesse abraço? — Comentou um a voz grave vinda detrás das meninas.
As duas trocaram um olhar cúmplice e abriram os braços e sorrisos para receber Diego que agora mais alto e musculoso pôde apertá-las em um único movimento.
— Vocês continuam duas choronas. — Ele disse — duas choronas lindas.
— Cala a boca — reclamou Olívia limpando o rosto — O momento é propicio. — ela concluiu com a voz embargada.
Os três permaneceram abraçados na sala de desembarque do aeroporto. Anna, que olhava a cena atentamente, não pode deixar de sorrir e se emocionar também. Mesmo depois de cinco anos eles ainda tinham muito afeto dentro deles.
— Está tudo muito lindo — ela disse interrompendo os amigos que a encararam — mas nós temos mais duas pessoas para encontrar hoje — Ela sorriu para os três “e eu tenho a sensação que com uma delas não será tão bom assim” ela pensou sozinha.
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