— Já pegaram tudo? — Natália perguntou.

Bruce colocou as mãos na cintura, olhou o ambiente e falou:

— Hm... Acho que sim.

O garoto observou melhor o local, procurou por qualquer coisa que pudessem estar esquecendo. Por fim olhou para o céu. Era um final de tarde, o pôr do sol estava belíssimo. Seus raios laranjas acariciavam os cabelos dos quatro ali presentes.

Bruce, de pé olhando o céu.

Natália terminando de colocar suas coisas no porta-malas.

Bruna acariciando pela última vez um sapo que encontrara na grama.

E Adrian olhando para o nada, em busca de alguma resposta singela do Universo para a sua vida.

— Ei, Adrian, pega essa tampa aí perto do seu pé. É do meu pote. — Natália disse. Meio cansada por estar arrumando tudo no carro sozinha. De acordo com ela, os garotos eram muito bagunceiros.

Adrian não ouviu. Continuou olhando para o nada.

— Às vezes vocês não têm a impressão de que o Universo está aprontando alguma coisa? — Indagou Adrian, ainda ignorando a Natália.

Bruce rapidamente virou seu olhar para seu amigo.

— Ah não, o que ele ta aprontando agora? — Disse em tom debochado.

Adrian deu um leve sorriso.

— ADRIAN, A TAMPA! — Natália gritou, enfurecida.

— QUE TAMPA? — Adrian gritou apavorado.

— Do seu cu, hihi. — Bruna disse, e prosseguiu por rir de si mesma.

Todos olharam para a Bruna com certo descontentamento, mas então todos riram.

Alguns minutos se passaram e finalmente tudo estava dentro do carro. Bruce e Adrian estavam já dentro do veículo, na parte de trás. Natália aguardava também dentro do carro, no banco de passageiros da frente. Pensava se a coceira em sua perna era por causa de algum carrapato.

Bruna se despediu de Sebastião, o sapo. Então entrou no carro. Era ela que o dirigia.

Ligou o carro e então começaram sua viagem de volta para a cidade.

No começo estavam silenciosos, até que Bruce quebrou o silêncio.

— Não queria ir embora...

Todos concordaram com a cabeça, meio chateados.

Natália estava vendo as fotos que haviam tirado em seu celular. Fotos na cachoeira, no rio, da fogueira, da Bruna entalada no meio das pedras.

— Foi um bom acampamento. — Ela suspirou.

O caminho de terra era meio complicado de se andar, barulhento devido aos pedregulhos da estrada, então eles preferiam ficar mais quietos ao invés de gritarem dentro do carro.

Era uma viagem relativamente longa para chegar na parte civilizada de Taubaté. Mais ou menos uma hora. Assim sendo, depois de um tempo eles chegaram.

Se passaram mais uns dez minutos na estrada, então Bruce teve algo a dizer.

— Estranho... Já faz algum tempo que a gente tá na cidade e não vi nenhum ser humano ainda. Geralmente eu e a Natália ficamos observando as ruas em busca de caras bonitos sem camisa, mas não vi nada ainda. Nem jovens bonitos, nem idosos galãs, nem feios, nem nada!

Bruna cerrou seus olhos, prestando muita atenção na estrada.

— É, eu também notei que não apareceu ninguém nas ruas.

Adrian então observou algo estranho na rua, se pôs a gritar:

— GALERA, QUE PORRA É AQUILO?

Apontou pelo vidro em direção a um poste de luz do outro lado da rua.

Bruce chegou mais perto da janela de Adrian e tentou enxergar algo de anormal.

— Eita, que caralho é isso?

Bruna também olhou.

— Oporra, vamo vê!

Bruna encostou o carro próximo a calçada. Então os quatro desceram do veículo e foram em direção a aquela estranha aparição.

Era um tipo de névoa densa e branca. Tinha mais ou menos um metro e setenta de altura e flutuava na altura deles. Ninguém se aproximou muito, até que Bruce se atreveu.

O garoto, cautelosamente chegou mais perto. Ficou com medo de entrar em contato, apenas ficou observando como a névoa dançava de um lado para o outro lentamente no ar.

— Eu acho que é... Esperma gasoso! — Bruce concluiu.

— Aí, saí daí menino! — Bruna se aproximou, ficando na mesma distância em que seu irmão estava.

Observou atentamente. Depois de uns segundos Adrian e Natália chegaram mais perto também.

— Na verdade, parece sei lá, um tipo de plasma. Esquisito. — Adrian disse, pensativo.

— GENTE, tem outro ali! — Natália apontou para frente.

Todos olharam embasbacados.

Abandonaram o que estava em frente a eles e andaram em direção ao outro. Andaram rapidamente, quase que tropeçando.

Também olharam a rua em busca de alguma pessoa, mas não tinha ninguém.

Ficaram alguns minutos olhando a segunda “névoa”, falaram entre eles sobre o quão estranho era aquilo. Chegaram ao consenso de não a tocar.

Entraram no carro e continuaram a viagem.

Dois minutos depois:

— Ali! Outro! — Bruce apontou para rua.

— E mais um ali! — Natália acrescentou.

— Ah, não vamos parar não. Deixa esses bagulhos quietos. — Disse Bruna, com autoridade.

Continuaram a viagem. Não notaram nenhuma pessoa nas ruas, ou nas casas. A única coisa que viam com abundância eram as “névoas brancas” em alguns cantos das calçadas e das ruas. Embora todos estivessem assustados, permaneciam calmos enquanto olhavam pelas janelas.

Depois de quinze minutos, finalmente chegaram na casa dos pais de Bruce e Bruna. Todos desceram do carro, apreensivos. Abriram o portão.

— Ué, cadê os meus cachorros? — Bruna indagou.

— Brunis, eu também não notei nenhum bicho na rua enquanto a gente vinha para cá... — Adrian concluiu.

— Ah não! Não meus cachorros! — Bruna entrou furiosa dentro da casa.

Todos foram adentrando mais a casa.

— Mãe? Pai? — Bruce gritava, mas ninguém respondia.

Procuraram os cachorros no quintal, nada. Aí procuraram Jones e Rosi dentro da casa. Na cozinha, nada. No quarto... Nada.

— Ok, gente. Agora eu tô com medo de verdade. — Disse Adrian.

— Outra coisa que eu percebi. — Disse Natália. — Não tem energia elétrica em nenhum cômodo e a internet no celular não está funcionando e também está sem rede. — Concluiu.

— Vamos ver se a Fia sabe de alguma coisa. — Disse Bruna.

— Isso se ela não tiver sumido também... — Adrian falou, assustado.

Então os quatro saíram da casa, olharam a rua novamente, mas não tinha ninguém. Foram até a casa de Fia, a vizinha deles. Chamaram e chamaram, mas ninguém atendeu.

— O Scott também não está aqui... — Bruce notou.

Todos se olharam por uns instantes, confusos.

— Vamos até a minha casa. — Adrian disse.

Foram todos até a casa de Adrian. No caminho, procuravam por alguém, mas não havia nada a não ser “névoas brancas” em alguns locais da rua.

Chegaram até a casa do garoto. Entraram. Também não havia ninguém.

Ficaram lá por um tempo. Abismados. Pensando no que poderia ter acontecido. Teorizaram que a “névoa branca” era algo maligno que absorveu todo mundo. Mas então por que não absorveu eles? Pensaram então que as pessoas haviam se tornado “névoas brancas”, mas também não fazia muito sentido, já que não tinha “névoas brancas” o suficiente para representar cada pessoa.

Ficaram sem saber o que fazer.

— Que tal irmos até em casa? No caminho a gente já aproveita e vê se a gente consegue achar alguém. — Disse Natália.

— Não custa tentar. — Bruna respondeu.

Foram. Até a casa da Natália eram vários minutos, tempo o suficiente para observarem bem a cidade. Mas mesmo procurando cuidadosamente, não acharam nenhuma pessoa. Curiosamente eles viram pássaros voando pelo céu e Adrian jurou ter visto uma ratazana entrando no esgoto. Os insetos também estavam presentes normalmente. Mas nenhum cão ou gato nas ruas ou nas casas.

Chegaram na casa de Natália. Não encontraram ninguém. Lá também estava sem energia elétrica. A noite já estava caindo. Os quatro se sentaram no sofá da sala e começaram a debater.

— Então é isso... Aconteceu um apocalipse no mundo nessa semana que a gente ficou acampando. — Adrian disse, meio trêmulo.

Todos ficaram em silêncio.

— O que a gente faz agora? — Natália indagou.

— Bom, temos que sobreviver e descobrir o que aconteceu. Como a cidade está sem energia, eu acho melhor a gente ficar dentro de casa essa noite e sairmos só amanha cedo. — Bruce deu a ideia.

Todos concordaram com a cabeça.

Ficaram conversando a noite toda. Assustados e tristes. Foram cair no sono no começo da madrugada.

Nada de estranho aconteceu durante aquela noite.